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quinta-feira, dezembro 18, 2014

A Líbia na esquina Demétrio Magnoli

A inversão da trajetória de preços do petróleo que está em curso anuncia o colapso do regime chavista. Os indícios apontam para o cenário de uma ruptura violenta

O termômetro tradicional da política venezuelana é fornecido pelos preços do barril de petróleo. Como regra, as etapas de alta de preços correspondem a períodos de bonança econômica e estabilidade política; enquanto as etapas de baixa coincidem com intervalos de crise econômica e desordem política. O movimento “bolivariano” nasceu no solo arado pela retração das cotações do barril, em meados da década de 1980, e o poder de Hugo Chávez consolidou-se ao longo da forte elevação de preços da década de 2000. Contudo, excepcionalmente, o chavismo armou uma crise econômica durante o auge das cotações do produto. A inversão da trajetória de preços que está em curso anuncia o colapso do regime chavista. Os indícios apontam para o cenário de uma ruptura violenta. O espectro da Líbia ronda a América Latina.
O chavismo não é uma versão singular do populismo latino-americano. Não é lulismo, nem kirchnerismo. Os analistas convencionais não entenderam a natureza do regime venezuelano quando, em 2008 e 2013, profetizaram uma prudente correção de rumos da política econômica. A “revolução bolivariana” ultrapassou uma barreira desde a fundação do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e o subsequente armamento das milícias chavistas. De lá para cá, fechou-se o caminho político para um retorno aos equilíbrios de mercado.
A “unidade bolivariana” só existe nos discursos de Maduro. A demissão do ministro do Planejamento Jorge Giordani, um expoente da ala marxista do chavismo, em junho, evidenciou as profundas fraturas internas e evitou a aceleração das políticas estatizantes, mas não provocou a reviravolta tantas vezes profetizada. O fraco sucessor de Chávez recusou a “saída para frente” de Giordani, mas não tem os meios para operar um “giro para trás”. Não haverá um Joaquim Levy venezuelano — e nem mesmo um Nelson Barbosa. Estrategicamente paralisado, vergado sob o peso da inflação, do desabastecimento e do aumento do desemprego, o regime tenta apenas impedir a eclosão de uma inevitável hecatombe financeira.
A unidade da oposição, construída em torno de Henrique Capriles, em 2011, não sobreviveu à onda de protestos deflagrada em fevereiro pelo Vontade Popular, o partido dirigido por Leopoldo López. Diferentemente do candidato presidencial oposicionista, López concluiu que a crise do chavismo só não redundaria na “cubanização” completa do regime, com a supressão da pluralidade política, se um levante popular pacífico pusesse um ponto final na agonia. Entretanto, como o tempo demonstraria, Capriles tinha razão: os estudantes e a classe média careciam do apoio ativo dos pobres de Caracas, que abandonaram Maduro, mas ainda não estavam dispostos a sublevar-se contra seus antigos líderes. A repressão implacável aos protestos, a prisão de López e a cassação do mandato de María Corina Machado representaram a travessia de uma nova fronteira na marcha rumo à ditadura. Ao mesmo tempo, cindiram a oposição em duas correntes separadas por um fosso de amargura.
Uma bomba-relógio paira sobre a Venezuela. As finanças do país são sustentadas artificialmente por um balão de oxigênio inflado pela China em 2007, quando se negociou um empréstimo de US$ 46 bilhões pagáveis em petróleo. Como contrapartida, o regime chavista estabeleceu uma relação de dependência neocolonial, conectando as exportações petrolíferas a importações compulsórias de manufaturados chineses. O torniquete apertou com a recusa da Opep, no fim de novembro, de cortar sua produção. Diante da perspectiva de um ciclo de baixos preços do barril, Maduro despachou seu ministro das Finanças à China, em busca de novos empréstimos. Os chineses, porém, não parecem propensos a mais que uma negociação de prazos. Hoje, Caracas manobra na tempestade, tentando revender a bancos americanos títulos da dívida de países envolvidos nas aquisições de petróleo subsidiado venezuelano.
As sondagens revelam que os índices de aprovação do governo de Maduro rondam a marca fúnebre de 25%. Há um quarto de século, índices similares, produzidos pela depressão econômica que resultou da etapa de baixos preços do barril, detonaram uma insurreição popular em Caracas contra o presidente Carlos Andrés Perez. A repressão ao “Caracazo” de fevereiro de 1989 deixou um saldo de centenas de mortos, preparou a cena para o frustrado golpe de Chávez de 1992 e encerrou a longa história da democracia oligárquica na Venezuela. Sinais palpáveis, inquietantes, de um novo “Caracazo” transpiram da frustração nos bairros pobres da capital. Dessa vez, contudo, o governo conta, além da polícia e dos militares, com as milícias chavistas.
O Brasil já desempenhou papel construtivo na Venezuela, no passado recente. No início de 2003, diante da crise aberta pela paralisação oposicionista na empresa estatal de petróleo, Lula tomou a iniciativa de constituir o Grupo de Países Amigos da Venezuela, que incluía os EUA e a Espanha, evitando uma ruptura catastrófica. Depois, porém, o lulopetismo optou pela proteção incondicional do chavismo, até converter o Mercosul num casulo diplomático para a deriva autoritária da “revolução bolivariana”. O vergonhoso silêncio do Itamaraty diante das comprovadas torturas aplicadas em manifestantes detidos, da prisão ilegal de López e da cassação do mandato de Corina Machado desmoralizou o Brasil diante de todos os setores da oposição venezuelana. Mesmo assim, não existe nenhuma outra potência regional capaz de alinhavar uma saída para o impasse no país vizinho.
O Brasil tem a alternativa de mobilizar a OEA, a Celac e a Unasul para falar a dura verdade a Maduro, exigindo a restauração das liberdades públicas e das garantias democráticas, como pressupostos para um diálogo nacional genuíno. A bomba-relógio não será desarmada milagrosamente. Aí na esquina, do outro lado da fronteira, desenham-se os contornos de uma Líbia.
Demétrio Magnoli é sociólogo
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terça-feira, dezembro 16, 2014

Controvérsias que persistem Josef Barat Estadão

O Brasil é o lugar onde idéias políticas ultrapassadas permanecem e ressurgem como novas. Para ficar em dois exemplos singelos: causa surpresa aos franceses como o Positivismo perdurou aqui por tanto tempo e aos alemães como ainda se acredita no Comunismo. Entre economistas, há controvérsias vindas dos anos 50 e 60 que ainda estão em pauta. Sua origem vem do embate entre as formulações nacionalistas e industrialistas, de um lado, e as liberais e monetaristas, de outro. As primeiras provêm de um misto de teses ideológicas do velho Partidão, do getulismo e do seu PTB, levadas posteriormente ao paroxismo no governo Geisel. As segundas, da visão liberal da UDN e vigentes no governo Castelo. 

Selecionei quatro controvérsias que, a meu ver, ficaram obsoletas frente aos impactos da globalização, do desenvolvimento do comercio mundial, bem como da conectividade decorrente dos avanços nas tecnologias de informação. A primeira controvérsia é a da expansão e consolidação do mercado interno, em oposição ao aumento do esforço de exportar. Trata-se da oposição, em voga nos anos 60, entre o desenvolvimento para dentro e para fora. Em termos mais simples, o Brasil se industrializaria para dentro ou seguiria um modelo exportador tipo asiático? Hoje se constata que o desenvolvimento moderno ocorre nas duas direções – uma fortalecendo a outra – na medida em que são alcançados novos patamares de produtividade e competitividade.

A segunda diz respeito ao dilema entre o aprofundamento do desenvolvimento industrial, em oposição à expansão da agricultura. O Brasil estaria fadado a ser uma potência industrial ou agrícola? Este era o tema do famoso debate entre Roberto Simonsen e Eugênio Gudin, por volta de 1950, e que permaneceu por muito tempo. Hoje percebemos que pode haver uma profícua coexistência entre os dois caminhos, inclusive devido ao grande desenvolvimento tecnológico do moderno agronegócio. Não foi este, voltado mais para fora, que prejudicou a indústria. Muito ao contrário, ele deu suporte para ampliar a produção de máquinas e equipamentos.

A terceira controvérsia que perdura é a da oposição entre a maior presença estatal e a maior liberdade de mercado. Com as privatizações de empresas estatais e as concessões de serviços públicos, ficou claro que segmentos antes de atuação predominante do Estado – infraestruturas e insumos básicos – poderiam ser operados por empresas privadas. Por outro lado, os papéis que hoje o Estado teria a cumprir – como indutor do desenvolvimento – são bem diferentes dos que tinha nos anos 50 e 60, exacerbados no regime militar, quando o nacional-desenvolvimentismo atingiu seu apogeu.

Neste sentido, é importante que haja uma profunda reformulação do papel do Estado e mudanças nas formas de governança dos recursos públicos, em especial daqueles destinados à Pesquisa & Desenvolvimento. Hoje é crucial que se instrumentalize novas formas de financiamento e se tenha maior seletividade das ações do governo, para estimular pesquisas e parcerias que visem gerar e absorver inovações tecnológicas.

Por fim, a quarta – talvez a mais persistente – é aquela que contrapõe os desenvolvimentistas aos que defendem a estabilidade monetária, estes pejorativamente chamados de neoliberais. Hoje não é mais possível sustentar o crescimento com fortes investimentos estatais e financiá-lo por meio de: endividamento externo e interno; maciças transferências de renda para o Estado, por meio da inflação; e elevada carga tributária. Este tipo de financiamento seria inviável, o que obriga a busca de outros papéis e formas de atuação para o Estado no fomento e financiamento do desenvolvimento. Ou seja, o contexto histórico de hoje, não admite mais crescimento com inflação e descontrole dos gastos públicos. Prova disto é que a recente condução frouxa da política monetária não estimulou o crescimento, muito ao contrário. Controvérsias muitas vezes permanecem apenas para criar mais controvérsia. É hora de abandoná-las e cuidar melhor da consistência da política econômica.

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Josef Barat – Economista, consultor de entidades públicas e privadas, é Coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo.

 

 

 

 

 

segunda-feira, dezembro 15, 2014

Adriano Pires É preciso refundar a Petrobras

Blog do Noblat

Caso se queira refundar a Petrobras e pôr um fim na tempestade perfeita, a solução estrutural é promover políticas que incentivem a concorrência

15/12/2014 - 09h12

, O Globo

A Petrobras vive a sua tempestade perfeita. A operação Lava-Jato, que prendeu diretores da empresa, revelou seus males: desvios de recursos que lesaram drasticamente os seus acionistas; perdas no caixa, decorrentes da utilização da empresa para conter a inflação; a assunção de uma dívida que já ultrapassa os R$ 300 bilhões; o não cumprimento das metas de produção de petróleo e a sua atual posição de importadora de petróleo e de derivados, que continua a adiar a sempre e tão almejada autossuficiência.

E quais seriam as razões que levaram a Petrobras à pior situação desde a sua criação? A principal explicação, sem dúvida, foi o fato de o governo do PT — sob o argumento de que estava protegendo o patrimônio do povo brasileiro e, mesmo, reforçando o valor da empresa e seu papel na economia — ter implantado políticas que aumentaram o poder de monopólio e monopsônio da companhia, o que estimulou a ineficiência administrativa e as práticas de corrupção.

Ao estimular o poder de monopólio, o governo, ao mesmo tempo, passou a tratar a Petrobras como se a empresa fosse 100% estatal, esquecendo-se inteiramente dos interesses dos acionistas minoritários. O exemplo maior é a condução da política de preços da gasolina e do diesel.

Nos últimos quatro anos, o governo, ao impedir que a Petrobras tivesse o preço da gasolina e do diesel reajustado de acordo com o mercado internacional, transformou a estatal no único produtor e importador de gasolina e diesel e gerou um rombo no caixa da empresa de R$ 100 bilhões.

No segmento de exploração e produção, o monopólio foi reforçado com a criação do modelo de partilha para a exploração de petróleo no pré-sal e a sanção de uma lei na qual a estatal passaria a ter no mínimo 30% de todos os blocos leiloados, além de ser a única operadora desses campos de petróleo. Ou seja, quem quiser explorar petróleo no pré-sal brasileiro terá que ter, obrigatoriamente, a Petrobras como sócia e será impedido de operar os campos.

Esse aumento do poder de monopólio da Petrobras transformou o mercado de fornecimento de bens e serviços para o setor de óleo e gás em um monopsônio, estimulando as práticas de corrupção.

Ao converter a Petrobras, praticamente, na única compradora da indústria fornecedora de bens e serviços, o governo deu um poder demasiado aos gestores da estatal, conduzidos aos cargos por partidos políticos da base governista.

Essa estrutura, aliada a uma política de conteúdo local, que estimula reserva de mercado e elege com isso os "amigos do rei", criou a atmosfera perfeita para um conluio entre partidos políticos, funcionários da Petrobras e as empresas fornecedoras.

Caso se queira refundar a Petrobras e pôr um fim na tempestade perfeita, a solução estrutural é promover políticas que incentivem a concorrência.

Ao estimular a concorrência, a estatal passaria a criar uma blindagem contra as interferências políticas, obrigaria a empresa a ter uma governança e uma administração eficientes, protegeria os interesses dos acionistas e se criariam, no mercado brasileiro, as condições para que outras empresas passem a ser compradoras da indústria fornecedora de bens e serviços.

A Petrobras, ao contrário do que o governo de forma populista transmite para a sociedade brasileira, está totalmente preparada para atuar num mercado competitivo. A Petrobras tem um quadro técnico altamente qualificado, é detentora de tecnologia de explorar petróleo no mar e possui a quarta reserva de petróleo do mundo.

Petrobras (Foto: Divulgação)Petrobras (Imagem: Divulgação)

Adriano Pires é diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura

domingo, dezembro 14, 2014

A urgência de Lula - Opinião - Estadão

A urgência de Lula - Opinião - Estadão

A urgência de Lula

O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2014 | 02h 04

A presidente Dilma Rousseff nem começou seu segundo mandato e seu padrinho, Luiz Inácio Lula da Silva, já está em plena campanha para a eleição de 2018. A bem da verdade, Lula nunca desceu do palanque - desde 2003, os governos lulopetistas se notabilizaram por administrar o País pensando somente na eleição seguinte, transformando o Estado em máquina partidária. Agora, no entanto, parece haver um sentido de urgência na atitude do ex-presidente, porque a oposição se fortaleceu pelo bom desempenho na última disputa presidencial e, também, porque o descalabro econômico e o maior escândalo de corrupção da história brasileira tornaram-se ameaças sérias a seu projeto de poder.

A principal estratégia de Lula e de seus seguidores tem sido atribuir cinicamente à oposição o mau comportamento republicano que hoje caracteriza o PT. "Eles acham que a campanha não acabou", afirmou o ex-presidente, em discurso na abertura do 5.º Congresso do PT, em Brasília.

Com isso, Lula busca tirar a legitimidade das críticas da oposição, transformando-as em mera artimanha das "elites" para dar um "golpe" em Dilma e em seu partido - quando na verdade é Lula quem desmoraliza a democracia ao sistematicamente desrespeitar os que não votam nos petistas nem aceitam o assalto ao Estado. Para esse fim, vale tudo: no mesmo pronunciamento, Lula defendeu os envolvidos no escândalo da Petrobrás, dizendo que eles já foram condenados pela imprensa antes mesmo da análise do caso pelo Supremo Tribunal Federal (STF) - uma maneira nada sutil de dizer que, se o STF acatar as denúncias, só o fará por pressão dos jornais.

Na construção desse discurso contra a oposição, Lula especializou-se em ofender a inteligência alheia, apostando numa espécie de amnésia coletiva. "Eu perdi em 89, e todo mundo sabe como perdi, entretanto não fiquei na rua protestando, fui me preparar para a outra", afirmou Lula, referindo-se à eleição presidencial de 1989, quando foi derrotado por Fernando Collor. Insinuando que a eleição de Collor não foi legítima ("todo mundo sabe como perdi"), Lula quis dizer que, apesar disso, não fez protestos como os que a oposição hoje faz. E foi adiante: "Quando a gente perdia, a gente acatava o resultado".

Não é preciso fazer um grande esforço para lembrar que o PT sempre fez oposição sem trégua - votou contra o Plano Real e contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, para ficar em apenas dois exemplos da inconsequência do partido - e promoveu uma campanha sistemática para minar o governo de Fernando Henrique Cardoso, especialmente no segundo mandato. Líderes do partido, que hoje dizem "acatar o resultado" das eleições e se queixam das manifestações contra Dilma em razão do escândalo da Petrobrás, chegaram a defender o impeachment de FHC diante das suspeitas de irregularidades nas privatizações. Era o "Fora FHC!". Hoje, porém, Lula não se constrange em pedir que cessem os protestos contra Dilma porque ela "precisa governar": "Deixem a mulher trabalhar, gente! Ela ganhou as eleições".

Empenhado em ditar os rumos do segundo mandato, para fortalecer sua eventual candidatura em 2018, o ex-presidente, sempre que pode, cita as próximas eleições. "Eles (a oposição) começam a ficar apavorados com a perspectiva do quinto mandato", discursou Lula, dando a senha para que os correligionários o ovacionassem. Em seguida, bem ao seu estilo, disse que "ninguém tem de pensar em 2018", mas deixou clara a pressão sobre Dilma, ao dizer que espera dela o "sinal que ela vai dar do ponto de vista econômico, das políticas sociais, de desenvolvimento".

Lula parece saber que é do desempenho de Dilma que depende sua força e a de seu partido para enfrentar a tempestade do escândalo de corrupção e sobreviver no poder em 2018. Essa é sua grande aflição e a razão pela qual imputa tudo o que se diz sobre o escândalo na Petrobrás a uma campanha para "destruir" o PT.



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sábado, dezembro 13, 2014

O custo da espera Miriam Leitão

http://m.oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2014/12/13/o-custo-da-espera-556907.asp
O GLOBO
Se a confiança na economia começa pela bolsa de valores, as notícias atuais não são boas. Os investidores são os primeiros a farejar sinais de mudança, mas não é o que indica o Ibovespa, que voltou a 48 mil pontos. Há fatores externos para explicar a queda, como o fortalecimento da moeda americana no mundo e a redução de preço das commodities. Internamente, a nova equipe econômica segue no banco de reservas.
Segundo o economista Álvaro Bandeira, da Órama Corretora, não há nada de novo na economia brasileira, apesar do anúncio de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. O que se vê é a continuação das políticas implementadas pela dupla Mantega/Augustin. O Tesouro fez nova emissão de títulos para emprestar ao BNDES, no valor de R$ 30 bilhões. Também virou fiador de uma operação envolvendo a Petrobras e a Eletrobras, no valor de R$ 8,5 bi. A dívida de estados e municípios foi recalculada retroativamente, e o superávit primário este ano foi praticamente extinto. Tudo isso vai aumentar a dívida pública.
— Estamos vendo uma enorme gastança do governo neste final de ano. O novo ministro foi anunciado, mas ainda não assumiu. Esse quadro interno intensifica as incertezas, num contexto de aumento da aversão ao risco, que vem de fora — explicou Bandeira.
A ausência de notícias novas na política econômica dá margem a ruídos e boatos. Um exemplo é a ameaça de volta da cobrança da CPMF, que tem afetado as ações dos bancos. A recriação do imposto, se acontecer, vai desestimular operações financeiras. A sangria da Petrobras e seus desdobramentos imprevisíveis complementam o quadro.
De fora, os efeitos vêm do crescimento mais forte dos EUA, que intensifica a valorização do dólar no mundo, e a desaceleração da China, que derruba os preços das commodities. Assim como o Brasil, outros emergentes, como a Rússia e a Austrália, estão vendo suas moedas perderem valor. Os títulos públicos americanos estão tendo forte procura, num sinal de que o fluxo de crédito está se invertendo, deixando mercados arriscados em busca de rentabilidade segura.
A nomeação de Joaquim Levy e seu primeiro pronunciamento deram esperança de que o Brasil começasse a corrigir o rumo. Mas a repetição dos métodos neste fechamento de ano, os temores sobre escolhas de pessoas inadequadas para bancos públicos, e o aprofundamento da crise da Petrobras estão minando a pouca confiança que Levy injetou. Com o ambiente externo adverso, a hora é mais séria do que o governo parece se dar conta.
Balanço atrasado antecipou dívidas
Por divulgar o balanço fora do prazo, a Petrobras foi punida com o vencimento antecipado de R$ 7 bi em dívidas, conta o analista da XP Investimentos Celson Plácido. Esse é o montante que a petroleira pretende captar com a negociação dos recebíveis esta semana. Para ajudar a empresa, o governo fez a Eletrobras reconhecer uma dívida de R$ 2 bi com a petroleira. Da CDE, fundo mantido pelo consumidor de luz, serão transferidos mais R$ 6,5 bi. Para ter o dinheiro agora, a Petrobras vai vender os créditos (garantidos pelo Tesouro) com desconto. Mais dívidas vencerão caso o balanço anual não saia até abril de 2015.
Tecnologia se salva
Na indústria eletroeletrônica, que deve fechar o ano com queda real de 6% nas receitas, o único segmento que cresce é o de telecomunicação, graças às vendas de smartphones e tablets. Humberto Barbato, presidente da Abinee, explica que o baixo crescimento do país tem a ver com a indústria. A atual política industrial, calcada em subsídios, não deu certo. A associação pede mais acordos comerciais para abrir mercados em outros países. 
BOM SINAL. O PIB mensal calculado pelo Itaú Unibanco subiu 0,6% em outubro, indicando um quarto trimestre melhor que o terceiro.
PRESSÃO NO FED. A confiança do consumidor nos EUA chegou ao maior nível dos últimos sete anos, pelo indicador da Universidade de Michigan.

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Vitória amarga , por Fernando Henrique Cardoso

Vitória amarga , por Fernando Henrique Cardoso Noblat

Raras vezes houve vitória eleitoral tão pouco festejada. Nem mesmo o partido da vencedora, tonitruante e dado a autocelebrações, vibrou o suficiente para despertar o país da letargia.

Os mais espertos talvez tenham percebido que seus quadros minguaram, com graves perdas de entusiasmo e adesão na juventude e certo rancor em setores do empresariado mais moderno.

A reeleita possivelmente saboreie o êxito com certo amargor. É indiscutível a legalidade da vitória, mas discutível sua legitimidade. O que foi dito durante a campanha eleitoral não se compaginava com a realidade.

Só mesmo seu ministro da Fazenda, que coabita com o novo ministro designado, pôde dizer de cara lavada que a economia saíra da estagnação e que os males que a assolam vêm da crise mundial.

Recentemente, fazendo coro a esta euforia de encomenda, diante de dados que mostram um "crescimento" de 0,1% do PIB no trimestre passado, houve a repetição da bobagem: finalmente a economia teria saído da "recessão técnica", de dois ou mais trimestres seguidos.

Palavras, palavras, palavras, que não enganam sequer aos que as estão pronunciando. 

Na formação do novo gabinete, a presidenta começou a atuar (escrevo antes que a tarefa esteja completa) no sentido de desdizer o que pregara na campanha. Buscou um tripé "de direita" para o comando da economia.

Na verdade, o adjetivo é despiciendo: a calamidade das contas públicas levou-a a escolher quem se imagina possa repô-las em ordem, pois sem isso não existe direita nem esquerda, mas o caos.

Menos justificável, senão pela angústia dos apoios perdidos, é a composição anunciada do resto do Ministério de cunho mais conservador/clientelístico. Esperemos. 

A presidenta, com esta reviravolta, deve sentir certa constrangedora falta de legitimidade. Foi a partir da ação dela na Casa Civil, e daí por diante, que se implantou a "nova matriz econômica": mais gastança governamental e mais crédito público, à custa do Tesouro.

Foi isso que não deu certo, e serviu de alavanca para outros equívocos que levaram o governo do PT a perder a confiança de metade do país. Sem falar da quebra moral.

Metade, sim, mas que metade? É só ver os dados eleitorais com maior minúcia, município por município: a oposição ganhou, em geral, nas áreas mais dinâmicas do país, inclusive nas capitais onde há sociedade civil mais ativa, maior escolaridade, capacidade empreendedora mais autônoma e menos amarras aos governos.

O lulopetismo, nascido no coração da classe trabalhadora do ABC, recuou para as áreas do país onde a ação do governo supre a ausência de uma sociedade civil ativa e de setores produtivos mais independentes de decisões governamentais.

É falaciosa a afirmação de que houve vitória da oposição em áreas geográficas tomadas isoladamente: Sudeste rico em contraposição ao Nordeste pobre, idem quanto ao Sul ou quanto ao Centro-Oeste em relação ao Norte. Ou de ricos contra pobres, à moda lulista.

Por certo, como há maior concentração da pobreza nas áreas mais dependentes do assistencialismo governamental, houve, de fato, uma distinção na qual as faixas de renda pesam. Mas os sete milhões de dianteira que Aécio levou sobre Dilma em São Paulo terão sido "dos ricos"? Absurdo.

Nas áreas menos dependentes do governo, ricos e pobres tenderam a votar contra o lulopetismo; nas demais, a favor de Dilma, ou melhor, do governo.

A votação na oposição no Acre, em Rondônia, em Roraima ou nas capitais do Norte e Nordeste se explica melhor pelo dinamismo do agronegócio e pelos serviços que ele gera, e, no caso das capitais, pela maior autonomia de decisão das pessoas.

Este o xis da questão. Eleito com apoio dos mais dependentes (não só dos mais pobres, mas também dos dependentes "da máquina pública" e das empresas a ela associadas), o "novo" governo precisa fazer uma política econômica que atenda aos setores mais dinâmicos do país.

Vem daí certa tristeza na vitória: a tarefa a ser cumprida seria mais bem realizada com a esperança, o ânimo e o compromisso de campanha dos que não venceram.

Cabe agora aos vitoriosos vestir a camisa de seus opositores (como Lula já fez em 2003), continuar maldizendo-nos e fazendo malfeito o que nós faríamos de corpo e alma, portanto, melhor. Atenção: a economia não é tudo. Menos ainda um ajuste fiscal.

O êxito de uma política econômica depende, como é óbvio, da política. Economia é política. Política exige convicção, capacidade de comunicar-se, mensagem e desempenho.

No Plano Real, coube-me ser o arauto, falar com a sociedade, ir ao Congresso, convencer o próprio governo. O presidente Itamar Franco teve a sabedoria de indicar o embaixador Ricupero para me suceder, que fez o mesmo papel.

E agora, quem desempenhará a função de governar numa democracia, isto é, obter o apoio, o consentimento, a adesão dos demais atores políticos? Do Congresso, das empresas, dos sindicatos, das igrejas, da mídia, numa palavra, da sociedade. 

A presidenta Dilma, mulher sincera, ciosa de suas opiniões, terá condições para se transmutar em andorinha da mensagem execrada por ela e sua grei? A nova equipe econômica terá esse perfil ou se isolará no tecnicismo?

O "petrolão" será uma ventania ou um tufão a derrubar as muralhas do governo e da "base aliada"? E a oposição se oporá de verdade, ou embarcará no tecnicismo e na boa vontade à espera de que o "mercado", sobretudo o financeiro, acalme-se e que tudo volte à moda antiga? O mesmo se diga de cada setor da sociedade. 

É mais fácil rearranjar a economia do que acertar a política. Que fazer com essa quantidade de partidos e ministérios, interligados mais por interesses, muitos dos quais escusos?

Sem liderança, nada a fazer. Com miopia eleitoreira, menos ainda. Tomara não sejam os juízes os únicos a purgar nossos males, como ocorreu na Itália, até porque no exemplo citado o resultado posterior, a eleição de um demagogo como Berlusconi, não foi promissor.

Dilma Rousseff (Foto: Jorge William)Dilma Rousseff (Imagem: Jorge William)


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sexta-feira, dezembro 05, 2014

Será preciso bem mais do que uma risca de giz Rogério Furquim Werneck

O GLOBO

Governo se permite um surto final de irresponsabilidade fiscal, antes da posse de Joaquim Levy

A ideia do governo era "passar uma risca de giz" entre a nova equipe econômica e a anterior (O GLOBO, 25/11). A analogia é sugestiva, mas ambígua. De um lado, parece conferir nitidez à linha divisória que separaria as políticas econômicas dos dois mandatos. De outro, sugere pouco mais do que uma linha imaginária arbitrária que, por si só, não seria capaz de assegurar reorientação tão marcada da política econômica.

A intenção inicial do Planalto era só anunciar a nova equipe quando estivesse terminado o trabalho sujo de empurrar goela abaixo do Congresso a ruidosa adulteração da LDO, e o governo, aliviado, pudesse alardear que a meta de superávit primário de 2014 havia sido cumprida, mesmo que, de fato, as contas apontassem um déficit. Mas, com o esperneio do Congresso, o circo de horrores montado pelo Planalto no Legislativo, para viabilizar esse grand finale de falsificação das contas públicas, não pôde ser desmontado a tempo.

O espetáculo de irresponsabilidade fiscal acabou sendo mais prolongado do que se esperava. E, afinal, a essência vergonhosa da mudança da LDO só pôde ser aprovada já do lado de cá da risca de giz, quando a nova equipe econômica tinha começado a esboçar discurso mais consequente. Para culminar, o governo aproveitou a demora para se permitir mais uma "saideira": novo repasse de R$ 30 bilhões ao BNDES. O pretenso cordão sanitário entre o regime fiscal antigo e o novo foi rompido logo na primeira semana.

Joaquim Levy tem todas as credenciais técnicas para enfrentar o desafio de botar ordem na deprimente mixórdia fiscal em que terminou o governo. O Planalto lavrou um grande tento ao conseguir convencê-lo a aceitar o cargo de ministro da Fazenda em condições tão adversas, mesmo estando ele plenamente ciente de que terá de lidar com uma cúpula de governo que não comunga com a maior parte das ideias que terá de implementar.

Conspira contra Levy o fato de que, dificilmente, os frutos da pesada agenda que tem pela frente poderão ser colhidos em menos de dois anos. Em contraste com a decantada experiência de Antonio Palocci, no início do primeiro mandato do presidente Lula, desta vez a colheita de resultados promete ser muito mais tardia.

Em 2003, as circunstâncias eram bem mais favoráveis. Em poucos meses, a crise de confiança foi superada, a brutal depreciação cambial de 2002 foi revertida, a taxa de juros despencou e, na esteira do boom de preços de commodities e de um quadro fiscal muito mais sólido, a economia voltou a crescer a taxas relativamente altas a partir de 2004, com melhora das contas externas e inflação na meta.

Como agora não há perspectiva de resultados rápidos, o novo ministro da Fazenda está fadado a enfrentar dificuldades cada vez maiores, em decorrência da falta de convicção do Planalto — e do PT — sobre a agenda de política econômica que se faz necessária.

Basta ter em conta o enorme desafio imediato de converter um déficit primário da ordem de 0,5% do PIB, em 2014, em superávit primário de 1,2% do PIB, em 2015, como já anunciado por Joaquim Levy. É difícil que um ajuste fiscal dessa magnitude — 1,7% do PIB — possa ser viabilizado, ao longo de um único ano, só por contenção de dispêndio.

Parcela substancial do ajuste terá de advir do aumento de receita. Em vez de recorrer a formas exóticas de tributação, faria mais sentido desmontar boa parte do desengonçado programa de desoneração da folha de pagamentos que, nos últimos anos, converteu o financiamento da Previdência Social em indefensável colcha de retalhos, em que cada setor recolhe uma alíquota diferente de contribuição patronal sobre faturamento.

É pouco provável, contudo, que o novo ministro do Planejamento e a própria presidente da República concordem com a desmontagem desse impensado programa de desoneração, em cuja concepção estiveram profundamente envolvidos.

Será preciso bem mais do que uma risca de giz para que a presidente Dilma passe a ter as convicções necessárias para dar respaldo continuado e duradouro a Joaquim Levy.

Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio

É estarrecedor! NELSON MOTTA O GLOBO

Não aguento mais falar sobre o escândalo da Petrobras. Mas não consigo parar de procurar notícias, comentários, desdobramentos e consequências desse assunto que domina o país e desperta em mim, e em muita gente, os instintos mais primitivos. Sou por natureza pacífico e tolerante, mas estou envenenado por terríveis desejos de vingança, por sentimentos de fúria e indignação que vão além da sede de justiça e me dão uma certa vergonha.

É estarrecedor. Em cada caixa que se abre, surgem novas caixas de conspirações para saquear não só a Petrobras, mas todas as grandes estatais brasileiras. Fiquei até emocionado vendo Paulo Roberto Costa afirmar na CPMI que os esquemas da Petrobras se repetem na construção de rodovias, hidrelétricas, aeroportos, portos, usinas, onde quer que haja dinheiro público para ser roubado.

A história de Paulo Roberto é um clássico brasileiro moderno. O cara que estuda, entra na Petrobras por concurso, trabalha 20 anos com competência, até que, para crescer dentro da empresa, aceita fazer o jogo dos políticos e se torna diretor — e cúmplice. O resto é história, lixo da História. Mas ao menos Paulo Roberto foi um dos poucos entre os denunciados que se disseram muito arrependidos e envergonhados. Entre os que, contra todas as evidências, insistem em negar culpas e responsabilidades, os que ainda se acreditam intocáveis, e os que até se orgulham de sua "missão política", são poucos os que parecem arrependidos — não do que fizeram, mas porque foram pegos.

Também se ficou sabendo oficialmente o que sempre só se imaginava: é impossível se tornar diretor de uma estatal sem apoio político. Mérito, eficiência, produtividade e ética são desprezados. É assim que funcionários competentes, mas ambiciosos e de moral fraca, são cooptados para alimentar a voracidade de políticos e partidos. Como um país pode viver assim há tanto tempo?

Eu me prometi não escrever mais sobre isso, que procuraria temas mais divertidos, ou mais profundos, para os leitores. Mas sucumbi aos baixos instintos e, para horror de meu professor Zuenir Ventura, ainda tasco um ponto de exclamação no título.

PT: organização criminosa?Reinaldo Azevedo

A primeira pessoa que transformou as palavras "Dilma" e "impeachment" em unidades sintáticas, formando um todo harmônico, foi este rottweiler amoroso, no dia 24 de outubro. Não me orgulho nem disso nem de ter criado o já dicionarizado termo "petralha". Preferiria cultivar, como o poeta, neologismos celestes, colhendo uma poesia menos perturbada.

É claro que a minha oração principal tinha –e tem– uma subordinada adverbial condicional: "Se Dilma sabia da roubalheira na Petrobras, o impeachment é inevitável". Essa não é a gramática do golpe, mas a do Estado de Direito. Golpista é querer recorrer à legitimidade conferida por um processo legal –as eleições– para violar garantias que pertencem às instituições, não aos homens.

Do dia 24 a esta data, as coisas se complicaram. Um dos executivos da Toyo Setal, Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, diz que parte da propina que pagou ao PT, entre 2008 e 2011 –a primeira eleição de Dilma se deu em 2010–, foi vertida em doação registrada. Um companheiro seu de empresa, Júlio Camargo, tem versão não menos estupefaciente. O dinheiro sujo teria circulado mesmo é em dutos paralelos, parte dele depositada em contas no exterior. Segundo revelou reportagem da "Veja", Alberto Youssef se prontificou a colaborar com a PF para que esta chegue às contas secretas que o PT manteria fora do país.

Uma pequena digressão que nos remete à essência do problema: o tamanho do Estado. Tanto Paulo Roberto Costa como Youssef afirmam que o esquema da Petrobras era apenas uma das cabeças da hidra. É claro que a empresa não reúne condições particulares para ser tomada por uma quadrilha. Vigoram ali as condições estruturais presentes nas demais estatais e na administração. Logo...

Até hoje ninguém se dispôs a me explicar por que um partido político reivindica a diretoria de operações de uma estatal. Com que propósito? Como é que nós, jornalistas, noticiamos candidamente que Sérgio Machado deixa a presidência das Transpetro, mas que o cargo continuará privativo de Renan Calheiros? O que determina essa exclusividade? É preciso ser senador? É preciso ser do PMDB? É preciso ser de Alagoas? É preciso ter implante de cabelos? Trata-se de uma combinação de todas essas coisas? Fim da digressão.

Em entrevista recente, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) afirmou ter perdido a eleição para uma "organização criminosa". Rui Falcão, presidente do PT, quer saber se ele confirma o dito para decidir se o processa. Isso é lá com eles. Se o que dizem Costa, Youssef, Mendonça Neto e Camargo for verdade, a coisa é mais feia do que parece: o Brasil já está sendo governado por uma organização criminosa. Nada de me notificar, hein, Falcão! A oração subordinada vai definir o exato sentido da principal e se o PT tem ou não de ser posto na ilegalidade.

O COXINHA VERMELHO

Guilherme Boulos quer chamar a minha atenção. Alguém destroçou o superego desse rapaz. Desprezo o indivíduo: pensa mal, escreve mal, lê mal, mesmo para os padrões das esquerdas. Também não me interessa o paciente clínico. Mas continuarei, sim, a tratar do Boulos como peça de uma engrenagem criminosa quando achar necessário. O ódio é mais fiel do que o amor, rapaz! Seu pai desistiu de você, mas você não desiste de mim. Entendo. Mas tenho dó.

As variações da lambança EDITORIAL O Estado de S.Paulo


05 Dezembro 2014 

Entre 1819 e 1823, Beethoven transformou uma valsa do obscuro compositor austríaco Anton Diabelli no que viria a ser considerada uma síntese de sua obra e uma das mais notáveis peças para piano da música ocidental - as 33 variações em sol maior, opus 120. Ela se distingue pela proeza de seu autor, já surdo àquela altura, de trabalhar apenas com um punhado de notas para construir um conjunto de tamanha diversidade. Pedindo perdão à memória do gênio pela analogia, é o que parecem ter feito também, com indiscutível maestria, os participantes da corrupção enraizada na Petrobrás.

A sua obra - ou o que dela já se pode conhecer - também consiste em conceber um amplo leque de ações criminosas a partir de uns poucos elementos, rearranjando-os com uma criatividade que não cessa de chamar a atenção. A mais recente variação a chegar ao conhecimento geral está contida nos depoimentos em regime de delação premiada do executivo Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, do Grupo Toyo Setal, um dos mais de 20 empresários e altos dirigentes do autodenominado "clube" de empreiteiras detentoras de contratos com a Petrobrás, apanhados pela Operação Lava Jato.

Na quarta-feira, dia seguinte à decisão do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), de conceder habeas corpus ao diretor de Serviços da estatal (de 2003 a 2012) Renato Duque, no primeiro ato do gênero desde a deflagração da Lava Jato, em março, o juiz federal Sergio Moro tornou público que Mendonça Neto acusara Duque de exigir que uma parte da propina cobrada dos interessados em fazer negócios com a petroleira fosse encaminhada ao Partido dos Trabalhadores - como doação legal. Os demais valores, instruiu o então funcionário apadrinhado pelo partido, deveriam ser-lhe entregues em dinheiro ou depositados em determinadas contas no exterior.

É a primeira vez desde a eclosão do escândalo que o País fica sabendo pela boca de um dos envolvidos que dinheiro sujo serviu para irrigar de forma limpa as finanças de uma agremiação política - uma variação que não faria feio perto de Beethoven. Segundo o delator, dos pelo menos R$ 152 milhões arrecadados por Duque, cerca de R$ 4 milhões foram engrossar, entre 2008 e 2011, os recursos contabilizados do Partido dos Trabalhadores. Para consumar a transferência, Mendonça Neto consultou a secretaria de Finanças da legenda, que o orientou a depositar as doações na sua conta bancária.

À primeira vista parece difícil de distinguir as coisas: de um lado, uma empreiteira é instada a doar a uma sigla, por cima dos panos, montantes que correspondem a uma parcela do pedágio sem o qual não fechará com a Petrobrás os contratos (decerto superfaturados) que ambiciona; de outro lado, uma empreiteira doa a partidos e candidatos, também legalmente, valores oriundos de um patrimônio financeiro engordado - em boa medida, como a cada dia fica mais claro - de contratos inflados, conseguidos mediante suborno. A única diferença é de tempo: no primeiro caso, a doação se segue ao negócio obtido; no segundo, é uma aplicação visando a negócios futuros.

Revelando a sua peculiar visão da realidade, as construtoras investigadas pela lambança na Petrobrás querem que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, aceite um "acordão" que diminua as penas a que estão expostas, sem que os seus controladores e executivos admitam previamente as suas culpas nas delações premiadas a que aceitem se submeter. O acinte justifica a ironia de Janot, para quem as empresas no pelourinho estão tentando formar um "cartel de leniência". Nada deve abalar o acordo tácito do toma lá dá cá entre pagadores e recebedores que se renova a cada ciclo eleitoral - e está se falando de doações legais.

O esquema só será abalado quando pessoas jurídicas não puderem financiar campanhas - o que hoje depende de um único membro do STF, o ministro Gilmar Mendes. Em abril, quando a Corte julgava uma solicitação da OAB nesse sentido, apoiada por firme maioria - 4 votos proferidos e 2 outros prometidos -, Mendes pediu vista dos autos, alegando tratar-se de assunto "complexo", embora se inclinasse pelo regime de doações como está. Passados oito meses, Mendes ainda retém o processo.

quinta-feira, dezembro 04, 2014

Amplia-se a dimensão do escândalo na Petrobras O GLOBO EDITORIAL


http://oglobo.globo.com/opiniao/amplia-se-dimensao-do-escandalo-na-petrobras-14732202
Acareação em CPI e testemunhos de que propinas destinadas ao ex-diretor Renato Duque foram para o PT amplificam a importância do caso

04/12/2014 

Não se esperava muito do comparecimento à CPI mista da Petrobras dos ex-diretores da estatal Paulo Roberto Costa e Nestor Cerveró, personagens do que já é o maior escândalo de corrupção da história do país. O objetivo era uma acareação entre quem confirma a existência de desvios na compra da refinaria de Pasadena, Paulo Roberto, e Ceveró, envolvido diretamente naquela operação, quando era diretor Internacional da empresa, e que se mantém firme em negar qualquer anormalidade no negócio.

Paulo Roberto, em prisão domiciliar por ter concordado em ajudar nas investigações por meio de delação premiada, reafirmou tudo o que testemunhou perante o juiz Sérgio Moro, responsável pelo inquérito sobre a lavanderia de dinheiro montada por Alberto Youssef, pela qual teriam passado bilhões subtraídos da estatal por meio do superfaturamento de contratos. O esquema foi operado por Paulo Roberto, outros diretores e alto funcionários.

Não se sabe tudo dos depoimentos, sob sigilo judicial. Mas o que vazou já foi suficiente para colocar o mundo político em estado de alerta e se ter ideia das grandes proporções do escândalo. Na acareação, Paulo Roberto foi incisivo ao dizer que confirmava tudo o que depôs. Portanto, confirmou que recebeu US$ 1,5 milhão para "não atrapalhar" o negócio cuja lisura Cerveró continua a defender. Mesmo que a presidente Dilma tenha afirmado que não o aprovaria, quando estava à frente do Conselho de Administração da Petrobras, caso soubesse de todos os detalhes da compra — sonegados por Cerveró, deu a entender.

Esta última passagem de Paulo Roberto pelo Congresso foi, ainda, marcada por comentários fortes de cunho pessoal. Depois de afirmar que, "desde o governo Sarney", nenhum diretor da estatal foi nomeado sem apadrinhamento de político, Costa se disse arrependido de ter entrado no esquema, do qual estava "enojado". Disse, também, ter testemunhado sobre "dezenas" de políticos beneficiados pelo assalto à Petrobras. Privadamente, ao deputado Ênio Bacci (PDT-RS), Costa foi mais preciso: 35 políticos. A reunião da CPI ganhou outra dimensão.

Costa foi muito além ao dizer que o mesmo modelo de assalto aplicado na Petrobras é usado em muitos outros setores (obras em ferrovias, portos, aeroportos e hidrelétricas). Faz sentido, mas os agentes públicos que atuam na questão da Petrobras não podem perder o foco. Se forem abertas agora tantas outras frentes, crescerá o risco da impunidade.

E a história cresce mais ainda com a informação de que outros depoimentos sob delação premiada, estes dos empreiteiros Augusto Mendonça e Júlio Camargo, garantem que propinas destinadas ao ex-diretor Renato Duque foram encaminhadas ao PT por meio de doações legais. Mais uma razão para a Justiça e o Ministério Público não dispersarem esforços.

Carlos Alberto Sardenberg Tempestade perfeita

http://oglobo.globo.com/opiniao/tempestade-perfeita-14731657

No programa de investimentos no pré-sal, Petrobras considerou dólar numa média futura de R$ 1,95

A Arábia Saudita é a maior exportadora de petróleo, dona das maiores reservas. Logo, deve ser de seu interesse o maior preço possível para o óleo, certo?

Errado, neste momento ao menos.

Acontece que tem o petróleo naturalmente barato — aquele fácil de extrair, que brota da terra, como o saudita — e o caro, aquele só encontrado nas profundezas do mar, como o nosso do pré-sal, nas rochas de xisto ou nas areias betuminosas. Pois a produção desse petróleo caro e difícil está em alta no mundo todo, favorecida, economicamente, pelo elevado preço do barril verificado nos últimos anos.

Nos EUA, por exemplo, ocorre o boom na exploração de óleo de xisto. A produção cresceu tanto que o país reduziu as compras externas, deixando o posto de maior importador global para a China. O Canadá, também dependente de importações, acelera a extração de óleo de areias. E a Petrobras deu a partida na exploração do pré-sal.

Pois justamente agora o preço do barril está em queda — e queda forte. De mais de 100 dólares dos últimos tempos, a cotação nos EUA e em outros mercados internacionais caiu para a faixa dos 70 dólares, ficando até abaixo disso em diversos momentos. Com a economia mundial em marcha lenta, o consumo de energia cresce abaixo da produção, que havia sido estimulada pela forte expansão global do início deste século e, especialmente, pelo crescimento dos emergentes.

Demanda em baixa, oferta em alta, lá se vão as cotações.

Vai daí, alguns membros da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), como Venezuela e Irã, começaram a pressionar o grupo para reduzir a produção e, assim, forçar uma alta de preços. A Opep coloca no mercado cerca de 30 milhões de barris/dia, mais ou menos um terço do consumo global. Tem, pois, o poder de calibrar as cotações.

Mas, surpresa, a Arábia Saudita, que lidera o grupo e tem capacidade de aumentar sua produção quase imediatamente, derrubou a proposta.

Tem lógica. O preço baixo reduz a rentabilidade do petróleo "difícil" e inviabiliza muitos projetos. Por exemplo: o óleo das areias do Canadá só é rentável se puder ser vendido a 80 dólares o barril. No pré-sal brasileiro, segundo avaliação de consultorias locais e internacionais, o custo de produção vai de 40 a 70 dólares, conforme o campo e o contrato de exploração. Nos EUA, algumas companhias dizem que 60 dólares é o limite para muitas áreas.

Para registrar: no seu ambicioso programa de investimentos no pré-sal, até 2020, a Petrobras considerou o barril de óleo a 105 dólares hoje, caindo para 100 e depois para 95. Também considerou o dólar numa média futura de R$ 1,95.

Tudo considerado, há uma perda de rentabilidade se as cotações continuarem nos níveis atuais e inviabilidade econômica de algumas áreas se os preços caírem ainda mais. Ou seja, será difícil atrair capital privado, nacional e estrangeiro, para os novos projetos. Mesmo porque o atual regime de partilha cobra pesados pagamentos das companhias que explorem os poços. A Petrobras já tem campos adquiridos, mas, de qualquer modo, precisará se financiar no mercado global — e isso estará mais difícil.

É certo que a queda dos preços de gasolina e diesel ajuda bastante o caixa da Petrobras, importadora líquida de combustíveis. Neste momento, por exemplo, a estatal vende os produtos aqui dentro a preços 20% superiores aos que paga lá fora. Inverte, assim, a relação dos últimos quatro anos.

Mas esse ganho é insuficiente para levantar o capital necessário. O futuro da Petrobras é a exportação de óleo. O ambiente econômico global, de baixo crescimento, e a descoberta e uso cada vez maior de energia alternativa indicam que o preço do óleo pode permanecer baixo por um bom tempo.

Coloque no cenário a crise do petrolão e se entende por que a Petrobras se aproxima de uma tempestade perfeita.

Em qualquer caso, e considerando a confusão armada pelo governo no setor elétrico, mais as perdas impostas ao etanol, parece que o país precisa rever suas políticas de energia.

GOLPE

Economistas do grupo desenvolvimentista, ou da "nova matriz", muitos deles instalados no governo Dilma, estão chocados com a designação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda.

O choque é tão ou mais forte do que o ocorrido em 2003, no primeiro governo Lula, quando Antonio Palocci instalou a nata dos economistas ortodoxos na Fazenda — incluindo o mesmo Levy no posto-chave de secretário do Tesouro.

Na ocasião, a ortodoxia funcionou. Hoje, os desenvolvimentistas acham que é diferente e que Levy vai durar pouco.

Dilma é economista e da nova matriz. Mas não teria tomado essa difícil decisão se não precisasse tanto dele.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

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Demétrio Magnoli A incrível história de Joaquim e Barbosa


O GLOBO
Dilma Rousseff engoliu o 'banqueiro', imposto por Lula, expondo-se à justa acusação de estelionato político

"São pessoas que têm elevada credibilidade junto à sociedade, junto ao mercado. Essa equipe tem o simbolismo necessário para essa tarefa que nós vamos enfrentar daqui por diante." O senador petista Humberto Costa oferece uma primeira pista sobre o sentido das nomeações da equipe econômica. Joaquim, o Levy, assumirá a Fazenda, pois "tem o simbolismo necessário" para restaurar a "credibilidade" perdida pela política econômica. A segunda pista surge na sequência do raciocínio: "Nós vamos fazer essa inflexão, mas isso é uma coisa temporária." Barbosa, o Nelson, assumirá o Planejamento para aguardar a passagem da etapa "temporária", depois da qual seria transferido para a Fazenda.

"Um passo atrás para dar dois passos à frente." Não sei se a frase célebre de Lenin sobre a Nova Política Econômica, implantada na URSS em 1921, emergiu nos conclaves fechados que precederam as escolhas de Joaquim e Barbosa, mas a ideia está aí. O "banqueiro" tem a missão de fazer o trabalho sujo: limpar a casa, restabelecendo o equilíbrio fiscal e contendo as pressões inflacionárias. Depois, na etapa prévia às eleições de 2018, o "desenvolvimentista" retomaria o fio da expansão do gasto, do crédito, do consumo e da dívida, engatilhando a já anunciada candidatura de Lula. Lenin almejava chegar ao comunismo, pela via longa da "etapa" do mercado. O lulopetismo almeja apenas eternizar-se no poder, mesmo às custas das perspectivas de longo prazo da economia brasileira.

Dilma Rousseff engoliu o "banqueiro", imposto por Lula, expondo-se à justa acusação de estelionato político. "É do jogo": jornalistas rendidos ao cinismo sacam sua tirada preferida para garantir que nada há de incomum no uso descarado da mentira como ferramenta eleitoral. Mas, de fato, a mentira não "é do jogo". Nas democracias, como regra, líderes eleitos cumprem a essência do que prometem. O estelionato sinaliza uma crise de fundo, não uma oscilação circunstancial. A deterioração da linguagem é um sintoma da crise. O Planalto enviou ao Congresso uma alteração na Lei de Diretrizes Orçamentárias que cria um superávit deficitário. Guido Mantega é um ministro demitido em exercício. Joaquim e Barbosa foram ministros nomeados por boatos, antes de serem promovidos a futuros ministros em exercício na equipe de transição do governo Dilma para o governo Dilma. Novilíngua.

Os jornalistas "do jogo" adoram paralelos aparentes — e impertinentes. No primeiro mandato, quando nomeou a dupla Palocci/Meirelles, Lula não praticava estelionato, mas operava segundo a lógica da Carta aos Brasileiros. Dilma, pelo contrário, nomeia Joaquim logo depois de dizer que os "banqueiros" de Aécio e Marina conspirariam para tirar a comida da mesa dos pobres. O "banqueiro" de Dilma, cedido por um banqueiro de verdade, passou os últimos anos criticando a política econômica na qual a presidente-candidata prometeu persistir. O abaixo-assinado de protesto contra a nomeação, firmado por personagens carimbados da nossa deplorável esquerda, contém uma verdade: o governo desrespeita a democracia ao trocar seu discurso de campanha pelas propostas de política econômica da oposição. A outra, obviamente, não está no texto: tirando alguns ingênuos irrecuperáveis, seus autores apenas utilizam o nome do "banqueiro" como moeda de troca pelos nomes dos "companheiros" que sonham emplacar no Ministério.

Dirigindo-se à audiência militante do abaixo-assinado, Gilberto Carvalho disse que, "ao aceitar ser ministro desse projeto", Joaquim, o Levy, "está aderindo a esse projeto e à filosofia econômica desse projeto". Para além da bravata, a mensagem é que a autonomia de Joaquim está limitada à esfera do ajuste fiscal. O ministro nomeado para a Fazenda não tem a prerrogativa de avançar em reformas centradas na produtividade, na competitividade e no equilíbrio cambial. Contudo, sem elas, não se alcançará uma redução duradoura dos juros, pressuposto de um ciclo sustentado de crescimento. No fim, o "projeto" circunscreve-se a um efêmero ajuste recessivo, conduzido por um "banqueiro", como introito a uma nova "etapa" de expansão populista, conduzida por um "companheiro".

Joaquim aceitou a missão porque Lázaro Brandão, o chefão do Bradesco, pediu-lhe isso e porque quer desenhar um "X" no quadrado vazio de seu currículo. Mas ele deve saber que a "filosofia econômica" do governo chama-se Barbosa, o Nelson. O ministro nomeado para o Planejamento está entre os principais formuladores da "nova matriz econômica" que desembocou na crise atual. Ele só deixou o governo quando viu se abrirem as portas do inferno, depois que Dilma e Mantega resolveram seguir os doutos conselhos do secretário do Tesouro, Arno Augustin, engajando-se na maquiagem das contas públicas. O conflito entre Fazenda e Planejamento está escrito nas estrelas — e seu resultado também. Joaquim, o Breve, foi nomeado para fazer, exclusivamente, o trabalho sujo.

O lulopetismo não é um movimento de ruptura, como o chavismo. Essencialmente conservador, sua película ideológica circunscreve-se, na esfera da política econômica, à expansão dos investimentos das estatais, do gasto público, do crédito ao consumo e dos subsídios para o alto empresariado. A receita populista, mal denominada "keynesiana" por seus arautos, não é sustentável ao longo da fase de baixa do ciclo econômico — e, por isso, precisa ser corrigida periodicamente por ajustes recessivos. É aí que entra o "banqueiro", convocado para salvar os "companheiros" das consequências de seus alegres folguedos.

A equipe econômica anunciada pela presidente é uma síntese, produzida na hora da crise, da alma dúplice do lulopetismo. De certa forma, Gilberto Carvalho tem razão. Tanto Joaquim quanto Barbosa fazem parte "desse projeto" de reiteração pendular de nossa mediocridade. O "mercado" pode celebrar; o Brasil, não.

Demétrio Magnoli é sociólogo

quarta-feira, dezembro 03, 2014

‘Noblesse oblige’ 2 - Roberto DaMatta



'Noblesse oblige' 2

Como outras senhoras da vizinhança, minha avó tinha os "seus pobres". Numa pesquisa que fiz num bairro paulistano que se definia como "pobre", eu ouvi que a pobreza era uma prova para a riqueza. Quem esquece o outro lado: a dimensão trivial que a legitima porque interliga, torna-se um prisioneiro da sua condição. Aí está a fonte da desigualdade que suprime a diversidade. 
Naquele tempo, alguns pobres ganhavam um "prato de comida", certos de que o recebido deveria ser dado com consciência e as parcimônias da virtude burguesa. Os que não podiam sequer demandar ou exigir e, envergonhados, pediam um "de comer" recebiam a dádiva, pois seus doadores — quem sabe? — podiam virar pedintes. Os pobres comiam sentados, mas eu — um menino com a cabeça de velho; hoje eu sou um velho tentando não perder a cabeça de menino — via-os ajoelhados.
noblesse oblige ocorre quando o poderoso se sente no dever de produzir o "dom" que fertiliza e traz ao palco da vida a sua totalidade — os seus extremos. A sociedade na qual ele nasceu em "berço de ouro" ao lado do sistema que, por isso mesmo, produziu os que nascem entre sangue, fezes e urina. Parece frescura, mas o noblesse oblige é cobrado justamente dos que, graças à sua inteligência, perseverança e à sua ambição honesta ou canalha, chegaram aos mais altos cargos da nação. A esse cacofônico "da nação" inconsciente e significativamente remetem as jaulas que, muitas vezes, destroem quem trai esses cargos.
Muitos milionários e famosos tendem — pensem em Howard Hughes ou Greta Garbo — a se fechar em copas e, no labirinto de suas personas, perdem contato com esses "outros". Com os admiradores que os tratam como deuses. E em deuses eles realmente se transformam porque suas vidas exemplificam as fissuras pelas quais conseguiram passar para chegar a esse reino dos bem-aventurados. Dos supostamente livres de problemas como grana, doença e sofrimento. Dos que demonstram que se pode sair da extrema pobreza para algo ainda maior do que a riqueza porque eles são o testemunho vivo de que a fortuna, a sorte e a ascensão social existem e têm legitimidade num mundo que diz que somos todos iguais em certas circunstâncias. Algo difícil de confiar para muita gente — inclusive para quem escreve estas linhas.
Suas biografias enfatizam o acaso e o senso de oportunidade. E, quando o nível da fama chega ao máximo, ele faz com que os seus admiradores chorem pelo milagre de os encontrarem em carne e osso — porque eles não acreditam que estão diante dos seus ídolos. Nesse ponto, os famosos viram divindades e são expulsos do mundo rotineiro. Não podem mais comprar um jornal ou assistir a um filme. O noblesse oblige próprio das divindades obriga ao sorriso e aos autógrafos, produz paciência ao assédio e — eis o paradoxo — faz com que os ídolos sintam saudade dos velhos tempos, quando eram humanos como nós, pois agora — devidamente enjaulados pela celebrização — eles fingem ser pessoas comuns para poder viver neste nosso mundo de carências e mediocridades do qual escaparam.
Diante dos fãs que fanaticamente os construíram, eles muitas vezes se autodevoram e se destroem nas fantasias do sexo, da comida, das drogas ou no "mero álcool", que não é assim tão trivial, como canta a famosa balada de Cole Porter "I get a kick out of you". Tal foi o caso trágico de Richard Burton, o galês filho de um mineiro que, no seu diário, se pensa com pesadas dúvidas se realmente era o maior, o mais rico e o melhor ator do mundo ou um recitador bobalhão e magistral de frases alheias, elevado ao cume por uma brutal ambição e por um casamento com uma outra celebridade. Ter demais é tão penoso quanto ter de menos, e o pior é que uma coisa sempre leva à outra.
Os poderosos recebem o direito de "governar", mas, em democracias, governar não é possuir e trapacear, mas administrar a chamada "coisa pública" com noblesse oblige. Com um máximo de honestidade e consciência de bem servir, e não de ser servido. Coisa difícil porque os "políticos" têm dois lados. À direita pertencem à cidade, ao Estado e, acima de tudo, ao país a quem devem a difícil e assassinada noblesse oblige; e, à esquerda, ligam-se aos seus redutos ideológicos e partidários. No caso brasileiro, ao seu desejo de fama e sobretudo de grana — de muita, muita grana porque o seu modelo de vida é absolutamente aristocrático e oposto a um austero e, estou convencido, a um impossível republicanismo. 
Em meio a essas correntes antagônicas e dependendo de seus lacaios, eles podem passar de representantes dignos (filhos de Deus) a triviais e vergonhosos ladrões do povo ou f.d.p!. Como afirmava Herbert Block, um notável chargista americano — um Chico e Paulo Caruso deles —, repetindo o fundador da sociologia moderna, Émile Durkheim: "Aceitar a corrupção é uma forma de corrupção." Ou como proferia o mestre francês: quando um mal a ser evitado é procurado e vira um valor ou um ideal a ser seguido, como ocorre no Brasil hoje, dono de uma jamais vista ladroagem, então, amigos, não é mais a nobreza que obriga, é a corrupção. Ou estou enganado?
Roberto DaMatta é antropólogo

terça-feira, dezembro 02, 2014

Jose Casado Entre vaias e segredos O Globo

Entre vaias e segredos

Metade da diretoria da Petrobras sob comando de José Gabrielli é alvo de investigações por corrupção e lavagem de dinheiro no Brasil, nos EUA, na Holanda e na Suíça

Ele se surpreendeu ao voltar de uma viagem a Portugal, dias atrás. Primeiro, com ocasionais zombarias dentro do avião, audíveis o suficiente para incomodá-lo durante toda a travessia do Atlântico. Na chegada, sob um coro de vaias a bordo, o baiano José Sérgio Gabrielli de Azevedo, 65 anos, achou melhor desembarcar e procurar outro voo rumo a Salvador.
Um dos personagens mais influentes da era Lula, Gabrielli trocou o circuito acadêmico dos economistas em 2003 pela cadeira de diretor financeiro da Petrobras. Embarcado na presidência em 2005, ali ficou por sete anos. Tornou-se o mais longevo entre os 34 que comandaram a estatal nas últimas seis décadas.
Saiu há dois anos e nove meses, com a fantasia da candidatura ao governo da Bahia pelo PT. O sonho se perdeu na poeira da confusão crescente nas últimas 132 semanas sobre a sua gestão na Petrobras: num breve passeio pela sede da empresa, na Avenida Chile, no Centro do Rio, percebe-se como a maior estatal brasileira virou um conglomerado de advocacia e contabilidade, que também produz petróleo e derivados.
Metade da diretoria comandada por Gabrielli, até fevereiro de 2012, é alvo de investigações por corrupção e lavagem de dinheiro no Brasil, nos EUA, na Holanda e na Suíça. Dos seis ex-diretores, dois estão presos. Balanços estão em revisão, e auditores ainda relutam em subscrever a contabilidade de novos ativos, entre eles os da refinaria Abreu e Lima (US$ 20 bilhões), do Comperj (US$ 15 bilhões), de plataformas e sondas (US$ 17 bilhões). Os gastos nessas três áreas equivalem à soma do Produto Interno Bruto do Uruguai, do Paraguai e da Bolívia.
Gabrielli, claro, não pode ser culpado pelo roubo alheio. Mas sua administração, caracterizada pela aversão à crítica pública e pela intolerância à fiscalização externa, produziu coisas como um gerente que confessa ter amealhado US$ 90 milhões em propinas.
Ele legitimou o regime de partilha dos negócios da estatal entre o condomínio partidário de apoio ao governo Lula. Exacerbou na emulação de projetos reconhecidamente deficientes, todos com orçamentos sigilosos.
O Tribunal de Contas, por exemplo, atravessou anos cobrando a apresentação dos estudos de viabilidade das refinarias Abreu e Lima (PE), Premium 1 (MA) e Premium 2 (CE) e do Comperj (RJ). Gabrielli jamais entregou. Fazia do segredo uma rotina administrativa.
Em 2009 o TCU insistiu no envio, por meio eletrônico, das estimativas de custos da Petrobras para construção de duas plataformas. Gabrielli respondeu ao tribunal com uma irônica montanha de papel — planilhas Excel impressas. Sem a memória de cálculo, exclusiva do formato eletrônico, a auditoria era inviável. “A conduta é culpável”, concluiu a corte.
Na época, o Congresso acenou com uma CPI. Gabrielli respondeu com a apresentação de um blog, em torno do qual perfilou uma tropa de 1,1 mil empregados e contratados, para “defesa” da Petrobras. Um dos diretores presos, Paulo Roberto Costa, contou à Justiça sobre “providências” para subornar opositores e impedir a CPI, extinta cinco meses depois. Se a história for comprovada, tem-se um risco de prisão para toda a cadeia de comando.
Alguns segredos da Petrobras sob Gabrielli começaram a ser desvendados. As vaias no avião sugerem a torcida para que seja tudo revelado.


Leia mais sobre esse assunto em  http://oglobo.globo.com/opiniao/entre-vaias-segredos-14712443#ixzz3KjrWkAbr 
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