ARQUIVO DE ARTIGOS ETC

domingo, junho 28, 2015

Arminio Fraga.

O economista Armínio Fraga, em entrevista em seu escritório no Rio

Principal assessor econômico do candidato derrotado à Presidência Aécio Neves (PSDB), o economista Armínio Fraga diz que hoje o Brasil está morrendo de medo
de tudo: recessão, inflação, desemprego.

"A campanha foi um show de mentiras. Agora o custo é este: um país morrendo de medo", disse à Folha.

Na época, a presidente Dilma foi acusada de disseminar entre a população o medo de crise e arrocho se houvesse vitória da oposição.

Ele afirma que Dilma expõe o ministro Joaquim Levy (Fazenda) ao escalá-lo para discutir o ajuste fiscal com o Congresso.

"Mandaram o general para a linha de frente com uma espada na mão", comparou.

Para o economista, que presidiu o Banco Central no governo FHC e hoje é sócio da Gávea Investimentos, o governo deveria ter optado por uma meta de superavit primário (receitas menos despesas) menor neste ano. A seguir, trechos da entrevista.

*

Folha - A economia brasileira amargará 1,5% de recessão neste ano. O que está ocorrendo?
Armínio Fraga - O governo chutou o pau da barraca [do gasto público] nas eleições e agora paga a conta. Isso já tinha acontecido no início do primeiro mandato da presidente Dilma. A situação hoje é pior porque o país entrou muito torto na história. A evolução da dívida é assustadora, e a recessão morde firme. É possível ver isso na indústria, no setor imobiliário.

Hoje o quadro está sendo tratado de maneira mais razoável, mas ainda insuficiente. O ajuste fiscal não vai resolver tudo. É preciso cortar mais o gasto, que é rígido.

Os empresários reclamam que o governo cortou investimentos, mas não reduziu gastos. Qual é a sua opinião?
O ajuste fiscal requer um debate profundo sobre o tamanho do Estado. Não vou nem discutir qual é o tamanho do Estado ideal.

Alguns países deram certo com um Estado grande, como os escandinavos. Outros funcionam com um Estado menor, como os EUA. Só que o Estado precisa ser funcional e hoje temos um Estado meio capturado.

Sem essa discussão, o ajuste está sendo feito do jeito que dá. Algumas medidas são boas, mas há problemas. Surgiu essa história de acabar com o fator previdenciário [que desestimula a aposentadoria precoce], que considero uma loucura.

O PSDB votou contra o fator previdenciário. O que você acha da posição do partido?
Não falo pelo PSDB. Tenho simpatia pelo partido e gosto de trabalhar com o ex-presidente Fernando Henrique e com o Aécio.

O partido foi infeliz no tema do fator previdenciário, mas tem agido bem. O PSDB tem que ser o bastião de grandes ideias e princípios. Nessa confusão toda, não é fácil.

Qual é o efeito da crise política na economia?
A situação política é caótica. O país tem 32 partidos, 29 representados no Congresso e quase não existe discussão de programa de governo.

Há essa percepção de que a política está terceirizada para o PMDB, mas claramente o PT não está satisfeito. A oposição tenta se posicionar, mas ainda não engrenou o ritmo.

Por que o governo não faz reformas estruturais?
O Levy lida com muitas restrições, inclusive da chefe dele, que é responsável por tudo isso que está aí. É uma situação muito constrangedora.

Ele está muito exposto [negociando com o Congresso]. Mandaram o general para a linha de frente com uma espada na mão, algo que não se via há 500 anos. É da época de Alexandre, o Grande.

Na sua opinião, o governo deveria reduzir a meta de superavit primário?
O superavit de 1,2% do PIB foi planejado com estimativas muito otimistas para a economia. Desde o início, o governo deveria ter optado por uma meta menor no primeiro ano e mais ambiciosa nos dois anos seguintes. Agora, mexer na meta não é fácil.

Mas a arrecadação não está correspondendo às expectativas. Não é melhor assumir que não dá para cumprir a meta?
Não sei o que eles vão fazer. A minha opinião é que deveriam ter colocado uma meta menor neste ano e deixado claro qual é o pagamento das "pedaladas" passadas. Classificar direito o que é uma conta do passado e o que é um ajuste permanente.

O governo tem armas para combater a recessão?
A capacidade de reação do governo está prejudicada pela inflação alta e por um Orçamento muito precário.

Portanto, as ferramentas anticíclicas tradicionais não estão disponíveis em razão de uma herança que Dilma deixou para ela mesma.

É uma situação muito difícil, e quem vai pagar o pato, como sempre, é a população.

Até quando vai a recessão?
É preciso não confundir. Vivemos um ciclo de curto prazo provocado pelo aquecimento da economia antes das eleições e temos um problema de médio prazo.

Daqui a um ano ou um ano e meio, podemos até sair do ciclo de curto prazo, mas teremos questões estruturais.

Agora, se ficar claro que existem respostas para as questões estruturais, ajuda a quebrar o ciclo porque as empresas se animam a investir.

O governo está tentando estimular investimentos com o programa de concessões de infraestrutura.
Sim. Mas tem tido uma imensa dificuldade de executar os projetos. E vão utilizar esse dinheiro para vencer as contas do ano, enquanto deveriam abater dívidas.

Na campanha eleitoral, você foi criticado por dizer que o país entraria em recessão, e hoje isso se concretizou. Como você se sente?
Aquilo foi um grande teatro, um show de mentiras. O Aécio e o Fernando Henrique falaram isso o tempo todo. O custo é este: temos um país morrendo de medo.

Com medo de quê?
De tudo: recessão, desemprego, inflação. Não sou político, vivo de administrar o dinheiro dos meus clientes. Se for pessimista, estou acabado, mas tenho que ser realista. A situação não está boa.

As empresas estão demitindo. A situação vai piorar?
Infelizmente, acredito que não chegamos ao fundo do poço. Espero estar errado, mas analiticamente não estamos nem perto disso.

Havia um represamento de demissões em razão das incertezas que as eleições geram. Agora a situação ficou clara e as empresas demitem.

Esse ciclo, no entanto, ainda mal começou.

Qual é o impacto do aumento do desemprego?
As centrais sindicais, que sempre foram a base do PT, já estão reclamando. Existe uma briga no próprio governo. Pode gerar mais manifestações de ruas e mais dificuldades para aprovar o ajuste fiscal. Governar nesse contexto não é fácil.

O BC exagerou na alta de juros para atingir a meta de inflação de 4,5% no fim de 2016?
É uma meta muito ambiciosa. Dá para chegar a esse resultado em dois anos, mas vai exigir disciplina e um pouco de sorte. Talvez fosse mais fácil deixar para 2017.

O problema é que a inflação está acima da meta há bastante tempo, as contas públicas se deterioraram e o país ameaça perder a classificação de risco. Se o governo tivesse mais credibilidade, poderia ser mais gradual.

Arminio Fraga. Folha. 28/6

O economista Armínio Fraga, em entrevista em seu escritório no Rio

Principal assessor econômico do candidato derrotado à Presidência Aécio Neves (PSDB), o economista Armínio Fraga diz que hoje o Brasil está morrendo de medo
de tudo: recessão, inflação, desemprego.

"A campanha foi um show de mentiras. Agora o custo é este: um país morrendo de medo", disse à Folha.

Na época, a presidente Dilma foi acusada de disseminar entre a população o medo de crise e arrocho se houvesse vitória da oposição.

Ele afirma que Dilma expõe o ministro Joaquim Levy (Fazenda) ao escalá-lo para discutir o ajuste fiscal com o Congresso.

"Mandaram o general para a linha de frente com uma espada na mão", comparou.

Para o economista, que presidiu o Banco Central no governo FHC e hoje é sócio da Gávea Investimentos, o governo deveria ter optado por uma meta de superavit primário (receitas menos despesas) menor neste ano. A seguir, trechos da entrevista.

*

Folha - A economia brasileira amargará 1,5% de recessão neste ano. O que está ocorrendo?
Armínio Fraga - O governo chutou o pau da barraca [do gasto público] nas eleições e agora paga a conta. Isso já tinha acontecido no início do primeiro mandato da presidente Dilma. A situação hoje é pior porque o país entrou muito torto na história. A evolução da dívida é assustadora, e a recessão morde firme. É possível ver isso na indústria, no setor imobiliário.

Hoje o quadro está sendo tratado de maneira mais razoável, mas ainda insuficiente. O ajuste fiscal não vai resolver tudo. É preciso cortar mais o gasto, que é rígido.

Os empresários reclamam que o governo cortou investimentos, mas não reduziu gastos. Qual é a sua opinião?
O ajuste fiscal requer um debate profundo sobre o tamanho do Estado. Não vou nem discutir qual é o tamanho do Estado ideal.

Alguns países deram certo com um Estado grande, como os escandinavos. Outros funcionam com um Estado menor, como os EUA. Só que o Estado precisa ser funcional e hoje temos um Estado meio capturado.

Sem essa discussão, o ajuste está sendo feito do jeito que dá. Algumas medidas são boas, mas há problemas. Surgiu essa história de acabar com o fator previdenciário [que desestimula a aposentadoria precoce], que considero uma loucura.

O PSDB votou contra o fator previdenciário. O que você acha da posição do partido?
Não falo pelo PSDB. Tenho simpatia pelo partido e gosto de trabalhar com o ex-presidente Fernando Henrique e com o Aécio.

O partido foi infeliz no tema do fator previdenciário, mas tem agido bem. O PSDB tem que ser o bastião de grandes ideias e princípios. Nessa confusão toda, não é fácil.

Qual é o efeito da crise política na economia?
A situação política é caótica. O país tem 32 partidos, 29 representados no Congresso e quase não existe discussão de programa de governo.

Há essa percepção de que a política está terceirizada para o PMDB, mas claramente o PT não está satisfeito. A oposição tenta se posicionar, mas ainda não engrenou o ritmo.

Por que o governo não faz reformas estruturais?
O Levy lida com muitas restrições, inclusive da chefe dele, que é responsável por tudo isso que está aí. É uma situação muito constrangedora.

Ele está muito exposto [negociando com o Congresso]. Mandaram o general para a linha de frente com uma espada na mão, algo que não se via há 500 anos. É da época de Alexandre, o Grande.

Na sua opinião, o governo deveria reduzir a meta de superavit primário?
O superavit de 1,2% do PIB foi planejado com estimativas muito otimistas para a economia. Desde o início, o governo deveria ter optado por uma meta menor no primeiro ano e mais ambiciosa nos dois anos seguintes. Agora, mexer na meta não é fácil.

Mas a arrecadação não está correspondendo às expectativas. Não é melhor assumir que não dá para cumprir a meta?
Não sei o que eles vão fazer. A minha opinião é que deveriam ter colocado uma meta menor neste ano e deixado claro qual é o pagamento das "pedaladas" passadas. Classificar direito o que é uma conta do passado e o que é um ajuste permanente.

O governo tem armas para combater a recessão?
A capacidade de reação do governo está prejudicada pela inflação alta e por um Orçamento muito precário.

Portanto, as ferramentas anticíclicas tradicionais não estão disponíveis em razão de uma herança que Dilma deixou para ela mesma.

É uma situação muito difícil, e quem vai pagar o pato, como sempre, é a população.

Até quando vai a recessão?
É preciso não confundir. Vivemos um ciclo de curto prazo provocado pelo aquecimento da economia antes das eleições e temos um problema de médio prazo.

Daqui a um ano ou um ano e meio, podemos até sair do ciclo de curto prazo, mas teremos questões estruturais.

Agora, se ficar claro que existem respostas para as questões estruturais, ajuda a quebrar o ciclo porque as empresas se animam a investir.

O governo está tentando estimular investimentos com o programa de concessões de infraestrutura.
Sim. Mas tem tido uma imensa dificuldade de executar os projetos. E vão utilizar esse dinheiro para vencer as contas do ano, enquanto deveriam abater dívidas.

Na campanha eleitoral, você foi criticado por dizer que o país entraria em recessão, e hoje isso se concretizou. Como você se sente?
Aquilo foi um grande teatro, um show de mentiras. O Aécio e o Fernando Henrique falaram isso o tempo todo. O custo é este: temos um país morrendo de medo.

Com medo de quê?
De tudo: recessão, desemprego, inflação. Não sou político, vivo de administrar o dinheiro dos meus clientes. Se for pessimista, estou acabado, mas tenho que ser realista. A situação não está boa.

As empresas estão demitindo. A situação vai piorar?
Infelizmente, acredito que não chegamos ao fundo do poço. Espero estar errado, mas analiticamente não estamos nem perto disso.

Havia um represamento de demissões em razão das incertezas que as eleições geram. Agora a situação ficou clara e as empresas demitem.

Esse ciclo, no entanto, ainda mal começou.

Qual é o impacto do aumento do desemprego?
As centrais sindicais, que sempre foram a base do PT, já estão reclamando. Existe uma briga no próprio governo. Pode gerar mais manifestações de ruas e mais dificuldades para aprovar o ajuste fiscal. Governar nesse contexto não é fácil.

O BC exagerou na alta de juros para atingir a meta de inflação de 4,5% no fim de 2016?
É uma meta muito ambiciosa. Dá para chegar a esse resultado em dois anos, mas vai exigir disciplina e um pouco de sorte. Talvez fosse mais fácil deixar para 2017.

O problema é que a inflação está acima da meta há bastante tempo, as contas públicas se deterioraram e o país ameaça perder a classificação de risco. Se o governo tivesse mais credibilidade, poderia ser mais gradual.

quarta-feira, abril 01, 2015

O dia 12 e a memória das calçadas Elio Gaspari

O GLOBO
A rua marcou um novo encontro com a doutora Dilma para o domingo, 12 de abril. O 15 de março mostrou ao comissariado o tamanho da insatisfação popular e ele não entendeu nada. O grito geral condenava a roubalheira e recebeu um pastel de vento. Seguiram-se o "Chega de PT" e o "Fora Dilma". Quem sai de casa num domingo para gritar na rua merece respeito, seja qual for o seu grito. Isso não elimina o fato de que uma pessoa tenha gritado por uma coisa e, tempos depois, perceba que foi feita de boba. O único instrumento para se acabar com o PT é o voto em candidatos da oposição. "Chega de PT" ou "Fora Dilma" são palavras de ordem que deságuam numa proposta de impedimento da doutora. Ele seria possível sem o apoio do PMDB de Renan Calheiros, Eduardo Cunha e Michel Temer? Nem pensar. Se esse apoio viesse, como ficariam o petrocomissário Sérgio Machado e o inolvidável Fernando Baiano?
A memória das calçadas é cruel. Quem pintou a cara de verde e amarelo em 1992 tem doces lembranças das manifestações que defenestraram Fernando Collor. Um dos líderes desse movimento era o presidente da União Nacional dos Estudantes, Lindberg Farias. Militava no PCdoB, migrou para o PT, elegeu-se prefeito de Nova Iguaçu e senador. Hoje está de cara lavada na lista do procurador-geral Rodrigo Janot, pois o "amigo Paulinho" ajudava-o a captar recursos junto a empreiteiras da Petrobras. Mandar Collor para casa podia ser uma boa ideia, mas na agenda de Lindberg, do PCdoB e do PT havia outros interesses.
E quem vestiu uma camisa amarela e saiu por aí na campanha das Diretas de 1984? A ideia era excelente, mas a aprovação da emenda constitucional que restabelecia a eleição para presidente da República era uma impossibilidade aritmética. A agenda de Tancredo Neves era outra. Boa, porém outra. Graças às pessoas que saíram de camisa amarela, Tancredo construiu a conciliação que liquidou o consulado militar.
E quem foi à Passeata dos Cem Mil, em 1968? Um pedaço da avenida gritava "o povo unido jamais será vencido" e outro dizia que "o povo armado jamais será vencido". As agendas eram duas. Algumas centenas de pessoas que se julgavam a vanguarda da sociedade armaram-se e o povo dividido foi vencido.
Recuando-se um pouco mais, há 50 anos a esquerda foi para o Comício da Central, realizado diante do Ministério da Guerra, onde os blindados pareciam simbolizar o apoio militar ao presidente João Goulart. O gênio de Carlos Lacerda chamou a manifestação de "Comício das Lavadeiras", pois nele só havia "tanques e trouxas". Dias depois os tanques começaram a prender os trouxas. Em resposta ao Comício das Lavadeiras, realizou-se em São Paulo a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade", com um forte componente religioso. Deposto Goulart, o ministro da Guerra, general Costa e Silva, disse que "a doutrina social da revolução coincide com a doutrina social da Igreja". Lorota. Começava ali a hostilidade da ditadura contra religiosos e seis anos depois o secretário-geral da CNBB, Dom Aloisio Lorscheider, foi detido por uma tropa do Exército. Nessa época, a esquerda divertia-se com um versinho: "Marcharam com Deus pela democracia? Agora chia... Agora chia."
Ir pra rua é sempre uma boa ideia, mas não custa se perguntar: Pra quê? Com quem?
Elio Gaspari é jornalista

ROBERTO DAMATTA Entre portas e pilotos

O ESTADO DE S PAULO
Ser obrigado a levar em conta o mundo diário para comentá-lo é um trabalho curioso. Muitas vezes, ocorrem coincidências. Os assuntos de uma crônica se rebatem nos da vida que, surpreendentemente, repete a seu modo o tema do comentário. Teriam os cronistas parentesco com os profetas?
Na semana passada, eu contei uma experiência pessoal de quase-morte num avião e, hoje, estamos às voltas com o malfadado voo da Germanwings, no qual o copiloto perturbado suicida-se e torna-se célebre por ter levado na sua morte com hora marcada 149 pessoas. Foi um suicídio egoísta clássico, como diria um pioneiro e mestre no assunto (Émile Durkheim), mas que teve um lado perverso, como ocorre com os assassinos que se imortalizam pela cruel disposição de se matarem matando dezenas de inocentes que nada tinham a ver com seus demônios, mas que a ele ficam ligados para sempre. No caso do jovem Andreas Lubitz, há uma ligação problemática, já que ele era profissional de uma máquina voadora, a qual raramente falha sem um empurrão do inesperado que existe em todos os seres humanos. Ademais, há a porta cuja fechadura era exclusiva de quem estava na cabine. A recusa a abrir portas, impedindo o comandante de entrar na cabine e assumir o seu papel, harmoniza-se com a infeliz decisão de espatifar o avião e, com ele, o mundo e todas as suas relações que lhe dão sentido, densidade e motivos para continuar vivendo, apesar dos absurdos da existência.
As caixas-pretas dos aviões são o nosso inconsciente tecnológico. Tal como mostrou Freud para a vida psíquica, elas registram tudo. Ouvindo as caixas-pretas, descobrimos o que a consciência não registra, seja porque não quer, seja porque não pode porque, se assim fizesse, não seríamos capazes de focar em coisa alguma e a vida seria impossível, como ocorre nos casos dos transtornos obsessivos e no autismo. Essas peças que, certamente, deleitariam o velho Freud, abrem um portal. Fechado na cabine, o copiloto impediu o retorno do comandante e, propositadamente, inibiu a relação com o líder, que, talvez, o impedisse de cometer o absurdo de um suicídio ligado à patologia da celebrização — essa morte individual que leva com ela os que estão em suas mãos.
A porta inexpugnável com chave ou senha tem um rico simbolismo. Dizem que no Céu há uma porta controlada por São Pedro. A senha, a chave e possibilidade de entrar ou sair, permite acumular, esconder ou dissipar tesouros. Os tesouros da troca e do amor que ajudam a viver e morrer.
Mas eis que as portas secretas marcam também o petrolão brasileiro, tornando-o, precisamente por isso, o maior escândalo da História do Brasil. Refiro-me ao controle remoto eletrônico do Sr. Renato Duque. Um aparelho que permitia abrir ou fechar, num clique mágico, um compartimento secreto situado dentro de um closet, situado dentro de um quarto, situado dentro de uma invejável cobertura de um bairro fino do Rio de Janeiro, os seus tesouros modernos. Tesouros no melhor estilo do Conde de Monte Cristo, obtidos, como manda o figurino das fábulas, em segredo e — quem sabe — com ajuda de algum oculto abade Farias?
Essas portas especiais que nos levam a salas secretas dentro de quartos ocultos, os quais estão escondidos em outros quartos, salas e palácios, lembram as bonecas russas e as caixas chinesas. É um não mais caber de fatos dentro de fatos, de pessoas dentro de pessoas, de cargos não honrados, englobados e bancados por outros cargos — todos vergonhosamente dissipados seja por ideologia, seja por incompetência, seja por um grau de onipotência pouco visto no caso do nosso aeroplano que tem voado em automático e, pelo visto, sem nenhum piloto, talvez porque o comandante tenha, ele próprio, se trancafiado na cabine.
Em suma, se é que isso tem suma: cai um avião na Europa e, na América do Sul, desmancham-se governos cujo símbolo são portas intransponíveis — as utopias. Cada qual com uma fechadura mais complicada que a outra. Suas chaves e senhas recusam o trabalho da aceitação dos limites que levam à responsabilidade de pilotar o que é sagrado, justamente porque é de todos.
A combinação de portas intransponíveis, fechaduras complicadas e chaves complexas (essas patologias) resulta — no caso dos aviões — em tragédia e sofrimento. Em países, o saldo é a ruína e a vergonha, porque o piloto não apenas sumiu, mas não parece ter a mínima noção da função daqueles "reloginhos" que são parte da cabine da nave que deveriam comandar. Mesmo porque, ela tem rumos que seus passageiros desconhecem.
PS: Desejo sucesso a Renato Janine Ribeiro, o novo ministro da Educação.
Roberto DaMatta é antropólogo

sexta-feira, março 20, 2015

José Paulo Kupfer A batalha do ‘grau de investimento’

o globo

Depois das manifestações contra o governo, ficou ainda mais complicado cumprir a meta fiscal prometida e garantir o aval das classificadoras de risco

É inevitável, pelo menos para os que acompanham há mais tempo as atribulações da economia brasileira, a associação das atuais visitas de analistas das grandes agências globais de classificação de riscos a autoridades econômicas com as passagens de missões do FMI pelos mesmos gabinetes, em tempos nem tão longínquos assim. A economia internacional mudou muito, nessa década e meia que separa os dois momentos, e a economia brasileira mudou ainda mais. Mas, como se vê pelo minueto agora dançado em Brasília, as desconfianças dos estrangeiros e os esforços nativos para agradar-lhes estão de volta.
Há, é claro, diferenças entre umas e outras — e estas não se restringem aos sóbrios terninhos e a pasta preta da chilena Ana Maria Jul, ou aos vestidos estampados de motivos florais berrantes da italiana Teresa Ter-Minassian, que chefiaram célebres missões do FMI, destinadas a arrancar das autoridades brasileiras severos e nunca cumpridos ajustes fiscais, em contraste com a invisibilidade das equipes das classificadoras de risco. A maior dessas diferenças reside no fato de que o Brasil, antes devedor contumaz, ostenta hoje posição de credor internacional.
No fundo, porém, as questões colocadas nas mesas de negociação são praticamente as mesmas. Se antes o que se discutia era um programa de ajuste que permitisse ao FMI sancionar empréstimos ao Brasil, hoje o que está em debate é se as metas do ajuste proposto pelo governo brasileiro serão efetivamente cumpridas, a ponto de permitir que as classificadoras de risco avalizem a segurança dos investimentos destinados à economia brasileira.
É fácil entender por que o aval das classificadoras de risco ganhou lugar de destaque na estratégia oficial de recuperação da confiança na eficácia da política econômica. Num mundo em que mercados operam com base em expectativas, antecipando fatos suscetíveis de confirmação posterior, a batalha do reequilíbrio da economia brasileira passa pela manutenção da classificação de “grau de investimento” para a nota dos títulos da dívida pública. Sem esse aval, muitos pressupõem dificuldades ainda maiores do que as já previstas para captar recursos no mercado internacional e fechar as contas externas.
Parte dos excessos altistas nas cotações do dólar, é verdade, corresponde à precificação de um fato — a perda do “grau de investimento” — que, sem dúvida, pode ocorrer, mas ainda não passa de hipótese, assim como não passa de hipótese a sucessão de consequências negativas previstas, caso a perda do “grau de investimento” se confirme. Os exageros atualmente observados nas taxas de câmbio nada mais são do que reflexo desse tipo de suposição.
Para evitar a perda do “grau de investimento”, o governo tem de convencer as classificadoras de que o ajuste fiscal prometido será cumprido e, com isso, a relação dívida pública/PIB permaneceria pelo menos estabilizada. Essa já não era uma tarefa das mais fáceis antes mesmo das manifestações de domingo contra o governo da presidente Dilma Rousseff. Projeções atualizadas indicam a obtenção, em 2015, de superávit fiscal primário de 0,7% do PIB a 0,9% do PIB ante uma meta de 1,2% do PIB (que, na verdade, corresponde a 1,8% do PIB, em vista do déficit de 0,6% do PIB, em 2014).
Depois da enorme onda de protesto que se espalhou pelo país, com epicentro em São Paulo, a coisa ficou ainda mais complicada. O tipo de ajuste fiscal possível, que combina corte de benefícios sociais e aumento de carga tributária, exige não só uma afinação que Executivo e Legislativo estão muito longe de oferecer, mas também um governo com índices de popularidade que a presidente Dilma, com seus historicamente baixos 13% de aprovação, não pode, no momento, nem sonhar em dispor.
José Paulo Kupfer é jornalista
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Causas e defeitos Nelson Motta

O Globo

De que adianta que eles não roubem, se dão mais prejuízos ao país do que os ladrões?

Deu até pena ver o ministro Miguel Rossetto, abatido e amarfanhado, na coletiva pós-manifestações, dizendo que as multidões que foram para as ruas não eram de eleitores de Dilma. Perguntar não ofende: os 62% que agora julgam o governo Dilma ruim ou péssimo são eleitores de Aécio? São 125 milhões de golpistas? Ou querem um “terceiro turno”?
Zé Dirceu diz que o lucro mensal de sua empresa, que faturou 29 milhões em oito anos, foi de míseros 65 mil reais, em média, e que 85% do faturamento foram gastos com o “pagamento de despesas operacionais e recolhimento de impostos”. Quanto o guerreiro doou ao PT? Quantos trabalhadores petistas, que lhe deram dinheiro para pagar a sua multa de 971 mil reais no mensalão, ele fez de otários?
Sibá Machado, líder do PT na Câmara, denuncia que a CIA está por trás de tudo de ruim que está acontecendo no país, que há um plano para desestabilizar a Venezuela, a Argentina e o Brasil. Mas quem tem Maduro, Cristina e Dilma (e Sibá) precisa de algum plano externo para arrasar seus países?
Um eventual impeachment só pioraria as coisas, dividindo ainda mais o Brasil, como Lula queria, quando achava que estava em vantagem. Não quero ver Dilma sangrando, quero que ela coma, se fortaleça e reaja, reconhecendo seus erros e chamando pessoas competentes e honestas, acima de partidos, para ajudá-la a sair da lama e do caos. O problema não é só a corrupção, como provam os estragos do economista marxista Arno Augustin, ícone dilmista da incompetência máxima. De que adianta não roubar, se eles dão mais prejuízos ao país do que os ladrões?
Quantas vezes o Brasil o viu num palanque gritando “é nóis contra eles”? Quem estimulou mais do que ele o clima de confronto e intolerância? Quem dividiu o país entre povo e elites? Quem jurou que o mensalão nunca existiu? Quem era o beneficiário final do esquemão da Petrobras? Quem inventou Dilma?
Triplicar a já colossal verba do fundo partidário é uma bofetada em cada um que contribui com seu trabalho para sustentar partidos e políticos capazes de propor uma coisa dessas, numa hora dessas. Até quando?
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quinta-feira, março 19, 2015

"Dilma pode terceirizar o governo. Não a Lava-Jato", por Carlos Alberto Sardenberg

Rota 2014 - Blog do José Tomaz: "Dilma pode terceirizar o governo. Não a Lava-Jato", por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Quando o ministro do Trabalho considera boa a notícia do fechamento de 2,4 mil empregos com carteira, não precisa dizer mais nada. Mas ele ainda disse que a crise não é extrema como se fala por aí.


Não é extrema porque o país não vai acabar, claro, mas, para o governo e para a presidente Dilma, é uma situação quase sem saída.


As 2,4 mil vagas foram fechadas em fevereiro, número assim qualificado:


— O resultado é bem pior do que esperavam os analistas;


— É muito pior do que fevereiro do ano passado, quando foram criados 260 mil postos;

— Em todo o ano passado, foram criados quase 400 mil empregos com carteira;


— Nos 12 meses encerrados em fevereiro último, foram fechadas 47 mil vagas;


— A região com o maior fechamento de vagas em fevereiro foi o Nordeste, com perda de 27,5 mil.


O Datafolha divulgado ontem informa que cresceu expressivamente o medo de perder o emprego. Diz ainda que apenas 16% dos eleitores nordestinos aprovam o governo Dilma.


Juntando as coisas: a geração de emprego era a única coisa positiva que resistia até o ano passado. Cada vez mais fraca, mas ainda positiva. O Nordeste foi onde a presidente obteve seu melhor resultado na eleição de outubro. Ou seja, o governo e a presidente estão perdendo seus maiores trunfos.


Como uma notícia dessa pode ser boa? Só tem um jeito: o ministro devia estar esperando coisa pior.


Ou acha, como parece achar todo o governo, a julgar pelas primeiras reações pós-manifestações, que dá para virar o jogo no grito, quer dizer, na comunicação.


Mesmo nesse departamento, contudo, o governo começou mal. Anunciar com toda a pompa, incluindo Hino Nacional para uma plateia de autoridades convocadas, um velho e requentado pacote de medidas anticorrupção, no dia mesmo em que se revelava a conexão Petrobras-Vaccari, só serve para estimular mais panelaços.


E como ficamos?


No nosso regime, o presidente não cai assim tão fácil. A Constituição coloca restrições ao impeachment para preservar a estabilidade a longo prazo. Mas os governos caem — ministros, líderes parlamentares e porta-vozes podem ser substituídos para dar uma nova direção à gestão. Ainda que indecisa e contrariada, parece que a presidente vai por aí. Já há ministros caindo.


E para quem ela pode terceirizar o governo? O pessoal do PMDB, do lado político e administrativo, Joaquim Levy do lado da economia.


Não deve ser por acaso que as modificações no programa de ajuste estão sendo negocias por Levy com os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha.


A política econômica é, no essencial, correta. Na verdade, a única saída para o momento. 


Mas é um ajuste, um arrocho — ou seja, as coisas vão piorar antes de melhorar, com mais inflação e mais desemprego, os dois piores fantasmas a assombrar a vida das famílias. E das famílias das classes médias, incluindo a nova, eleitora preferencial de Dilma. De todo modo, ganhando-se tempo, a política econômica se acomoda.


Na política propriamente dita, parece claro que Michel Temer, Calheiros e Cunha, com o pessoal do velho PMDB, são muito mais competentes que a presidente e sua turma.


A variável que ameaça essa construção é menos a deterioração das condições econômicas, um processo lento, e mais a Lava-Jato. Na sua décima fase — a "Que país é este?" — atingiu pesadamente o PT e se aproximou mais do núcleo dirigente. E já está bem perto de políticos do PMDB, justamente os encarregados de refazer o governo.


Também não custa lembrar que, na mesma pesquisa Datafolha de ontem, apenas 9% dos entrevistados fizeram avaliação positiva dos deputados e senadores. E 50% os consideraram ruins e/ou péssimos.


No positivo, perderam para Dilma, que fez 13%. No negativo, ganharam dos 62% de ruim/péssimo da presidente. No agregado, um empate muito feio.


A DELAÇÃO QUE FALTA?


À medida que avançam as investigações, o valor das delações vai declinando. Claro, os promotores e o juiz Moro já sabem muito do que o pessoal pode contar.


Mas ainda faltam peças importantes, especialmente fatos concretos, como número de contas, extratos de transações, datas de reuniões e movimentações financeiras, identificação dos verdadeiros donos de contas no exterior.


E falta também, segundo fontes próximas ao processo, uma especial delação, a de Ricardo Pessoa, da UTC. E não é nem para falar do cartel das empreiteiras, mas de doações que teriam sido feitas para o tesoureiro da última campanha da presidente Dilma.


A presidente sempre pode trocar ministros e políticos, mas se aquela for mesmo a última delação, como a presidente poderá fazer com ela mesmo?





quarta-feira, março 18, 2015

Dilma olha para frente ao apoiar ajuste na economia - Jornal O Globo

Dilma olha para frente ao apoiar ajuste na economia - Jornal O Globo

Dilma olha para frente ao apoiar ajuste na economia

Ainda que não chegue a admitir que parte considerável do que o Brasil hoje enfrenta na esfera econômica se deva a políticas equivocadas adotadas por ela própria em seu primeiro mandato, a presidente Dilma passou a fazer um discurso em favor do ajuste fiscal e da correção de rumos em outras áreas, o que é importante para que tal mudança venha a obter êxito. O ajuste já está em curso, com cortes de gastos de custeio, aumento de tributos e até de medidas de caráter estrutural (no caso da previdência social), com efeito mais a médio e longo prazos.
A reconhecida competência e a credibilidade do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e de sua equipe não eram vistas pelos mercados como suficientes para assegurar a execução do ajuste, pois a presidente Dilma não parecia completamente convencida da necessidade dessa mudança. No entanto, agora a presidente vem a público defender com ênfase a política da sua nova equipe econômica, reconhecendo que o país não reagiu ao que anteriormente fora posto em prática. Numa autocrítica modesta, porém inédita, Dilma falou em erros de dosagem, esgotamento da capacidade das medidas anticíclicas, etc. Ao menos isso afasta o receio dos mercados de que haja um retrocesso no ajuste, pois a presidente agora até recorre aos argumentos que associam esse caminho à chance de uma reação mais rápida da economia.
Sem o engajamento pessoal da presidente nesse processo certamente seria mais difícil para o governo arregimentar o apoio político indispensável para que o ajuste prossiga, já que várias decisões tomadas precisam do endosso do Congresso Nacional. Como resposta às grandes manifestações de domingo último, a presidente se disse aberta ao diálogo. De fato, se, no seu primeiro mandato, estivesse com essa disposição, ouvindo mais as críticas, muitos dos equívocos poderiam ter sido evitados. A Petrobras talvez não chegasse a uma situação financeira tão constrangedora, o setor elétrico teria se preparado mais para enfrentar as consequências negativas da crise hídrica, a indústria como um todo estaria mais fortalecida para enfrentar a competição, e nem se adotaria uma política monetária mais restritiva para enfrentar a pressão inflacionária represada artificialmente pelo governo.
Ao justificar os equívocos cometidos, a presidente afirma que evitou a quebradeira de empresas e a eliminação de milhões de empregos, como aconteceu em outras economias afetadas pela crise internacional. Paciência. Talvez seja querer muito que a presidente venha a admitir que seu segundo mandato está corrigindo problemas herdados do primeiro. O mais importante é que Dilma passou a olhar para frente com uma visão distinta, apoiando o que precisa ser feito. Para o bem do país e não apenas do seu governo.


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A hora do cidadão comum - Roberto Damatta

A hora do cidadão comum - Cultura - Geral - Estadão Mobile

A hora do cidadão comum

Roberto Damatta - O Estado de S.Paulo

Passei a semana acompanhando a CPI da Petrobrás, lendo os jornais mais importantes do Brasil e seguindo pessoalmente as manifestações. Não fui ao Rio, mas fiquei numa Niterói ilhada por obras que, espero, venham a melhorar a minha vida: a vida de um homem comum que durante décadas tem trabalhado no Rio e em todo lugar. Sujeito que subiu em ônibus, tomou barca, lotação e foi do tempo do andar ao de bicicleta e a pé.

Dizer que há uma guerra entre ricos e pobres ou afirmar, como fazem os áulicos da presidenta Dilma, que "o contra" é mais motivador do que o "a favor", é ficar no mais imbecil dos sofismas.

Pois quem é a favor é contra e quem é contra é a favor. De alguém, de alguma causa ou coisa. No caso: o povo manifestou-se contra um governo paralisado por sua mendacidade, mas a favor da punição dos ladrões do mais pornográfico sistema de corrupção jamais montado no Brasil. Um sistema que vem do centro do poder e chega à periferia da sociedade. É claro que as pessoas estão contra o governo Dilma, mas estão a favor daquilo que move todo povo trivial e idiota: a honestidade, a dor de consciência, a vergonha de testemunhar o furto daquilo que faria o progresso e o bem-estar de um Brasil que eles não acham que é atraso ou babaquice amar.

Do mesmo modo, todo rico tem quem seja mais rico e todo pobre conhece alguém mais pobre. Trata-se de uma oposição segmentar como diziam os antigos sociólogos ou, como dizem os mais jovens, é um fractal. Como acontece com a oposição entre a casa e a rua na sociedade e, na política, entre direita e esquerda. Não é preciso pensar muito para descobrir que a casa tem uma rua (e vice-versa) e que cada direita tem a sua esquerda. Ou o velho Trotsky não foi assassinado? Quem o matou foi a direita ou a esquerda do stalinismo?

Quando eu fiz uma pesquisa num bairro periférico de São Paulo com pessoas que se definiam como "pobres", fiquei parvo ao descobrir que todos, rigorosamente todos, se diziam pobres. Assim como os chamados porta-vozes de Dilma que dizem querer um "diálogo" que termine por calar a nossa boca: a boca que foi calada por tanto tempo do cidadão comum. O tal povo que neste movimento histórico, sai das asas dos partidos. Seja porque eles são todos falidos, mentirosos, malandros - máquinas de enricar seus membros; seja porque ninguém atura mais os Lulas, as Dilmas, as Gleises, os Cardozos (com z), os Dirceus (o "Capitão do Time"), os seus mensaleiros jogadores, os Mantegas e as Rosemarys com suas pachorras e bebês.

O homem e a mulher comum cansaram de pagar a conta da bomba de hidrogênio que foi o roubo ordenado, calculado, com um óbvio viés político-ideológico-partidário na maior e mais querida empresa do País.

Ouvir o Sergio Gabrielli na CPI foi uma aula e um insulto. Ouvir novamente as reuniões do supremo ou dos outros tribunais não pode mais ser um outro ato de autoflagelação. Ou mais uma aula de douta malandragem. O povo cansou de testemunhar que o crime compensa quando o roubo é feito por agentes públicos graduados, eleitos para redimir e não sacanear o Brasil. Pois cada oitiva não termina numa lição de justiça, mas numa pedagogia de corrupção. Numa demonstração dos dotes necessários para bem roubar o Brasil: ter cara de pau, cinismo, frieza, ousadia, ausência absoluta de espírito público, de patriotismo e, acima de tudo, de gosto pela malandragem que não dá em nada!

O outro aprendizado tenebroso é o seguinte: para roubar nesta escala e com tanta legitimidade, é preciso ser governo. Quem rouba não é o partido, nem as empresas, nem o papel de deputado, governador, prefeito, senador ou presidente. Quem rouba é a urdidura partidária relacional que mete na cabeça uma utopia ou um ideal revolucionário, o qual vai tirar a sociedade de sua miséria de pessoas comuns que trabalham, casam e fazem filhos misturados, que comem arroz com feijão e adoram carne-seca, samba e cerveja. Aceita a ideologia e implementado o partido como governo, começa a ação de "cuidar" ou revolucionar a sociedade. E já que não se pode acabar com o marcado e a eleição, por que não comprá-los?

A nobreza das utopias - alimentar os famintos, vestir os nus, dar abrigo aos sem-teto - são as palavras mágicas dessa cosmologia política pervertida segundo a qual o governo, sabendo tudo e tudo possuindo, sabe mais e melhor do que a sociedade.

Mas eis que, depois de uma década no poder, nada disso ocorre, exceto a utopia de enricar sem fazer nada - apenas governando e politicando: vendo onde, quando e quanto se pode tirar sem dolo, culpa ou remorso, porque o dinheiro era do lucro e o lucro, como na Idade Média, é roubo e pecado. E quem rouba o ladrão tem mil anos de perdão...

Assustam, neste glorioso 15 de março, essas manifestações não encarnadas pelo falso vermelho, e marcadas pelo verde e amarelo. O verde esperança e o ouro sem mácula que pinta o coração de milhares de brasileiros. Esses cidadãos comuns. Essa gente miúda. Esse povinho sem ideologia ou utopia, mas com a moralidade, apesar de tudo, intacta!





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‘Ou as ruas nos engolem’ - Zuenir VenturaJornal O Globo

'Ou as ruas nos engolem' - Jornal O Globo

'Ou as ruas nos engolem'

Desta vez não se ouviu a alegação do Planalto e arredores de que as manifestações que reuniram no domingo cerca de dois milhões de pessoas em todo o país foram obra da "elite branca", da "mídia golpista" ou dos "ricos", talvez porque se saiba que estes não são tantos assim (a ridícula hipótese da ação da CIA, levantada pelo líder do PT na Câmara, Sibá Machado, não foi levada a sério por ninguém). Também não se questionou a precisão dos números, se foram exatos um milhão ou 250 mil manifestantes em São Paulo, 50 mil em Brasília ou 25 mil no Rio. Mais importante do que a quantidade, foi o bom comportamento da maioria dos participantes. Em suma, não se tentou tapar o sol com a peneira. Ao contrário de desqualificar o movimento, como se tentou fazer antes, preventivamente, nas redes sociais, o dia seguinte foi de elogios aos protestos, por parte de ministros e da própria presidente. Tanto que o efeito mais imediato da jornada de 15 de março foi de natureza vocabular: a rápida inclusão do termo "humildade" no discurso oficial, passando a ser usado até por Dilma, com quem combina tanto quanto uma sandália franciscana. A presidente não só saiu do seu retiro silencioso para conversar com os jornalistas, como se esforçou para demonstrar descontração e bom humor. Só uma vez usou aquele "minha querida", cujo tom em geral quer dizer o contrário e faz a repórter tremer.

Dilma pós-manifestações parecia em campanha. Prometeu diálogo, admitiu a possibilidade de "algum erro de dosagem" na economia e falou bem de atos que, afinal, foram de repúdio a ela, ao PT, ao escândalo da Petrobras, à crise econômica, ao aumento do custo de vida, às deficiências na saúde e na educação. Enfim, repúdio a seu governo como um todo. Não era com ela. A questão é que as ruas não querem mais discursos e lero-lero, como ficou demonstrado depois da passeata dos indignados, quando o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o secretário-geral da Presidência, Miguel Rossetto, tentaram apaziguar a massa com a apresentação de velhas e superadas propostas. Enquanto falavam, a resposta foi o panelaço em bairros de várias cidades. Quem percebeu o perigo do engodo foi o líder do governo na Câmara dos Deputados, o petista José Guimarães, que, com muita propriedade chamou a atenção de seus companheiros de partido e da Presidência, advertindo: "As ruas mostraram que querem mudança. Ou fazemos ou as ruas nos engolem".

Ele tem razão. As promessas deram certo para eleger Dilma, mas dificilmente serão suficientes para ela governar. A paciência da plateia está acabando, se é que já não acabou.



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terça-feira, março 17, 2015

Fernando Henrique diz que ‘não é crível’ que Lula e Dilma não soubessem de esquema na Petrobras

http://oglobo.globo.com/brasil/fernando-henrique-diz-que-nao-crivel-que-lula-dilma-nao-soubessem-de-esquema-na-petrobras-15620686





Na ativa. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso destacou a sua produção acadêmica após deixa a presidência - Leonardo Soares / Leonardo Soares
RIO - Em entrevista ao jornal Valor Econômico, publicada nesta terça-feira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou não acreditar que Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff estivessem alheios ao esquema de corrupção formado na Petrobras. “Em português claro: não é crível que o que aconteceu na Petrobras fosse desconhecido por quem estivesse no poder, seja Lula seja Dilma. Não digo que estejam involucrados no assunto, mas não é crível que estivessem alheios”, apontou ao jornal.
Quando perguntado sobre a delação do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, que disse ter começado a receber propina em 1997, o ex-presidente respondeu não temer a apuração do que foi dito. “Li todos os depoimentos do Barusco. Foi um ato individual dele. A institucionalização veio depois de 2004. Ele foi claro. Não existe isso, mas não tenho nenhum medo que se apure. Não tenho nada a ver com isso”, assegurou.
Para FH, o sentimento popular é de indignação em relação à corrupção "bem incrustada no Estado''. O ex-presidente também destacou que o governo precisa reconhecer que errou e que não pode fugir das responsabilidades:
“O governo pode vir a recuperar a iniciativa, mas não vai recuperar com ministro enrolando na televisão. A resposta da reforma política não é crível. A saída é ir mais fundo nas investigações e reconhecer: erramos. Quantas vezes não disse que errei por não ter ajustado o câmbio antes de 1998? Tinha mil razões para dizer porque não ajustei, mas não importa. Não se pode fugir da responsabilidade histórica.”
Outro assunto levantado durante a entrevista foram as manifestações de domingo, quando também houve panelaço. Na opinião de FH, os últimos protestos são diferentes dos realizados em 2013. “Em junho de 2013, você tinha uma multiplicidade de objetivos, um mal-estar generalizado. Agora esse mal-estar se transformou em indignação contra quem representa o poder, que é Dilma. Politizou mais”, disse o ex-presidente, que também analisou o protesto com panelas: “É uma coisa curiosa. Não é o governo que está surdo para a sociedade. É a sociedade que está surda para o governo. É grave isso”.
O ex-presidente também comentou a ausência de lideranças do PSDB em carros de som nas ruas: “Não estamos na posição de cavalgar em um movimento que é mais amplo que o partido. O movimento ainda não têm um caminho político claro, nem mesmo obscuro, é apenas uma explosão. A responsabilidade dos partidos é construir esse caminho agora, que passa por ser muito rígido e rigoroso na apuração dos fatos. Evitar qualquer tipo de pizza e marmelada e envolva quem quer que seja.”
Para ele, fugir das responsabilidades é o que tem feito o ex-presidente Lula. Fernando Henrique afirmou que seu sucessor sumiu após convocar o MST e a CUT para as ruas:
“O presidente Lula foi fazer uma declaração absolutamente imprópria, de pedir que os exércitos da CUT e do MST fossem para a rua. Depois ele se cala? Não se sente responsável se depois os ânimos se acirrarem? Ele sumiu e agora só Dilma que é culpada? Só se lê nos jornais que Lula reclamou da Dilma. Que é isso?”
FH também citou o que chamou de desatinos que o governo praticou em áreas como a da política de campeãs nacionais, retenção do preço da gasolina e da política energética. “São responsabilidades de Lula e Dilma e do partido deles que conduziu esse processo. Agora dizem que foi o Guido?”
Sobre se aceitaria um convite da presidente para conversar, o ex-presidente ressaltou que não recusaria, mas que teria que ser em público, pois "não é hora para conchavo'': “Nunca recusei chamado de ninguém para conversar. Nem da Dilma. Agora o momento não é de conchavo. Se a presidente achar que é momento de chamar, deve ser público. Não se pode conversar sem pauta. Não sei se ela tem força convocatória, porque não tem que chamar só a mim. Tem que ampliar. Agora temos que digerir, todos nós, esse processo todo e ver o que vai acontecer nas próximas semanas. Vamos ver se o governo vai pagar o preço de correr mais fundo esse processo de estabelecimento das responsabilidades.”

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/brasil/fernando-henrique-diz-que-nao-crivel-que-lula-dilma-nao-soubessem-de-esquema-na-petrobras-15620686#ixzz3Ugxt5Dgu
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O governo perdeu a bandeira Celso Ming


16 março 2015 |Estadão

No nível do simbólico, o interesse nacional parece, assim, mais defendido pelos manifestantes; a bandeira vermelha sugere ideais de outra natureza

Na atual safra de manifestações, o governo perdeu a bandeira brasileira empunhada nos grandes movimentos políticos, desde as Diretas Já. As cores verde e amarela foram arrebatadas pelas massas de oposição. A presidente Dilma e seu governo ficaram com o vermelho.
No nível do simbólico, o interesse nacional parece, assim, mais defendido pelos manifestantes. A bandeira vermelha sugere ideais de outra natureza. Essa redistribuição de cores pode ter consequência.
Em 2004, o presidente Lula deixou que implantassem a estrela vermelha do PT nos jardins do Palácio da Alvorada. Passou assim a impressão de que tentava apropriar-se, com selo próprio, de um dos edifícios símbolos da República.
Esta foi uma das maiores manifestações da História do Brasil e foi um ato de oposição. E, no entanto, a oposição partidária ficou de fora. Não mostrou identificação com os protestos, talvez porque tivesse entendido que não devesse endossar a tese do impeachment, proposta que acabou não prevalecendo. Os líderes políticos da oposição que compareceram aos atos de protesto ou não discursaram ou foram induzidos ao silêncio. Ou seja, não foi apenas o governo que foi atropelado pela mobilização. A oposição também foi. Ou toma o último vagão do comboio ou ficará definitivamente para trás. É o que tem de escolher agora.
Verde e amarelo, cores da oposição. Crédito da foto: Daniel Teixeira/Estadão
Verde e amarelo, cores da oposição. Crédito da foto: Daniel Teixeira/Estadão
A insistência com que gente do governo tem procurado desclassificar os protestos como coisa da burguesia ou dos derrotados nas eleições indica que o PT tem uma visão equivocada do que sejam as classes médias, as antigas e as recentemente incorporadas ao sistema social. Ainda entendem que a classe condutora da História seja o proletariado, que, no entanto, está em extinção. Em toda parte, o setor produtivo é dominado pelo setor de serviços que, no Brasil, corresponde a cerca de 70% do PIB. Dele fazem parte as atividades de educação, saúde, transportes, turismo, comunicação, finanças, comércio, operação de informática e a maioria das profissões liberais. Importantes segmentos dos funcionários das grandes indústrias, como o pessoal da administração e os trabalhadores qualificados, nada têm a ver com o proletariado tradicional. Dizer que os trabalhadores que atuam nessas áreas têm cabeça de proletário e agem como proletários e que o resto pensa e age como as elites é ignorar como passou a funcionar o mundo.
O governo Dilma se orgulha de ter adotado políticas que adensaram as classes médias brasileiras. Agora vêm esses porta-vozes oficiais com a argumentação de que os insatisfeitos que batem panelas e gritam slogans não passam de pequeno-burgueses massa de manobra das classes dirigentes.
Afirmar, como afirmou o desastrado ministro Miguel Rossetto, que os manifestantes de domingo foram os perdedores das últimas eleições é ignorar que a presidente Dilma não completou seu terceiro mês de governo e já ostenta recordes negativos de aprovação popular.
Como foi dito na Coluna de domingo, essas marchas de protesto ainda estão à procura de um discurso que as unifique e de objetivos carregados com mais consequência do que somente a de produzir desabafos coletivos. Mas também os grandes movimentos políticos começam assim, difusos e confusos. Depois tomam rumo, ou não tomam, para o bem e para o mal.
CONFIRA
BalancaMar2015
Esta foi a evolução da balança comercial brasileira nos últimos 6 meses.
Reversão
Já há sinais de reversão do forte déficit da balança comercial acumulado nos dois primeiros meses do ano (US$ 6,0 bilhões). Nas duas primeiras semanas de março, o déficit foi de apenas US$ 74 milhões e tende a reduzir-se nas próximas semanas. Apenas marginalmente essa redução do déficit tem a ver com a desvalorização do real, de mais de 20% apenas em 2015. Ela se deve mais à intensificação das exportações de produtos agrícolas, especialmente soja.

Arnaldo Jabor A arte de maldizer (*)

Estadão
Malditos sejais, ó mentirosos, negadores, defraudadores, vigaristas, intrujões, chupistas, tartufos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas pútridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente, que vossas mentiras, patranhas, fraudes, lérias e marandubas se transformem em cobras peçonhentas que se enrosquem em vossos pescoços, que entrem por vossos rabos, rabiotes e fundilhos e lá depositem venenosos ovos que vos depauperem em diarreias torrenciais e devastadoras. Que vossas línguas se atrofiem em asquerosos sapos e bichos pustulentos que vos impedirão de beijar vossas amantes, barregãs e micheteiras que vos recebem nos lupanares de Brasília, nos prostíbulos mentais onde viveis, refocilando-se nas delícias da roubalheira.
Malditos sejais, ladrões, gatunos, ratoneiros, trabuqueiros dos dinheiros públicos, dos quais agadanhais, expropriais mais da metade de todos os orçamentos, deixando viadutos no ar, pontes no nada, esgotos a céu aberto e crianças mortas de fome, mortas de tudo.
Que a maldição de todas as pragas do Egito e do Deuteronômio vos impeça de comer os frutos de vossas fazendas escravistas, que não possais degustar o pão de vossos fornos, nem o milho de vossos campos, e que vossas amantes vos traiam e vos contaminem com escabrosas doenças e repugnantes furúnculos!
Malditos sejais, homúnculos dedicados a se infiltrar nas brechas, nas breubas do Estado para malversar, rapinar, larapiar desde pequenas gorjetas embolsadas, até essa doença nacional chamada petróleo, onde vos repastais no revezamento sinistro de negociarrões com empresas fantasmas em terrenos baldios, até a rapinagem dos mínimos picuás dos miseráveis.
Malditas sejam as caras de pau dos ladravazes, com seus ascorosos sorrisos, imunda honradez ostentada, gélido cinismo, baseado na crapulosa legislação que vos protege há quatro séculos, por compradiços juízes, repulsivos desembargadores, fariseus que vendilham sentenças por interesses políticos, ocultados por intrincados circunlóquios jurídicos, solenes lero-leros para compadrios e favores aos poderosos! Que vossas togas se virem em abutres famintos que vos devorem o fígado, acelerando vossas mortes que virão pela ridícula sisudez esclerosada com que justificais liminares e chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca do boi de nossas prisões!
Malditos sejais, burocratas, sicofantas, enfiados na máquina pública, emperrando-a e sugando migalhas do Estado com voracidade e gula! Tomara que sejais devorados pelos carunchos que rastejam nos processos empoeirados da burocracia que impede o País de andar! Que a poeira dos arquivos mortos vos sufoque e envenene como o trigo roxo dos ratos!
Malditas sejam também as "consciências virginais", as mentes "puras"; malditos os alienados e covardes, malditos os limpos, os não culpados, os indiferentes, que se acham superiores aos que sofrem e pecam; malditos intelectuais silenciosos que ficam agarrados em seus dogmas, que se "escandalizam" com os horrores, mas nada fazem, diante dos erros óbvios que clamam por condenações. Maldito aquele que culpou os "brancos de olhos azuis" pela crise econômica mundial. Malditos os que só pensam em dividir os brasileiros entre "nós" e "eles". Maldita seja a técnica de vitimização que funciona bem para ditadores que se dizem sempre 'defensores do povo' - suas vítimas. Malditos os que condenam o passado, se eles são o passado.
Malditos os radicais de cervejaria, os radicais de enfermaria e os radicais de estrebaria. Os frívolos, os loucos e os burros. Uns bebem e falam em revolução; outros alucinam e os terceiros zurram.
Maldita seja também a indiferença narcisista do déspota sindicalista que renegou a herança bendita que recebeu e que se esconde nas crises para voltar um dia como pai da pátria. Que gordos carrapatos infectem sua barba de estadista deslumbrado.
Malditos também os que desejam trazer de volta a irresponsabilidade fiscal, malditos anjos da cara suja, malditos os que inventaram as gorjetas de milhões, malditos espertos fugitivos da cassação, anatematizados e desgraçados sejam os que levam dólares na cueca e, mais que eles, os que levam dólares às Bahamas, malditos os que usam o "amor ao povo" para justificar suas ambições fracassadas, malditos bolchevistas que agora são arroz de festa de intelectuais mal informados; malditos sejam, pois neles há o desejo de fazer regredir o Brasil para o velho Atraso pustulento, em nome de suas ideologias infantis!
Se eles prevalecerem, voltará o dragão da Inflação, com sete cabeças e dez chifres e sete coroas em cada cabeça e a prostituta do Atraso virá montada nele, berrando todas as blasfêmias, vestida de vermelho, segurando uma taça cheia de abominações. E ela, a besta do Atraso, estará bêbada com o sangue dos pobres e em sua testa estará escrito: "Mãe de todas as meretrizes e Mãe de todos os ladrões que paralisam nosso país".
Só nos resta isso: maldizer.
Portanto: que a peste negra vos devore a alma, políticos canalhas, que vossos cabelos com brilhantina vos cubram de uma gosma repulsiva, que vossas gravatas bregas vos enforquem, que os arcanjos vingadores vos exterminem para sempre!
(*) Não pude escrever o artigo da semana por doença (nada grave, inimigos meus), mas me lembrei de outro texto da época do "mensalão" e achei por bem republicá-lo, pois cabe perfeitamente nestes tempos de "petrolão".

Presidente sitiada - Rodrigo Constantino Jornal O Globo

Presidente sitiada - Jornal O Globo

Superou todas as expectativas: cerca de dois milhões de brasileiros foram às ruas em várias cidades do país para protestar contra o governo Dilma e o PT. São Paulo liderou, com metade deste montante. Em todo lugar, foi um ambiente de muita revolta e indignação, mas pacífico e familiar. Em Copacabana, levei minha filha e vi várias crianças e adolescentes. Os mascarados infiltrados não tiveram vez.

O contraste fica evidente: na sexta-feira 13, pelegos da CUT e "soldados" do "exército de Stédile" colocaram alguns gatos pingados nas ruas, a maioria em troca de mortadela e R$ 35. Havia ali até imigrantes que nem falam português. Foram apenas pelo dinheiro. Um "protesto" chapa-branca esquizofrênico, contra o governo, mas a favor de Dilma.

O PT perdeu o controle das ruas, não tem mais o monopólio da mobilização das massas. Fala em nome dos trabalhadores, mas os esfola com a inflação elevada e os impostos crescentes. Precisa pagar para reunir algumas pessoas em defesa da presidente, e faz isso em dia de semana, pois os "trabalhadores" ali presentes não trabalham: querem somente esmolas estatais.

Já no domingo os verdadeiros trabalhadores trocaram o dia de descanso pelo dever cívico de se manifestar contra um governo mentiroso, incompetente e corrupto. Sem organização partidária, foi um protesto totalmente espontâneo da parcela da população que não aguenta mais tanta roubalheira e cinismo. Essas pessoas querem um país melhor, desejam resgatar o direito de sonhar com o futuro, manter a esperança usurpada pelo governo.

A reação do PT e de seus militantes virtuais foi a pior possível, o que só joga mais lenha na fogueira. Primeiro, acusaram os manifestantes de "golpistas da elite", como se fosse algum golpe gritar "fora Dilma" nas ruas, e como se fosse apenas a elite por trás dessa manifestação. Mesmo o impeachment, que era parte da agenda de alguns manifestantes, é um instrumento constitucional que foi usado contra Collor pelos próprios petistas. E naquele tempo não era "golpismo".

Depois, quando viram o tamanho da coisa, resolveram repetir que só tinha eleitor do Aécio nas ruas, e que o governo Dilma é muito democrático e tolerante. Dilma escalou dois ministros para dar seu recado, mas o tiro saiu pela culatra. Cardozo, ministro da Justiça, insistiu na abertura ao diálogo do governo, o que todos sabem ser um mito. E ainda posou de grande defensor da democracia, um sujeito que já palestrou no Foro de São Paulo a favor de Cuba e Venezuela. É como Suzane von Richthofen enaltecendo o amor aos pais!

Para piorar a situação, Cardozo puxou da cartola a "reforma política", que o PT tem tratado como panaceia para o problema da corrupção. Repetiu a importância de se adotar o financiamento público de campanha, como se a culpa do petrolão fosse das empreiteiras apenas, e não dos corruptos do PT. Não cola. Essa não era a pauta das manifestações. A voz das ruas não pede reforma política; deseja mudança de governo!

Enquanto os ministros defendiam o governo Dilma, novo "panelaço" ecoou pelo país. O governo continua negando a realidade, tratando os brasileiros como uma cambada de idiotas. Dilma sequer teve a coragem de falar diretamente com a população. A presidente já não pode circular pelas ruas do Brasil, pois sabe que será alvo de vaias. Agora não consegue nem se dirigir aos telespectadores pela TV. É uma presidente acuada, sitiada. E ainda faltam 45 meses de segundo mandato!

O que vai ser daqui para frente ninguém sabe ao certo. A situação de Dilma parece insustentável. O escancarado estelionato eleitoral em curso retirou qualquer legitimidade da presidente. A tentativa de jogar a culpa sempre para ombros alheios e a incapacidade de admitir erros fizeram de Dilma uma governante fraca, pois uma estadista jamais agiria assim. O PMDB, da base aliada, está cada vez mais afastado e rebelde. A governabilidade não existe mais.

O PT definha, em pânico. Lula, o responsável por isso tudo, ainda vai conseguir destruir o partido que ajudou a criar. Os brasileiros que têm olhos para enxergar já sabem que o único projeto do lulopetismo é se agarrar ao poder para sempre. Inspiram-se nos chavistas. Nunca ligaram para os pobres. Gostam mesmo é da pobreza e da ignorância, pois garantem um mercado cativo para seu populismo.

O Brasil vive uma subversão de valores. Banalizaram e institucionalizaram a corrupção. A ética foi jogada no lixo. Lula achou que era possível comprar todos. Não é. Está chegando a hora do acerto de contas com quem se recusou a se vender por migalhas estatais...

Rodrigo Constantino é economista e presidente do Instituto Liberal




Cadeia de comando - José Casado

Cadeia de comando - Jornal O Globo

O Globo

Depois de amanhã, completam-se cinco anos da saída de Dilma Rousseff da presidência do Conselho de Administração da Petrobras. No governo e no Partido dos Trabalhadores, há advogados contando os minutos que faltam para essa data aniversária.

Motivo: entendem o fim do quinquênio como o prazo máximo definido na legislação doméstica sobre sociedades anônimas para eventual contestação judicial às decisões da atual presidente da República.

Dilma passou sete anos (2003 a 2010) no conselho administrativo. Saiu para se candidatar à Presidência da República, na sucessão de Lula.

Enquanto esteve por lá, possuía pleno acesso às informações e um poder realmente decisivo sobre os principais investimentos da empresa estatal.

Alguns dos negócios realizados nesse período encontram-se sob investigação, dentro e fora do país. É o caso da compra da refinaria de Pasadena (Texas), da construção de polos petroquímicos em Pernambuco e no Rio de Janeiro, da encomenda e aluguel de navios, plataformas marítimas e sondas de perfuração.

Na interpretação dos defensores da presidente, a quinta-feira 19 é uma data relevante: nesse dia prescreve o período de tempo concedido na legislação nacional para atribuição de responsabilidade à ex-conselheira.

Um ano depois, o inquérito sobre corrupção na estatal de petróleo desdobra-se em ações envolvendo mais de 80 pessoas e 415 empresas privadas — a maioria de papel, criada para lavar o dinheiro de subornos.

Reconhecida como vítima, a Petrobras oficialmente não está sob investigação. No entanto, cinco dos seus ex-dirigentes enfrentam acusações: os antigos diretores Paulo Roberto Costa (Abastecimento), Nestor Cerveró e Jorge Zelada (Internacional), Renato Duque (Serviços, que voltou a ser preso ontem) e o seu ex-gerente Pedro Barusco. Formaram metade da diretoria de José Sergio Gabrielli, que entre 2005 e 2012 presidiu a empresa.

Na semana passada Gabrielli tentou se esquivar da responsabilidade: "[Essas diretorias] Não têm atividades operacionais relacionadas com a presidência", ele disse na CPI da Câmara.

O homem que durante sete anos comandou a Petrobras, em algumas ocasiões exibindo a estrela do PT na lapela no paletó, optou por se recolher a um papel similar ao de mordomo, sem poder sobre os negócios da companhia que dirigia.

O argumento é pífio, porque irreal, como pode vir a ser demonstrado pelo avanço da investigação sobre a cadeia de comando nos negócios da Petrobras.

Sobram indícios sobre o processo de decisões tanto nas sindicâncias internas da estatal, estranhamente mantidas sob sigilo, quanto nos inquéritos públicos da Justiça Federal. Subordinados de Gabrielli já confirmaram à polícia a atuação em nome da Petrobras em acordos com fornecedores para aumento de custos contratuais nos empreendimentos da estatal.

Assim, o papel da diretoria de Gabrielli equivaleria ao de motor do "cartel" de fornecedores? Ou a "banda podre" da diretoria institucionalizou um modelo de negócios baseado em corrupção? Em qualquer hipótese, sua gestão teria sido, no mínimo, temerária.




terça-feira, março 10, 2015

Plano inclinado - Rubens Barboss O Globo

Plano inclinado - Jornal O Globo

Plano inclinado

A Política Nacional de Participação Social, recentemente criada, é uma das medidas mais ousadas adotadas pelo PT em todo o seu governo. A nova legislação tem como objetivo fortalecer a atuação conjunta entre a administração pública federal e a sociedade civil, definida como "o cidadão, os coletivos, os movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações".

A medida legal determina que os ministérios, autarquias, empresas estatais e até agências reguladoras devem considerar as diretrizes da política de participação social na formulação, na execução, no monitoramento e na avaliação de programas e políticas públicas. Foram criados conselhos e comissões de políticas públicas, conferências nacionais, ouvidorias, mesas de diálogo, audiências e consulta públicas e ambiente virtual de participação social. Os conselhos de políticas públicas têm competência para "participar no processo decisório e na gestão de políticas públicas"; a conferência nacional "pode interferir na formulação e na avaliação" dessas políticas.

A Secretaria-Geral da Presidência presidirá um novo órgão da administração, a mesa de monitoramento das demandas sociais, responsável pela coordenação e encaminhamento de pautas dos movimentos sociais e pelo monitoramento de suas respostas. Essa competência parece chocar-se com a disposição constitucional que dá atribuição exclusiva aos ministros de Estado para coordenar os demais órgãos e entidades da administração pública federal em sua área de competência.

A Constituição prescreve que a soberania popular se exerce pelo voto, com igual valor para todos. O controle partidário dos movimentos sociais fará com que as plataformas políticas do partido sejam necessariamente examinadas por todos os ministérios e entes públicos, com profundas repercussões na vida diária das empresas e dos cidadãos.

O Legislativo, que, segundo a constituição, tem a atribuição de exercer o acompanhamento e a fiscalização dos atos do Executivo, terá de competir com os movimentos sociais, visto que, na realidade, estará sendo substituído por um poder paralelo com funções mais amplas.

Ninguém pode ser contra audiências e consultas públicas, como vem ocorrendo no âmbito do Congresso, com ampla participação da sociedade civil. A grande novidade é a possibilidade de interferência dos movimentos sociais na formulação e no processo decisório de políticas públicas.

O assembleísmo deverá tornar o país muito mais burocrático do que já é. Questionam-se as motivações do governo. O uso da expressão mesa de negociação, inexistente em português, mas corrente nos países bolivarianos, pode dar uma pista...

Não conheço país algum onde os movimentos sociais participam das decisões e interferem na formulação de políticas no executivo, a não ser países como a China, a Venezuela e outros em que o Executivo é submetido ao domínio do partido único, que diz atuar em nome da sociedade civil.

Esse é um dos temas mais relevantes da atualidade, pois tem tudo a ver com a democracia e a representação.

Rubens Barbosa é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp



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