ARQUIVO DE ARTIGOS ETC

domingo, novembro 23, 2014

Levy no governo Dilma - SUELY Caldas - Estadão

Levy no governo Dilma - Economia - Estadão

Dilma Rousseff passou a campanha eleitoral inteira demonizando Armínio Fraga, apresentado por Aécio Neves como seu futuro ministro da Fazenda. Entre profecias e caneladas, ela disse aos eleitores que Armínio seria uma ameaça aos programas sociais e ao Bolsa Família e que sua gestão seria pautada pelos interesses dos bancos e do mercado financeiro. Reeleita, a própria Dilma reconhece agora ter chegado "a hora da verdade" e partiu para buscar no mercado financeiro um banqueiro para comandar a economia e assumir o poderoso Ministério da Fazenda. Presidente do Bradesco, maior banco privado do País, Luiz Trabuco recusou o convite e sugeriu o nome do economista Joaquim Levy, ex-secretário do Tesouro no primeiro governo Lula e hoje diretor-gestor de fundos do Bradesco.

A vida dá voltas, ensina lições, e aprendem os dotados de sabedoria e humildade. Se Dilma hoje tem em Joaquim Levy uma referência para ajudá-la nos dificílimos quatro anos à frente, deve isso justamente ao demonizado Armínio Fraga, que apresentou e recomendou Levy a Antonio Palocci no final de 2002, quando o ex-ministro da Fazenda de Lula buscava quadros para compor sua equipe. Outra indicação de Armínio foi o economista Marcos Lisboa, que Palocci pôs na Secretaria de Política Econômica da Fazenda e se tornou responsável pelo arcabouço legal que dinamizou o crédito popular no governo Lula.

Armínio havia trabalhado com Levy no governo FHC e avaliou que ele se encaixava como luva na função que Palocci tanto precisava naquele momento: conceber e comandar o aperto fiscal aplicado em 2003. Na Secretaria do Tesouro, Levy ganhou a experiência em gestão pública que hoje o credencia na avaliação de Dilma. Mas no comando do Tesouro ele foi execrado pelo PT, que nele enxergava uma rocha irremovível contra demandas por aumento dos gastos públicos. Palocci o apoiava com entusiasmo, até porque, ao colocar Levy na linha de frente, ele se desviava das pedradas do PT.

No período em que ocupou a Secretaria do Tesouro, Levy foi o anti-Arno Augustin, o amigo gaúcho da presidente que vai deixar o cargo. Fortalecido por Palocci, ele negava com firmeza e sem recuos propostas de aumento de gastos do PT. Uma delas - a capitalização do BNDES, que receberia injeção de dinheiro público - teve resistência implacável de Levy e não saiu enquanto ele ocupou a função. Augustin não só liberou verbas bilionárias, como usou o BNDES em operações triangulares para falsear as contas públicas.

O currículo de Levy é recheado de experiências variadas. Hoje com 53 anos, graduou-se engenheiro naval, mas tornou-se mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e doutor pela Universidade de Chicago (foco da ideologia liberal), abandonando a engenharia. Exerceu funções no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Central Europeu. De volta ao Brasil, ocupou cargos relevantes nos Ministérios da Fazenda e do Planejamento na gestão FHC. Em 2003, tornou-se o primeiro secretário do Tesouro do governo Lula, de onde saiu em 2006, com a demissão de Antonio Palocci, que na época andava às turras com a ministra Dilma Rousseff em razão de um plano de corte de gastos rechaçado por ela. Indicado por Palocci, Levy voltou a Washington, para ocupar a vice-presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), retornando em seguida ao Brasil para organizar as finanças do governo Sérgio Cabral, no Rio de Janeiro. Desde 2010, ocupa a direção de gestão de fundos de investimentos do Bradesco.

O primeiro desafio de Levy será restabelecer a confiança no governo. O segundo é sair-se bem-sucedido na relação com uma presidente e um ministro da Casa Civil que parecem hostis à ideia de corrigir erros e cortar despesas - essenciais para recuperar a confiança, estimular investimentos privados e para o País voltar a crescer. Mas no meio disso tudo há uma agenda dificílima e uma crise econômica que não recomendam cortes radicais nas contas públicas. Levy sabe disso. O sucesso (ou fracasso) se dará na dosagem do remédio.

É JORNALISTA E PROFESSORA DA PUC-RIO E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR



Enviado do meu iPad

Economia da corrupção - Míriam Leitão: O Globo

Economia da corrupção

"O governo funciona como nas capitanias hereditárias", disse o executivo de uma grande empreiteira com quem conversei longamente nos últimos dias. Em cada área do governo que uma empresa vai, para discutir projetos, ela é enviada para falar com um político. Num dos negócios que fez, há dois anos, o executivo teve que conversar com Paulo Maluf. Ministros da presidente Dilma sabiam do encontro.

Os detalhes das abordagens são sempre espantosos. Meu interlocutor nega pagamento de propina, mas conta que às vezes fala-se abertamente que a área "pertence" a um partido. Há quem apenas diga indiretamente, mas há quem seja franco, como um prefeito de uma cidade de Tocantins, que pediu "luvas" apenas para não revogar negócio já feito na administração anterior. Concessões, mesmo depois de ganhas, passam a ser pontos de chantagem porque a autoridade sempre pode decretar a caducidade do contrato. Ministros do governo admitem nada poder fazer diante do veto de uma pessoa de terceiro escalão, sob o argumento de que aquela é a "área" de outro grupo ou líder político. É uma total inversão da ordem hierárquica. De fato, tudo funciona como nas velhas capitanias.

Nada me convence, no entanto, de que as empreiteiras, principalmente as maiores que têm décadas de comprovada capacidade, atuação no exterior, não tenham o dever de quebrar o pacto de silêncio. Por que se submetem a ouvir de pessoa do segundo ou terceiro escalão do governo, ou de um gerente da Petrobras, que negócios líquidos e certos só poderão ser feitos se eles pagarem?

Portanto, elas não são vítimas. Se ficam em silêncio, pagando ou não, são cúmplices, são parte da mesma tragédia que se abate sobre o Brasil.

A pessoa com quem conversei sobre as entranhas dos negócios com o setor público brasileiro, e outros executivos com quem tenho falado, não tem dúvidas em dizer que a corrupção, evidentemente, não é coisa nova, mas a escala a que se chegou nos governos do PT não tem precedentes. E justifica o bordão do ex-presidente para louvar seus feitos: "Nunca antes na história deste país."

— Quando o sub do sub se dispõe a devolver US$ 100 milhões, como é caso de Pedro Barusco, é porque a escala do roubo é grande demais — disse o empresário.

A explicação dele é que os governos do PT abriram ao mesmo tempo várias frentes de obras, depois de um período de paralisia dos investimentos no governo Fernando Henrique. Na Petrobras, por exemplo, que não fazia refinaria há 20 anos, foram iniciadas quatro. Ele acha que isso explica a escalada da corrupção. Isso não explica, no entanto, os vários casos de sobrepreço em cada contrato de importação, fretamento de navio, cada operação de compra da empresa. Tudo era pretexto para se armar a cena em que o empresário é enviado ao "operador" de um dos partidos da base.

A justificativa inicial é que o partido precisa de financiamento, mas, quando se oferecem doações legais, em geral eles ouvem que não é o suficiente. Nos últimos tempos, ficou claro para os empresários que era também para enriquecimento pessoal.

Há empresas que cresceram rapidamente da noite para o dia, sempre à sombra dos seus protetores, verdadeiros fidalgos da corrupção e que têm o poder de abrir a torneira de recursos públicos, ou garantir a vitória em licitação mesmo com todas as evidências de que não estão tecnicamente preparadas.

O dirigente de uma empresa fornecedora de serviços procurou um ministro influente do governo Dilma e explicou que era possível apenas com bom gerenciamento melhorar muito um setor no qual o Brasil tem deficiência crônica. "Parem de gastar dinheiro", disse o executivo, e mostrou como era possível. Em vez de fazer novas obras, usar a eficiência no que já fora construído para elevar a qualidade do serviço. Foi despachado do gabinete com a afirmação de que não era isso que se procurava.

A presidente Dilma está se comportando como se a operação Lava-Jato fosse patrocinada por ela. A operação é sim uma oportunidade para o país, mas é seu governo que está no meio do turbilhão. Há fios soltos demais que, se puxados, levarão a decisões e negócios feitos nos últimos quatro anos, ou nos últimos 12 anos, no setor de energia, que sempre esteve sob seu controle.



Enviado do meu iPad

Um projeto de extorsão contra a patuleia - Elio Gaspari Jornal O Globo

Um projeto de extorsão contra a patuleia - Jornal O Globo

Um projeto de extorsão contra a patuleia

Dois diretores de empreiteiras disseram à Justiça que foram extorquidos pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e seu operador financeiro, Alberto Youssef. Se não pagassem, teriam seus contratos prejudicados ou até mesmo cancelados. A tese é engenhosa. Pressupõe que empresas angelicais que fazem negócios com a Petrobras tornaram-se vítimas de dois demônios. Para que a pizza fosse ao forno, faltaria só o orégano.

A primeira denúncia da extorsão veio de Sérgio Mendes, vice-presidente e herdeiro da tradicional Mendes Junior, fundada em 1953 por seu avô. Ele contou que em 2011, a mando de Paulinho, pagou R$ 8 milhões a Youssef. Se não fizesse isso, estariam fechadas as portas e os guichês da Petrobras. A Mendes Junior opera com o governo brasileiro há três gerações e com a Petrobras há pelo menos duas. Teve negócios bilionários (em dólares) com a cleptocracia de Saddam Hussein no Iraque. Admita-se que jamais molhou mãos alheias. Tendo sido obrigada, em 2011, não denunciou o malfeito. Seria tudo coisa do Paulinho e do Youssef.

A segunda denúncia de extorsão veio do diretor de Óleo e Gás da Galvão Engenharia, doutor Erton Medeiros. Seu advogado, José Luis de Oliveira Lima, explicou por que a Galvão ficou calada: "Se ele denunciasse o que estava acontecendo, era ameaçado de perder os contratos. Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef estão longe de serem Madres Teresas de Calcutá".

Bingo! Paulinho e Youssef são delinquentes, mas colaboram com a Viúva. Madres Teresas seriam a Galvão Engenharia e suas colegas. Segundo o doutor Erton, na origem de tudo estaria o deputado José Janene (morto um ano antes), e o dinheiro do achaque iria para o Partido Progressista. Bingo de novo, e surge mais uma Madre Teresa: o PT.

Durante a última campanha eleitoral, a Galvão Engenharia deu R$ 1,4 milhão ao Diretório Nacional do PT, partido da doutora Dilma. Portanto, a empresa foi achacada por dois delinquentes, não se queixou, e fez uma bela doação ao partido que, governando o país, nomeou Paulinho para uma diretoria da Petrobras. Entre 2006 e 2012, as grandes petroempreiteiras torraram R$ 856 milhões em doações para campanhas eleitorais. O PT ficou com R$ 266 milhões.

Nessa batida, a coisa fica assim: os dois delinquentes que estão colaborando com a Viúva achacavam empresas, e uma delas entrou na dança levada por um deputado que morreu, em benefício de um partido subsidiário. Tudo o mais seria golpismo, terceiro turno, e coisa de uma elite contrariada. Já a elite lubrificada, à qual ascendeu o comissariado petista, vai bem, obrigado.

UM GABINETE DE CRISE PARA AS TARIFAS

É conhecida a piada segundo a qual os generais combatem nas novas guerras as batalhas de guerras passadas.

O palácio do Planalto criou um "gabinete de crise" para cuidar dos escândalos da Petrobras. Se tivesse feito isso em março, quando a Polícia Federal prendeu pela primeira vez o "amigo Paulinho", talvez pudesse ter evitado protegê-lo, considerando até mesmo "satisfatório" o acervo de patranhas que ele despejou sobre a CPI antes de decidir colaborar com a Viúva.

Se a doutora Dilma quiser criar um gabinete de crise necessário e eficaz, poderia começar a cuidar do aumento das tarifas de ônibus em São Paulo. Não é para já, mas está na agenda.

Em 2013, o prefeito Fernando Haddad baixou o aumento e foi para Paris acompanhando o governador Geraldo Alckmin. Juntos, cantaram "Trem das onze" num evento. As manifestações contra a nova tarifa, que haviam começado mornas, viraram o que viraram.

O TAMANHO DE PRESTES

Está nas livraria "Prestes — Um revolucionário entre dois mundos", do historiador Daniel Aarão Reis. A vida do chefe comunista, que morreu em 1990, aos 92 anos, mistura-se com a história do século XX, da esquerda e até mesmo com a da anarquia militar do período. Aarão Reis lidou com essas dimensões e mais a história pessoal às vezes trágica e amarga de um estoico. Pesquisou arquivos russos, entrevistou dezenas de pessoas e compôs um grande retrato do comandante do PCB. Prestes foi um chefe maior que seu partido. Encolheu com ele, encolhendo-o. Ao final, extinguiram-se tanto sua liderança como a importância da organização.

"Prestes" passa longe da mitologia do "Cavaleiro da Esperança". É uma biografia elegante e arduamente trabalhada. Ela acrescenta informações à vida de Olga Benário, mãe de sua primeira filha, entregue por Vargas à polícia nazista. Quando Olga veio para o Brasil era casada com um russo e tinha um filho na União Soviética. Graças a uma gravação de uma reunião do PCB, ocorrida em Praga, Aarão Reis mostra que em 1979 o debate dos "capa-pretas" estava contaminado por uma denúncia de tráfico internacional de drogas.

Aarão Reis juntou a esse cenário a vida familiar de Prestes, que teve sete filhos com sua segunda mulher, Maria, um grande personagem. A clandestinidade obrigava as crianças a chamá-lo de "Tio". Quatro delas montaram em Moscou o quarteto musical "Saci-Pererê".

Prestes perdeu todas, em 1927, 1935, 1945 e 1964. Terminando-se o belo livro de Aarão Reis, fica uma pergunta: sem ditaduras, polícias e militares a persegui-lo, de que tamanho ele ficaria?

DIÁRIO DE MÁRCIO

Como o advogado Márcio Thomaz Bastos fixou a abertura do diário que manteve durante o tempo em que foi ministro da Justiça, para 50 anos depois de sua morte, o comissariado pode pôr um teto na sua expectativa de vida tranquila:

Lula, 119 anos; José Dirceu, 118 anos; Antonio Palocci, 104 anos.

O poderoso Oxalá fez com que Márcio, um defensor das cotas raciais, morresse no dia da Consciência Negra.

MILAGRE

Com jeito de quem não quer nada, a doutora Dilma congelou o projeto do Trem Bala, estimulado durante o governo de Nosso Guia. Antes que o BNDES mostrasse que a primeira proposta era fantasia em estado puro, a ideia chegou a encantá-la.

Se a coisa tivesse andado, acabaria num escândalo bilionário, parecido com o da Petrobras. Custaria no mínimo R$ 35 bilhões e já custou perto de R$ 70 milhões com nuvens, papéis e burocracia. Em benefício das grandes empreiteiras, foram elas quem pisaram no freio.

O primeiro comissário encarregado do projeto, José Francisco das Neves, ou "Doutor Juquinha", passou alguns dias na cadeia em 2012, por conta de outros malfeitos.

TORCIDA

Há uma forte torcida para que a lista dos parlamentares apanhados pelo Ministério Público seja divulgada antes da eleição para a mesas da Câmara e do Senado.

Se for possível, o ministro Teori Zavascki poderá apressar o serviço, evitando a desmoralização do Congresso. Apesar disso, seria injusto cobrá-lo, pois lá não há bobos. Os congressistas podem não saber quem está na lista, mas sabem quem deveria estar.

Elio Gaspari é jornalista



Enviado do meu iPad

A ameaça do Estado Islâmico - Merval Pereira: O Globo

A ameaça do Estado Islâmico - Merval Pereira: O Globo

A ameaça do Estado Islâmico

Os conceitos universais comuns às civilizações, como os direitos humanos, ou a democracia, são colocados em causa quando ações como as do Estado Islâmico não respeitam as diferenças, fazendo esvair-se a contemporaneidade do Estado-Nação diante da emergência dos califados.

A Conferência de Omã também debaterá as mudanças conceituais da democracia, questionada pela falta de representatividade de sua representação política e a necessidade de ampliar-se a participação popular com plebiscitos e referendos.

O professor espanhol Daniel Innenarity abordará os riscos que a democracia pode trazer para si mesma com a baixa política. Dois especialistas farão palestras sobre as experiências locais com temas universais como direitos humanos e democracia. Radwan Al Sayyed, do Líbano, falará sobre os direitos humanos no pensamento contemporâneo islâmico. E Abdulrahman Al-Salimi, de Omã, abordará a experiência de seu país com a coexistência e o pluralismo e as perspectivas para sair do impasse. Marco Luchesi, da Academia Brasileira de Letras, falará sobre novas possibilidades de diálogo entre o Ocidente e o Oriente.

Os avanços conseguidos nas relações internacionais com a chegada dos Brics superando a premissa de globalização, ou a superação da relação de centro e periferia, estão confrontados pela existência do Estado Islâmico, e a Conferência de Omã pretende discutir como avançar nas relações internacionais na visão crítica da crença, muitas vezes ingênua, de que se possa chegar à convivência pela intrínseca virtude ou boa vontade do diálogo.

Depois de quase 15 anos de atividade, a Academia da Latinidade chega à Conferência de Omã constatando que é preciso ir além da mera tolerância com o outro, pois o pluralismo não é mais apenas uma regra da coexistência, mas uma prática indispensável.

O Estado Islâmico, no entanto, está aí para mostrar até que ponto o respeito pelo outro é afetado nos dias atuais. As dificuldades do momento por que passa o mundo podem ser compreendidas pelo título do trabalho de Candido Mendes: "A caminho da impossível coexistência internacional".

Começa hoje em Omã, no Oriente Médio, mais uma conferência da Academia da Latinidade, que reúne intelectuais de diversas partes do mundo para discutir a melhoria da relação entre o Ocidente e o Oriente, desta vez sob a ameaça do que o sociólogo brasileiro Candido Mendes de Almeida, secretário-geral da organização, classifica de "repto-limite à própria noção da coexistência internacional", o Estado Islâmico. A Academia da Latinidade vem se dedicando à aproximação entre as civilizações e vê com grande preocupação o desaparecimento "do reconhecimento do outro, que identifica a própria noção de progresso e do avanço da vida social contemporânea".



Enviado do meu iPad

sábado, novembro 22, 2014

Fwd: [INDICE DE ARTIGOS ETC] 22/11/14


http://indicedeartigosetc.blogspot.com.br/2014/11/221114.html
  • FONTES:


--
Postado por Artigos no INDICE DE ARTIGOS ETC em 11/22/2014 11:12:00 AM

quarta-feira, novembro 12, 2014

Vida em Tlön - Alexandre Schwartsman -Folha de S.Paulo

Vida em Tlön - 12/11/2014 - Alexandre Schwartsman - Colunistas - Folha de S.Paulo

Vida em Tlön

Às vezes, na verdade quase sempre -o "quase" apenas para acomodar alguma exceção desconhecida-, tenho a impressão de que nossos "keynesianos de quermesse" habitam uma dimensão à parte (a Dimensão Z), na qual os fatos se acomodam às crenças, permitindo que o voluntarismo mais primitivo se estabeleça como ideologia hegemônica.

Veja-se, por exemplo, o manifesto publicado por luminares da quermesse nacional, defendendo a manutenção da atual política econômica. Não bastasse reivindicar para si o monopólio do desenvolvimento com inclusão social -como se todos os demais economistas favorecessem a decadência econômica com piora da distribuição de renda-, os signatários do documento levam às raias do extremismo a distância entre o mundo como ele é e a realidade como reflexão distorcida de uma mentalidade peculiar.

A declaração é um repúdio às políticas de austeridade, não apenas no que se refere à política monetária mas principalmente no que diz respeito à política fiscal. O mau desempenho econômico dos países desenvolvidos é apontado como resultado da redução da despesa pública, enquanto se sugere que a elevação dos gastos governamentais no Brasil nos faria retomar o crescimento.

Trata-se de impressionante incapacidade de distinguir os problemas brasileiros daqueles enfrentados por alguns países desenvolvidos, notadamente na periferia europeia.

Lá o desemprego é alto e a inflação se encontra muito abaixo da meta. Na Espanha, por exemplo, o primeiro segue acima de 20%, e a segunda (medida ao longo de 12 meses) tem ficado em terreno negativo, situação semelhante à enfrentada por Portugal e Itália, onde o desemprego, embora menor, permanece na casa de dois dígitos, enquanto a inflação se mantém abaixo de zero. Na verdade, como sabe qualquer um que tenha se dignado a olhar os números, o maior risco hoje enfrentado na zona do euro é a ameaça de deflação.

Deveria ser óbvio, mas, como aparentemente não se trata do caso, noto que o problema no Brasil é diametralmente oposto. A inflação se encontra não apenas (bem) acima da meta, 4,5%, é bom lembrar, como nos últimos meses tem atingido além do limite máximo de tolerância. É formidável que, mesmo à luz disso, os luminares insistam na afirmação furada de que "a inflação (...) manteve-se dentro (sic) da meta no governo Dilma Rousseff".

Não bastasse isso, nosso desequilíbrio externo se encontra na casa de US$ 85 bilhões (3,5% do PIB) nos 12 meses terminados em setembro, indicando que a demanda interna supera nossa produção, em contraste com superavit nas contas externas observados na periferia europeia.

É, portanto, notável, embora nada surpreendente, que a conclusão da quermesse seja sempre a mesma ("vamos aumentar o gasto público!") independentemente da natureza do problema.

Diga-se, aliás, que essa posição diminui em muito a credibilidade da promessa de "iniciativas contracionistas (...) para quando a economia voltar a crescer", mas, justiça seja feita, essas vozes também se calaram quando o país crescia forte e o governo seguia com o pé no acelerador fiscal. Sua coerência em sempre pedir mais despesa é legendária.

A verdade é que essa visão, embora se coloque como "alternativa", predominou nos últimos quatro anos. O arranjo de política econômica, caracterizado por gastos crescentes, redução "na marra" das taxas de juros, intervenção no mercado de câmbio e ativismo injustificável no domínio econômico, foi, sem tirar nem pôr, exatamente aquilo por que clamaram anos a fio os autodenominados "desenvolvimentistas".

Os resultados estão aí: crescimento pífio, inflação acima da meta (não "dentro" dela), desequilíbrios externos, estagnação da produtividade e, agora sabemos, também retrocesso no campo das conquistas sociais.

Engana-se, porém, quem acreditar que o fracasso retumbante poderia lhes ensinar alguma coisa; o manifesto da semana passada é prova disso.



Enviado do meu iPad

Roberto DaMatta Uma carta de Moneygrand: final

O GLOBO

Em política, vocês misturam os meios e os fins. Todo mundo quer o governo, mas para quê? Para serem donos do Brasil ou para realizarem coisas para o Brasil?

Eis o trecho final desta carta abusada de Richard Moneygrand:

O Brasil é uma sociedade excepcionalmente desigual. A hierarquia combate, evita e, quando não vence, neutraliza a igualdade. A herança pouco decifrada da escravidão e da monarquia faz com que muitos jamais percebam o abismo das diferenças no plano social, vendo apenas números que não passam fome, não roubam e não vão para a cadeia. Essa visão distanciada e programática — a par de uma exemplar e vergonhosa ausência de educação para a igualdade — faz com que as diferenças entre o "pobre" e o "rico" sejam amortecidas no plano da economia. Eles ainda são tipos bíblicos, pois "pobreza" e "riqueza" ordenam diferenças e revelam um enorme potencial de diversidade.

Em sistemas onde a igualdade e o individualismo (base da cidadania moderna do cada um por si) são o credo, a pobreza é lida como um defeito ou um descuido de um sistema que deveria promover mais riqueza do que pobreza. As diferenças viram "estratificação social", mas elas não se transformam em castas, embora exista esse risco se não houver a visão do limite para cima e sobretudo para baixo. A concepção de que há um jogo entre iguais é obviamente um logro e foi percebida na obra de Marx e outros. Mas quando pobreza e riqueza se associam forte e indissoluvelmente a outros códigos, como o racial, a desigualdade transforma-se em diversidade. E a estratificação financeira passa de classe a segmento. Pobreza e riqueza se relativizam e não são mais vistas apenas como um dado anômalo do sistema. Nesse sentido, leia Thomas Piketty com olhos sociológicos.

No Brasil, sabemos — como vi na sua pesquisa sobre os pobres na periferia de São Paulo — que o "rico" tem obrigações para com os "pobres". Por seu turno, o pobre não deve se rebelar contra a sua pobreza porque existem ricos que são pobres em beleza e saúde. No Brasil, o dinheiro tem parte com o Diabo. Ele não traz felicidade. O dinheiro compra muito, mas não compra tudo. E com isso entramos na faixa das éticas múltiplas que você — continua Moneygrand — explorou no seu "Carnavais, malandros e heróis". A dos eixos valorativos situados fora da economia e do mercado. Tal multiplicidade relativiza as diferenças, sustenta uma ética de paciência e de interdependências, e é o centro da diversidade a qual é apropriada pelos populismos. Se vota em X você perde o benefício...

O rico é devedor do pobre porque, em muitas sociedades, ficar rico é algo tortuoso. Basta pensar como é vil enriquecer com a escravidão, a prostituição ou o cargo público, principalmente quando se prenuncia a igualdade para simplesmente enriquecer o partido. Eu não tenho dúvida que esse caldo ideológico, vindo de uma burguesia afidalgadada pela escravidão, é o que permite dizer: "Vou governar para todos, mas darei mais atenção aos pobres!". Ora, meu caro DaMatta: isso é equivalente a dizer: a lei vale para todos, mas se você for um magistrado ou um membro do meu partido, vamos dar um jeito. A proposta de cuidar de um grupo já hierarquiza. Quem cuida de uma categoria não cuida do todo. E o todo, numa democracia decente é uma coletividade que não admite a riqueza por meio do cargo público nem a pobreza da indigência!

Quando se tem diferenças fundadas numa só dimensão você tem o eixo imperfeito da igualdade perante a lei. Mas quando você introduz múltiplas éticas distinguindo o "nós" dos "outros", você engendra a diversidade. Então surge o inimputável e o condenado que não fica preso; isso para não falar das vossas vergonhosas prisões de onde bandidos comandam atos de vandalismo. Nos livros de Dickens, um pobre se diferencia de um rico porque ele tem menos dinheiro. Num livro de Jorge Amado eles são diferentes mas são também diversos. O pobre é oprimido mas é o herói-malandro apadrinhado de entidades sobrenaturais. No Brasil o pobre não é apenas um "perdedor" — ele é sempre uma vítima.

Em política, vocês misturam os meios e os fins. Todo mundo quer o "governo", mas para quê? Para serem donos do Brasil ou para realizarem coisas para o Brasil? Para isso, é preciso discutir o que é oposição. O verbo é claro e descobre outro fato desagradável: como discordar, cobrar e ser diferente quando a grande maioria faz parte de um mesmo clube e segue as mesmas normas de polidez e boa educação? Para ser oposição há que se disciplinar para se transformar num diferente. Numa sociedade hierarquizada e interligada por simpatias e antipatias isso não é fácil. A turma do meio (que é o maior partido do Brasil) neutraliza. E assim nada se faz para o povo, exceto quando você imagina ser o próprio povo.

Take care,

Roberto DaMatta é antropólogo

Leia todas as colunas...

Rodrigo Constantino Republicanos, uni-vos!

O GLOBO

O PT está no poder, fazendo Collor parecer um mero aprendiz. Por que o PT era democrático então e os que exigem punição aos corruptos de hoje são 'golpistas'?

Esquerda e direita são conceitos que, no Brasil, costumam gerar muita confusão, após décadas de monopólio da virtude por parte da esquerda. Por isso é melhor adotar a divisão entre populistas e republicanos. Eis o grande embate da atualidade.

De um lado, temos aqueles que defendem governantes que gostam de distribuir a riqueza alheia, sem construir as bases que efetivamente permitem a criação de mais riqueza. Do outro, temos os que desejam reformas estruturais que possibilitem um ambiente mais amigável aos negócios, à iniciativa privada, para que o Brasil possa ir na direção dos países desenvolvidos.

Uns aplaudem esmolas que criam dependência dos mais pobres, perpetuando a pobreza, máquina de votos. Outros cobram responsabilidade individual e aceitam um assistencialismo básico, desde que descentralizado, com porta de saída e fornecido pelo Estado, não pelo governo para terrorismo eleitoral depois.

Do lado populista, temos o resgate da velha máxima "rouba, mas faz", com vista grossa a todos os infindáveis escândalos de corrupção, só por se tratar de um governo de esquerda. Do lado republicano, estão aqueles que não aceitam compactuar com essa roubalheira, supostamente favorável aos mais pobres.

Populistas olham para o aqui e agora, adotando visão imediatista de curto prazo. Republicanos querem construir sólidas instituições, preocupam-se mais com o processo, pois entendem que somente isso permite o progresso sustentável no longo prazo.

Os populistas falam em nome da democracia, mas não a valorizam de verdade. Idolatram as piores ditaduras do mundo, como o regime socialista cubano, e enaltecem o modelo venezuelano de "democracia direta", na prática outra ditadura disfarçada. Republicanos respeitam o processo democrático, desde que preservando-se seus pilares básicos, como pluralidade partidária, limites constitucionais ao Poder Executivo, divisão de poderes e liberdade de imprensa.

Do lado econômico, populistas aceitam mais inflação para financiar os crescentes gastos públicos, e repudiam qualquer tipo de austeridade do governo. Republicanos entendem que o governo jamais pode gastar mais do que arrecada, e que a inflação é o mais nefasto imposto que existe, pois penaliza de forma desproporcional os mais pobres.

O Brasil é "governado" por populistas há 12 anos. Mas nesta eleição o lado republicano acordou. Milhões de pessoas, da esquerda civilizada à direita conservadora, uniram-se em prol de uma candidatura que virou um movimento de resgate dos valores republicanos, destruídos ao longo do avanço petista. O patriotismo renasceu, a indignação floresceu, e muitos estão cansados dos abusos chavistas, da impunidade, do aparelhamento do Estado, dos constantes ataques à liberdade de imprensa.

Manifestações espontâneas tomaram as ruas, e isso apavora os populistas, pois sempre as julgaram sua propriedade particular. Automaticamente, tentam pintar esses manifestantes como ícones da direita radical golpista, tomando a exceção como a regra. Se um infeliz pede a volta dos militares, então milhares de republicanos são acusados de antidemocráticos. Por pessoas que elogiam Fidel Castro!

A República, como diz o nome, é a "coisa pública", ao contrário do patrimonialismo, que trata o Estado como "cosa nostra". É exatamente isso que esses milhões de pessoas estão demandando: a valorização de nossas instituições de Estado, contra uma quadrilha que se apossou dele para instalar um sistema de corrupção jamais visto na história deste país. Queremos meritocracia, e não peleguismo. Queremos punição aos corruptos, não que sejam tratados como heróis injustiçados pelo partido no poder.

Não vai colar a acusação de golpismo. Quando Lula era oposição, foi às ruas cobrar o impeachment de Collor, hoje seu aliado. Defendeu que era maravilhosa essa pressão popular contra governantes corruptos. O que mudou? O PT está no poder, fazendo Collor parecer um mero aprendiz. Por que o PT era democrático então e os que exigem punição aos corruptos de hoje são "golpistas"?

Nada disso. Os republicanos vão continuar nas ruas, nas redes sociais, pois a oposição despertou de sua sonolência. Nos Estados Unidos, os republicanos foram acusados de radicais pela imprensa progressista, mas deram uma sova em Obama nas urnas, mostrando como se faz oposição em uma democracia sólida. Vamos repetir isso aqui.

No próximo dia 15, aniversário de nossa República, vamos todos às ruas protestar contra o populismo, esse câncer que corrói nossas instituições. Republicanos, uni-vos!

Rodrigo Constantino é economista

Leia todas as colunas...

quinta-feira, novembro 06, 2014

"Eu, robô?", por Alexandre Schwartsman

Rota 2014 - Blog do José Tomaz: "Eu, robô?", por Alexandre Schwartsman


Folha de São Paulo



Além de histórias em quadrinhos e mitologia grega, sou fã confesso de ficção científica e, claro, li muitos dos livros de Isaac Asimov, entre eles "Eu, Robô".

Uma das histórias do livro relata um episódio em que um robô (QT1) desenvolve um culto, ocasionando um conflito com os humanos, até que estes percebem que as crenças do robô, ainda que erradas, lhe permitiam cumprir sua tarefa melhor do que qualquer programação poderia conseguir.


Essa é minha percepção de boa parte do governo Lula (do qual participei de 2003 a 2006). Quaisquer que fossem as crenças do mandatário, a verdade é que, por muito tempo, foi um governo que fez as coisas certas no plano econômico.

O BC desfrutou de enorme autonomia operacional, as contas fiscais foram aprimoradas, e reformas importantes, adotadas, em particular no mercado de crédito.


Mesmo na política social a administração Lula rendeu-se ao "neoliberalismo" do Bolsa Família depois do fracasso do Fome Zero, sofrendo, aliás, duras críticas por parte de economistas historicamente ligados ao PT.


Obviamente muita coisa descambou desde então, inicialmente de forma algo envergonhada, culminando com a "nova matriz macroeconômica", a verdadeira implantação das ideias econômicas do partido, que redundou em crescimento medíocre (na casa de 1,6% ao ano), inflação acima da meta (próxima a 6,5%), elevados desequilíbrios externos e uma forte redução no ritmo de crescimento da produtividade.


Agora, passada a eleição, a questão é saber se voltaremos à situação do conto, em que, apesar das crenças equivocadas, uma política econômica apropriada voltará a vigorar, ou se experimentaremos mais do mesmo.


Posto de outra forma, queremos saber se teremos um estelionato eleitoral, para escândalo de André Singer, que recentemente descobriu, ó, horror, que políticos mentem durante a campanha, ou se a aposta será dobrada, produzindo, conforme argumentei na semana passada, os mesmos resultados medíocres observados nos últimos quatro anos, se não coisa ainda pior.


Muito embora a decisão inesperada do BC de elevar a taxa de juros -contrária, a propósito, de sua sinalização nos últimos meses- possa sugerir estelionato eleitoral (perdão, correção de rumos), há dimensões em que a mudança é muito mais custosa, sugerindo tratar-se de caminho muito pouco provável.


De fato, nos primeiros nove meses deste ano, o setor público registrou deficit primário equivalente a 0,4% do PIB, segundo os números oficiais. Descontadas "pedaladas", criatividade contábil e demais estripulias, o deficit no período deve andar na casa de 1% do PIB, tornando a promessa de início do ano (superavit de 1,9% do PIB) não mais que uma distante memória.


O tamanho do ajuste fiscal requerido para pôr a casa em ordem é praticamente sem precedentes. Precisaremos sair de um deficit primário (verdadeiro) ao redor de 1% do PIB para um superavit de 3,0% do PIB, de acordo com as contas de Marcos Lisboa. Em dinheiro, falamos de algo na casa de R$ 200 bilhões.


É inviável atingir tal melhora em apenas um ano. Trata-se, na melhor das hipóteses, de um programa de ajuste para ser realizado em três anos, contra um pano de fundo de uma administração que não apenas se mostrou incapaz de atingir suas metas mas que também deliberadamente produziu a maior deterioração fiscal de que se tem notícia no país nos últimos 20 anos.


O governo não terá, portanto, o benefício da dúvida. Pelo contrário, terá que apertar muito para convencer o distinto público de sua firmeza de intenções, o que destruiria até as perspectivas de crescimento pífio de 1% em 2015, hoje consensuais, com reflexos negativos sobre o desemprego.


Desconfio, e estou longe de estar sozinho, de que a presidente não há de apreciar sua única conquista econômica se esfumaçando no rastro do ajuste fiscal, mesmo necessário.


A conta da campanha chegou e duvido de que o governo esteja disposto a pagá-la.



Enviado do meu iPhone

Desconstrução secreta - Carlos Alberto Sardenberg Jornal O Globo

Desconstrução secreta - Jornal O Globo


Você tem um posto e vai fazer a compra habitual de gasolina e diesel, na refinaria da Petrobras. Quando checa a nota fiscal — epa! o preço subiu? — pergunta ao funcionário da estatal.

Ele: "Estamos praticando esse preço".

"Percebi, mas aumentou quando e quanto?"

"Não anunciamos, só praticamos".

Você ainda não perdeu a paciência e observa:

"Cara, se eu fizer a conta, eu descubro de quanto foi o aumento. Por que você não me diz logo?"

"Porque nossa presidente disse que não se anuncia".

Essa conversa termina aí, mas haverá outras, que vão se modificando conforme, digamos, a interpretação dos envolvidos.

No posto de gasolina, o motorista manifesta a mesma surpresa: "Que preço é esse?"

O frentista: "É esse mesmo e é melhor você não perguntar muito". E, sussurrando: "Parece que o aumento é secreto".

"Nossa! Mas ainda pode pagar com cartão?"

Próximo ambiente: uma corretora de Nova York, com o operador encarregado dos papéis da Petrobras falando com o colega no Brasil:

"Afinal, o preço do combustível sobe ou não por aí?"

Pausa para o leitor: a Petrobras, durante meses, foi obrigada pelo governo a vender o combustível por um preço inferior ao que pagava lá fora. De janeiro de 2011 até aqui, estima-se que tenha acumulado um prejuízo de mais de R$ 60 bilhões com isso. Objetivo do governo: segurar a inflação brasileira. Consequência óbvia, desequilíbrio financeiro da estatal, desvalorização das ações.

Volta à conversa da corretora. O operador brasileiro: "Olha, o preço vai aumentar, se já não aumentou, mas não se sabe de quanto".

O colega americano: "Um aumento secreto? Mas é uma empresa pública, com investidores no mundo todo".

O brasileiro, meio chateado: "Pois é, é o me perguntam os clientes brasileiros".

"E aí, o que a gente faz? Vende ou compra?"

O brasileiro, se divertindo: "Isso também não se anuncia, se pratica".

"What?"

"Deixa pra lá".

Eis a situação a que está exposta a Petrobras, uma das maiores companhias do mundo. Depois de dez horas de reunião, em dois dias, para aprovar o balancete do terceiro trimestre e o aumento de preços, tudo que disse a presidente da companhia, Graça Foster, foi aquele achado: "Aumento não se anuncia, se pratica".

Talvez quisesse dizer que não se anuncia antecipadamente. Sabe como é, se todo mundo sabe que a gasolina vai subir daqui a três dias, os postos ficarão congestionados. O problema é que Graça Foster vem dizendo há meses que a empresa precisa aumentar o preço de venda do combustível. E deixa claro que não faz isso porque o governo, dono da Petrobras, não autoriza.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, é também o presidente do Conselho de Administração da estatal, órgão, aliás, que deve aprovar balanço e tarifas. Mantega ora diz que preço é problema da Petrobras, ora que é do Conselho no qual ele manda. De fato, o governo tem sete membros num Conselho de dez integrantes.

Foi esse Conselho que fez aquela longa reunião, terminada na última terça, sem comunicação ao público.

Há um outro problema, talvez mais grave, o do balanço, auditado pela PwC, empresa internacional, que obviamente está preocupada com a repercussão das denúncias feitas em delação premiada pelo ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa.

Se o que ele falou for verdade, então a Petrobras foi assaltada por anos a fio, sem que os controles internos (havia?) e a auditoria externa percebessem. Constrangedor, não é mesmo? Uma grande empresa de auditoria, a Arthur Andersen, acabou por não ter percebido as falcatruas da Enron, multinacional americana.

Até aqui, o resultado dessa complexa situação foi o pedido de licença, por exatos 31 dias, do presidente da Transpetro, Sérgio Machado. A Transpetro é a maior subsidiária da Petrobrás — compra navios, por exemplo. Costa afirma ter recebido propina de R$ 500 mil reais das mãos de Machado. Este, indicado para o posto na chamada cota pessoal do senador Renan Calheiros, nega tudo.

A licença foi um modo de contornar a situação. Fora, ele não assina o balanço que tanto preocupa os auditores da Pwc. Seria o suficiente para eles?

A presidente Dilma disse, na sua campanha, que a oposição pretendia acabar com a Petrobras. Como está em curso um processo de desconstrução das mensagens de campanha, será que a presidente resolveu, digamos, assumir essa tarefa?

Não, sem sentido.

Mas que há uma desconstrução, ao menos parcial, isso não se discute. A alta da taxa básica de juros, decretada pelo Banco Central três dias após a eleição, foi o primeiro passo. O aumento da gasolina e do diesel seria o segundo.

O terceiro, uma faxina — lembram-se? — na Petrobras. O quarto, a nomeação de um ministro da Fazenda amigável ao mercado. O quinto, um forte ajuste das contas públicas, com corte de gastos e/ou aumento de impostos.

E se for mesmo por aí — há dúvidas razoáveis — tanto os eleitores de Dilma quanto os de Aécio poderão se perguntar: a gente votou em quem mesmo?

E correm o risco de ouvir: desconstrução não se anuncia, se pratica.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista



Enviado do meu iPad

quarta-feira, novembro 05, 2014

Uma carta de Moneygrand Roberto Damatta

Um problema crítico da democracia é verificar quando e em que circunstâncias a desigualdade vira diversidade

Isso não é crônica. É um pedido de desculpas ao meu querido amigo e ex-mentor, Richard Moneygrand. Na semana passada fiz o imperdoável: misturei minha reação à derrota do meu candidato com um e-mail do professor Moneygrand falando de um doloroso divórcio.
Recebi três mensagens de Moneygrand. Na primeira eu era chamado de “boquirroto” e “indiscreto”. Na outra, ele me perdoava, pois, como todo mundo que escreve, Dick é um fascinado com as ironias da vida. Nesta mensagem ele diz que cronistas, comentaristas, escritores e poetas vivem da rapina e da traição. Trair, roubar ideias e mentir era o nosso fado. Se nós tentamos trair a morte, como não trairmos nós mesmos e os nossos melhores amigos?
Na terceira mensagem, Richard Moneygrand se encarna como professor e faz um longo comentário sobre o nosso momento pós-eleitoral. Nele, ele teoriza sobre a passagem da desigualdade para a diversidade: da diferença quantitativa e supostamente gradual nas teorias do capitalismo individualista para as oposições irreparáveis como as existentes entre um pássaro e um peixe. Como são mensagens longas, transcrevo o que assumo ser o mais importante — e, por isso, a crônica vai em duas partes.
Em paralelo, Moneygrand fala (mais e melhor do que o que li) da singularidade de nossa crise atual. Ela é única justamente porque, paradoxalmente, elegeu a pessoa e o partido que vão agravá-la. Deste modo, nossa eleição não teve o papel de resolver problemas, como dizem os ingênuos liberais, mas de agravá-lo.
Eis o que diz:
“O Brasil virou pelo avesso. O vosso momento carnaval-eleitoreiro foi satisfatório. O anormal é a crise pós-eleitoral. Hoje, o partido que tem mais problemas é o vencedor, perdido na vitória e nos meandros insondáveis da personalidade da presidenta que não faz o que diz e faz o que não diz. O PSDB derrotado, que dizem não ser um partido mas uma escola de pós-graduação, pode encontrar um caminho. Algo impensável após uma eleição na qual estavam em jogo não apenas projetos de governo e visões de mundo (uma mais para o lado do Estado; outra para o lado da sociedade; uma para a mediação da vida pelo partido como um instrumento de totalização do mundo; outra para uma mediação mais individual, pelo jogo do mercado não mais autorregulado, como dizia Karl Polanyi, mas controlado por agências reguladoras teoricamente extramundanas). Isso para não falar da oposição entre um homem jovem e nascido em palácio; e uma mulher de meia-idade construída carismaticamente, mas feita do barro autoritário e duro das utopias políticas e dos seus substitutos na América Latina: as tecnoburocracias estatizantes.
Os debates tiveram o tom de disputas futebolísticas e a vitória foi com uma margem pequena. Tão curta que não justificou euforia ou arrogância. Aliás, quase ocorreu um empate normal no futebol, mas que levaria os vossos tribunais eleitorais — afinal vocês têm polícias, leis e juízes para todas as esferas da vida — a travar debates intermináveis dentro do quadro jurídico-teológico aprendido em Coimbra pelos vossos ilustres magistrados.
Mas quero ir além disso. A eleição pelo voto individual sempre foi um mecanismo de resolução de diferenças. Um mecanismo que, entre brasileiros, é usado como último recurso. Vocês amam dar opinião, mas detestam votar em aberto, dizendo francamente o que pensam. Faz parte do vosso sistema hierarquizado, que leva a conciliações, favores e inocências culpadas, esconder o voto. Em muitas sociedades tribais, baseadas no parentesco e não na burocracia (ou no Estado), o processo de disputa aberto é inibido, como viram alguns dos seus antigos colegas ingleses, como E. E. Evans-Pritchard e Meyer Fortes. Ele geralmente resulta numa fissão, porque a diferença tornava-se diversidade; em quando um clã ou uma facção política não chegava a um acordo elas ampliavam suas desigualdades e o "voto" era a divisão ou a explosão do grupo em segmentos que formavam outras aldeias. O processo foi estudado por você no livro “Um mundo dividido”, que eu admirei, justamente porque descrevia o sistema político de uma sociedade tribal. Resumo da ópera: em sistemas sem escrita e voto individual, as diferenças se transformam em diversidade. Aquilo que seria opinião torna-se algo insuperável e o ressentimento vira vingança, ódio e, eventualmente, supremacia étnica.
Dá para entender o que digo? Um problema crítico da democracia é verificar quando e em que circunstâncias a desigualdade vira diversidade. Não é isso que diz o livro “Capital”, de Piketty, o best-seller menos lido do mundo?”
Roberto DaMatta é antropólogo
Leia todas as colunas...

O Supremo e o bolivarianismo Elio Gaspari

O ministro Gilmar Mendes ergueu um fantasma para mutilar o poder de uma presidente que acaba de ser reeleita

Com sua retórica apocalíptica, o ministro Gilmar Mendes disse ao repórter Valdo Cruz que “é importante que (o Supremo Tribunal Federal) não se converta numa corte bolivariana”. “Isso tem de ser avisado e denunciado". A advertência está relacionada com a eleição de Dilma Rousseff e sua atribuição constitucional de nomear cinco novos ministros para o Supremo Tribunal Federal durante seu mandato. Pelo andar da carruagem, depois de julho de 2016, quando o ministro Marco Aurélio de Mello completar 70 anos, todos os onze juízes do Supremo terão sido nomeados por presidentes petistas.
Para que faça sentido o risco do tribunal “bolivariano” temido por Gilmar Mendes seria necessário admitir que as nomeações de Lula e da doutora Dilma tenham seguido uma linha partidária. Nesse caso, Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski teriam algo em comum. Noutra dimensão, haveria semelhanças entre o inescrutável Teori Zavascki e Dias Toffoli. Em doze anos, o comissariado preencheu as vagas do Supremo na marca da média da moral vigente, não foi melhor nem pior que seus antecessores.
Não se deve esquecer que se hoje o Supremo tem sete ministros indicados por presidentes petistas (mais uma vaga a ser preenchida pela doutora), isso se deve ao fato de que dois juízes nomeados durante o tucanato abandonaram aquele local de trabalho. Nelson Jobim saiu em 2006, dez anos antes da aposentadoria compulsória, e Ellen Gracie foi-se embora em 2011, doze anos antes.
A tentativa de mutilação dos poderes constitucionais da Presidência está associada à ressurreição utilitária do projeto de emenda constitucional que estende para 75 anos a idade limite dos ministros. Assim, se Celso de Mello, Gilmar Mendes e Marco Aurélio quisessem permanecer no tribunal, bloqueariam três indicações de Dilma. A extensão da idade para a compulsória pode ser uma boa ideia. Empurrá-la agitando o fantasma bolivariano, além de contaminá-la, prejulga a conduta de outro poder da República. Coisa normal num palanque, não num tribunal.
Para ficar na inspiração venezuelana, sabe-se bem o que é chavismo, mas em 2002 sua oposição meteu-se num ridículo golpe militar, dissolveu o Congresso e o Judiciário, perdeu a parada e fugiu. O Brasil não é uma Venezuela, não tem nem precisa de chavismo, muito menos desse tipo de oposição.
Já houve tempo em que o Executivo desconfiava do Judiciário. Para mudar a cabeça do Supremo, seu número de cadeiras foi elevado para dezesseis. Não deu certo e acabou-se fazendo um expurgo na Corte, com duas cassações e duas renúncias. Coisas de uma ditadura que tinha horror a eleições diretas.
Como há fortes argumentos a favor da extensão da compulsória, tudo poderia ser resolvido sem a mutilação dos poderes presidenciais. Basta que a emenda constitucional estabeleça que a regra só valerá para os juízes nomeados depois da sua aprovação. Ou seja, Celso de Mello, Gilmar, Marco Aurélio e os demais ministros que lá estão saem do tribunal quando completarem 70 anos.
Faltaram 3,5 milhões de votos para desempregar a doutora Dilma. Associar uma derrota eleitoral ao fim do mundo só serve para atrapalhar a vida de quem constrói infernos particulares.
Elio Gaspari é jornalista
Leia todas as colunas...

Lobão: “Minha participação nas manifestações é a de um cidadão indignado como qualquer outro brasileiro” | Felipe Moura Brasil - VEJA.com

Lobão: "Minha participação nas manifestações é a de um cidadão indignado como qualquer outro brasileiro" | Felipe Moura Brasil - VEJA.com

http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/2014/11/03/lobao-minha-participacao-nas-manifestacoes-e-a-de-um-cidadao-indignado-como-qualquer-outro-brasileiro/


O músico e escritor Lobão participou do protesto anti-PT neste sábado (1) em São Paulo e postou nesta segunda-feira no Facebook uma nota de esclarecimento sobre sua manifestação "contra a atuação lamentável do PT, sua militância fanática e violenta, suas falcatruas astronômicas… e sua evidente postura de impor ao país um regime totalitário". Lobão diz que se sente na obrigação de se posicionar contra o partido para o qual fez campanha de 1989 a 2002: "O meu histórico só fortalece a minha postura, pois estive lá dentro e sei do que estou falando."

Veja abaixo a nota completa. Nos próximos posts, voltarei ao assunto dos protestos deste fim de semana, o primeiro depois de meses em que descansei um pouco do blog.
Quero deixar bem claro, pela enésima vez, através desta pequena carta, a minha postura em relação ao que vem acontecendo no país:
Em primeiro lugar, é necessário sublinhar que não faço parte de nenhuma liderança política. Sou um músico que ama seu ofício e minha participação nas manifestações é a de um cidadão indignado como qualquer outro brasileiro.
Em segundo lugar, vale a pena lembrar que nunca, jamais em tempo algum, apoiei uma ditadura e sempre disse e continuo a insistir que qualquer ditadura é injustificável.
Partindo desse princípio, não haveria a menor possibilidade de ter o meu nome associado a golpe militar, intervenção militar ou coisa que o valha. Isso é uma forma tão cretina de reagir como ainda acreditar que Cuba é uma vítima dos EUA e que é "cool" sair por aí impunemente de camiseta de Che Guevara.
Quem apoia uma ditadura não tem condição moral de ir contra nenhuma outra.
Em terceiro lugar, jamais concordei com a ideia de separatismo; amo meu país de Norte a Sul e todos os meus irmãos. É um absurdo querer apontar uma região como responsável pelo naufrágio político, social, moral e econômico em que nos encontramos.
Venho me manifestando veementemente contra a atuação lamentável do PT, sua militância fanática e violenta, suas falcatruas astronômicas, já impossíveis de se camuflar e sua evidente postura de impor ao país um regime totalitário.
Se uma democracia vive de seus três poderes independentes, então já não vivemos numa democracia há muito tempo.
Se o Estado brasileiro deve ser soberano em suas ações, é evidente que não mais possuímos essas soberania. Temos um governo atrelado ao Foro de São Paulo.
Seria muita ingenuidade nós olharmos ao redor, na América do Sul, e não percebermos o que estamos passando.
Acredito que todo brasileiro que tem o mínimo de vergonha na cara e o mínimo de informação está completamente indignado com essa presença inóspita e sombria a nos impor suas doutrinas com cinismo e mentiras.
A imprensa oficial, com rarísimas exceções, está completamente à mercê do governo e tudo ali é filtrado e deturpado.
Portanto, o que acredito que temos de fazer é insistir na recontagem dos votos, não nos acomodarmos com um resultado imposto goela abaixo, pois quando há indícios inúmeros de fraude, é legítimo exigirmos transparência.
Se somos obrigados a votar, temos o direito de saber o que acontece com os nossos votos.
Esconder isso da gente nos aponta uma vez mais para um regime ditatorial.
Assim acontece na Venezuela, na Bolívia, no Equador e em todos os países fiiados ao Foro de SP.
E se é inconstitucional um governo ser subalterno a uma instituição internacional, o PT não tem condições de governar o país.
Se é inconstitucional enviar dinheiro para o exterior sem consultar o Congresso Nacional, a presidente da República não tem condições de governar esse país.
O Brasil merece se desenvolver, se tornar uma grande nação, seu povo merece viver uma prosperidade que nunca experimentou, ser unido e não viver refém de um ódio plantado por um partido que, para governar, precisa dividir.
E para sacramentar um assunto mais que adormecido, aos que cobram a minha partida do Brasil por supostamente acharem que assim o prometi, é bom lembrar que ainda estando numa democracia, tenho pleno direito de ir e vir, trocar de opinião e manifestá-la quando quiser. E é bom se acostumarem a essa realidade.
Como pessoa pública, sinto-me na obrigação de me posicionar de maneira enfática por ter acreditado nesse partido e feito companha de 1989 a 2002 para elegê-lo.
E, ao contrário do que a militância petista quer acreditar, o meu histórico só fortalece a minha postura, pois estive lá dentro e sei do que estou falando.
Continuarei a lutar por meus direitos, pela liberdade e pela democracia sempre no campo da legalidade.
Que isso fique bem claro de uma vez por todas!
E vamos todos juntos por um Brasil livre que a hora é essa!
Lobão
Felipe Moura Brasil ⎯ http://www.veja.com/felipemourabrasil
Siga no Facebook e no Twitter. Curta e acompanhe também a nova Fan Page.


Enviado do meu iPad

Aécio é cercado por admiradores no aeroporto, no avião e no Congresso

Rota 2014 - Blog do José Tomaz: Aécio é cercado por admiradores no aeroporto, no avião e no Congresso
Aécio é cercado por admiradores no aeroporto, no avião e no Congresso

Veja

Tucano abandonou o jatinho de campanha e optou por um voo comercial para retomar o posto em Brasília


Entre muitas selfies, Aécio volta a Brasília para trabalhos no Congresso - Ailton de Freitas / O Globo


A merendeira Janete Pereira Gonçalves, que embarcou nesta terça-feira no voo JJ 3026, do Rio para Brasília, foi um dos passageiros que se surpreendeu com a presença de Aécio Neves no avião. O senador tucano deixou para trás o jatinho de campanha e optou por um vôo comercial para retomar o posto no Senado, em Brasília.


— No ônibus que nos levou até o avião, olhei para ele, que sorriu e me cumprimentou. Aí eu vi que era o Aécio ali pertinho de mim. Eu fiquei doida para tirar uma foto mas não sabia tirar com o celular. Não tinha nem um pedacinho de papel para ele mandar um autógrafo ou um bilhetinho para o meu neto que é doido por ele. Então eu liguei para o meu neto e disse: o Aécio está aqui no avião comigo! Eu só não abracei ele porque não ficaria bem para uma velha de 63 anos, deu vergonha - disse Janete, que viajou a Brasília para passar férias com o neto.


O embarque no Santos Dumont foi tumultuado já no balcão, quando as atendentes largaram seus postos para selfies com Aécio.


— Quase perdi o avião. Sempre viajo sozinho fora da campanha, de voo comercial. Desta vez foi uma loucura - disse Aécio, surpreso com o assédio .


— O Aécio virou um popstar. Vai ter que ter uma baita paciência, não teve um minuto de sossego - contou o deputado Paulo Feijó (PR-RJ), que estava no mesmo voo.


No desembarque em Brasília, Aécio foi novamente abordado:


— Eu votei no senhor — disse um garoto já preparando a selfie.


— Pois é, rapaz. Quase deu, né? - respondeu Aécio.


Uma senhora o abraçou e falou:


— Deixa eu pegar na sua mão, e da próxima vez eu vou pegar na mão do senhor como presidente.


Na chegada ao Senado, o tucano foi novamente cercado. Uma garota de 16 anos o agarrou e chorava sem parar. Devido ao tumulto, Aécio adiou para esta quarta-feira o pronunciamento que faria na véspera na tribuna.


Arquivo do blog