ARQUIVO DE ARTIGOS ETC

sexta-feira, outubro 24, 2014

: As 8 páginas da VEJA de hoje.

Clicar no PDF

>
>

Campanha de desinformação - Rogério Furquim Werneck Jornal O Globo

Dilma Rousseff passou a exibir seu pior lado. Partiu para a negação peremptória de aspectos incontestáveis da realidade

Muito ainda será dito e escrito sobre a tumultuada evolução da campanha presidencial de 2014, que agora chega ao fim. Mas, com o benefício da visão retrospectiva, é preciso que, nas análises do que de fato ocorreu, seja dada importância adequada à situação delicada em que se encontrava a presidente Dilma no início da campanha.

O desafio da reeleição, que há alguns anos parecia trivial, havia se tornado muito mais difícil. Ao final de quatro anos de crescimento medíocre, a economia entrara num quadro claro de estagflação, com crescimento zero e inflação acima do teto de tolerância da meta. Na esteira de intermináveis desmandos, improvisações e manipulações do registro das contas públicas, o descrédito em que caíra a condução da política econômica parecia irremediável. E o governo nem mesmo conseguia articular uma narrativa minimamente respeitável de como pretendia superar as dificuldades com que se defrontava a economia.

Não bastasse esse flanco frágil do lamentável desempenho da economia, o projeto da reeleição, visto da perspectiva do início da campanha, parecia também altamente vulnerável à evolução das investigações sobre o grande esquema de corrupção que aflorara na Petrobras. Afinal, não se tratava de mais um escândalo qualquer. Mas de irregularidades de proporções gigantescas, com alegado desvio sistemático de recursos para dezenas de parlamentares da base aliada, em uma empresa estatal com a qual a presidente teve longo e estreito envolvimento.

Tendo sido nomeada presidente do Conselho de Administração da Petrobras no início do primeiro governo Lula, Dilma Rousseff permaneceu ocupando essa posição mesmo depois de ter deixado a pasta de Minas e Energia e passado a responder pela Casa Civil. Lá ficou por mais de sete anos, até se candidatar a presidente em 2010.

De início, o Planalto ainda alimentava a fantasia de que seria possível conduzir a campanha de 2014 deixando de lado esses dois temas espinhosos: o desempenho da economia e a corrupção na Petrobras. Com Pronatec, Mais Especialidades, Banda Larga para Todos, Segurança Integrada e assemelhados, João Santana teria material farto para dar corpo à campanha eleitoral.

Mas esse temário escapista mostrou-se inviável. Desde o primeiro turno, a candidata oficial vem tendo de lidar com os dois temas embaraçosos que, a todo custo, tentou evitar. E, tendo sido arrastada para um debate em que tem plena consciência da extensão da sua vulnerabilidade, Dilma Rousseff passou a exibir seu pior lado. Partiu para a negação peremptória de aspectos incontestáveis da realidade que hoje vive o país e para inescrupulosa distorção dos fatos, empenhada em lamentável campanha de desinformação do eleitor.

Isso já havia ficado claro, no primeiro turno, quando a candidata se permitiu alardear que conceder independência ao Banco Central era "tirar do presidente da República e do Congresso Nacional, eleitos pelo povo, as decisões sobre a política econômica do país, para entregá-las aos bancos". Agora, sem ter o que dizer sobre como pretende superar a estagnação da economia e combater a inflação, passou a denunciar que a proposta, aventada pela oposição, de reduzir a meta de inflação, aos poucos, para 3% ao ano, exigiria que a taxa de desemprego fosse elevada a 15%.

Martelando empulhações de tão baixo nível, Dilma pode até ter enganado vasto contingente de eleitores menos informados, mas à custa de insanável perda de respeito entre parcelas mais esclarecidas do eleitorado.

O mesmo discurso escapista e mistificador vem marcando a maneira como a candidata tem tentado se defender das notícias negativas que emanam da Petrobras. Em vez de se autocongratular por seu inabalável compromisso com o combate à corrupção e pelos feitos da "sua" Polícia Federal, Dilma precisa explicar como um esquema de corrupção dessas dimensões pôde prosperar por tantos anos na Petrobras sem que o Conselho de Administração, por ela presidido com suposta mão de ferro, sequer tivesse tomado conhecimento de sua existência.

Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio

Leia todas as colunas...



Leia mais sobre esse assunto em  http://oglobo.globo.com/opiniao/campanha-de-desinformacao-14341349#ixzz3H46RIHDu 
© 1996 - 2014. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização. 


Enviado do meu iPad

O day after - NELSON MOTTA Jornal O Globo

O day after - Jornal O Globo

O Globo

Não é preciso ser astrólogo ou economista para saber que o ano que vem vai ser um dos mais difíceis de nossa história recente. Com a inflação em alta, o crescimento em baixa e a expectativa de o escândalo da Petrobras se tornar uma tsunami na política brasileira, quem vencer a eleição terá pouco tempo para comemorar, num país dividido entre nós e eles, quando a união nacional é indispensável para as reformas que a sociedade exige e estão paralisadas pela luta política.

Campanhas eleitorais não são para fracos, mas, desta vez, 71% dos eleitores dizem que elas ultrapassaram todos os limites, rebaixando a política a um ramo da publicidade e do marketing de destruição, em que o principal objetivo foi mostrar, provar e reafirmar ao eleitor quem era o pior, fazendo as qualidades dos candidatos despertarem menos entusiasmo do que a repulsa aos adversários. É assim que a emoção vence a razão e o medo vence a esperança.

O pior efeito colateral das campanhas é dificultar ao máximo a convivência democrática de quem vencer com uma oposição forte, representativa e combativa, num momento dificílimo para o país, quando será mais urgente tomar providências do que apontar vilões e perseguir adversários.

A tsunami da Lava-Jato provocará uma devastação no Congresso Nacional, que dividirá com o/a presidente a responsabilidade de enfrentar o que vem pela frente. Com os partidos desmoralizados, com que representatividade serão feitas as reformas tributária, política e eleitoral ?

Algumas grandes empreiteiras que financiam as campanhas já estão procurando a Justiça para negociar acordos de leniência, dispostas a colaborar nas investigações e pagar os prejuízos à Petrobras e pesadas multas para não ter seus diretores, ou até presidentes, presos.

Além de rezar para o cenário da economia internacional não piorar, o maior desafio da/o eleita/o, mais do que baixar a inflação, fazer o país voltar a crescer, ampliar a inclusão social, melhorar os serviços e desbaratar as quadrilhas que assaltam o Estado, será unir o país — para viabilizar essas ações e atravessar as turbulências de 2015.

Feliz 2016!



Enviado do meu iPad

REINALDO AZEVEDO No domingo, diga 'sim' e 'não'

24/10/2014 02h00
De todas as análises erradas que se podem fazer sobre a eleição deste domingo, a mais errada é a que sustenta que estaremos diante de um plebiscito: vencerá o "sim" ou o "não" ao governo. É um erro de forma, de substância e de história.
Fosse um plebiscito, e se Dilma vencer (reparem na combinação dos tempos subjuntivos), então a presidente poderia continuar a "presidenta do subdesenvolvimentismo", categoria inventada por Lula e que, nas suas mãos, chegou ao colapso. Fosse um plebiscito, e se Aécio vencer, então o tucano poderia ignorar os laços com o Estado de uma vasta clientela, que fizeram do assistencialismo a forma possível de cidadania. Ela teria de ser estúpida o bastante para não mudar nada, e ele, para mudar tudo. Ela teria de ser idiota o bastante para achar que Aécio está errado em tudo, ele, para achar que Dilma não está certa em nada.
A assertiva de um plebiscito embute a perigosa suposição de que, se o tucano vencer, poderá, então, desacelerar os programas sociais –já que estariam sendo repudiados pela maioria. Suposição ainda mais perigosa é a de que a eventual vitória de Dilma significará a aprovação dos métodos de gestão revelados no mandato da governanta, muito especialmente os adotados na Petrobras. Nota à margem: se a candidata já admitiu o malfeito, a presidente, no entanto, mantém João Vaccari Neto, o tesoureiro do PT, como conselheiro de Itaipu e como um dos chefões de sua campanha.
O regime democrático repudia que processos eleitorais regulares, devidamente previstos no calendário, realizados segundo leis previamente definidas, em mecanismos legítimos de consulta à população, sejam considerados plebiscitários. A menos que a força vitoriosa esteja com más intenções.
De resto, e não estou fazendo mero joguinho de palavras –expressão inferior do estilo–, o valor do "sim" e o do "não", nos regimes democráticos, é equivalente. Quando se escolhe um governo, também se define quem deve se opor a ele. A lição é básica, elementar, do nível "Massinha 1" do Estado democrático de Direito, mas tem de ser repisada: na democracia, o "sim" mais importante é a possibilidade de dizer "não" sem romper os fundamentos da ordem que abrigam um e outro.
O pilar principal que sustenta o edifício democrático é o valor negativo, que reforça, em vez de destruir, o sistema. Aí está a essência do regime que, ao longo da história, fascistas de esquerda e de direita tentaram e tentam perverter, com seus teóricos das "forças disruptivas", muitos deles escrevendo nesta Folha –que só existirá como Folha se e enquanto eles não forem bem-sucedidos.
Não haverá plebiscito nenhum no domingo. Será apenas uma eleição presidencial, a sétima depois da redemocratização do país. Se o país conseguir escolher um pouco mais de eficiência, um pouco menos de ladrões, com a perspectiva de um pouco mais de bem-estar aos que menos têm, então se terá feito uma opção progressista, dada a conservação necessária.
PS "" Esta coluna faz um ano hoje. Sou grato aos que amam e aos que odeiam, com uma quedinha particular, confesso, pelos odiadores profissionais. Afinal, o amor, às vezes, se descuida, mas o ódio não. O ódio nunca trai! No mês que vem, novidades a respeito.

quarta-feira, outubro 22, 2014

Elio Gaspari O que vem por aí é um plebiscito

O GLOBO

A teoria da pancadaria é curta para explicar o que parecem ser as oscilações do eleitorado

Quando Marina Silva não conseguiu chegar ao segundo turno, atribuiu-se seu declínio à pancadaria que sofreu. Talvez nunca se saiba por que o balão esvaziou, mas, mesmo olhando-se para os golpes que levou, essa teoria é curta. Foi de sua equipe que partiu a plataforma da independência do Banco Central. Admita-se que a ideia pode ser boa. Ainda assim, ela foi exposta pela educadora Neca Setubal, herdeira da família que controla o banco Itaú. Precisava? Se isso fosse pouco, dias depois, Roberto, irmão de Neca e presidente da casa bancária, disse que via “com naturalidade” uma possível eleição de Marina. Precisava? Marina falou em “atualizar” a legislação trabalhista, mas não detalhou seu projeto. Juntando-se gim e vermute, tem-se um Martini. Juntando-se banqueiro com atualização das leis trabalhistas, produz-se agrotóxico. Precisava?
Uma campanha eleitoral em que se discutiram mais as pesquisas do que as plataformas esteve mais para videogame do que para escolha de um presidente da República, mas foi esse o curso que ela tomou. A comparação do resultado do primeiro turno com as estimativas das pesquisas ensinou o seguinte: os votos de Aécio Neves ficaram acima da expectativa máxima e os de Dilma, abaixo da expectativa mínima. Disso resulta que não só é temerário dizer quem está na frente, mas é arriscado afirmar que o vencedor será eleito por pequena margem.
Os eleitores prestam atenção em pesquisas, mas votam com o coração, a cabeça e o bolso. Se a noção demofóbica segundo a qual Dilma tem o voto dos pobres tivesse alguma base, a doutora estaria eleita. Contudo, olhando-se pelo retrovisor, nunca houve ricos suficientes nos Estados Unidos e na Inglaterra para eleger os conservadores Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Como muita gente achava que o povo brasileiro não sabia votar, o país foi governado por cinco generais escolhidos sem qualquer participação popular. O último foi-se embora deixando uma inflação de 226% e uma dívida externa (espetada) de US$ 180,2 bilhões.
Os candidatos conseguem votos pelo que dizem e pelo que fazem. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso percebeu que ganhara a eleição quando uma mulher ergueu uma nota de um real durante um comício. Quatro anos depois, mesmo diante da ruína da fantasia do real que valia um dólar, ele foi reeleito porque os brasileiros preferiram continuar numa Mercedes que rateava a embarcar na motocicleta de Lula.
Nesta campanha, com exceção do debate da Record, os outros foram rasos. Em todos, os candidatos pareciam drones guiados pelo controle remoto dos marqueteiros, buscando clipes para os programas do horário gratuito. Sexta-feira, o debate da Globo terá tudo para ser educativo, pois nele o jogo do clipe será inútil.
A pancadaria que envolveu Dilma Rousseff e Aécio Neves roncou dos dois lados. Ambos sabiam que esqueletos tinham nos armários. As baixarias não serão suficientes para explicar o resultado que sairá das urnas. Muito menos as teorias destinadas a desqualificar os votos de quem vier a prevalecer. O que vem por aí é um plebiscito para decidir se o PT deve continuar no governo ou ir-se embora.
Elio Gaspari é jornalista

ZUENIR VENTURA Um verbo decisivo

O GLOBO

Se até nas selvagens lutas de vale-tudo do MMA há limites para os golpes, por que não estabelecer restrições éticas na guerra eletrônica?

Ansiosos por descobrirem mais um "inimigo" político, eleitores, ou melhor, torcedores me criticam por não tomar partido, por estar em cima do muro nessa briga de foice entre os presidenciáveis. E estou mesmo, porque, em meio a paixões desenfreadas, esse é o lugar mais indicado para quem dispõe de um espaço privilegiado e se recusa a transformá-lo em palanque. Proselitismo aqui só contra o uso da violência pelos candidatos, cujas divergências, aliás, são menos ideológicas e mais idiossincráticas. Na verdade, combatem de preferência as pessoas, mais do que as ideias. Quem gosta de baixo nível deve procurar o "território livre" da internet — livre principalmente para xingamentos e acusações sem provas. Alguém sugeriu que, a exemplo deste jornal, que na seção "Dos leitores" se recusa a publicar cartas com ofensas, as emissoras de TV deveriam criar um código de conduta nos debates, uma espécie de pacto de não agressão pessoal pelas partes em disputa. Se até nas selvagens lutas de vale-tudo do MMA há limites para os golpes, por que não estabelecer restrições éticas na guerra eletrônica? Claro que muitos iam acusar a medida de censura, cerceamento da liberdade de expressão. Mas os que ligam a televisão para ver debates, e não embates, com certeza aplaudiriam.

Pode-se dizer que houve um avanço domingo passado, pois na TV Record o tom foi menos belicoso, bem mais moderado, os candidatos menos provocativos, diferentemente de como se portaram no SBT, quando transformaram os blocos em rounds e o estúdio em ringue. Resta saber se, como nos conflitos armados, trata-se apenas de uma trégua ou da suspensão definitiva das hostilidades. Há algumas hipóteses para a nova postura. A primeira seria o efeito da disposição do Tribunal Superior Eleitoral de punir os ataques com perda de tempo no rádio e na televisão, como aliás acaba de fazer com os dois concorrentes. Outra é que o baixo nível teria sido transferido para as redes sociais. Há ainda a possibilidade de que pesquisas qualitativas teriam mostrado rejeição à estratégia dos ataques virulentos. Daí a opção pelas denúncias contra os partidos e os governos, mais do que contra os governantes. De fato, assistiu-se a um desfile de escândalos para ver em que administração houve mais corrupção, se na do PSDB ou do PT, e quem de um lado ou de outro recebeu mais propina.

O teste final será nesta semana, com o acirramento da disputa em consequência da troca de posições nas pesquisas de opinião. É possível que vença não quem apresentou o melhor programa de governo, mas quem usou com mais eficácia contra o/a adversário/a o verbo que virou moda nessa campanha: desconstruir.

Leia todas as colunas...

Roberto DaMatta Mudar o penteado

O GLOBO

O cabelo solto ou liberto do coque tem um sentido oculto. Ele fala de um engajamento expressivo de Marina ao desejo de emancipar o Brasil do lulopetismo

Talvez como prova de que nem tudo está perdido neste nosso Brasil obcecado pela disputa eleitoral, Marina Silva mudou o penteado: tirou o coque e soltou o cabelo.

No meio de um tiroteio que o nosso viés aristocrático rejeita como de mau gosto, esse é o fato alvissareiro desta etapa derradeira que vai confirmar ou não o governo lulopetista e mendaz de Dilma Rousseff.

Antigamente, quando os bichos falavam e os animais (sobretudo os burros e os gorilas) não faziam parte do governo, mulheres e homens iam sistematicamente a barbeiros e cabeleireiros e, de vez em quando e para a surpresa dos amigos, colegas e maridos, mudavam de penteado.

A expressão falava de algo além do cuidado regular com o cabelo, porque mudar parte do rosto chamava atenção imediata. Mudar o cabelo ou a cabeleira (ampliando-a, mudando sua forma ou cortando-a) ressaltava uma transformação radical da aparência e da "figura", sugerindo novos projetos de vida e mudanças de posicionamento social.

Sir Edmund Leach, um colega inglês dotado de excepcional talento e extrema generosidade, escreveu, em 1958, um ensaio denominado "cabelo mágico" , no qual ele observa como o estilo do penteado exprimia estados emocionais e sociais profundos. O cabelo, diz este ensaio — editado num volume que publiquei pela Editora Ática na coleção Grandes Cientistas Sociais, dirigida por Florestan Fernandes em 1983, sob o título "Edmund Leach" —, vai muito além do penteado. Discordando do axioma freudiano segundo o qual o cabelo se associa a manifestações do desejo libidinal, Leach revela que o seu sentido ou significado varia de cultura para cultura.

Muitos cabelos fogem do cânone freudiano como um símbolo fálico e crescer e ser cortado nos homens como um sinal de castração ou controle sexual. Elas mostram também que, em muitas sociedades, o seu estilo está ligado ao luto, à homossexualidade, à fertilidade, à gravidez e a outros estados sociais, os quais não têm um elo direto com a sexualidade.

No mundo ocidental, por exemplo, o cabelo longo se associa à mulher dona de sua vida sexual, embora, como se sabe, o corte do cabelo de Sansão por Dalila foi decisivo como um golpe que fez com que o superjudeu (que prefigura o Super-Homem americano moderno) perdesse temporariamente suas forças.

A essas alturas, o leitor pode estar espantado pelos caminhos que o desmanche do coque da Marina Silva está me conduzindo. Mas vale enfatizar que a ideia de controle, disciplina, agressão e repressão está muito mais próxima de cabelos raspados, presos ou curtos (como em algumas ordens religiosas e profissões — os militares e professoras — por exemplo); enquanto o cabelo longo, desgrenhado, acompanhado de uma barba igualmente ouriçada, denota um desdém e um engajamento crítico com a ordem vigente. O melhor exemplo gráfico disto é o famoso retrato do jovem Karl Marx, por oposição a uma estátua de Júlio César ou a foto de um membro das SS. Todos os românticos, bem como os hippies e os renunciantes deste mundo que vai se acabando, desdenhavam o cabelo brilhantinado e cuidadosamente penteado. Aliás, neste Brasil onde abundam meninos-prodígios de todo tipo, todos penteiam despenteando seus cabelos dentro do modelito Beethoven ou Einstein — os prodígios dos prodígios.

O cabelo solto ou liberto do coque tem um sentido oculto. Ele fala de um engajamento expressivo de Marina ao desejo de emancipar o Brasil do lulopetismo. Curioso, mas psicanaliticamente fascinante, esse despentear de Marina num momento em que o processo eleitoral atinge um estágio crítico e também começa a modernizar os seus debates que muitos gostariam que continuassem como aqueles jantares regados a valsa do Itamaraty.

Um aluno comentou que o vale-tudo petista é legítimo. Afinal, dizia, como num jogo de futebol, todos querem ganhar. Ele tem razão, mas com sérias reservas. O jogo tem como base a igualdade dos times porque todos obedecem às mesmas regras. Ademais, os times têm como referência o juiz, a torcida e os manuais que não mudam durante o seu desenrolar.

Já numa eleição como esta, há um candidato que é um óbvio controlador das regras porque ele é o governo com um viés antiliberal. Neste contexto, ser obrigado a vencer pelo bem do time transforma a disputa numa batalha de aleivosias. Se a paixão pelo poder for maior do que o respeito institucional, não pode haver jogo limpo. Um dos times — o que controla as regras ao mesmo tempo em que joga — abre mão de realizar o mandamento crítico de qualquer democracia: o dizer não a si mesmo.

Mas contra isso, eis como um presságio, o cabelo solto de Marina.

Roberto DaMatta é antropólogo

Leia todas as colunas...

INDICE DE ARTIGOS 22/1/14

segunda-feira, outubro 20, 2014

Denis Lerrer Rosenfield Fora da margem de erro

Fora da margem de erro

Fora da margem de erro

O segundo turno da eleição presidencial é imprevisível. Por isto mesmo, recomenda-se cautela, devendo-se, assim, evitar qualquer tipo de entusiasmo, para um lado ou para outro. Os gregos chamavam tal atitude de phronesis, que normalmente se traduz por "prudência" ou "cautela". Ela significa orientar-se com cuidado na imprevisibilidade, na particularidade, das coisas do mundo.
Neste contexto, deve-se ter a maior prudência na reação à divulgação das pesquisas de opinião, pois os institutos erraram e feio. Há problemas evidentes de metodologia ou de execução que ficaram flagrantes. Os números se dissociaram da realidade. O argumento, por exemplo, do diretor de um dos institutos mais importantes, de que os institutos medem apenas tendências é para incautos ou desavisados. Se assim fosse, não deveriam alardear que a sua margem de acerto se faz, por exemplo, em um universo de duas mil entrevistas, com dois pontos para mais ou para menos. Tal margem de erro, nem ela correspondeu à realidade.
A observação se faz necessária, pois os parâmetros de orientação a partir de pesquisas perderam completamente a credibilidade. Seus números devem ser vistos com cuidado. Deixaram de constatar mudanças importantes que estavam ocorrendo. Seria necessário, isto sim, um reconhecimento dos erros, uma pesquisa séria sobre por que ocorreram, e não tentativas reiteradas de mascarar a realidade.
Poderíamos considerar os erros em pesquisas eleitorais e de opinião como sendo de duas ordens, a saber: erros amostrais e erros não amostrais.
ERROS AMOSTRAIS
São os erros originados do desenho da amostra da pesquisa. A amostra, vale lembrar, precisa ser representativa da população que está sendo pesquisada. No Brasil, por exemplo, para a construção da amostra das pesquisas eleitorais utilizam-se cotas. As entrevistas seguem critérios de seleção de entrevistados como sexo, faixa etária, escolaridade, região e renda familiar mensal.
Um tipo de erro amostral seria, por exemplo, atribuir um maior peso aos entrevistados da Região Sudeste do país. Se uma amostra correta, que seja representativa da população, sinaliza que se precisa aplicar 500 entrevistas nessa região, então se determinado instituto aplicar 550 entrevistas isso significa que a amostra torna-se desproporcional à população pesquisada, redundando em um erro.
Para evitar erros amostrais é preciso que um estatístico produza a amostra baseando-se em dados estatísticos oficiais, dentre os quais os resultados do Censo de 2010 e da PNAD mais recente.
ERROS NÃO AMOSTRAIS
São erros que poderíamos denominar de execução. Vejamos alguns deles:
Questões enunciadas de forma errada, seja por apresentarem dúvidas sobre sua interpretação, seja por serem tendenciosas em relação às respostas possíveis.
A ordem da pergunta dos questionários também poderá contaminar a respostas dos entrevistados.
Pesquisadores mal treinados, sem experiência e ávidos por um "trabalho extra" em períodos eleitorais. Institutos precisam contratar pesquisadores e não "perguntadores".
A inflação do mercado de pesquisas em períodos eleitorais, com escassez de mão de obra qualificada, faz com que os institutos contratem pessoas que não possuem o mínimo domínio sobre os procedimentos metodológicos necessários para a aplicação de um questionário de pesquisa eleitoral.
No período eleitoral os institutos, além de trabalhar com falta de pesquisadores qualificados, se deparam com a escassez de tempo. Quase três mil entrevistas — às vezes, muito mais — precisam ser realizadas em dois dias — ou, ainda, em até um dia e meio. Trata-se, além de uma enorme operação logística, de uma grande chance para que as fraudes ocorram. Acossados pelo tempo, os próprios pesquisadores, sem encontrar o perfil desejado, podem muito bem "inventar" questionários.
A hipótese de que questionários sejam inventados é extremamente razoável, uma vez que não haveria tempo necessário para realizar a conferência de, conforme sustenta a literatura especializada, um mínimo de 20% dos questionários aplicados.
Essa conferência pode ser realizada in loco, por fiscais, ou por telefone, sendo esta última modalidade a mais comum. De posse dos questionários, os conferencistas ligam para confirmar se a pessoa foi mesmo entrevistada e se suas informações sobre perfil socioeconômico são coerentes com o que está declarado no questionário.
A conferência é um processo demorado porque, em muitos casos, é preciso tentar contato por várias vezes com o entrevistado selecionado para conferência. Não é, poderíamos dizer, o trabalho de uma tarde ou um dia. É algo que leva tempo, conferindo às pesquisas uma maior confiabilidade e uma maior certeza de que fraudes não ocorreram durante o processo de aplicação dos questionários.
Em períodos "normais", esses erros de execução tendem a ser menores, pois há mais tempo para realizar as pesquisas, empreender as conferências e, ainda, treinar novos pesquisadores.
Mas durante o período eleitoral é diferente. Há falta de tempo, escassez de mão de obra qualificada e urgência em divulgar os resultados. Essas variáveis fazem com que a qualidade das pesquisas eleitorais tenda a diminuir.
Por fim, uma nota: os eleitores também podem ser os "culpados" pelos erros, uma vez que sempre se mostra possível a mudança de opinião a partir de "ondas" que ocorrem, por exemplo, de um dia para outro. Contudo, as ondas quase se transformaram em verdadeiros tsunamis, dados os erros das pesquisas. Mas isso parece ser menos válido para os levantamentos de tipo boca de urna, em que o eleitor já votou.
Nada disto, contudo, deve servir de ensejo para que se estabeleça qualquer restrição no que diz respeito à divulgação de pesquisas. A censura deve — ou deveria — ser coisa do passado. Trata-se de um problema que o próprio mercado resolve, pois a perda de credibilidade dos institutos incide diretamente sobre eles. A sua perda de imagem é algo grave.
Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul


Enviado do meu iPhone

INDICE DE ATIGOS 20/10/14

INDICE DE ARTIGOS

sábado, outubro 18, 2014

Papo em causa própria Zuenir Ventura

Papo em causa própria

O Globo

A velhice não é um tema que mobilize os governos, a não ser para considerá-la um estorvo que custa aos cofres públicos não sei quanto e que, ainda por cima, não produz. Agora mesmo acho que nem chegou a ser citada nos debates dos presidenciáveis. Os dois talvez se julguem distantes dessa faixa etária, sendo muito jovens, quem sabe, para se preocuparem com o problema, preferem os ataques e as ofensas pessoais, o baixo nível (até quando vamos aguentar esse modelo de campanha?). Além do mais, para a cultura do consumo, a velhice não tem o glamour da juventude, embora o Brasil seja cada vez mais um país de cabelos brancos. Já são, ou melhor, somos, cerca de 26 milhões, e, em 2050, o número quase triplicará. Ou seja, temos futuro. Como desforra ao descaso oficial, esta semana deixei de me interessar pela disputa eleitoral, trocando-a pelo IX Fórum de Longevidade Bradesco em SP, na proveitosa companhia de especialistas daqui e de fora, como o psicólogo americano John Gray, autor de "Homens são de Marte, mulheres são de Vênus". Ali foram abordadas as diferenças do processo de envelhecimento entre homens e mulheres. Participei também no Rio (mas, aqui, depois de escrever esta coluna) não pelo saber, talvez como curiosidade. Acho que o gerontólogo Alexandre Kalache, curador do evento, queria mostrar como alguém na minha idade ainda conserva as funções vitais.

Nesse seminário em que as mulheres brilharam — as jovens coroas Mirian Goldenberg, Mary Del Priore e Cláudia Burlá foram as estrelas brasileiras —, a lição mais importante para mim foi aquela sintetizada por Mirian em "A bela velhice", um livro que os velhos de hoje e os de amanhã deveriam ler. Desconstruindo preconceitos e estereótipos negativos, a antropóloga sugere os caminhos para tornar mais feliz a chamada terceira idade. O primeiro deles é "não se aposentar de si mesmo ou mesma", ou seja, ter um "projeto de vida". É também fundamental valorizar a liberdade, buscar a felicidade, cultivar a amizade, aprender a dizer "não", vencer os medos, aceitar a própria idade. Em suma, "viver intensamente o presente e dar muitas risadas". Em outras palavras, eu acrescentaria a receita de Vinicius de Moraes, o poeta que mais entendia de vida: "A coisa mais divina/ Que há no mundo/ É viver cada segundo".

______

Também em SP, assisti a "Relatos selvagens", do jovem cineasta argentino Damián Zsifron, com Ricardo Darín. O mínimo que posso dizer do filme, que abriu a 38ª Mostra Internacional, é que ninguém deve deixar de ver essa inteligente, divertida, sutil, genial comédia, que estreia no Rio na próxima semana.



Enviado do meu iPhone

sexta-feira, outubro 17, 2014

Declaração de voto - Reinaldo Azevedo - Colunistas - Folha de S.Paulo

Declaração de voto - 17/10/2014 - Reinaldo Azevedo - Colunistas - Folha de S.Paulo

Declaração de voto

Você não sabe em quem votar? Eu sei. Mas reconheço o seu direito a uma escolha, e, caso o seu voto não coincida com o meu, não vou pedir demissão da Folha (ahhh!!!!) nem sair por aí voando na vassoura da impostura, como Marilena Chaui, chamando-o, por isso, de ignorante. A democracia existe também para os ignorantes, e ela sabe disso. Os que tentaram civilizar a humanidade segundo suas luzes produziram tiranias e cadáveres.

Vote, por exemplo, na pessoa disposta a não flertar com a inflação. Você é uma pessoa que se preocupa com os pobres. Não é uma escolha ideológica, embora não houvesse mal nenhum em fazê-la. É matemática. Se você achar que é Dilma, então é Dilma; se achar que é Aécio, então é Aécio. Os dois já se disseram contra a inflação. Você tem ainda o direito de votar contra a matemática e os pobres. A democracia é generosa.

Inflação não é tudo, eu sei. Então faça o seguinte: vote em quem não alimenta projetos delirantes de controle da imprensa, com mecanismos paralelos ou oficiais de patrulha e censura. Não é ideologia, mas respeito aos Artigos 5º e 220 da Constituição, que resultou de um processo constituinte democrático. Se é Aécio, então é Aécio; se é Dilma, então é Dilma. Os dois prometem respeitar a liberdade de imprensa. Você tem o direito, sim, de votar em branco, de votar nulo ou de nem comparecer, abstendo-se e arcando com as consequências. Quem disse que, na democracia, deixar de optar também não é optar? Eu não faria isso. Mas não sou dono da sua opinião.

Proponho que você avalie outro critério: o respeito à democracia representativa. Que candidatura lhe parece mais alinhada com o sistema que produziu, até hoje, os regimes mais civilizados da Terra, conciliando liberdade com justiça social? É respeito à história. Se é Dilma, então é Dilma; se é Aécio, então é Aécio. Os dois dizem acatar esse regime. Mas é claro que você tem o direito de mandar a história às favas, e meus critérios, para a ponta do pavio. Não vou atirar fogo às vestes por isso nem posar de vítima. Vítimas profissionais e triunfantes me embrulham o estômago.

Você, como eu, pode estar com o saco cheio da roubalheira organizada e transformada em categoria política ("Rouba, mas produz justiça social"), que é "rouba, mas faz" que deixou a era do produtivismo e aderiu à onda do distributivismo. Se é Dilma que tem menos compromissos com a máquina institucionalizada do assalto aos cofres, seu nome é Dilma. Se é Aécio, então é Aécio. Ambos prometem ser duros com a corrupção.

Que tal escolher, então, a candidatura avessa a hordas de intolerância, que não excita a imaginação dos que se consideram donos da opinião alheia? Se é Aécio, Aécio. Se Dilma, Dilma. "Nesse caso, Reinaldo, a democracia permite que a gente seja intolerante e resolva as pendengas no braço?" Não, a democracia não permite isso, e, se é assim que você pretende agir, o seu regime é outro, e eu não tenho nada a lhe dizer, e você não tem por que perder seu tempo comigo. Se é assim que você pensa, vá se catar. Quase me esqueço: os dois candidatos dizem representar forças tolerantes.

Você ainda não escolheu? Seja livre e feliz e mande à merda os que se pretendem donos do seu voto. A democracia permite.

twitter.com/reinaldoazevedo



quinta-feira, outubro 16, 2014

Carlos Alberto Sardenberg O poder do jeitinho

O GLOBO

Não se discute aqui quanto deve ganhar um juiz, se o aumento é justo ou não. Trata-se da forma — e a forma é essencial no Direito

O empregado é enviado por um período ou é transferido de vez para trabalhar em outra cidade. É razoável que receba um auxílio-moradia. Mudar é caro, e, por um certo tempo, a família fica morando em duas casas, com despesas dobradas. A empresa paga então um benefício extraordinário, até que o funcionário arrume sua nova residência. O benefício varia conforme os custos da cidade. Certo?

Errado, decidiu o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal. Para ele, todo juiz tem o direito fundamentado de receber todo mês e durante toda a carreira um auxílio-moradia mensal, no valor de R$ 4.377,73, esteja ou não de mudança, pague ou não um aluguel, gaste ou não com despesas de moradia propriamente ditas.

Então não é auxílio, dirá o leitor, trata-se de uma parte do salário. Inclusive porque o valor é o mesmo, quer o juiz more na caríssima Rio de Janeiro ou na mais barata cidade de Itapipoca, no interior do Ceará.

Lógico?

Errado de novo. Acontece que, se for considerado e concedido como salário, aquele auxílio entra como salário. Parece esquisito?

E é mesmo, mas só para quem desconhece o clássico jeitinho salarial, praticado amplamente no setor público e agora de novo consagrado na Suprema Corte. Se integrados tecnicamente, digamos, ao salário, aqueles quatro mil e quebrados farão com que o vencimento dos juízes estoure o teto a que estão submetidos os funcionários públicos. Além disso, reajuste salarial tem de ser aprovado pelo Congresso. Já um auxílio, uma ajudazinha...

Não é difícil arrumar o complemento. A imaginação criadora do setor já criou pérolas, como o auxílio-paletó — para comprar um terninho, pessoal, já que o funcionário tem que se apresentar corretamente — ou o pé na cova, um adicional pago quando o servidor chegava perto da aposentadoria.

Funciona sempre do mesmo jeito: um jeitinho para promover um aumento salarial não concedido pelo Congresso e que escape do teto. Claro que exige uma reinterpretação dessa outra palavra.

Qualquer um entende o que é teto salarial. Se o teto do funcionalismo é o salário do presidente da República, qualquer um entende o que isso quer dizer: nenhum servidor pode ganhar mais que o presidente.

Certo?

Não é tão simples assim, diz a Suprema Corte. O que é salário? O que é benefício pessoal? Auxílio entra no teto?

Reparem que tem lógica. Se o empregado recebe um auxílio para morar em outra sede, isso obviamente não é salário, mas um ganho eventual, para uma despesa determinada. Se o governo paga o táxi para o juiz ir até uma audiência, isso não é salário, é verba indenizatória, não é mesmo?

Vai daí que se arranja um auxílio qualquer coisa e está dado o aumento. O passo seguinte é dispensar a comprovação da despesa — terno, funeral ou moradia — para a qual o tal auxílio foi concedido.

Por isso, de tempos em tempos, o Congresso, sob pressão, aprova uma lei dizendo mais ou menos o seguinte: OK, pessoal, os quebra-galhos arranjados até agora estão consagrados, está tudo incorporado aos vencimentos, mas é a última vez, hein!?, daqui em diante, teto é teto.

Reparem: não se discute aqui quanto deve ganhar um juiz, se o aumento é justo ou não. Trata-se da forma — e a forma é essencial no Direito. O quebra-galho gera uma distorção infinita. E uma despesa infinita.

Querem ver? Diz a decisão que o auxílio-moradia dos juízes vale a partir de agora. Mas, se é um direito fundamentado, como diz o ministro Fux, então por que só valeria a partir de agora? Direito tem data? Podem apostar: se já não entraram, alguém vai entrar na Justiça pedindo os retroativos. E vai ganhar.

Por outro lado, se o juiz tem direito a auxílio-moradia sem precisar justificar o gasto determinado e sem contar para o teto, por que não o tem o médico do SUS, esteja em qualquer cidade? E o policial federal? E os professores?

Os juízes arranjaram esse auxílio- moradia porque não conseguiram equiparação com os vencimentos dos procuradores da República. Foi um arranjo, ou uma distorção, como comentou o também ministro do Supremo Gilmar Mendes. O certo, diz ele, seria a simetria salarial da Magistratura com o Ministério Público.

Vão acabar conseguindo, quando os procuradores buscarão, então, um aumento para repor as condições anteriores.

E assim segue. Com uma diferença: só algumas categorias de funcionários conseguem montar seus quebra-galhos. O poder do jeitinho salarial é um privilégio de poucos.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

Leia todas as colunas...

quarta-feira, outubro 15, 2014

Arminio Fraga: ‘O ataque do PT demonstra uma fraqueza incrível’ - Jornal O Globo

Arminio Fraga: 'O ataque do PT demonstra uma fraqueza incrível' - Jornal O Globo

Arminio Fraga: 'O ataque do PT demonstra uma fraqueza incrível'

Arminio diz que BNDES foi importante, mas é hora de rever crédito subsidiado - Fábio Seixo / Agência O GLOBO

RIO - Amuleto de Aécio no primeiro turno, o ex-presidente do Banco Central não esconde o desconforto de ser apresentado como vilão por Dilma Rousseff (PT) no segundo turno. Em entrevista ao GLOBO, ele admite ter sido pego de surpresa sem uma estratégia para deslocar o debate econômico do passado, como insistem os petistas, para o presente, como querem os tucanos. Para encarnar o antagonista de Arminio, o PT escalou o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Procurado pelo GLOBO na semana passada, o ministro ainda não abriu espaço em sua agenda para uma entrevista.

Como vê a estratégia do PT de comparar indicadores econômicos dos governos Lula e Dilma com os de FH?

Quem está concorrendo não é o Lula, do (ex-ministro da Fazenda) Antonio Palocci. É a Dilma, com esse modelo, essa equipe e esses resultados que estão aí. Lula já foi. As perspectivas são tão ruins, que tentam jogar a discussão para o que aconteceu há 15 anos, em outras circunstâncias.

Como o PSDB vai responder?

Não temos outra estratégia para contrapor que não seja a de discutir o que se pretende fazer com o Brasil de hoje, já que não temos máquina do tempo para voltar atrás. Tenho a impressão de que, com o tempo, as pessoas vão entender que aquilo era outra situação, gravíssima, herdada da década de 1980. Eu não sou daqueles que acha que está tudo errado hoje, mas tem muita coisa errada. Temos que insistir no que é bom e mudar o que é ruim. O tema para mim é mudança.

A comparação não faz sentido?

Espera-se que cada governo seja melhor do que o outro. Quando se constrói uma parede, colocando um tijolo sobre o outro, dizer que o quarto tijolo é mais baixo que o décimo é óbvio. Claro que é. Ninguém constrói uma parede para baixo. O ponto hoje é o país estar vivendo uma crise de incerteza enorme. Todos os índices de confiança estão lá embaixo. O investimento vem caindo, apesar de todos os programas do governo. Isso mostra que tem coisa errada no modelo.

Publicidade

Sente-se no alvo do PT?

E não é para se sentir? O ataque que o PT está fazendo demonstra uma fraqueza incrível. Eu não me tenho em tão alta conta, como eles aparentemente têm. Claramente estão querendo desviar o foco do que está acontecendo hoje.

Sua proposta de revisão do papel dos bancos públicos é das mais criticadas pelo PT. Como seria o BNDES de Aécio?

Não vamos acabar com o BNDES, que é um instrumento importante. A resposta à crise em 2009, anticíclica, foi adequada. Só que a crise passou. As coisas estão dando errado por outras razões, e eles continuam com o mesmo remédio. O BNDES tem que ter critério social, por ter recursos subsidiados hoje maiores do que o que se gasta com o Bolsa Família. Tem que ter transparência para permitir avaliação. E os subsídios têm que estar no orçamento. Hoje, não há meta para o tamanho do banco, mas, com critério, sem emprestar para Petrobras e grandes empresas que têm acesso a crédito privado, o volume dos desembolsos deve diminuir aos poucos.

Seu plano de trazer a inflação para o centro da meta de 4,5% e reduzi-la para 3% é juro alto, como diz Dilma?

O que temos dito é que vamos fazer isso em dois ou três anos, com uma combinação muito melhor das ferramentas de política econômica, que não são só juros, para liberar o lado da oferta da economia. A oferta está travada porque não tem investimento. Vamos trabalhar para destravar a oferta também.

Esses outros componentes faltaram na política econômica de FH?

Não, de jeito nenhum. É o oposto. Vocês estão acreditando muito no que eles (do PT) contam. Fernando Henrique fez mudanças de grande importância, como o papel do Estado. Era preciso passar uma série de coisas para o setor privado, sob supervisão do Estado. Começou lá o foco maior em Educação e Saúde. Se olharmos os gastos sociais, o crescimento foi mais ou menos igual nos governos Itamar, FH, Lula e Dilma: cerca de 1,5% do PIB. Só estou mostrando que as coisas fora de seu contexto têm pouco significado. É um debate pobre.

A política econômica de FH foi irrepreensível? O que faria de diferente num governo Aécio?

FH pegou um país com hiperinflação, moratória, sistema bancário parasita, buraco fiscal, crise das finanças estaduais. De um quadro desolador, fez um excelente trabalho. Temos que olhar o conjunto da obra sob as circunstâncias em que aconteceu. Qualquer um que olhe para trás com um mínimo de bom senso faria algo diferente, mas isso é engenharia de obra feita. Hoje, as circunstâncias são totalmente diferentes. Não dá para fazer essa comparação. Se há um paciente com apendicite e outro com enxaqueca, vamos abrir a barriga dos dois? Não faz sentido. O eleitor precisa ver as propostas e as credenciais das pessoas hoje e definir se têm competência ou não.

Por favor, faça o seu login no Globo. Para comentar esta notícia é necessário entrar com seu login

13 comentários

  • Carlos Alberto

    Somente com investimento na áreas do comercio, da indústria, de serviços, na educação, na saúde, na segurança, e etc, existirá a possibilidade de criação dos empregos de qualidade que a População tanto necessita, e que se tornaram inviáveis nos últimos anos por falta de credibilidade na gestão econômica. O que se observou foi assistencialismo populista no lugar de profissionalizar, criando mão de obra qualificada para uma ascensão social sustentável, sem a dependência do governo.

  • José Manoel Correia de Abreu

    COM ESSE GLAUBER DEVE TER ACONTECIDO ISSO.... GLAUBER.... ????  EU ACHO QUE VOCÊ TA GRAVIDO..... DO BIERLAND.....

  • José Manoel Correia de Abreu

    SENHORES "CRÂNIOS" DE INFORMATICA AQUI DO GLOBO... OS SENHORES ME MANDAM EU COLOCAR O MEU TELEFONE, O MEU CPF... EU COLOCO, NÃO ACONTECE "PÔRRA" ALGUMA ... PERGUNTO... COMO EU CONSIGO COMENTAR AQUI NESTA MERD@.... MINHA MULHER ENTROU COM O CPF DELA, MAS AGORA APARECEU O MEU NOME.... SERÁ SE O GLOBO TA PENSANDO QUE EU VIREI AQUELE FILME "SE EU FOSSE VOCÊ"... SERÁ.....

  • Jorge Wehbeh

    A candidata do PT nunca seria Presidente se no Brasil nós tivéssemos um povo com bom grau de instrução, pois essa Senhora e seus asseclas nunca foram "Revolucionários" pois para quem não viveu 1964 não sabe que o pais estava uma bagunça e o que realmente aconteceu foi UM GOLPE feita pelos Militares, portanto só um povo analfabeto e miserável (bolsa família) vota nessa gente corrupta, mentirosa e imoral, Ex-guerrilheira do V.Palmares na Presidência do Brasil da isso corrupção. Cadeia neles.

  • Uri Geller

    Sr Armínio cada vez que o vejo na tv me dá calafrios...lembro de recessão, do arrocho salarial, da falta de perspectivas para os trabalhadores...Não quero isso de volta!!

    • José Manoel Correia de Abreu

      COM MANTEIGA.... EU DISSE.... "MANTEGA".....

    • José Manoel Correia de Abreu

      ESSE É ENGOLIDOR DE VARA..... EU DISSE VARA.....

Carregar mais comentários



Enviado do meu iPad

terça-feira, outubro 14, 2014

Como roubaram a Petrobrás - Opinião - Estadão

Como roubaram a Petrobrás - Opinião - Estadão

Como roubaram a Petrobrás

O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2014 | 02h 05

Começam a brotar os detalhes daquele que se afigura como um dos maiores escândalos de corrupção da história brasileira - o assalto à Petrobrás, que teria movimentado ao menos R$ 10 bilhões. Os mais recentes depoimentos dos principais personagens desse escabroso esquema, montado para drenar os recursos da maior empresa estatal do País, revelam a quem foi repassado o produto do roubo - e, mais uma vez, como tem sido habitual ao longo dos governos lulopetistas, aparecem fartas digitais do PT.

Fica cada vez mais claro que figuras de proa desse partido - muitas das quais já foram presas por corrupção - permitiram na última década o arrombamento dos cofres do Estado por parte de delinquentes, servindo-se desse dinheiro para financiar seu projeto de poder.

À Justiça Federal no Paraná, Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobrás e um dos pivôs do escândalo, confirmou que uma parte do dinheiro desviado financiou as campanhas do PT, do PMDB e do PP em 2010.

Contando detalhes que só quem participou da operação poderia conhecer, Costa revelou que de 2% a 3% dos contratos superfaturados eram desviados para atender os petistas. Segundo ele, várias diretorias da estatal eram do PT. "Então, tinha PT na Diretoria de Produção, Gás e Energia e na área de Serviços. O comentário que pautava a companhia nesses casos era que 3% iam diretamente para o PT", relatou o ex-diretor, em depoimento gravado. No caso de sua diretoria, Costa afirmou que os 3% eram repartidos entre o PP, ele e o doleiro Alberto Youssef, o outro operador do esquema. Já a Diretoria Internacional repassava os recursos desviados para o PMDB, segundo disseram Costa e Youssef.

Costa afirmou que o contato dos diretores envolvidos nos desvios era feito "diretamente" com João Vaccari Neto, tesoureiro do PT. O nome de Vaccari Neto foi confirmado por Youssef, que também prestou depoimento à Justiça Federal.

Os tentáculos do esquema não se limitavam às diretorias da Petrobrás. Em 2004, segundo declarou Youssef, os "agentes políticos" envolvidos no escândalo pressionaram o então presidente Lula a nomear Costa para a Diretoria de Refino e Abastecimento, ameaçando trancar a pauta do Congresso. "Na época, o presidente ficou louco e teve de ceder", disse o doleiro. Esse relato, se confirmado, revela como a máfia instalada na Petrobrás se sentia à vontade para manipular até mesmo o presidente da República e o Congresso em favor de seus interesses criminosos. E essa sem-cerimônia talvez se explique pelo fato de que membros proeminentes do próprio partido de Lula, a julgar pelos depoimentos, estavam cobrando pedágio e se beneficiando da roubalheira na estatal.

Os depoimentos de Costa e de Youssef foram os primeiros dados à Justiça depois do acordo em que decidiram contar tudo o que sabem em troca de redução de pena. Se oferecerem informações falsas, perderão imediatamente o benefício - logo, os dois têm total interesse que sua delação seja levada a sério.

Além disso, ambos ofereceram atas e documentos que, segundo eles, comprovariam as reuniões da quadrilha, os esquemas de pagamento e as transações para lavagem de dinheiro em empresas offshore. As autoridades sabem que estão lidando com material explosivo. Segundo a defesa de Youssef, ele e Costa foram apenas operadores do esquema - os verdadeiros líderes "estão fora desse processo, são agentes políticos".

Diante da enorme gravidade dos fatos até aqui relatados, e ante a certeza de que se trata apenas de uma fração de um escândalo muito maior, seria legítimo esperar que Lula e a presidente Dilma Rousseff viessem a público para dar explicações convincentes sobre o envolvimento de seus correligionários nos crimes relatados. No entanto, Dilma preferiu queixar-se do vazamento dos depoimentos de Costa e de Youssef - como se o mais importante não fosse o vazamento, pelo ladrão, de dinheiro da Petrobrás. Já a reação de Lula foi típica daqueles que se consideram moralmente superiores: ele se disse "de saco cheio" das denúncias de corrupção contra o PT. Pois os brasileiros podem dizer o mesmo.



Enviado do meu iPad

Arquivo do blog