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sexta-feira, outubro 31, 2014

Nelson Motta Aquela foto

O GLOBO

Todo mundo bebeu, comemorou, fez planos, a imprensa deu matérias, mas o carnaval chegou e ninguém fez nenhuma música, com a exceção de Braguinha, o rei das marchinhas

Em julho de 1967, com 23 anos e repórter do "Jornal do Brasil", fui conversar com o diretor da gravadora Philips, João Araújo, para uma matéria sobre a decadência das músicas de carnaval, e acabou surgindo a ideia de uma campanha para renovar o repertório carnavalesco — e ninguém melhor para isso do que a nova geração de compositores que estava surgindo na Era dos Festivais. João procurou Vinicius de Moraes para convocar o pessoal, apadrinhar e lançar a campanha, e o poeta ofereceu sua cobertura na Rua Diamantina, no Jardim Botânico, para receber os compositores e a imprensa.

Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Dori Caymmi, Capinam, Sidney Miller, Luiz Eça, Tuca, Francis Hime, Olivia Hime, Torquato Neto e Eumir Deodato foram os jovens talentos convocados por Vinicius, que se juntaram ao mestre de todos, Tom Jobim, ao consagrado Luiz Bonfá e a compositores populares, como o sambista Zé Keti e o rei das marchinhas João de Barro, o Braguinha, tendo como madrinha Linda Batista, que Vinicius via como um símbolo dos grandes carnavais do passado.

Nem todos eram da música, como a roteirista Lenita Plonkzinska, casada com o pianista Luiz Eça, e a futura grande figurinista de novelas da TV Globo Helena Gastal, que era amiga da turma e minha namorada, além da aspirante a compositora Jandira Negrão de Lima, que, desconfia-se, Vinicius chamou diplomaticamente por ser filha do governador do Rio de Janeiro, Francisco Negrão de Lima.

Eu estava lá em dupla condição, de vencedor do Festival da Canção com "Saveiros", em parceria com Dori Caymmi, e amigo de Vinicius, e repórter destacado pelo JB para cobrir o lançamento da campanha.

Alguns morreram muito jovens, como Torquato, Sidney Miller e Tuca, vários se tornaram gigantes da música brasileira e internacional.

O fato da foto é que todo mundo bebeu, comemorou, fez planos, saíram várias matérias na imprensa, mas o carnaval chegou e ninguém fez nenhuma música, com a exceção de Braguinha, que desde os anos 30 já era o rei das marchinhas e continuou sendo.

(Trecho de "As sete vidas de Nelson Motta", breve nas livrarias)

Nelson Motta é jornalista

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quinta-feira, outubro 30, 2014

A crise bate na receita - Opinião - Estadão

A crise bate na receita - Opinião - Estadão

A crise bate na receita

O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2014 | 02h 06

A crise das contas públicas continuou a agravar-se em setembro, com a arrecadação federal muito abaixo da previsão original e muito inferior à necessária para o governo pagar as contas e executar os planos sem agravar sua situação financeira. A receita prevista no começo do ano seria 3% maior que a de 2013, descontada a inflação. No início do segundo semestre, a projeção foi revista para 2% e em seguida para 1%. Mas os R$ 862,51 bilhões arrecadados até o mês passado ficaram apenas 0,67% acima do valor recolhido nos mesmos meses de 2013, em termos reais. A soma contabilizada em setembro, R$ 90,72 bilhões, foi 0,92% maior que a de um ano antes, ainda insuficiente para mudar o quadro geral. Diante dos últimos dados, o secretário adjunto da Receita Federal, Luiz Fernando Nunes, baixou de novo a estimativa: o aumento real será "certamente menor que 1%", disse ele ontem, ao apresentar o último relatório. A divulgação ocorreu com cinco dias de atraso e três dias depois, talvez por simples casualidade, do segundo turno de votação.

O novo parcelamento de impostos e contribuições em atraso, o Refis, acabou rendendo em setembro menos do que o previsto, segundo informou o funcionário da Receita. Mas, ainda assim, os R$ 8,77 bilhões proporcionados por esse programa fizeram importante diferença. Sem esse dinheiro, a arrecadação dos nove meses teria sido, descontada a inflação, 0,33% menor que a de um ano antes. O governo continua muito dependente de receitas especiais, como dividendos, bônus de concessões e parcelas do Refis, para mitigar os problemas de suas contas. Mais detalhes sobre a crise fiscal e um quadro mais amplo aparecerão nos próximos dias, com a divulgação do relatório mensal do Tesouro e do balanço consolidado do governo central, dos governos estaduais e municipais e de empresas sob controle estatal.

A meta fiscal definida para o ano está com certeza comprometida, embora o secretário do Tesouro, Arno Augustin, tenha reafirmado, há algumas semanas, a certeza de concluir o balanço anual com os números prometidos. Ainda vale, oficialmente, o compromisso de fechar as contas públicas consolidadas com R$ 99 bilhões de superávit primário, destinado ao pagamento de juros da dívida. O governo central deverá - ou deveria - contribuir para esse resultado com R$ 80,8 bilhões.

Analistas do setor privado qualificam esses números, hoje, como meras fantasias. Alguns consideram perfeitamente razoáveis, neste momento, as hipóteses de resultado nulo ou mesmo negativo para as contas primárias em 2014.

A queda real da arrecadação de impostos e das principais contribuições é facilmente explicável por dois fatores - o fraco desempenho da economia, com recessão no primeiro semestre, e a manutenção de várias desonerações em benefício de setores selecionados.

O relatório da Receita aponta numa tabela a evolução de algumas variáveis econômicas muito importantes. De janeiro a setembro, a produção industrial foi 2,99% menor que a de um ano antes. As vendas de bens e serviços, 0,88% inferiores às de igual período de 2013. O valor em dólar das importações, 1,21% mais baixo que o dos meses correspondentes de 2013. Mas houve um aumento de 9,78% na massa de salários e isso permitiu algum ganho real na receita da Previdência.

A estagnação da economia confirma um amplo fracasso em várias frentes. A estratégia industrial, baseada principalmente numa combinação de protecionismo com estímulos a alguns setores, foi insuficiente para modernizar e dinamizar o setor. A política de incentivos fiscais produziu muito mais buracos na arrecadação do que crescimento econômico. Estímulos ao consumo, sem aumento de produção, resultaram em preços mais altos e em mais importações.

Apesar disso, dirigentes da indústria automobilística voltam a pressionar o governo pela manutenção da alíquota reduzida do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O benefício foi várias vezes prorrogado e sua eliminação, desta vez, está prevista para a virada do ano. Estará o governo disposto a tentar esse jogo mais uma vez?



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Dilma começa perdendo - Opinião - Estadão

Dilma começa perdendo - Opinião - Estadão

Dilma começa perdendo

O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2014 | 02h 06

Muito mais do que uma desforra pessoal do presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Alves, do PMDB do Rio Grande do Norte - que atribuiu a Lula a sua derrota na disputa pelo governo do Estado para o seu adversário do PSD, Robinson Faria -, a derrubada do decreto da presidente Dilma Rousseff instituindo a participação de conselhos populares na elaboração de políticas públicas federais foi um sinal dos tempos. Trata-se do primeiro bote do principal partido da base aliada do Planalto para se impor ao PT no segundo mandato da governante petista. Em parceria com a oposição e três bancadas tidas como leais ao Executivo - PDT, PR e PSD -, a sigla do vice-presidente Michel Temer não esperou a posse formal de ambos em 1.º de janeiro para participar a seu modo do "diálogo" que a candidata reeleita apregoou na sua primeira fala depois da apuração.

É bem verdade que Dilma tinha tudo para perder essa batalha. Tão logo tomou, em maio último, a malfadada iniciativa de abrir espaço na mesa de decisões administrativas - até das agências reguladoras federais - ao que chamou de "grupos sociais historicamente excluídos", ficou escancarado o DNA chavista da medida, porque, ao silenciar, de caso pensado, sobre os critérios que guiariam a formação do denominado Sistema Nacional de Participação (SNP), a presidente só faltou proclamar a sua serventia como modalidade adicional de aparelhamento do Estado e, também à maneira bolivariana, amputação de prerrogativas do Legislativo. De nada adiantou o desdém de Dilma pela inteligência alheia ao negar que os órgãos públicos não ficariam obrigados a se aconselhar com presumíveis representantes da sociedade, mas "deverão considerar" esse procedimento.

Antes que a campanha eleitoral esvaziasse o Parlamento, o PT recorreu a manobras de todo tipo para barrar a votação do decreto. Agora não deu - e a excrescência foi rejeitada por aclamação pela Câmara. (Falta ainda o voto do Senado.) Fica assim a presidente notificada de que, diferentemente do que ocorreu no quadriênio em vias de se encerrar, quando PT e PMDB tendiam mais a se entender do que a divergir em matérias de interesse do Planalto, a atitude da legenda do vice e dos titulares das duas Casas do Congresso será basicamente de confronto com o partido do poder, reproduzindo na esfera parlamentar o combate entre petistas e antipetistas que marcou a sucessão. Já não se trata de reencenação da disputa por espaço na Esplanada dos Ministérios e nas estatais. O que o PMDB quer é assumir o comando da política nacional, abrindo-se a uma aliança tácita com a oposição. Diga-se o que se queira da tigrada, menos desprezar o seu faro para a debilidade alheia.

E nunca o PT esteve tão fraco desde a primeira presidência Lula. Na votação de 5 de outubro para a Câmara, o partido perdeu 1,3 milhão de votos e 18 cadeiras. Com as 70 que vai ocupar na próxima legislatura ainda terá a maior bancada, mas a diferença de 2010 para agora entre o número de assentos petistas e os do PMDB encolheu de 17 para 4 somente. Além disso, considerando os sufrágios colhidos, o PSDB de Aécio Neves tornou-se proporcionalmente a segunda força da Casa. Em números absolutos, a sigla foi uma das mais bem-sucedidas entre as 28 dotadas de representação parlamentar a partir de 2015: os tucanos serão 54, com um ganho de 10 lugares. Além de a nova composição da Câmara favorecer o PMDB em detrimento do PT - como possivelmente se verá na disputa entre eles pela presidência do colegiado, em fevereiro -, o partido de Dilma perdeu o controle da rua para atiçá-la contra quem quer que seja.

Há de ter sido por isso que a presidente, em sintonia com os companheiros, teve a ideia de exumar a proposta de convocação de um plebiscito para a reforma política, o que o PMDB já havia posto a pique no ano passado. Isso daria ao PT a chance de brigar pela retomada do espaço perdido na arena pública - e, a partir daí, voltar a pressionar o Congresso. Para os peemedebistas foi um presente inesperado: mais uma vez rebatendo de imediato a manobra, a cúpula partidária desafiou Dilma abertamente - e ela piscou primeiro, ao admitir que a reforma poderia ser submetida a consulta depois de aprovada pelo Congresso.



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Dilemas de Dilma Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O Bradesco seria uma espécie de banco do povão. Já o Itaú Unibanco, de “dona Neca”, o das elites. Isso passa no marketing?

Os líderes chineses têm uma habilidade especial para adotar políticas pró-mercado com uma retórica de esquerda para agradar esse lado do Partido. Vire à direita, dê sinal à esquerda — tal é o ensinamento.
Pois parece que a presidente Dilma está com o mesmo dilema, invertido: como seguir pela esquerda, mas dando sinal à direita?
A campanha foi claramente pela esquerda. Atacou as elites e os ricos, incluídos os empresários que só pensam no lucro, e especialmente os banqueiros, acusados de tirar comida da mesa dos pobres. Demonizou o mercado financeiro.
Também disse que tentar reduzir a inflação para algo como 3% ao ano, ou mesmo para a meta oficial de 4,5%, geraria um desemprego enorme. Ou seja, para ela, quanto menos inflação, mais desemprego.
Também atacou a proposta de controle dos gastos públicos, dizendo que isso também é tirar comida dos pobres, pois comprometeria os programas sociais.
Reeleita, a presidente prometeu diálogo com todos os setores, incluídos empresários, bancos e mercado. Acenou com mudanças na política econômica e confirmou que terá um novo ministro da Fazenda. Entre os nomes citados, que teriam sido até indicados por Lula, há nada menos que dois banqueiros, Henrique Meirelles e Luiz Trabuco.
Meirelles foi presidente mundial do Bank Boston, presidente do Banco Central nos oito anos de governo Lula, com uma gestão claramente ortodoxa e independente, e hoje dirige e participa de conselhos de grandes companhias privadas. É um quadro do capital.
Trabuco é simplesmente o presidente do Bradesco, o segundo maior banco privado nacional, um dos maiores da América Latina.
Nomear qualquer um deles seria para Dilma o dilema chinês: virar à direita, precisando então dar um sinal à esquerda militante que a carregou na campanha. Como nomear um banqueiro e/ou grande executivo privado depois de ter dito que um dos problemas do baixo crescimento do país estava na pouca disposição dos bancos privados de conceder empréstimos e das empresas de investir?
Nunca se pode menosprezar o marketing. Já tem gente dizendo, nos círculos governistas, que Trabuco, por exemplo, não é um banqueiro, mas um bancário — um simples funcionário que fez carreira dentro da instituição. Quem sabe ele tem uma carteirinha de filiado ao sindicato dos bancários?
Ou seja, o Bradesco, embora privado e com o capital em bolsa, seria uma espécie de banco do povão. Já o Itaú Unibanco, de “dona Neca”, assessora de Marina, seria o banco das elites.
Que tal? Passa? Temos alguma chance no marketing?
O problema é que seria preciso mostrar que o Bradesco age no mercado — emprestando, aplicando — pensando no povo, enquanto os outros bancos privados pensariam só em espoliar os clientes.
E aí não dá. O Bradesco age na praça exatamente como o Itaú e como qualquer outro banco privado. Igualzinho. Quer saber de lucro e de valorização de suas ações na Bolsa. Zela pelo seu dinheiro. Para isso Trabuco foi eleito presidente.
E, por falar nisso, Meirelles também caberia na categoria bancário. Afinal, ele entrou no Boston como trainee e lá foi subindo. Mas a esquerda petista nunca acreditou nisso. Passou o tempo do governo Lula tentando derrubar Meirelles. O próprio Mantega tentou mais de uma vez e quase conseguiu emplacar Luiz Gonzaga Belluzo na presidência do BC.
Tudo considerado, Dilma cai no dilema oposto: seguir na esquerda, manter as palavras da campanha, nomear um ministro da Fazenda desse lado, Mercadante, por exemplo, mas com um sinal à direita.
O que querem o mercado, os industriais, os comerciantes, os banqueiros, os investidores, os empresários do setor de serviços e da infraestrutura, mais boa parte da classe média que votou em Aécio? Querem menos inflação, menos juros e mais investimento privado, ou seja, mais crescimento.
Isso exige ajuste fiscal, ou seja, economia no Orçamento, superávit primário maior, gastos contidos. Essa austeridade é condição para segurar a inflação. Quanto maior a austeridade das contas públicas, menor a taxa de juros necessária para derrubar a inflação.
De todo modo, não há como escapar de juros altos por um tempo, mesmo porque muitos preços, represados, precisarão ser elevados (gasolina, diesel, energia elétrica, tarifas de transporte urbano etc.).
Em economia, confiança é essencial. As pessoas precisam acreditar que o governo fará o que diz que vai fazer.
Ora, um ministro da Fazenda vindo da esquerda, um novo Mantega, um Mantega mais esperto, conseguiria dar os sinais à direita?
Dilemas difíceis levam à paralisia. No caso da presidente Dilma, isso seria apenas trocar o ministro e manter tudo como está, dobrando aposta na “nova matriz”, essa de hoje, como disse na campanha.
Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

Merval Pereira:Conflito pós eleitoral

 O Globo

O segundo mandato da presidente Dilma, conseguido aos trancos e barrancos, nem mesmo começou e o PT já lança no ar a candidatura de Lula para 2018. O PT, fragilizado pelas urnas, precisa sinalizar à militância que existe um Lula no fim do túnel, mesmo com a perspectiva de um governo fraco, que tende a se manter no mesmo rumo por que Dilma não mudará da noite para o dia a sua maneira de ver o mundo.
O conflito explicitado pelo veto ao decreto dos conselhos populares já existia antes da eleição, e ele só não foi derrubado naquela ocasião por que ainda havia a expectativa de poder do PT, muita gente receava enfrentá-lo. Passada a eleição, e constatada sua fragilização, com a eleição apertada de Dilma e a divisão clara do eleitorado, além do grande número de não-votos, todo político da base do governo que olha para o longo prazo já vê que esse segundo governo vai ser muito complicado.
Vai haver momentos de demonstrar força, para ganhar dividendos imediatos ou, no caso do PMDB, para preparar um salto mais alto na direção da oposição, ou de um candidato próprio em 2018. Uma batalha permanente da presidente Dilma com o Congresso, com grande chance de sair perdedora em muitas ocasiões, como aconteceu na terça-feira com a derrubada do decreto dos conselhos populares.
Quais serão os métodos de que se utilizará Dilma no segundo governo para fazer sua bancada de apoio? Com o processo do petrolão correndo na Justiça, e dezenas de deputados e senadores envolvidos no esquema de corrupção, que pode ainda respingar na própria presidente Dilma e no ex-presidente Lula, estará impedido o governo de usar o “toma lá dá cá” com esse fim. No fim das contas, no mínimo será mais arriscado nomear o diretor da Petrobras da área que fura poço.
Vai ser, portanto, muito difícil negociar com a base aliada, que já foi muito infiel no primeiro governo. Controle da chamada mídia profissional, plebiscito sobre formas de governo, além de formação de conselhos populares são receitas típicas de regimes autoritários de países vizinhos, muito ao gosto de setores importantes do atual governo brasileiro.
No Congresso há diversas correntes que ajudaram a derrubar o decreto dos conselhos populares, desde os que o consideram simplesmente eleitoreiro, editado às vésperas da eleição presidencial para ganhar a simpatia dos chamados movimentos sociais, que seriam os beneficiados pela medida, quanto os que temem que esse seja um passo a mais na direção de um governo no estilo bolivariano.
Há muitos deputados que votaram contra o decreto para preservar a função do Congresso Nacional no nosso sistema presidencialista, como um dos poderes da República, um contraponto ao Executivo e ao Judiciário. Mesmo quem não considera que o decreto seja inconstitucional, embora haja quem o considere assim, teme a manipulação que ele permite ao definir, por exemplo, sociedade civil como “o cidadão, os coletivos, os movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações”.
Além de ser uma definição muito ampla que abarca qualquer tipo de movimento social, até mesmo os “não institucionalizados”, os parlamentares temem que o Palácio do Planalto se aproveite dessa amplitude conceitual para organizar, através da Secretaria Geral da Presidência da República, chefiada pelo ministro Gilberto Carvalho, os próprios conselhos, manipulando suas decisões.
Uma das tarefas de Gilberto Carvalho é, pelo decreto que define seu ministério, atuar “no relacionamento e articulação com as entidades da sociedade civil e na criação e implementação de instrumentos de consulta e participação popular de interesse do Poder Executivo”.

Mesmo os partidos mais fisiológicos da base aliada reagem a tentativas de enfraquecer os fundamentos democráticos porque sabem que, num governo autoritário, será menor sua influência e maior a força política do PT. O principal responsável por barrar essas tentativas é o próprio PMDB, que tem em seu DNA a defesa da democracia e impede que o PT ultrapasse os limites constitucionais.
Essa votação demonstrou que sempre que uma decisão do governo vai de encontro à Constituição ou tenta ultrapassar o Congresso, há uma maioria parlamentar na defesa da democracia representativa, que os petistas estão chamando de “bloco de centro-direita” ou de “centrão”. Boa parte desse "centrão" ficou dissidente do governo e apoiou a oposição na eleição presidencial.

Confiar desconfiando -Dora Kramer

Confiar desconfiando - Política - Geral - Estadão Mobile

Confiar desconfiando

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo
 Nem a rejeição do Congresso à reforma política por meio de plebiscito nem a derrubada do projeto presidencial dos conselhos populares na Câmara servem como medida precisa de como serão as relações entre o Parlamento e o Palácio do Planalto no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.
Pelo simples e conhecido fato de que as duas propostas já entraram em campo derrotadas. Por isso mesmo do ponto de vista do governo a surpresa foi a insistência da presidente, ou dos autores de seu discurso da vitória, de reapresentarem uma sugestão que no ano passado havia sido amplamente rejeitada. Tanto que sobre ela não se deu uma só palavra durante a campanha. 
Uma hipótese: Na falta de algo melhor para dizer, fizeram-na falar algo de apelo popular já sabendo qual seria a reação dos políticos e que haveria espaço para recuar; como de fato aconteceu. Com sua bancada reduzida em 18 deputados em 2015, de 88 para 70, e sem o apoio da tradicional base aliada, o PT não vai à esquina com esse plebiscito. Inclusive porque o partido vai da premissa para chegar à conclusão errada. Isso considerando o princípio da boa fé, bem entendido.
O acerto da premissa: a reforma não anda sem a sociedade. O equívoco da conclusão: os temas envolvidos são complexos e não podem ser submetidos ao escrutínio simplista das respostas do "sim" e do "não". Muito menos essa é uma discussão que possa ser desenvolvida sob as diretrizes dos termos bobos, enganadores e infantilizados já vistos. 
A aprovação na Câmara do projeto que suspende o decreto presidencial que regulamenta os conselhos populares era uma das favas mais contadas da República. Todos os partidos, à exceção do PT, PSOL e PC do B, já haviam se manifestado contra. Restava apenas levar o assunto à votação para sacramentar o resultado. Pois foi o que fez o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, voltando de ser derrotado na disputa pelo governo do Rio Grande do Norte com a ajuda do PT e o patrocínio do ex-presidente Lula ao candidato do PSD, Robinson Faria. 
Não precisou fazer nada além de exercer a prerrogativa do cargo. O PMDB comandou o espetáculo, a oposição teve assim o reforço que precisava. Mas, convenhamos, a situação era por si favorável. Um caso específico que não serve como esboço do cenário das relações entre o Planalto e o Parlamento na virada do próximo mandato.
Soa precipitado tanto dizer que o grau de dificuldade será maior quanto prever que será o mesmo ou menor. Sem dúvida alguma será muito maior se a presidente achar que ganhou eleição porque fez as coisas "do jeito dela". E mais: não podendo disputar eleições, está livre de compromissos. Aí terá a companhia indesejável do diabo porque viverá um inferno.
Ocorre que exatamente por ela não representar mais expectativa de poder futuro, o PT em geral e o ex-presidente Lula em particular dificilmente deixarão que a autonomia ponha em risco do projeto do coletivo. O mais provável, portanto, é que se façam ajustes para melhorar a interlocução, dificultar a vida da oposição e não deixar a peteca cair. 
Risca de giz. Se a decisão de não extraditar Henrique Pizzolato foi tomada em retaliação à negativa de atender ao pedido da Itália para que Cesare Battisti cumprisse a pena a que foi condenado em seu país, é um exercício de suposição. 
O fato inescapável é que o pedido do governo brasileiro foi negado por determinação da Justiça italiana e a extradição de Battisti decidida por ato unilateral do presidente da República que contrariou sentença do Supremo Tribunal Federal.
Não é ilegal, mas é um dado a ser levado em conta no cotejo das relações institucionais nas nações democráticas.




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As pontes de Dilma Eugênio Bucci

 - O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2014 | 02h 06

Na tradução que Millôr Fernandes fez da tragédia Antígona, de Sófocles, há uma boa formulação para entendermos o momento presente. "Em mim só manda um rei: o que constrói pontes e destrói muralhas", proclama o coro, já ao final da peça.

(A combinação das palavras governante e ponte não tem dado bons frutos no Brasil. Sendo assim, antes de qualquer outra consideração é providencial fazer um alerta preliminar. Atenção, ocupantes de cargos públicos, Sófocles, ao falar em pontes, não recomenda aos governantes que armem licitação fajuta para contratar uma empreiteira que se incumbirá de estender viadutos superfaturados por aí. O termo ponte, no caso, é meramente metafórico, por favor. Embora este alerta vá soar como deboche a ouvidos mais sabujos, ele é dramaticamente, ou mesmo tragicamente, necessário. Repetindo: as pontes de Sófocles são metafóricas. Nada que ver com construção civil. Elas se referem à mão estendida para o entendimento.)

Em seu discurso de vitória, na noite de domingo, Dilma Rousseff referiu-se às mesmas pontes metafóricas: "Em lugar de ampliar divergências, de criar um fosso, tenho forte esperança que a energia mobilizadora tenha preparado um bom terreno para a construção e pontes".

Lendo suas palavras no teleprompter, a presidente lançou um chamamento à unidade nacional, ainda que tenha tentado minimizar a gravidade do momento com uma negativa sutil e estranha. O chamamento: "Conclamo, sem exceção, a todas as brasileiras e todos os brasileiros para nos unirmos em favor do futuro da nossa pátria, do nosso país e de nosso povo". A negativa: "Não acredito, sinceramente, que essas eleições tenham dividido o País ao meio. Entendo, sim, que elas mobilizaram ideias e emoções às vezes contraditórias, mas unidas por sentimentos comuns, a busca por um futuro melhor para o País".

Deixemos a negativa na conta dos eufemismos ou das mentiras piedosas. É claro que existe um fosso, uma muralha, um "Muro de Berlim" imaginário cindindo ao meio o povo brasileiro. A presidente sabe disso muito bem. Se nada se dividiu, por que ela perderia tempo com um apelo de reconciliação? O País está dividido, sim, e não se trata de uma clivagem "saudável" ou "produtiva". A polarização gerada pela campanha não se resume ao despertar daqueles que sempre silenciaram (de um lado ou de outro) e agora resolveram pôr a boca no mundo. Existe ódio no ar. Impaciência. Irritabilidade. Intolerância. Ultrajes e ofensas as mais vis estouram nas redes sociais. Isso não é apenas dissenso ou divergência, mas um processo desagregador.

De um lado, em núcleos de apoiadores do PSDB, despontam discursos violentos (de preconceito de classe) que agridem nordestinos, insultam os beneficiários do Bolsa Família como se fossem parasitas inúteis e achincalham os pobres. Do outro, o lado que cerrou fileiras com Dilma, explode o fanatismo que demoniza os mais ricos, celebra o autoritarismo e estimula o empastelamento (material ou virtual) de órgãos de imprensa acusados de defender o capital ou o que quer que seja (o "establishment", o "status quo", os "tucanos", e por aí vai). A agressividade nesse nível torna inviável o diálogo. Se a polarização descambar em guerra de infâmias, o País vai se desunir, para prejuízo de todos.

Diante disso, Dilma tem toda a razão em se declarar disposta a conversar com todos os lados. "Esta presidente está disposta ao diálogo, e esse é meu primeiro compromisso no segundo mandato: o diálogo", disse.

Apresentando-se como a presidente do diálogo, ela começou a falar, enfim, no diapasão que se espera dos estadistas. Deu boas entrevistas aos telejornais da Record, da Globo (na segunda, dia 27) e do SBT (na terça, anteontem). Afirmou e reafirmou a necessidade da reforma política e do combate à corrupção. Condenou reiteradamente os desvios que vêm sendo investigados na Petrobrás (não sobrará "pedra sobre pedra", garante, "doa a quem doer"), num tom muito diferente do que tentava pôr panos quentes em investigações pretéritas ("não podemos prejulgar ninguém", etc.). O tempo todo chamou o Brasil a se unir.

Por descuido ou arrogância, porém, Dilma não citou o nome de Aécio Neves nem no discurso do dia 26 nem na entrevista que deu ao Jornal Nacional no dia 27. Ficou claríssimo que, também para ela, a interlocução civilizada não será fácil. Nesse ponto Aécio saiu-se melhor. "Cumprimentei agora há pouco, por telefone, a presidente reeleita e desejei a ela sucesso na condução de seu próximo governo", contou ele em seu telegráfico pronunciamento na noite de domingo. "E ressaltei: considero que a maior de todas as prioridades deve ser unir o Brasil em torno de um projeto honrado que dignifique a todos os brasileiros." Aécio fez votos de êxito, e nisso acertou, mas deveria ter dito com clareza que assume a sua responsabilidade na "maior de todas as prioridades", a prioridade de unir o Brasil. Isso ele não disse. Sinal de que, também para ele, a conversa não será indolor.

Somente na terça à noite, e somente por ter sido provocada pelo jornalista Kennedy Alencar, que a entrevistava para o SBT, a presidente mencionou os nomes de Aécio e Marina Silva. Já era tempo.

"Presidente, a senhora pretende conversar com o Aécio Neves e com a Marina Silva sobre uma reforma política?"

"Olha, Kennedy, sem a menor sombra de dúvida. Eu estou aberta ao diálogo. Eu acho que a palavra correta, num início de um governo, é se abrir ao diálogo com todos os setores. O Aécio, a Marina..."

"A senhora vai estender a mão para eles?"

" É óbvio que vou."

"Vai chamá-los para uma conversa."

" Sim, posso chamá-los, sim."

Outra vez ecoou o texto de Antígona: "É necessário, que a gente crie no Brasil pontes".

Ainda que só tenha pronunciado o nome dos adversários após uma pergunta do repórter, melhor assim. O Brasil precisa de pontes. Tomara que a presidente e a oposição consigam construí-las.

*Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP

O que esperar de Dilma nos quatro anos Aloísio de Toledo César

- O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2014 | 02h 05

Neste momento de ressaca eleitoral é normal que as pessoas procurem imaginar como será o Brasil nos próximos quatro anos de governo de Dilma Rousseff e do Partido dos Trabalhadores.

Nos Estados do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, do Norte e Nordeste, percebeu-se pelo resultado das eleições que a população não demonstrou interesse em mudar, ou seja, as pessoas pareceram estar satisfeitas com o atual governo (tanto assim que votaram por sua permanência). Isso deve ser respeitado.

Mas em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no Espírito Santo, em São Paulo, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul é grande o desconforto dos brasileiros com a circunstância de vivermos num país emperrado, que cresce menos do que a Bolívia e o Paraguai. Para muitos, o resultado da disputa eleitoral foi pior do que perder para a Alemanha de 7 a 1.

Enfim, neste segundo universo a ansiedade é maior. Ao contrário daqueles que demonstraram comodismo, e parecem achar que tudo deve continuar como está, os perdedores da eleição preocupam-se com o que poderá acontecer não só com o próprio País, mas com cada um de nós.

A ausência de crescimento econômico tem sido a tônica dos quatro anos anteriores do governo Dilma, mas como tanto ela como o Partido dos Trabalhadores continuarão a mandar as esperanças ficaram reduzidas. As mesmas pessoas, com os mesmos pensamentos, foram mantidas no poder e isso não provoca entusiasmo algum, causando a impressão do mesmo marasmo, da mesma água morna.

A toda hora se ouve que o País é um só e que não se deve raciocinar em cima do resultado das eleições. A presidente da República falou várias vezes ao longo da campanha eleitoral que vai tomar atitudes em favor da educação, da saúde, dos transportes e da segurança pública. Mas como ela já podia ter feito isso, e não fez, é normal que existam descrédito e desconfiança.

Na verdade, sempre se mostrou notória a fragilidade da presidente Dilma na forma de governar. Essa incapacidade lhe é intrínseca, ou seja, vem do seu interior, do seu intelecto e, quem sabe, até mesmo do seu coração. Por força da inaptidão, acabou por produzir um governo de encolhimento do País e de florescimento do sentimento de revolta dos que não se conformam com o marasmo.

Nos Estados em que ela perdeu as eleições a sede por desenvolvimento é muito mais expressiva, porém se mostra bloqueada pela pequenez da conduta governamental. Veja-se que a presidente, na tentativa de fazer um bom governo, chegou ao absurdo de constituir 39 ministérios, como se a presença maciça de mais políticos no poder resultasse em melhora.

O efeito foi contrário, tudo piorou, e esse número vergonhoso de ministérios serviu unicamente para inchar ainda mais a máquina pública e aumentar os gastos com pagamentos a servidores. Houve algum benefício? As reuniões da presidente da República com seus 39 ministros deveriam ser transmitidas pelas TVs oficiais e assim demonstrar aos brasileiros a inutilidade de tanta gente no governo.

Mas por que a presidente convocou tantos políticos para fazer parte de seu governo? Foi a forma que encontrou de anestesiar os partidos políticos no Congresso Nacional e cobrar cada um desses ministros nos momentos de votação de projetos de interesse da administração federal.

O absurdo dessa conduta conduziu a um resultado muitas vezes pior: o avanço no dinheiro público para satisfazer as baixas necessidades dos políticos que não são capazes de apoiar a presidente em função de ideias, mas somente de vantagens pessoais e econômicas.

Esse comportamento condenável levou à eclosão do escândalo do mensalão e, mais recentemente, ao da Petrobrás, que agora não é mais nossa, é deles.

Nessa realidade, em que a presidente reeleita tem como traço característico inaptidão tão expressiva e o Partido dos Trabalhadores continuará com mais força ainda, o sonho de um Brasil melhor, que crescesse mais e produzisse mais, ficou outra vez adiado.

A inabilidade de Dilma Rousseff nos últimos tempos foi tão marcante que chegou ao extremo de anunciar previamente a substituição do ministro da Fazenda, circunstância que introduziu mais insegurança ainda entre empresários, industriais e comerciantes. A repercussão no exterior foi péssima e se converteu na previsão, feita pela maior parte dos economistas, de que dificilmente esse Brasil petista atrairá investimentos externos, podendo, ao contrário, resultar na fuga de capitais.

Outra circunstância que desautoriza previsões otimistas está na segurança interna, ou seja, na falta dela. Parece inacreditável que continuem a ingressar no Brasil, pelas fronteiras de países vizinhos, as armas e drogas que alimentam o crime organizado e matam os nossos filhos e netos. Não se vê o menor esforço governamental para se aliar a esses vizinhos no necessário combate à produção das drogas e à entrada de armas, produzidas, sobretudo, nos Estados Unidos e na Europa. Esses países vizinhos, ocupados por governantes amigos do ex-presidente Lula, continuam a produzir cocaína e a permitir a entrada de armas a fim de serem exportadas clandestinamente para o Brasil.

Não se pode compreender a insensibilidade do atual governo para um problema dessa grandeza. A percepção que se tem é de que tudo continuará assim mesmo e que o companheiro Evo Morales continuará a dizer que a cocaína não é um problema na Bolívia. E não é mesmo: é um problema nosso. E para ele, um cocaleiro, isso não faz diferença alguma.

Sempre é bom lembrar que algum tempo atrás, quando a Petrobrás ainda era nossa, Evo Morales submeteu o Brasil e os brasileiros a uma odiosa humilhação, bloqueando as atividades da empresa na Bolívia da forma mais torpe. E nada lhe aconteceu.

*Aloísio de Toledo César é desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: aloisio.parana@gmail.com 

terça-feira, outubro 28, 2014

Rubens Barbosa O dia seguinte

O Globo

Na disputa entre dois modelos distintos de governo, a maioria mais apertada desde 1945 optou pelo do PT. O governo vai ter de cumprir os principais compromissos assumidos pela presidente reeleita, como medidas para estabilizar a economia, ajustes na política econômica para reduzir a inflação, volta do crescimento para manter o nível de emprego e reforma política para permitir o avanço das mudanças de que tanto o país necessita. Por outro lado, espera-se o prometido combate à corrupção e o restabelecimento dos princípios éticos com a punição dos culpados pelo assalto aos cofres públicos que tanto prejuízo causaram à maior e mais prestigiosa empresa brasileira.

As oposições que saem derrotadas têm de se reinventar e atuar de forma diferente da dos últimos 12 anos para melhor defenderem o modelo e as políticas que expuseram na campanha, e cobrarem resultados do governo nas áreas política, econômica e social.

O ardor da disputa eleitoral em diversos momentos fez com que o país emergisse, depois da eleição, dividido eleitoralmente entre Norte/Nordeste e Sul/Sudeste, e socialmente, entre pobres e ricos, povo e elite, entre "nós e eles".

A insistência na divisão, tão explorada pelo PT para manter-se no poder, é uma receita perigosa para a preservação da democracia e da tranquilidade no país.

Se a tática de divisão entre "nós e eles" continuar, a radicalização política e o enfrentamento derivado das opções que serão adotadas vão gerar uma situação de conflito que não deveria interessar a ninguém.

Desde o início do novo governo PT, teremos de estabelecer pontes e canais de comunicação para evitar que a radicalização e a polarização dos últimos meses da campanha eleitoral se mantenham fracionando nossa sociedade.

Algumas das políticas e medidas prometidas pela então candidata, agora presidente reeleita, têm um grande potencial de gerar o aprofundamento das divisões internas: o plebiscito para a reforma política, o controle social da mídia, o controle econômico das empresas de comunicação, a revisão da Lei de Anistia, a criação da política nacional de representação social, para mencionar apenas algumas. Caso o governo reconduzido queira aplicá-las, haverá, sem dúvida, o aprofundamento da divisão interna e um novo inevitável choque de consequências imprevisíveis para a democracia e a estabilidade do país.


Embora o discurso da presidente Dilma após o anúncio oficial dos resultados no domingo tenha conclamado "todos os brasileiros e todas as brasileiras sem exceção" para a união e o diálogo, não houve um gesto em relação à oposição, nem qualquer referência, como de praxe, ao seu opositor que a havia cumprimentado pouco antes. O grande desafio que o país vai enfrentar nos próximos meses será como estabelecer as referidas pontes para evitar a radicalização e procurar deixar as diferenças de lado. Não será tarefa fácil.

Governo e oposição têm responsabilidade compartilhada para evitar que a divisão se agrave, se aprofunde e leve a uma crise institucional.

Rubens Barbosa é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp

Rodrigo Constantino Vitória de Pirro

O Globo

Após a batalha de Ásculo, o rei Pirro, ao felicitar seus generais depois de verificar as enormes baixas sofridas por seu exército, teria dito que com mais uma vitória daquelas estaria acabado. Desde então, a expressão "vitória de Pirro" é usada para expressar uma conquista cujo esforço tenha sido penoso demais. Uma vitória com ares de derrota.

Eis a sensação dessa vitória apertada de Dilma na reeleição. O Brasil está claramente dividido. A máquina estatal foi colocada a serviço do projeto de poder do partido. Houve denúncias de crime eleitoral, claro terrorismo com os dependentes dos programas assistencialistas, ameaça aos funcionários públicos. As baixarias usadas pela campanha da presidente, antes contra Marina e depois contra Aécio Neves, entrarão para a história como as mais sórdidas da nossa democracia.

Bem que Dilma tinha avisado que faria "o diabo" para vencer. Fez mesmo. E metade do país — a metade mais esclarecida e honesta — ficou estarrecida com o que viu. Nunca antes na história deste país se apelou tanto. O Brasil foi segregado. O "nós contra eles" virou o mantra daqueles que tentam monopolizar o discurso em defesa dos pobres, mas atendem, na verdade, aos interesses de uma elite corrupta e carcomida.

Os velhos caciques nordestinos celebraram, assim como Maluf e os mensaleiros presos na Papuda. O tirano Fidel Castro também deu pulos de alegria, assim como Nicolás Maduro. Kirchner, que vem destruindo a Argentina de forma acelerada, talvez com inveja da capacidade destrutiva do camarada venezuelano, foi outra que vibrou com a reeleição.

As urnas deram um resultado legal, apesar de denúncias de fraude que deveriam ser averiguadas. Mas qual a legitimidade de uma vitória tão apertada conquistada somente com base nas táticas mais pérfidas e imorais que existem? É uma vitória que colocou boa parte da classe trabalhadora de luto. Aqueles que pagam as contas do populismo petista. Aqueles que não suportam mais tantos impostos, tanta demagogia, tanta roubalheira.

A presidente Dilma falou em união em seu discurso de vitória, mas soa muito falso, não convence. Como ignorar todo o racha fomentado durante sua campanha indecente? Fingir que nada ocorreu é impossível. O país chega completamente partido ao meio por obra do próprio PT, que sempre precisou de inimigos e jamais colocou os interesses nacionais acima do seu projeto de poder.

Além disso, Dilma terá a verdadeira "herança maldita" agora pela frente. Não dará mais para culpar o governo de FHC ou a "crise internacional", que faz os nossos pares emergentes crescerem o dobro da gente com a metade da taxa de inflação. O que vem por aí — e não será nada bonito de se ver — será colocado totalmente na conta da "presidenta". Não haverá mais bodes expiatórios.

A economia, hoje estagnada, vai piorar ainda mais. A inflação, hoje muito elevada, vai subir ainda mais. O desemprego vai subir. A Petrobras, hoje pilhada, será finalmente destruída. E a roubalheira vai seguir seu curso, com a metade dos eleitores cúmplice, conivente. As conquistas sociais estarão em risco, e talvez a esquerda finalmente aprenda que não há dicotomia entre pobres e ricos, entre social e economia.

Nossas frágeis instituições serão testadas ao limite. Dilma herda um escândalo jamais visto, com evidências de desvios bilionários na maior estatal do país, e com o doleiro do próprio partido afirmando que ela e Lula sabiam de tudo. Se a denúncia for confirmada, um processo de impeachment não está descartado. Collor, hoje aliado do PT, caiu por muito menos.

Metade do Brasil finalmente acordou. Os anos de lulopetismo serviram ao menos para isso: despertar a indignação daqueles que são obrigados a pagar a fatura da irresponsabilidade, da incompetência e da corrupção do PT. Estamos cansados. Estamos de luto. E estamos, acima de tudo, vigilantes, atentos, de olho nos próximos passos do governo, que flerta abertamente com regimes opressores que censuram a imprensa independente.

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A reação odienta e raivosa de muitos petistas, mesmo vencedores, demonstra como estão inseguros, tensos. Afinal, o Brasil ainda não é uma Venezuela. Temem ainda a punição legal por tantos anos de falcatruas, por terem permitido que uma quadrilha se instalasse dentro de nossas empresas e instituições. A oposição acordou. Está mais organizada e tem líder. E não vai assistir passivamente à pilhagem do nosso Estado.

A luta apenas começou. E a vitória deles foi com gosto de derrota, pois sabem que vem chumbo grosso por aí. Quem pariu Mateus que o embale...

Rodrigo Constantino é economista


Enviado do meu iPad

Merval Pereira Ao vencedor, os problemas O GLOBO

Ao vencedor, os problemas

Só saberemos quais são as verdadeiras intenções da presidente Dilma reeleita quando ela anunciar os integrantes de seu futuro ministério, especialmente o ministro da Fazenda e o da negociação política. A presidente e o PT saem das urnas enfraquecidos, com menos votos que jamais conseguiram, tanto para a presidência da República quanto para o Congresso.
Por região, é possível ver-se a redução de votação do PT. Em 2010, a candidata Dilma venceu em três regiões: norte, nordeste e sudeste. No domingo, venceu no norte e no nordeste. Sua votação cresceu apenas no nordeste, onde obteve 72% dos votos contra 70% em 2010. No norte, repetiu o mesmo índice: 57%. 
No centro-oeste, em vez de um empate virtual em 2010, perdeu de 57% a 43%. Já no sudeste, apesar da vitória em Minas, perdeu de 56% a 44%. Em 2010, venceu na região de 51% a 48%. No Sul, perdeu de 59% a 41%, quando teve em 2010 46% dos votos. 
O novo governo tem pela frente um mandato dificílimo, basicamente devido à própria “herança maldita” com que terão que lidar. Não apenas na parte econômica, mas, sobretudo, no combate à corrupção, com o caso da Petrobras já em processo de delação premiada que levará ao envolvimento de inúmeros políticos do Congresso, e do Executivo, com o risco de a própria Dilma e o ex-presidente Lula verem-se às voltas com acusações do doleiro Alberto Yousseff, como revelaram a revista Veja e os jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo.
Temos, portanto, crises econômicas, políticas e institucionais já programadas, e pouca capacidade negociadora da presidente para enfrentá-las, pelo que apresentou até agora, e mesmo na hora de seu discurso de vencedora. Sua impaciência com os militantes poderia ser até folclórica, se não tivesse permitido os gritos de guerra contra a imprensa profissional independente, na figura da Rede Globo, com um sorrisinho no canto da boca, enquanto o presidente do partido, Rui Falcão, fazia o sinal de positivo.
Seu chamamento à concórdia e ao diálogo poderia ser até um bom recomeço, se não viesse acoplado à insistência em fazer uma reforma política com a aprovação de um plebiscito. Controle da chamada mídia profissional e plebiscito sobre formas de governo são receitas típicas de regimes autoritários de países vizinhos muito ao gosto de setores importantes do atual governo brasileiro.
Se a presidente Dilma se preparava para fazer um governo marcado por seu toque pessoal, terá agora que negociar duplamente, dentro de seu próprio partido, que passou por um susto tremendo e não vai querer deixar em mãos tão incompetentes o futuro de um projeto político que pretende se perpetuar no poder, e com o Congresso, que terá uma oposição revigorada com a maior votação já recebida desde o fim da era Fernando Henrique Cardoso, justamente no momento em que o projeto político e econômico do PSDB foi recuperado.
Mesmo perdendo, Aécio Neves fez coisas admiráveis nessa eleição: enfrentou os ataques do PT contra as políticas do PSDB, revigorando o legado do Plano Real e exorcizando a lenda de que perderia votos quem enfrentasse o PT e Lula. A oposição aprendeu nessa campanha a ser oposição de verdade, e será muito mais dura na próxima legislatura, sob a liderança do presidente do PSDB.
A dificuldade que os petistas tiveram para reeleger Dilma só demonstra o esgotamento desse modelo. Os métodos utilizados na campanha para alcançar os objetivos foram muito além do “fazer o diabo” já anunciado pela própria presidente.
A legitimidade de um mandato não se basta em si mesma, mas advém da maneira como foi conquistado. Embora as baixarias da campanha petista tenham ficado num nível comum ao de grandes democracias como os Estados Unidos, não é bom sinal que tenhamos importado esse tipo de marketing político negativo, em vez de nos equiparamos a democracias mais avançadas que reprovam instrumentos como esses.
O abuso da máquina pública, por exemplo, é prática ilegal que não encontra equivalente em nenhuma democracia moderna. O PT continua com a maior bancada da Câmara, mas perdeu nada menos que 18 deputados federais. No Senado, continuará sendo a segunda maior bancada, mas com um senador a menos. Elegeu cinco governadores, sendo que a jóia da coroa é sem dúvida Minas Gerais, arrebatada do grupo político do senador Aécio Neves.
Mas será o partido que governará a menor percentagem do PIB nacional entre os três maiores, com 16,1%. O PSDB continuará a governar a maior parcela do PIB (44,4%). Em segundo lugar no PIB está o PMDB, com (22,4%), que ficou com o maior número de governadores e dois dos maiores colégios eleitorais, Rio e Rio Grande do Sul.

Dora Kramer Fala mansa ESTADÃO

A vantagem da reeleição é que o País não precisa esperar os dois meses que separam a eleição da posse nem os tradicionais primeiros 100 dias de governo para conferir se a figura do candidato se encaixa na pessoa do presidente. Ou melhor: se o que foi feito para ganhar combina com o que será feito para governar. 
A presidente Dilma Rousseff que surgiu reeleita na noite de domingo para discursar em prol do diálogo e da união nacional era outra na forma, mas ainda ficou devendo a prova de que na essência não continua a mesma. 
Livre das jogadas ensaiadas que fizeram dela mera repetidora de frases desconexas, Dilma pôde se dirigir à nação com surpreendente fluência. Um alívio, pois se vê que não há nada de preocupante com ela. Apenas, não sendo política de raiz, tampouco é uma atriz. Nem improvisa nem segue com naturalidade o script.
Dilma disse as palavras adequadas no momento certo. A cobrança dos últimos dias eram todas no sentido em que foi construído o discurso. Era o que se esperava dela. Correspondeu bem a essa expectativa, principalmente quando exaltou o valor dos resultados apertados como agentes de mudanças mais eficazes do que vitórias muito amplas. 
Foi ao ponto ao estabelecer que falar em união não significa defender unidade de ação e pensamento, pois o espaço para a divergência é sagrado. E foi em frente no comprometimento com reformas, com o reconhecimento de que pode ser uma pessoa de trato bastante melhorado, que a economia necessita de mudança de rumos, que o diálogo com todos os setores precisa ser qualificado, que a corrupção requer duro combate e o Congresso um relacionamento renovado.
As palavras da presidente são completamente diferentes das atitudes da candidata. Em quem o País deve acreditar? Aí depende da disposição de se aceitar, ou não, a teoria do "diabo", segundo a qual pela vitória vale tudo. Ou os fins justificam os meios.
O problema da tese é que quem se orienta por ela pode adotá-la em qualquer situação: na campanha ou no governo. De onde a correção do discurso presidencial logo após a vitória deve ser visto com ressalvas. Primeira delas: tão amoldado à expectativa e contraditório em relação ao que gritava a militância que o ouvia ensandecida contra a "mídia golpista", que autoriza a desconfiança de que seja mais uma peça de marketing. 
A suspeita tem base em práticas anteriores. Já vivemos a publicidade da "faxina", da "gerente", da "durona", que hoje promete ser "uma pessoa melhor". Mas, sigamos com fé. Para que essa fé não nos falhe é necessário que a formalidade das palavras seja correspondida pela efetividade dos atos. 
A presidente acena com diálogo. Se a memória não comete grave traição, ela fez gesto semelhante ao assumir a Presidência em 2010. A realidade resultou em isolamento. Sim, pode ter havido aprendizado, mas desta vez é preciso explicitar quais as bases, com quem e como o governo pretende estabelecer a interlocução para ganhar crédito. Terá de levar o PT a adotar a mesma orientação de que a crítica não significa "golpismo" e representa apenas uma parcela substantiva da população.
O compromisso com as reformas também não pode se resumir à repetição da proposta já repudiada do plebiscito para a reforma política. Há outras na pauta que implicam disposição do Poder Executivo de enfrentar e arbitrar contenciosos. 
Para concluir, o enrosco urgente da Petrobrás. A presidente aborda o tema da corrupção falando em mudanças nas leis. Não poderá, no entanto, passar os próximos quatro anos de olhos fechados para o fato de o PT ter optado por financiar seu projeto de poder por meio de traficâncias no aparelho do Estado.

Jose Casado Descida rápida O GLOBO

Descida rápida

A vida real insiste em bater à porta de Dilma Rousseff. Em sua mesa, no domingo da reeleição, acumulavam-se informes e relatórios recentes sobre as aflições governamentais provocadas pela seca, inflação, recessão e evidências de fragilidades no sistema financeiro. 
Não haverá “pacote”, expressão há muito banida do léxico governamental. Vêm aí “ações localizadas, em especial na economia" — ela anunciou na noite de domingo, ao celebrar a vitória, seguindo sugestão da equipe de propaganda. Arrematou: “Antes mesmo do início do meu próximo governo". 
Por trás dessa dezena de palavras está um governo atormentado pelos efeitos da seca na maior parte do Brasil. Na sexta-feira, por exemplo, chegou ao Palácio do Planalto a previsão de estoque de água durante esta semana nos reservatórios das hidrelétricas. No Sudeste e Centro-Oeste, 18%, nas usinas do Nordeste, 15%. 
Pela régua do Operador Nacional do Sistema Elétrico, a situação hoje seria mais grave do que aquela de 2001, no governo Fernando Henrique, quando o armazenamento nas usinas era de 21% e o consumo precisou ser racionado. 
A crise no abastecimento de energia só não aconteceu neste ano eleitoral porque a indústria, maior consumidora, está em recessão há 12 meses. “Vamos dar mais impulso à atividade econômica em todos os setores, em especial no setor industrial", prometeu Dilma, no discurso. 
Desta vez, não haverá “racionamento” — outra palavra banida do vocabulário oficial. Vem aí uma “racionalização” do consumo, se Dilma decidir agir e, nesse caso, adotar a proposta vocabular do serviço de propaganda pós-eleitoral. 
Em qualquer hipótese, as contas domésticas de luz devem atravessar 2015 sob bandeira vermelha, código de aviso ao consumidor sobre como a coisa está feia no sistema gerador. Por causa dos desequilíbrios, naturais ou governamentais, ele deverá pagar uma taxa extra. 
Os efeitos da seca se espraiam pelo sistema de preços de uma economia estagnada. A saída com anabolizantes no consumo já não existe, porque esgotou-se a capacidade de endividamento familiar. O crédito deixou de fluir na praça, apesar das ações emergenciais do Banco Central, que atravessou os últimos quatro meses da campanha eleitoral liberando R$ 17 bilhões mensais aos bancos. 
O alto custo do dinheiro, em tempos de inflação crescente e taxa de câmbio incerta, gelou o ritmo de negócios. Os maiores bancos ampliaram as restrições ao crédito de grandes clientes. Principalmente, daqueles que fornecem à Petrobras e têm sido obrigados, na melhor das hipóteses, a renegociar valores de contratos arguidos nas múltiplas investigações sobre as traficâncias na empresa estatal. 
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Culpar o sistema financeiro pode ser útil à retórica, mas é inócuo. Como dizia o industrial Antonio Ermírio de Moraes, guarda-chuva de banco só abre quando faz sol. Além disso, uma em cada cinco das 100 maiores casas bancárias brasileiras fechou o balanço dos primeiros nove meses com exuberantes prejuízos — um pedaço teve origem em dívidas não pagas de fornecedores da Petrobras envolvidos nos escândalos petro-partidários. 
Dilma Rousseff será obrigada a descer do palanque bem mais rápido do que previa.
José Casado é jornalista

Arnaldo Jabor Burrice e ignorância

O bom asno é sempre bem-vindo, enquanto o 'pernóstico' inteligente é olhado de esguelha

A burrice é diferente da ignorância. A ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades. A burrice é uma força da natureza (Nelson Rodrigues).
A ignorância quer aprender. A burrice acha que já sabe. A burrice, antes de tudo, é uma couraça. A burrice é um mecanismo de defesa. O burro detesta a dúvida e se fecha.
O ignorante se abre e o burro esperto aproveita. A ignorância do povo brasileiro foi planejada desde a colônia. Até o século XIX era proibido publicar livros sem licença da Igreja ou do governo. A burrice tem avançado muito; a burrice ganhou status de sabedoria, porque com o mundo muito complexo, os burros anseiam por um simplismo salvador. Os grandes burros têm uma confiança em si que os ignorantes não têm. Os ignorantes, coitados, são trêmulos, nervosos, humildemente obedecem a ordens, porque pensam que são burros, mas não são; se bem que os burros de carteirinha estimulam esse complexo de inferioridade.
A ignorância é muito lucrativa para os burros poderosos. Os burros são potentes, militantes, têm fé em si mesmos e têm a ousadia que os inteligentes não têm. Na percentagem de cérebros, eles têm uma grande parcela na liderança do país. No caso da política, a ignorância forma um contingente imenso de eleitores, e sua ignorância é cultivada como flores preciosas pelos donos do poder. Quanto mais ignorantes melhor. Já pensaram se a ignorância diminuísse, se os ignorantes fossem educados? Que fariam os senhores feudais do Nordeste em cidades tomadas como Murici ou o município rebatizado de cidade Edson Lobão, antiga Ribeirinha? A ignorância do povo é um tesouro; lá, são recrutados os utilíssimos “laranjas” para a boa circulação das verbas tiradas dos fundos de pensão e empresas públicas.
Como é o “design” da burrice? A burrice é o bloqueio de qualquer dúvida de fora para dentro, é uma escuridão interna desejada, é o ódio a qualquer diferença, a qualquer luz que possa clarear a deliciosa sombra onde vivem. O burro é sempre igual a si mesmo, a burrice é eterna como a Pedra da Gávea (NR). De certa forma eu invejo os burros. Como é seu mundo? Seu mundo é doce e uno, é uma coisa só. O burro sofre menos, encastela-se numa só ideia e fica ali, no conforto, feliz com suas certezas. O burro é mais feliz.
A burrice não é democrática, porque a democracia tem vozes divergentes, instila dúvidas e o burro não tem ouvidos. O verdadeiro burro é surdo. E autoritário: quer enfiar burrices à força na cabeça dos ignorantes. O sujeito pode ser culto e burro. Quantos filósofos sabem tudo de Hegel ou Espinoza e são bestas quadradas? Seu mundo tem três ou quatro verdades que ele chupa como picolés. O burro dorme bem e não tem inveja do inteligente, porque ele “é” o inteligente.
Mesmo inconscientemente, aqui e lá fora, a sociedade está faminta de algum tipo de autoritarismo. A democracia é mais lenta que regimes autoritários. Sente-se um vazio com a democracia — ela decepciona um pouco as massas. Assim, apelos populistas, a invenção de “inimigos” do povo, divisão entre “bons” e “maus” surtem efeito. Surge, na política, a restauração alegre da burrice. Isso é internacional. Bush se orgulhava de sua burrice. Uma vez ele disse em Yale: “Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidentes dos USA”. E, aí, invadiu o Iraque e escangalhou o Ocidente. E está impune, quando deveria estar em cana perpétua. Aqui, também assistimos à vitória da testa curta, o triunfo das toupeiras.
O bom asno é sempre bem-vindo, enquanto o “pernóstico” inteligente é olhado de esguelha. A burrice organiza o mundo: princípio, meio e fim. A burrice dá mais ibope, é mais fácil de entender. A burrice dá mais dinheiro; é mais “comercial”.
Em nossa cultura, achamos que há algo de sagrado na ignorância dos pobres, uma “sabedoria” que pode desmascarar a mentira “inteligente” do mundo. Só os pobres de espírito verão a Deus, reza nossa tradição. Existe na base do populismo brasileiro uma crença lusitana, contrarreformista, de que a pobreza é a moradia da verdade.
No Brasil, há uma grande fome de “regressismo,” de voltar para a “taba” ou para o casebre com farinha, paçoca e violinha. E daí viria a solidariedade, a paz, num doce rebanho político que deteria a marcha das coisas do mundo, do mercado voraz, das pestes e, claro, dos “canalhas” neoliberais. É a utopia de cabeça para baixo, o culto populista da marcha à ré.
Nosso grande crítico literário Agripino Grieco tinha frases perfeitas sobre os burros. “A burrice é contagiosa; o talento não” ou “Para os burros, o ‘etc’ é uma comodidade...” ou “Ele não tem ouvidos, tem orelhas e dava a impressão de tornar inteligente todos os que se avizinhavam dele”, “Passou a vida correndo atrás de uma ideia, mas não conseguiu alcançá-la”, “Ele é mais mentiroso que elogio de epitáfio”, “No dia em que ele tiver uma ideia, morrerá de apoplexia fulminante”.
Vi na TV um daqueles bispos de Jesus, de terno e gravata, clamando para uma multidão de fiéis: “Não tenham pensamentos livres; o Diabo é que os inventa!”. Entendi que a liberdade é uma tortura para desamparados. Inteligência é chata; traz angústia, com seus labirintos. Inteligência nos desorganiza; burrice consola. A burrice é a ignorância ativa, é a ignorância com fome de sentido.
Nosso futuro será pautado pelos burros espertos, manipulando os pobres ignorantes. Nosso futuro está sendo determinado pelos burros da elite intelectual numa fervorosa aliança com os analfabetos.
Como disse acima, a liberdade é chata, dá angústia. A burrice tem a “vantagem“ de “explicar” o mundo. O diabo é que a burrice no poder chama-se “fascismo”.


Leia mais sobre esse assunto em  http://oglobo.globo.com/cultura/burrice-ignorancia-14377619#ixzz3HR6AMFtP 
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