Entrevista:O Estado inteligente

sábado, maio 06, 2006

Zuenir Ventura Golpe baixo

O GLOBO




   zuenir@oglobo.com.br


Deixando de lado as idiossincrasias em relação ao casal Garotinho, não há como não reconhecer que Rosinha tem razão quando denuncia um golpe baixo dentro do seu partido para afastar o marido da disputa eleitoral. Isto, sim, faz sentido, e não a delirante suspeita de que existe contra ele uma conspiração da mídia, aliada à elite, aos bancos, ao "sistema" enfim, para tirar do páreo alguém que, segundo ele mesmo, faria a diferença entre Lula e Alckmin com propostas antineoliberais.

O seu real inimigo é a sigla que já o afagou. Assim como não é com greve de fome que se dissolvem as denúncias que envolvem a pré-candidatura do ex-governador, assim também não são as alegadas razões morais o que está levando o PMDB a usar o episódio para embarcar de vez e sem obstáculos internos no projeto de reeleição de Lula. Desde quando nessa agremiação os valores éticos predominam sobre os interesses políticos?

Quando ficou público que o ministro Tarso Genro se encontrou com Michel Temer para oferecer ao partido a vice-presidência, propondo uma coalizão que exclui, claro, candidatura própria, soam completamente falsas as declarações indignadas de influentes peemedebistas contra um gesto classificado de "imaturo", "patético", "ridículo", mas que no mínimo significa um pequeno sacrifício do qual não se sabe se os que o estão ridicularizando seriam capazes.

Por trás do manto de hipocrisia também está a nota do diretório de Pernambuco pedindo o impedimento de Garotinho por não possuir "credenciais éticas para se apresentar candidato peemedebista a cargos públicos". Por irônica coincidência, o pedido surgiu no dia em que o Supremo Tribunal Federal apertou o cerco sobre Jader Barbalho, apontado como chefe da "organização criminosa" que saqueou a extinta Sudam. Barbalho é presidente do PMDB do Pará e nunca teve problemas internos por causa de suas duvidosas "credenciais éticas". Decididamente, não é o rigor do código moral o que caracteriza o partido, mas sua voracidade por cargos no poder.

Garotinho pode encerrar sua greve de uma hora para outra ou pode resistir, o que parece improvável, dado o seu estado físico. Dificilmente chegará de ambulância à convenção do dia 13, como pretendia. Qualquer que seja o desfecho, não consigo achar graça de ver a banda aderente do PMDB debochando e tripudiando sobre o gesto de um correligionário que bem ou mal venceu a consulta interna e está colocado em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Só isso já lhe dá o direito de exigir mais respeito do partido.

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