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sexta-feira, agosto 28, 2015

José Serra Quando a queda do governo é a solução.

ESTADÃO 

27/08/2015 | 

O atual governo cumpriu apenas um sexto do mandato, mas se dependesse da opinião da maioria dos brasileiros já deveria ter chegado ao fim. As pessoas sentem que essa é uma condição necessária para desatar o novelo das crises econômica, social, política e moral, que se entrelaçam de forma perversa.

Acontece que o sistema brasileiro é presidencialista: o chefe do governo, eleito por quatro anos, não pode ser removido do cargo antes do tempo, mesmo que se tenha revelado incompetente e/ou traído seus compromissos de campanha.

No presidencialismo a interrupção de mandato exige outros motivos, como crimes comuns ou de responsabilidade, num processo arrastado e penoso.

Fosse vigente o parlamentarismo, o atual governo já teria sido obrigado a renunciar, sem traumas maiores – bastariam as derrotas sofridas no Congresso e a rejeição da opinião pública. Nesse sistema existe, sim, o cargo de presidente da República, mas ele é o chefe de Estado e representa a nação. Não define as prioridades nacionais nem governa o país no dia a dia. Quem faz isso é primeiro-ministro, nomeado pelo presidente e apoiado pela maioria do Congresso. Ele é o chefe do governo: elabora seu plano de ação e preside o gabinete de ministros.

Se aquela maioria se desfizer, numa espécie de voto de desconfiança no governo, o gabinete de ministros vai embora.

O primeiro-ministro renunciante pode até pedir ao presidente que convoque novas eleições parlamentares, cujo resultado ou lhe devolve a maioria ou o levará a se demitir de uma vez. 

É o que está acontecendo na Grécia, onde Alex Tsipras, o primeiro-ministro, perdeu o apoio da ala esquerda do seu partido, renunciou e pediu ao presidente a dissolução da Câmara de Deputados e a convocação de nova eleição. Os deputados não querem isso, pois muitos temem não ser reeleitos. Por isso mesmo os partidos estão procurando compor outra maioria que dê sustentação a novo governo, baseado no entendimento sobre o que fazer para enfrentar a crise econômica.

Se der certo, haverá novo primeiro-ministro. Se não, as eleições serão inevitáveis e Tsipras pode até voltar fortalecido, caso seus atuais apoiadores cresçam nas urnas. Seu nome, hoje, é bem visto por mais de 60% dos gregos.

Como disse a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, em recente visita ao Brasil, "no parlamentarismo, a renúncia não é um componente da crise. A renúncia é a solução". 

O parlamentarismo, de fato, permite absorver melhor mudanças de governo e de políticas. Mas há objeções a esse sistema: a mais comum, e nem por isso menos equivocada, parte da ideia de que o Legislativo passaria a ser excessivamente forte. Nada mais falso. O Congresso, no presidencialismo brasileiro, já tem imensos poderes – derruba vetos, rejeita medidas provisórias, aprova bombas fiscais, emendas à Constituição, faz CPIs e até destitui presidentes, como no caso Fernando Collor. No parlamentarismo o Congresso é obrigado a assumir mais responsabilidades e a ter mais responsabilidade.

Não dá para uma maioria integrar o governo e, ao mesmo tempo, votar contra projetos essenciais do Executivo – ou, então, aprovar outros que contrariem o programa do primeiro-ministro. Se o fizer, o governo se liquefaz, dando lugar a outro tipo de coalizão parlamentar, sem falar da possibilidade de serem convocadas novas eleições.

Na Constituinte, o sistema parlamentarista só não foi aprovado por causa de um grande equívoco das forças que o defendiam. O então presidente José Sarney (1985-1989) dispôs-se a apoiá-lo, mas, em troca, pretendia exercer o seu mandato durante cinco anos, e não quatro, como queriam os parlamentaristas.

Por incrível que pareça, aquelas forças, que eu integrava – juntamente com Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, José Richa, Roberto Freire e tantos outros –, recusaram o acordo, insistindo nos quatro anos.

Armou-se o confronto e os partidários de Sarney organizaram a derrota do projeto, agregando os constituintes que seguiam a liderança dos presidencialistas Orestes Quércia, então governador de São Paulo (PMDB), Marco Maciel, guru do PFL, e Leonel Brizola, líder do PDT e com grande influência nos eleitorados do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro.

A defesa do parlamentarismo foi um dos primeiros fatores da criação do PSDB, surgido de uma dissensão do PMDB, no fim da Constituinte. Todos os fundadores, sem exceção, batalhavam pela implantação do sistema. Por isso mesmo hoje me sinto confortável ao defender no meu partido a retomada da bandeira parlamentarista, não apenas como fidelidade às nossas origens, mas pela estabilidade e pela governabilidade do País. 

Que fique bem claro: não estou propondo a introdução do sistema parlamentarista como remendo destinado a resolver a atual crise política, tampouco para empurrá-la com a barriga. Ambas as coisas foram feitas na crise que sucedeu à renúncia de Jânio Quadros, aos sete meses de mandato, em 1961. Os militares opuseram-se à posse do vice-presidente João Goulart, que viajava pelo exterior. Mas aceitaram que Jango assumisse o cargo se fosse aprovado o parlamentarismo. Dito e feito! Mas o resultado foi desastroso, pois, ao invés de fortalecer o novo sistema, Goulart empenhou-se na sua derrubada, que ocorreu 16 meses depois.

A ideia é que, nos próximos anos, preparemos a implantação do sistema nas eleições de 2018, para vigorar a partir de 2019. Não é pouca coisa: debater no Congresso e na sociedade, negociar com os diferentes partidos, encontrar o formato mais adequado ao Brasil e preparar as emendas e leis necessárias, incluindo a da profissionalização da direção dos órgão públicos, um corolário natural do parlamentarismo. Paralelamente, estudar as condições do referendo que provavelmente será necessário.

Angela Merkel está certa: precisamos de um sistema em que a queda de um governo pode ser a solução, não o problema.

*José Serra é senador (PSDB-SP)

sábado, agosto 15, 2015

Tristes trópicos - Cora Rónai

O Globo 13/8/15

"Chega! Que mundo é esse, eu me pergunto?", canta Gabriel o Pensador na melhor música de protesto dos últimos tempos. "Chega! Quero sorrir, mudar de assunto!" Quem não quer? Os dias estão lindos, o tempo está uma glória, as ruas estão enfeitadas pelas orquídeas que mais uma vez florescem nas árvores a que foram amarradas, as capivaras têm aparecido com regularidade. Mas a pobre da Lagoa fede e envenena os remadores que vêm de fora, a baía é um desastre ambiental, as praias estão imundas, os taxistas estão atacando os passageiros e motoristas do Uber, as universidades estão em greve, a violência está por toda a parte, os preços estão em alta, os salários e aposentadorias em baixa, há desemprego, há lojas fechadas, negócios falidos, planos cancelados.

A crise arreganha os dentes em cada esquina, e nós ainda somos obrigados a ouvir o Pezão, lamentando a chance perdida de despoluir as águas da cidade, que ele havia prometido entregar limpinhas para as Olimpíadas, e a "presidenta", lamentado o aumento das contas de luz, que às vésperas das eleições ela reduziu com o ar triunfante de quem fez um ótimo serviço. Lamentam, pois é, como se não tivessem nada a ver com isso; lamentam como se a culpa de nos encontrarmos nessa situação caótica e deprimente em que tudo está ruim ao mesmo tempo não lhes coubesse em boa parte, como se fossem duas inocentes vítimas do destino e da conjuntura internacional. Para piorar o que já estava péssimo, agora ainda temos o Renan Calheiros — o Renan Calheiros! — como fiador da República.

Chega!

Quero mudar de assunto, mas a crise sequestra a pauta e não há outra conversa: no trabalho, em família, entre amigos, na fila do banco (sobretudo na fila do banco), na condução, na fila do supermercado (sobretudo na fila do supermercado), no salão, na porta da escola.

Chega!

______

Sou só eu, ou vocês também ficam bestas com as quantias que estão vindo à tona na Lava-Jato? Cada rato que faz acordo de delação premiada se compromete a devolver cinquenta milhões, setenta milhões, cem milhões. Vai dizer que ninguém viu isso, que ninguém sabia disso? A quem eles pensam que enganam? Casas reformadas por empreiteiras, apartamentos pagos por amigos, viagens em jatinhos para suítes de luxo nos grandes hotéis internacionais... Essa era a gente que queria mudar o mundo?

______

Um conhecido meu, americano, professor universitário, postou isso:

"Panelaço: amig@s brasileir@s: podem me explicar o panelaço ontem? Sem entrar no debate sobre o grau de culpabilidade da Dilma e/ou o PT pela crise atual, ela é a Presidenta eleita. Para mim uma fundação de qualquer democracia é a discussão, de ouvir e ser ouvido. Pode odiar, pode sentir náusea pelas palavras do seu adversário (até escutar para criticar depois) mas realmente não entendo um esforço coordenado para silenciar. Para mim, isso não alimentaria um país (estou dizendo um país e não 'um governo' de propósito) em crise. Alguém pode me explicar e/ou defender o panelaço? Fico assustado e confuso."

Achei o desafio interessante, sobretudo porque vários petistas já haviam oferecido a sua (previsível) interpretação. E respondi:

Já vi que sou uma voz dissonante entre os seus amigos; então o meu ponto de vista talvez contribua para a sua compreensão. Os governistas estão muito empenhados em fazer crer que o panelaço é obra de reacionários neo fascistas da classe média alta que estão descontentes porque não podem mais viajar para Miami, instigados pela mídia golpista. Preciso dizer como essa leitura é ofensiva a qualquer pessoa de bem? Um dos motivos de vivermos hoje num país tão polarizado e cheio de ódio é, justamente, essa recusa em aceitar o fato de que boa parte — se não a maior parte — da população está profundamente descontente com o governo: com a sua incompetência, a sua roubalheira e, last but not least, a sua arrogância. Nem todo mundo que bateu panela quer o impeachment da Dilma; muita gente apenas protesta, porque é o que lhe restou fazer. Ouvir o programa do PT é, para quem está até aqui com o governo, um insulto adicional: uma sucessão de mentiras que culminou com a ridicularização de panelaços anteriores. O panelaço é a recusa dessas mentiras, a forma de se dizer "Enchi disso!". O panelaço, por incrível que pareça, é uma forma de se fazer ouvir, uma forma de diálogo com um governo que tem, sistematicamente, ignorado o descontentamento da população.

______

O panelaço é, em última instância, uma tremenda vaia.

______

Tenho pena dos funcionários das empreiteiras atingidas pela Lava Jato, gente boa e capaz que não tem nada a ver com as maracutaias tramadas pelos seus dirigentes. Há poucos meses estive no Galeão vendo as obras de expansão do aeroporto, e fiquei muito impressionada com o cuidado e o entusiasmo de todos. Também tenho acompanhado as obras do metrô que estão sendo feitas em frente à minha casa, e apesar de sofrer com o barulho e com a poeira constantes, só tenho elogios à organização dos trabalhos.

Força aí, moçada! Não está fácil para ninguém.

Tristes trópicos - Cora Rónai

O Globo 13/8/15

"Chega! Que mundo é esse, eu me pergunto?", canta Gabriel o Pensador na melhor música de protesto dos últimos tempos. "Chega! Quero sorrir, mudar de assunto!" Quem não quer? Os dias estão lindos, o tempo está uma glória, as ruas estão enfeitadas pelas orquídeas que mais uma vez florescem nas árvores a que foram amarradas, as capivaras têm aparecido com regularidade. Mas a pobre da Lagoa fede e envenena os remadores que vêm de fora, a baía é um desastre ambiental, as praias estão imundas, os taxistas estão atacando os passageiros e motoristas do Uber, as universidades estão em greve, a violência está por toda a parte, os preços estão em alta, os salários e aposentadorias em baixa, há desemprego, há lojas fechadas, negócios falidos, planos cancelados.

A crise arreganha os dentes em cada esquina, e nós ainda somos obrigados a ouvir o Pezão, lamentando a chance perdida de despoluir as águas da cidade, que ele havia prometido entregar limpinhas para as Olimpíadas, e a "presidenta", lamentado o aumento das contas de luz, que às vésperas das eleições ela reduziu com o ar triunfante de quem fez um ótimo serviço. Lamentam, pois é, como se não tivessem nada a ver com isso; lamentam como se a culpa de nos encontrarmos nessa situação caótica e deprimente em que tudo está ruim ao mesmo tempo não lhes coubesse em boa parte, como se fossem duas inocentes vítimas do destino e da conjuntura internacional. Para piorar o que já estava péssimo, agora ainda temos o Renan Calheiros — o Renan Calheiros! — como fiador da República.

Chega!

Quero mudar de assunto, mas a crise sequestra a pauta e não há outra conversa: no trabalho, em família, entre amigos, na fila do banco (sobretudo na fila do banco), na condução, na fila do supermercado (sobretudo na fila do supermercado), no salão, na porta da escola.

Chega!

______

Sou só eu, ou vocês também ficam bestas com as quantias que estão vindo à tona na Lava-Jato? Cada rato que faz acordo de delação premiada se compromete a devolver cinquenta milhões, setenta milhões, cem milhões. Vai dizer que ninguém viu isso, que ninguém sabia disso? A quem eles pensam que enganam? Casas reformadas por empreiteiras, apartamentos pagos por amigos, viagens em jatinhos para suítes de luxo nos grandes hotéis internacionais... Essa era a gente que queria mudar o mundo?

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Um conhecido meu, americano, professor universitário, postou isso:

"Panelaço: amig@s brasileir@s: podem me explicar o panelaço ontem? Sem entrar no debate sobre o grau de culpabilidade da Dilma e/ou o PT pela crise atual, ela é a Presidenta eleita. Para mim uma fundação de qualquer democracia é a discussão, de ouvir e ser ouvido. Pode odiar, pode sentir náusea pelas palavras do seu adversário (até escutar para criticar depois) mas realmente não entendo um esforço coordenado para silenciar. Para mim, isso não alimentaria um país (estou dizendo um país e não 'um governo' de propósito) em crise. Alguém pode me explicar e/ou defender o panelaço? Fico assustado e confuso."

Achei o desafio interessante, sobretudo porque vários petistas já haviam oferecido a sua (previsível) interpretação. E respondi:

Já vi que sou uma voz dissonante entre os seus amigos; então o meu ponto de vista talvez contribua para a sua compreensão. Os governistas estão muito empenhados em fazer crer que o panelaço é obra de reacionários neo fascistas da classe média alta que estão descontentes porque não podem mais viajar para Miami, instigados pela mídia golpista. Preciso dizer como essa leitura é ofensiva a qualquer pessoa de bem? Um dos motivos de vivermos hoje num país tão polarizado e cheio de ódio é, justamente, essa recusa em aceitar o fato de que boa parte — se não a maior parte — da população está profundamente descontente com o governo: com a sua incompetência, a sua roubalheira e, last but not least, a sua arrogância. Nem todo mundo que bateu panela quer o impeachment da Dilma; muita gente apenas protesta, porque é o que lhe restou fazer. Ouvir o programa do PT é, para quem está até aqui com o governo, um insulto adicional: uma sucessão de mentiras que culminou com a ridicularização de panelaços anteriores. O panelaço é a recusa dessas mentiras, a forma de se dizer "Enchi disso!". O panelaço, por incrível que pareça, é uma forma de se fazer ouvir, uma forma de diálogo com um governo que tem, sistematicamente, ignorado o descontentamento da população.

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O panelaço é, em última instância, uma tremenda vaia.

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Tenho pena dos funcionários das empreiteiras atingidas pela Lava Jato, gente boa e capaz que não tem nada a ver com as maracutaias tramadas pelos seus dirigentes. Há poucos meses estive no Galeão vendo as obras de expansão do aeroporto, e fiquei muito impressionada com o cuidado e o entusiasmo de todos. Também tenho acompanhado as obras do metrô que estão sendo feitas em frente à minha casa, e apesar de sofrer com o barulho e com a poeira constantes, só tenho elogios à organização dos trabalhos.

Força aí, moçada! Não está fácil para ninguém.

domingo, julho 26, 2015

Quem não deve não teme ESTADÃO

Opinião


26/07/2015 | 03h00

O Planalto mandou espalhar que está preocupado com o impacto econômico da instalação de uma CPI para investigar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Pela lógica do governo, se o BNDES for submetido a esse constrangimento, terá de paralisar suas atividades e não será capaz de socorrer as empresas que sofreram grandes perdas em razão das investigações da Lava Jato, o que resultará em "demissões em massa". Mais uma vez, a presidente Dilma Rousseff apela para ameaças apocalípticas para justificar os critérios opacos do BNDES e das empreiteiras enroladas no petrolão.

Ao longo dos governos petistas, o BNDES concedeu vultosos benefícios a empresas selecionadas a dedo por Dilma e por seu padrinho, Lula, para liderar uma prometida revolução desenvolvimentista. As empreiteiras, generosas doadoras de recursos para campanhas eleitorais e também assíduas contratantes dos serviços do ex-presidente petista, encabeçam a lista de campeões em negócios bilionários, dentro e fora do País, em parceria com o BNDES.

Há muito que os contribuintes esperam conhecer melhor os critérios que nortearam o banco ao fazer essas operações, em especial com empresas gigantescas que teriam totais condições de obter empréstimos no mercado, sem depender de juros subsidiados e condições bastante confortáveis. Também querem saber o que levou o banco a financiar empreendimentos em países com escassa confiabilidade no mercado, como Cuba e Venezuela, que em condições normais deveriam pagar juros muito mais altos do que os oferecidos pelo BNDES. Tais demandas não deveriam tirar o sono de quem nada teme.

No entanto, o clima no Planalto é de apreensão. Em "conversas reservadas" convenientemente vazadas, Dilma e os ministros de sua coordenação política disseram temer que os efeitos de uma CPI do BNDES sobre a economia sejam piores do que os causados pela Operação Lava Jato. A chantagem é evidente: se o Congresso, a Justiça, o Ministério Público e a polícia continuarem a cumprir seu dever de investigar os escândalos que não param de crescer, e ainda por cima insistirem em querer saber como o BNDES toma suas decisões, o resultado será o desastre do País.

Os participantes dessas conversas palacianas relataram que o governo pretendia até mesmo criar uma linha de crédito especial do BNDES para socorrer as empresas envolvidas na Lava Jato e, assim, evitar demissões. Uma eventual CPI, mandou dizer o governo, abortará esse plano, com consequências nefastas para toda a sociedade.

Terrorismo econômico parece ser uma comprovada habilidade de Dilma. Depois de se reeleger afirmando que seus adversários pretendiam fazer um ajuste que tiraria a comida da mesa dos brasileiros, a presidente vincula seguidamente as investigações e procedimentos da Lava Jato à paralisia econômica que ora castiga o País. Trata-se de um evidente despropósito, cujos objetivos são mascarar a exclusiva responsabilidade de Dilma pelo desastre fiscal, graças à sua inaptidão administrativa, e justificar a manutenção das relações privilegiadas das empreiteiras com o Estado na era petista.

Competência inigualável e habilidade inexcedível, Dilma e seus auxiliares têm para inventar argumentos para escamotear a promiscuidade entre a administração pública, o partido da presidente, os sócios da "base aliada" e os empreiteiros, revelada em toda a sua inteireza pela Operação Lava Jato. Depois de dizer que punir as empresas envolvidas no petrolão significava "fechar as portas para o crescimento, o progresso e o emprego", Dilma agora quer fazer acreditar que obrigar o BNDES a explicar seus critérios ao Congresso é o mesmo que atentar contra a economia.

Enquanto isso, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, diz que "não há possibilidade de ingerência política no banco" e que uma CPI nada encontrará de anormal, pois se trata da instituição "mais transparente entre todos os bancos de desenvolvimento do mundo". Se é assim, ninguém no Planalto tem com o que se preocupar.

domingo, junho 28, 2015

Arminio Fraga.

O economista Armínio Fraga, em entrevista em seu escritório no Rio

Principal assessor econômico do candidato derrotado à Presidência Aécio Neves (PSDB), o economista Armínio Fraga diz que hoje o Brasil está morrendo de medo
de tudo: recessão, inflação, desemprego.

"A campanha foi um show de mentiras. Agora o custo é este: um país morrendo de medo", disse à Folha.

Na época, a presidente Dilma foi acusada de disseminar entre a população o medo de crise e arrocho se houvesse vitória da oposição.

Ele afirma que Dilma expõe o ministro Joaquim Levy (Fazenda) ao escalá-lo para discutir o ajuste fiscal com o Congresso.

"Mandaram o general para a linha de frente com uma espada na mão", comparou.

Para o economista, que presidiu o Banco Central no governo FHC e hoje é sócio da Gávea Investimentos, o governo deveria ter optado por uma meta de superavit primário (receitas menos despesas) menor neste ano. A seguir, trechos da entrevista.

*

Folha - A economia brasileira amargará 1,5% de recessão neste ano. O que está ocorrendo?
Armínio Fraga - O governo chutou o pau da barraca [do gasto público] nas eleições e agora paga a conta. Isso já tinha acontecido no início do primeiro mandato da presidente Dilma. A situação hoje é pior porque o país entrou muito torto na história. A evolução da dívida é assustadora, e a recessão morde firme. É possível ver isso na indústria, no setor imobiliário.

Hoje o quadro está sendo tratado de maneira mais razoável, mas ainda insuficiente. O ajuste fiscal não vai resolver tudo. É preciso cortar mais o gasto, que é rígido.

Os empresários reclamam que o governo cortou investimentos, mas não reduziu gastos. Qual é a sua opinião?
O ajuste fiscal requer um debate profundo sobre o tamanho do Estado. Não vou nem discutir qual é o tamanho do Estado ideal.

Alguns países deram certo com um Estado grande, como os escandinavos. Outros funcionam com um Estado menor, como os EUA. Só que o Estado precisa ser funcional e hoje temos um Estado meio capturado.

Sem essa discussão, o ajuste está sendo feito do jeito que dá. Algumas medidas são boas, mas há problemas. Surgiu essa história de acabar com o fator previdenciário [que desestimula a aposentadoria precoce], que considero uma loucura.

O PSDB votou contra o fator previdenciário. O que você acha da posição do partido?
Não falo pelo PSDB. Tenho simpatia pelo partido e gosto de trabalhar com o ex-presidente Fernando Henrique e com o Aécio.

O partido foi infeliz no tema do fator previdenciário, mas tem agido bem. O PSDB tem que ser o bastião de grandes ideias e princípios. Nessa confusão toda, não é fácil.

Qual é o efeito da crise política na economia?
A situação política é caótica. O país tem 32 partidos, 29 representados no Congresso e quase não existe discussão de programa de governo.

Há essa percepção de que a política está terceirizada para o PMDB, mas claramente o PT não está satisfeito. A oposição tenta se posicionar, mas ainda não engrenou o ritmo.

Por que o governo não faz reformas estruturais?
O Levy lida com muitas restrições, inclusive da chefe dele, que é responsável por tudo isso que está aí. É uma situação muito constrangedora.

Ele está muito exposto [negociando com o Congresso]. Mandaram o general para a linha de frente com uma espada na mão, algo que não se via há 500 anos. É da época de Alexandre, o Grande.

Na sua opinião, o governo deveria reduzir a meta de superavit primário?
O superavit de 1,2% do PIB foi planejado com estimativas muito otimistas para a economia. Desde o início, o governo deveria ter optado por uma meta menor no primeiro ano e mais ambiciosa nos dois anos seguintes. Agora, mexer na meta não é fácil.

Mas a arrecadação não está correspondendo às expectativas. Não é melhor assumir que não dá para cumprir a meta?
Não sei o que eles vão fazer. A minha opinião é que deveriam ter colocado uma meta menor neste ano e deixado claro qual é o pagamento das "pedaladas" passadas. Classificar direito o que é uma conta do passado e o que é um ajuste permanente.

O governo tem armas para combater a recessão?
A capacidade de reação do governo está prejudicada pela inflação alta e por um Orçamento muito precário.

Portanto, as ferramentas anticíclicas tradicionais não estão disponíveis em razão de uma herança que Dilma deixou para ela mesma.

É uma situação muito difícil, e quem vai pagar o pato, como sempre, é a população.

Até quando vai a recessão?
É preciso não confundir. Vivemos um ciclo de curto prazo provocado pelo aquecimento da economia antes das eleições e temos um problema de médio prazo.

Daqui a um ano ou um ano e meio, podemos até sair do ciclo de curto prazo, mas teremos questões estruturais.

Agora, se ficar claro que existem respostas para as questões estruturais, ajuda a quebrar o ciclo porque as empresas se animam a investir.

O governo está tentando estimular investimentos com o programa de concessões de infraestrutura.
Sim. Mas tem tido uma imensa dificuldade de executar os projetos. E vão utilizar esse dinheiro para vencer as contas do ano, enquanto deveriam abater dívidas.

Na campanha eleitoral, você foi criticado por dizer que o país entraria em recessão, e hoje isso se concretizou. Como você se sente?
Aquilo foi um grande teatro, um show de mentiras. O Aécio e o Fernando Henrique falaram isso o tempo todo. O custo é este: temos um país morrendo de medo.

Com medo de quê?
De tudo: recessão, desemprego, inflação. Não sou político, vivo de administrar o dinheiro dos meus clientes. Se for pessimista, estou acabado, mas tenho que ser realista. A situação não está boa.

As empresas estão demitindo. A situação vai piorar?
Infelizmente, acredito que não chegamos ao fundo do poço. Espero estar errado, mas analiticamente não estamos nem perto disso.

Havia um represamento de demissões em razão das incertezas que as eleições geram. Agora a situação ficou clara e as empresas demitem.

Esse ciclo, no entanto, ainda mal começou.

Qual é o impacto do aumento do desemprego?
As centrais sindicais, que sempre foram a base do PT, já estão reclamando. Existe uma briga no próprio governo. Pode gerar mais manifestações de ruas e mais dificuldades para aprovar o ajuste fiscal. Governar nesse contexto não é fácil.

O BC exagerou na alta de juros para atingir a meta de inflação de 4,5% no fim de 2016?
É uma meta muito ambiciosa. Dá para chegar a esse resultado em dois anos, mas vai exigir disciplina e um pouco de sorte. Talvez fosse mais fácil deixar para 2017.

O problema é que a inflação está acima da meta há bastante tempo, as contas públicas se deterioraram e o país ameaça perder a classificação de risco. Se o governo tivesse mais credibilidade, poderia ser mais gradual.

Arminio Fraga. Folha. 28/6

O economista Armínio Fraga, em entrevista em seu escritório no Rio

Principal assessor econômico do candidato derrotado à Presidência Aécio Neves (PSDB), o economista Armínio Fraga diz que hoje o Brasil está morrendo de medo
de tudo: recessão, inflação, desemprego.

"A campanha foi um show de mentiras. Agora o custo é este: um país morrendo de medo", disse à Folha.

Na época, a presidente Dilma foi acusada de disseminar entre a população o medo de crise e arrocho se houvesse vitória da oposição.

Ele afirma que Dilma expõe o ministro Joaquim Levy (Fazenda) ao escalá-lo para discutir o ajuste fiscal com o Congresso.

"Mandaram o general para a linha de frente com uma espada na mão", comparou.

Para o economista, que presidiu o Banco Central no governo FHC e hoje é sócio da Gávea Investimentos, o governo deveria ter optado por uma meta de superavit primário (receitas menos despesas) menor neste ano. A seguir, trechos da entrevista.

*

Folha - A economia brasileira amargará 1,5% de recessão neste ano. O que está ocorrendo?
Armínio Fraga - O governo chutou o pau da barraca [do gasto público] nas eleições e agora paga a conta. Isso já tinha acontecido no início do primeiro mandato da presidente Dilma. A situação hoje é pior porque o país entrou muito torto na história. A evolução da dívida é assustadora, e a recessão morde firme. É possível ver isso na indústria, no setor imobiliário.

Hoje o quadro está sendo tratado de maneira mais razoável, mas ainda insuficiente. O ajuste fiscal não vai resolver tudo. É preciso cortar mais o gasto, que é rígido.

Os empresários reclamam que o governo cortou investimentos, mas não reduziu gastos. Qual é a sua opinião?
O ajuste fiscal requer um debate profundo sobre o tamanho do Estado. Não vou nem discutir qual é o tamanho do Estado ideal.

Alguns países deram certo com um Estado grande, como os escandinavos. Outros funcionam com um Estado menor, como os EUA. Só que o Estado precisa ser funcional e hoje temos um Estado meio capturado.

Sem essa discussão, o ajuste está sendo feito do jeito que dá. Algumas medidas são boas, mas há problemas. Surgiu essa história de acabar com o fator previdenciário [que desestimula a aposentadoria precoce], que considero uma loucura.

O PSDB votou contra o fator previdenciário. O que você acha da posição do partido?
Não falo pelo PSDB. Tenho simpatia pelo partido e gosto de trabalhar com o ex-presidente Fernando Henrique e com o Aécio.

O partido foi infeliz no tema do fator previdenciário, mas tem agido bem. O PSDB tem que ser o bastião de grandes ideias e princípios. Nessa confusão toda, não é fácil.

Qual é o efeito da crise política na economia?
A situação política é caótica. O país tem 32 partidos, 29 representados no Congresso e quase não existe discussão de programa de governo.

Há essa percepção de que a política está terceirizada para o PMDB, mas claramente o PT não está satisfeito. A oposição tenta se posicionar, mas ainda não engrenou o ritmo.

Por que o governo não faz reformas estruturais?
O Levy lida com muitas restrições, inclusive da chefe dele, que é responsável por tudo isso que está aí. É uma situação muito constrangedora.

Ele está muito exposto [negociando com o Congresso]. Mandaram o general para a linha de frente com uma espada na mão, algo que não se via há 500 anos. É da época de Alexandre, o Grande.

Na sua opinião, o governo deveria reduzir a meta de superavit primário?
O superavit de 1,2% do PIB foi planejado com estimativas muito otimistas para a economia. Desde o início, o governo deveria ter optado por uma meta menor no primeiro ano e mais ambiciosa nos dois anos seguintes. Agora, mexer na meta não é fácil.

Mas a arrecadação não está correspondendo às expectativas. Não é melhor assumir que não dá para cumprir a meta?
Não sei o que eles vão fazer. A minha opinião é que deveriam ter colocado uma meta menor neste ano e deixado claro qual é o pagamento das "pedaladas" passadas. Classificar direito o que é uma conta do passado e o que é um ajuste permanente.

O governo tem armas para combater a recessão?
A capacidade de reação do governo está prejudicada pela inflação alta e por um Orçamento muito precário.

Portanto, as ferramentas anticíclicas tradicionais não estão disponíveis em razão de uma herança que Dilma deixou para ela mesma.

É uma situação muito difícil, e quem vai pagar o pato, como sempre, é a população.

Até quando vai a recessão?
É preciso não confundir. Vivemos um ciclo de curto prazo provocado pelo aquecimento da economia antes das eleições e temos um problema de médio prazo.

Daqui a um ano ou um ano e meio, podemos até sair do ciclo de curto prazo, mas teremos questões estruturais.

Agora, se ficar claro que existem respostas para as questões estruturais, ajuda a quebrar o ciclo porque as empresas se animam a investir.

O governo está tentando estimular investimentos com o programa de concessões de infraestrutura.
Sim. Mas tem tido uma imensa dificuldade de executar os projetos. E vão utilizar esse dinheiro para vencer as contas do ano, enquanto deveriam abater dívidas.

Na campanha eleitoral, você foi criticado por dizer que o país entraria em recessão, e hoje isso se concretizou. Como você se sente?
Aquilo foi um grande teatro, um show de mentiras. O Aécio e o Fernando Henrique falaram isso o tempo todo. O custo é este: temos um país morrendo de medo.

Com medo de quê?
De tudo: recessão, desemprego, inflação. Não sou político, vivo de administrar o dinheiro dos meus clientes. Se for pessimista, estou acabado, mas tenho que ser realista. A situação não está boa.

As empresas estão demitindo. A situação vai piorar?
Infelizmente, acredito que não chegamos ao fundo do poço. Espero estar errado, mas analiticamente não estamos nem perto disso.

Havia um represamento de demissões em razão das incertezas que as eleições geram. Agora a situação ficou clara e as empresas demitem.

Esse ciclo, no entanto, ainda mal começou.

Qual é o impacto do aumento do desemprego?
As centrais sindicais, que sempre foram a base do PT, já estão reclamando. Existe uma briga no próprio governo. Pode gerar mais manifestações de ruas e mais dificuldades para aprovar o ajuste fiscal. Governar nesse contexto não é fácil.

O BC exagerou na alta de juros para atingir a meta de inflação de 4,5% no fim de 2016?
É uma meta muito ambiciosa. Dá para chegar a esse resultado em dois anos, mas vai exigir disciplina e um pouco de sorte. Talvez fosse mais fácil deixar para 2017.

O problema é que a inflação está acima da meta há bastante tempo, as contas públicas se deterioraram e o país ameaça perder a classificação de risco. Se o governo tivesse mais credibilidade, poderia ser mais gradual.

quarta-feira, abril 01, 2015

O dia 12 e a memória das calçadas Elio Gaspari

O GLOBO
A rua marcou um novo encontro com a doutora Dilma para o domingo, 12 de abril. O 15 de março mostrou ao comissariado o tamanho da insatisfação popular e ele não entendeu nada. O grito geral condenava a roubalheira e recebeu um pastel de vento. Seguiram-se o "Chega de PT" e o "Fora Dilma". Quem sai de casa num domingo para gritar na rua merece respeito, seja qual for o seu grito. Isso não elimina o fato de que uma pessoa tenha gritado por uma coisa e, tempos depois, perceba que foi feita de boba. O único instrumento para se acabar com o PT é o voto em candidatos da oposição. "Chega de PT" ou "Fora Dilma" são palavras de ordem que deságuam numa proposta de impedimento da doutora. Ele seria possível sem o apoio do PMDB de Renan Calheiros, Eduardo Cunha e Michel Temer? Nem pensar. Se esse apoio viesse, como ficariam o petrocomissário Sérgio Machado e o inolvidável Fernando Baiano?
A memória das calçadas é cruel. Quem pintou a cara de verde e amarelo em 1992 tem doces lembranças das manifestações que defenestraram Fernando Collor. Um dos líderes desse movimento era o presidente da União Nacional dos Estudantes, Lindberg Farias. Militava no PCdoB, migrou para o PT, elegeu-se prefeito de Nova Iguaçu e senador. Hoje está de cara lavada na lista do procurador-geral Rodrigo Janot, pois o "amigo Paulinho" ajudava-o a captar recursos junto a empreiteiras da Petrobras. Mandar Collor para casa podia ser uma boa ideia, mas na agenda de Lindberg, do PCdoB e do PT havia outros interesses.
E quem vestiu uma camisa amarela e saiu por aí na campanha das Diretas de 1984? A ideia era excelente, mas a aprovação da emenda constitucional que restabelecia a eleição para presidente da República era uma impossibilidade aritmética. A agenda de Tancredo Neves era outra. Boa, porém outra. Graças às pessoas que saíram de camisa amarela, Tancredo construiu a conciliação que liquidou o consulado militar.
E quem foi à Passeata dos Cem Mil, em 1968? Um pedaço da avenida gritava "o povo unido jamais será vencido" e outro dizia que "o povo armado jamais será vencido". As agendas eram duas. Algumas centenas de pessoas que se julgavam a vanguarda da sociedade armaram-se e o povo dividido foi vencido.
Recuando-se um pouco mais, há 50 anos a esquerda foi para o Comício da Central, realizado diante do Ministério da Guerra, onde os blindados pareciam simbolizar o apoio militar ao presidente João Goulart. O gênio de Carlos Lacerda chamou a manifestação de "Comício das Lavadeiras", pois nele só havia "tanques e trouxas". Dias depois os tanques começaram a prender os trouxas. Em resposta ao Comício das Lavadeiras, realizou-se em São Paulo a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", com um forte componente religioso. Deposto Goulart, o ministro da Guerra, general Costa e Silva, disse que "a doutrina social da revolução coincide com a doutrina social da Igreja". Lorota. Começava ali a hostilidade da ditadura contra religiosos e seis anos depois o secretário-geral da CNBB, Dom Aloisio Lorscheider, foi detido por uma tropa do Exército. Nessa época, a esquerda divertia-se com um versinho: "Marcharam com Deus pela democracia? Agora chia... Agora chia."
Ir pra rua é sempre uma boa ideia, mas não custa se perguntar: Pra quê? Com quem?
Elio Gaspari é jornalista

ROBERTO DAMATTA Entre portas e pilotos

O ESTADO DE S PAULO
Ser obrigado a levar em conta o mundo diário para comentá-lo é um trabalho curioso. Muitas vezes, ocorrem coincidências. Os assuntos de uma crônica se rebatem nos da vida que, surpreendentemente, repete a seu modo o tema do comentário. Teriam os cronistas parentesco com os profetas?
Na semana passada, eu contei uma experiência pessoal de quase-morte num avião e, hoje, estamos às voltas com o malfadado voo da Germanwings, no qual o copiloto perturbado suicida-se e torna-se célebre por ter levado na sua morte com hora marcada 149 pessoas. Foi um suicídio egoísta clássico, como diria um pioneiro e mestre no assunto (Émile Durkheim), mas que teve um lado perverso, como ocorre com os assassinos que se imortalizam pela cruel disposição de se matarem matando dezenas de inocentes que nada tinham a ver com seus demônios, mas que a ele ficam ligados para sempre. No caso do jovem Andreas Lubitz, há uma ligação problemática, já que ele era profissional de uma máquina voadora, a qual raramente falha sem um empurrão do inesperado que existe em todos os seres humanos. Ademais, há a porta cuja fechadura era exclusiva de quem estava na cabine. A recusa a abrir portas, impedindo o comandante de entrar na cabine e assumir o seu papel, harmoniza-se com a infeliz decisão de espatifar o avião e, com ele, o mundo e todas as suas relações que lhe dão sentido, densidade e motivos para continuar vivendo, apesar dos absurdos da existência.
As caixas-pretas dos aviões são o nosso inconsciente tecnológico. Tal como mostrou Freud para a vida psíquica, elas registram tudo. Ouvindo as caixas-pretas, descobrimos o que a consciência não registra, seja porque não quer, seja porque não pode porque, se assim fizesse, não seríamos capazes de focar em coisa alguma e a vida seria impossível, como ocorre nos casos dos transtornos obsessivos e no autismo. Essas peças que, certamente, deleitariam o velho Freud, abrem um portal. Fechado na cabine, o copiloto impediu o retorno do comandante e, propositadamente, inibiu a relação com o líder, que, talvez, o impedisse de cometer o absurdo de um suicídio ligado à patologia da celebrização — essa morte individual que leva com ela os que estão em suas mãos.
A porta inexpugnável com chave ou senha tem um rico simbolismo. Dizem que no Céu há uma porta controlada por São Pedro. A senha, a chave e possibilidade de entrar ou sair, permite acumular, esconder ou dissipar tesouros. Os tesouros da troca e do amor que ajudam a viver e morrer.
Mas eis que as portas secretas marcam também o petrolão brasileiro, tornando-o, precisamente por isso, o maior escândalo da História do Brasil. Refiro-me ao controle remoto eletrônico do Sr. Renato Duque. Um aparelho que permitia abrir ou fechar, num clique mágico, um compartimento secreto situado dentro de um closet, situado dentro de um quarto, situado dentro de uma invejável cobertura de um bairro fino do Rio de Janeiro, os seus tesouros modernos. Tesouros no melhor estilo do Conde de Monte Cristo, obtidos, como manda o figurino das fábulas, em segredo e — quem sabe — com ajuda de algum oculto abade Farias?
Essas portas especiais que nos levam a salas secretas dentro de quartos ocultos, os quais estão escondidos em outros quartos, salas e palácios, lembram as bonecas russas e as caixas chinesas. É um não mais caber de fatos dentro de fatos, de pessoas dentro de pessoas, de cargos não honrados, englobados e bancados por outros cargos — todos vergonhosamente dissipados seja por ideologia, seja por incompetência, seja por um grau de onipotência pouco visto no caso do nosso aeroplano que tem voado em automático e, pelo visto, sem nenhum piloto, talvez porque o comandante tenha, ele próprio, se trancafiado na cabine.
Em suma, se é que isso tem suma: cai um avião na Europa e, na América do Sul, desmancham-se governos cujo símbolo são portas intransponíveis — as utopias. Cada qual com uma fechadura mais complicada que a outra. Suas chaves e senhas recusam o trabalho da aceitação dos limites que levam à responsabilidade de pilotar o que é sagrado, justamente porque é de todos.
A combinação de portas intransponíveis, fechaduras complicadas e chaves complexas (essas patologias) resulta — no caso dos aviões — em tragédia e sofrimento. Em países, o saldo é a ruína e a vergonha, porque o piloto não apenas sumiu, mas não parece ter a mínima noção da função daqueles "reloginhos" que são parte da cabine da nave que deveriam comandar. Mesmo porque, ela tem rumos que seus passageiros desconhecem.
PS: Desejo sucesso a Renato Janine Ribeiro, o novo ministro da Educação.
Roberto DaMatta é antropólogo

sexta-feira, março 20, 2015

José Paulo Kupfer A batalha do ‘grau de investimento’

o globo

Depois das manifestações contra o governo, ficou ainda mais complicado cumprir a meta fiscal prometida e garantir o aval das classificadoras de risco

É inevitável, pelo menos para os que acompanham há mais tempo as atribulações da economia brasileira, a associação das atuais visitas de analistas das grandes agências globais de classificação de riscos a autoridades econômicas com as passagens de missões do FMI pelos mesmos gabinetes, em tempos nem tão longínquos assim. A economia internacional mudou muito, nessa década e meia que separa os dois momentos, e a economia brasileira mudou ainda mais. Mas, como se vê pelo minueto agora dançado em Brasília, as desconfianças dos estrangeiros e os esforços nativos para agradar-lhes estão de volta.
Há, é claro, diferenças entre umas e outras — e estas não se restringem aos sóbrios terninhos e a pasta preta da chilena Ana Maria Jul, ou aos vestidos estampados de motivos florais berrantes da italiana Teresa Ter-Minassian, que chefiaram célebres missões do FMI, destinadas a arrancar das autoridades brasileiras severos e nunca cumpridos ajustes fiscais, em contraste com a invisibilidade das equipes das classificadoras de risco. A maior dessas diferenças reside no fato de que o Brasil, antes devedor contumaz, ostenta hoje posição de credor internacional.
No fundo, porém, as questões colocadas nas mesas de negociação são praticamente as mesmas. Se antes o que se discutia era um programa de ajuste que permitisse ao FMI sancionar empréstimos ao Brasil, hoje o que está em debate é se as metas do ajuste proposto pelo governo brasileiro serão efetivamente cumpridas, a ponto de permitir que as classificadoras de risco avalizem a segurança dos investimentos destinados à economia brasileira.
É fácil entender por que o aval das classificadoras de risco ganhou lugar de destaque na estratégia oficial de recuperação da confiança na eficácia da política econômica. Num mundo em que mercados operam com base em expectativas, antecipando fatos suscetíveis de confirmação posterior, a batalha do reequilíbrio da economia brasileira passa pela manutenção da classificação de “grau de investimento” para a nota dos títulos da dívida pública. Sem esse aval, muitos pressupõem dificuldades ainda maiores do que as já previstas para captar recursos no mercado internacional e fechar as contas externas.
Parte dos excessos altistas nas cotações do dólar, é verdade, corresponde à precificação de um fato — a perda do “grau de investimento” — que, sem dúvida, pode ocorrer, mas ainda não passa de hipótese, assim como não passa de hipótese a sucessão de consequências negativas previstas, caso a perda do “grau de investimento” se confirme. Os exageros atualmente observados nas taxas de câmbio nada mais são do que reflexo desse tipo de suposição.
Para evitar a perda do “grau de investimento”, o governo tem de convencer as classificadoras de que o ajuste fiscal prometido será cumprido e, com isso, a relação dívida pública/PIB permaneceria pelo menos estabilizada. Essa já não era uma tarefa das mais fáceis antes mesmo das manifestações de domingo contra o governo da presidente Dilma Rousseff. Projeções atualizadas indicam a obtenção, em 2015, de superávit fiscal primário de 0,7% do PIB a 0,9% do PIB ante uma meta de 1,2% do PIB (que, na verdade, corresponde a 1,8% do PIB, em vista do déficit de 0,6% do PIB, em 2014).
Depois da enorme onda de protesto que se espalhou pelo país, com epicentro em São Paulo, a coisa ficou ainda mais complicada. O tipo de ajuste fiscal possível, que combina corte de benefícios sociais e aumento de carga tributária, exige não só uma afinação que Executivo e Legislativo estão muito longe de oferecer, mas também um governo com índices de popularidade que a presidente Dilma, com seus historicamente baixos 13% de aprovação, não pode, no momento, nem sonhar em dispor.
José Paulo Kupfer é jornalista
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Causas e defeitos Nelson Motta

O Globo

De que adianta que eles não roubem, se dão mais prejuízos ao país do que os ladrões?

Deu até pena ver o ministro Miguel Rossetto, abatido e amarfanhado, na coletiva pós-manifestações, dizendo que as multidões que foram para as ruas não eram de eleitores de Dilma. Perguntar não ofende: os 62% que agora julgam o governo Dilma ruim ou péssimo são eleitores de Aécio? São 125 milhões de golpistas? Ou querem um “terceiro turno”?
Zé Dirceu diz que o lucro mensal de sua empresa, que faturou 29 milhões em oito anos, foi de míseros 65 mil reais, em média, e que 85% do faturamento foram gastos com o “pagamento de despesas operacionais e recolhimento de impostos”. Quanto o guerreiro doou ao PT? Quantos trabalhadores petistas, que lhe deram dinheiro para pagar a sua multa de 971 mil reais no mensalão, ele fez de otários?
Sibá Machado, líder do PT na Câmara, denuncia que a CIA está por trás de tudo de ruim que está acontecendo no país, que há um plano para desestabilizar a Venezuela, a Argentina e o Brasil. Mas quem tem Maduro, Cristina e Dilma (e Sibá) precisa de algum plano externo para arrasar seus países?
Um eventual impeachment só pioraria as coisas, dividindo ainda mais o Brasil, como Lula queria, quando achava que estava em vantagem. Não quero ver Dilma sangrando, quero que ela coma, se fortaleça e reaja, reconhecendo seus erros e chamando pessoas competentes e honestas, acima de partidos, para ajudá-la a sair da lama e do caos. O problema não é só a corrupção, como provam os estragos do economista marxista Arno Augustin, ícone dilmista da incompetência máxima. De que adianta não roubar, se eles dão mais prejuízos ao país do que os ladrões?
Quantas vezes o Brasil o viu num palanque gritando “é nóis contra eles”? Quem estimulou mais do que ele o clima de confronto e intolerância? Quem dividiu o país entre povo e elites? Quem jurou que o mensalão nunca existiu? Quem era o beneficiário final do esquemão da Petrobras? Quem inventou Dilma?
Triplicar a já colossal verba do fundo partidário é uma bofetada em cada um que contribui com seu trabalho para sustentar partidos e políticos capazes de propor uma coisa dessas, numa hora dessas. Até quando?
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quinta-feira, março 19, 2015

"Dilma pode terceirizar o governo. Não a Lava-Jato", por Carlos Alberto Sardenberg

Rota 2014 - Blog do José Tomaz: "Dilma pode terceirizar o governo. Não a Lava-Jato", por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Quando o ministro do Trabalho considera boa a notícia do fechamento de 2,4 mil empregos com carteira, não precisa dizer mais nada. Mas ele ainda disse que a crise não é extrema como se fala por aí.


Não é extrema porque o país não vai acabar, claro, mas, para o governo e para a presidente Dilma, é uma situação quase sem saída.


As 2,4 mil vagas foram fechadas em fevereiro, número assim qualificado:


— O resultado é bem pior do que esperavam os analistas;


— É muito pior do que fevereiro do ano passado, quando foram criados 260 mil postos;

— Em todo o ano passado, foram criados quase 400 mil empregos com carteira;


— Nos 12 meses encerrados em fevereiro último, foram fechadas 47 mil vagas;


— A região com o maior fechamento de vagas em fevereiro foi o Nordeste, com perda de 27,5 mil.


O Datafolha divulgado ontem informa que cresceu expressivamente o medo de perder o emprego. Diz ainda que apenas 16% dos eleitores nordestinos aprovam o governo Dilma.


Juntando as coisas: a geração de emprego era a única coisa positiva que resistia até o ano passado. Cada vez mais fraca, mas ainda positiva. O Nordeste foi onde a presidente obteve seu melhor resultado na eleição de outubro. Ou seja, o governo e a presidente estão perdendo seus maiores trunfos.


Como uma notícia dessa pode ser boa? Só tem um jeito: o ministro devia estar esperando coisa pior.


Ou acha, como parece achar todo o governo, a julgar pelas primeiras reações pós-manifestações, que dá para virar o jogo no grito, quer dizer, na comunicação.


Mesmo nesse departamento, contudo, o governo começou mal. Anunciar com toda a pompa, incluindo Hino Nacional para uma plateia de autoridades convocadas, um velho e requentado pacote de medidas anticorrupção, no dia mesmo em que se revelava a conexão Petrobras-Vaccari, só serve para estimular mais panelaços.


E como ficamos?


No nosso regime, o presidente não cai assim tão fácil. A Constituição coloca restrições ao impeachment para preservar a estabilidade a longo prazo. Mas os governos caem — ministros, líderes parlamentares e porta-vozes podem ser substituídos para dar uma nova direção à gestão. Ainda que indecisa e contrariada, parece que a presidente vai por aí. Já há ministros caindo.


E para quem ela pode terceirizar o governo? O pessoal do PMDB, do lado político e administrativo, Joaquim Levy do lado da economia.


Não deve ser por acaso que as modificações no programa de ajuste estão sendo negocias por Levy com os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha.


A política econômica é, no essencial, correta. Na verdade, a única saída para o momento. 


Mas é um ajuste, um arrocho — ou seja, as coisas vão piorar antes de melhorar, com mais inflação e mais desemprego, os dois piores fantasmas a assombrar a vida das famílias. E das famílias das classes médias, incluindo a nova, eleitora preferencial de Dilma. De todo modo, ganhando-se tempo, a política econômica se acomoda.


Na política propriamente dita, parece claro que Michel Temer, Calheiros e Cunha, com o pessoal do velho PMDB, são muito mais competentes que a presidente e sua turma.


A variável que ameaça essa construção é menos a deterioração das condições econômicas, um processo lento, e mais a Lava-Jato. Na sua décima fase — a "Que país é este?" — atingiu pesadamente o PT e se aproximou mais do núcleo dirigente. E já está bem perto de políticos do PMDB, justamente os encarregados de refazer o governo.


Também não custa lembrar que, na mesma pesquisa Datafolha de ontem, apenas 9% dos entrevistados fizeram avaliação positiva dos deputados e senadores. E 50% os consideraram ruins e/ou péssimos.


No positivo, perderam para Dilma, que fez 13%. No negativo, ganharam dos 62% de ruim/péssimo da presidente. No agregado, um empate muito feio.


A DELAÇÃO QUE FALTA?


À medida que avançam as investigações, o valor das delações vai declinando. Claro, os promotores e o juiz Moro já sabem muito do que o pessoal pode contar.


Mas ainda faltam peças importantes, especialmente fatos concretos, como número de contas, extratos de transações, datas de reuniões e movimentações financeiras, identificação dos verdadeiros donos de contas no exterior.


E falta também, segundo fontes próximas ao processo, uma especial delação, a de Ricardo Pessoa, da UTC. E não é nem para falar do cartel das empreiteiras, mas de doações que teriam sido feitas para o tesoureiro da última campanha da presidente Dilma.


A presidente sempre pode trocar ministros e políticos, mas se aquela for mesmo a última delação, como a presidente poderá fazer com ela mesmo?





quarta-feira, março 18, 2015

Dilma olha para frente ao apoiar ajuste na economia - Jornal O Globo

Dilma olha para frente ao apoiar ajuste na economia - Jornal O Globo

Dilma olha para frente ao apoiar ajuste na economia

Ainda que não chegue a admitir que parte considerável do que o Brasil hoje enfrenta na esfera econômica se deva a políticas equivocadas adotadas por ela própria em seu primeiro mandato, a presidente Dilma passou a fazer um discurso em favor do ajuste fiscal e da correção de rumos em outras áreas, o que é importante para que tal mudança venha a obter êxito. O ajuste já está em curso, com cortes de gastos de custeio, aumento de tributos e até de medidas de caráter estrutural (no caso da previdência social), com efeito mais a médio e longo prazos.
A reconhecida competência e a credibilidade do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e de sua equipe não eram vistas pelos mercados como suficientes para assegurar a execução do ajuste, pois a presidente Dilma não parecia completamente convencida da necessidade dessa mudança. No entanto, agora a presidente vem a público defender com ênfase a política da sua nova equipe econômica, reconhecendo que o país não reagiu ao que anteriormente fora posto em prática. Numa autocrítica modesta, porém inédita, Dilma falou em erros de dosagem, esgotamento da capacidade das medidas anticíclicas, etc. Ao menos isso afasta o receio dos mercados de que haja um retrocesso no ajuste, pois a presidente agora até recorre aos argumentos que associam esse caminho à chance de uma reação mais rápida da economia.
Sem o engajamento pessoal da presidente nesse processo certamente seria mais difícil para o governo arregimentar o apoio político indispensável para que o ajuste prossiga, já que várias decisões tomadas precisam do endosso do Congresso Nacional. Como resposta às grandes manifestações de domingo último, a presidente se disse aberta ao diálogo. De fato, se, no seu primeiro mandato, estivesse com essa disposição, ouvindo mais as críticas, muitos dos equívocos poderiam ter sido evitados. A Petrobras talvez não chegasse a uma situação financeira tão constrangedora, o setor elétrico teria se preparado mais para enfrentar as consequências negativas da crise hídrica, a indústria como um todo estaria mais fortalecida para enfrentar a competição, e nem se adotaria uma política monetária mais restritiva para enfrentar a pressão inflacionária represada artificialmente pelo governo.
Ao justificar os equívocos cometidos, a presidente afirma que evitou a quebradeira de empresas e a eliminação de milhões de empregos, como aconteceu em outras economias afetadas pela crise internacional. Paciência. Talvez seja querer muito que a presidente venha a admitir que seu segundo mandato está corrigindo problemas herdados do primeiro. O mais importante é que Dilma passou a olhar para frente com uma visão distinta, apoiando o que precisa ser feito. Para o bem do país e não apenas do seu governo.


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