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Sábado, Fevereiro 11, 2012

Walter Laqueur - ENTREVISTA:A Europa perdeu o ímpeto ...

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Dilema atroz - CELSO MING



O Estado de S.Paulo - 11/02/12


No final de outubro, o então primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou, avisava, em tom de advertência, que seu país nunca esteve, como naquela ocasião, tão perto de abandonar o euro. Como, de lá para cá, pouco mudou, conclui-se que a Grécia do atual primeiro-ministro Lucas Papademos (foto) continua próxima de abandonar a moeda única.

O governo grego parece sempre estar dizendo que o prejuízo maior de eventual saída do euro ficaria para os demais sócios, não para seu povo. O pressuposto seria o de que a troca de moedas provocaria brutal contaminação e o derretimento do próprio euro.

Depois que o Banco Central Europeu começou a despejar volumes ilimitados de recursos nos bancos do euro, o naufrágio à Titanic do bloco parece bem mais improvável - embora os problemas estejam longe de ser sanados.

Se a situação é limite, convém examinar os limites. Em novembro, Kenneth Rogoff , ex-economista-chefe do FMI, observava que, cedo ou tarde, a Grécia teria de pular do euro e voltar à dracma. A opção - ou o dilema - continua de pé.

Para o governo da Grécia, a primeira vantagem da volta à dracma seria poder emiti-la cada vez que tivesse de cobrir um rombo. Outra vantagem seria a de derrubar as despesas públicas. A operação de saída do euro viria acompanhada de alentado calote da dívida. Sem ter de pagar nem os juros nem o principal, o déficit ficaria mais administrável. Em terceiro lugar, uma dracma megadesvalorizada baratearia em moeda forte seus produtos de exportação e seus serviços de turismo. E, assim, com mais receitas em moeda estrangeira, a Grécia poderia recuperar o ritmo de sua atividade econômica.

Mas essa seria só a parte boa da maçã. O calote fecharia o crédito externo por anos. A Grécia teria de viver da mão para a boca, com o que arrecadasse. O precedente da Argentina, sempre lembrado, teria pouca aplicação. A Grécia não é grande produtora de commodities, não tem significativas receitas em moeda estrangeira, tampouco uma indústria competitiva.

Uma forte desvalorização da dracma em relação ao euro, por si só, teria forte potencial inflacionário. C0mo os gregos são dependentes de suprimento de alimentos e de energia (combustíveis) do resto do mundo, especialmente da Europa, o preço dos importados dispararia.

O calote e a troca de barco seriam operações de graves consequências. Os maiores credores da Grécia são os bancos gregos. É provável que muitos deles viessem a quebrar. Além disso, a população grega tem depósitos e aplicações financeiras em euros nos bancos locais. A troca de moeda exigiria a conversão desses ativos para dracmas. Não seria de um dia para o outro que o governo da Grécia teria suficiente numerário em dracmas para fornecer aos correntistas dos bancos. Logo, seria inevitável o racionamento do acesso a essas contas correntes e às aplicações financeiras. As autoridades teriam de organizar um corralito como o da Argentina (2001), que paralisou a economia.

Enquanto o dilema for morrer de morte morrida ou de morte matada, fica compreensível que o grego prefira fingir: fingir que aceita a dureza do plano; fingir que vai cumprir o acordo; fingir que não aguenta mais; e fingir que dará o abraço do afogado e que não será a única vítima.

Contas em atraso - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 11/02/12



O sistema financeiro brasileiro carrega R$ 154 bilhões em crédito inadimplente. No ano passado, o estoque de dívidas com atraso acima de 60 dias cresceu 23%. Os números estão atraindo investidores estrangeiros especializados no segmento de crédito podre. A inadimplência no financiamento de veículos cresceu 133% em 2011, ritmo cinco vezes mais rápido que o crédito concedido ao setor.

Não estamos à beira de uma crise como a que outros países viveram, mas temos que olhar com mais respeito os números. Se o mercado de crédito no Brasil está crescendo muito rápido, também é veloz o ritmo do volume de inadimplência. Preocupados com o efeito desse crédito ruim sobre seus balanços, os bancos revendem os ativos a preços baixos para investidores especializados em cobranças de longo prazo.

- É muito caro para um banco tentar recuperar um crédito vencido há mais de 180 dias, por exemplo. Esse tipo de cobrança foge da sua estrutura. Muitos preferem vender essas carteiras a outros investidores, especializados nisso. Apesar do prejuízo, os bancos melhoram o perfil de suas carteiras e recuperam parte do dinheiro emprestado - explicou o economista Paulo Bittencourt, da Apogeo Investimentos.

A KPMG registrou em relatório que só o Santander vendeu R$ 16 bilhões em créditos podres. Aceitou levar um prejuízo de pelo menos 85%. Ou seja, se tinha, por exemplo, uma carteira que valia R$ 100, o banco revendeu a outros investidores por R$ 15. Pela lógica dos bancos, é melhor recuperar R$ 15 e tentar alguma rentabilidade sobre esse valor do que correr o risco de perder os R$ 100 e ainda ter que dizer ao mercado que carrega esse mico. Já para o investidor que compra, as chances de lucros grandes são altas, caso ele consiga fazer com que o devedor pague.

A provisão que os bancos têm que fazer para carteiras de crédito com a mais baixa qualidade subiu 22% no ano passado, de R$ 51 bilhões para R$ 64 bi. Esse é o volume total de atrasos maiores que 180 dias, que são classificados com a letra H pelo Banco Central. Quando o crédito entra nessa classificação, o banco é obrigado a fazer uma reserva de 100% do valor concedido. A provisão feita pelos bancos estrangeiros aumentou 35%.

A KPMG, que presta consultoria para bancos e investidores que querem atuar nesse mercado, estima que, além dos R$ 154 bilhões de crédito em atraso no país, há outros R$ 150 bi contabilizados como perdas pelos bancos, porque ultrapassaram o período de 365 dias inadimplentes. Segundo Salvatore Milanese, líder da área de reestruturação da KPMG, o crescimento do crédito no ritmo de 20% ao ano está chamando atenção de investidores estrangeiros especializados em inadimplência.

- Os investidores sabem que tudo o que cresce a uma taxa de 20% ao ano uma hora terá que sofrer correção, porque nada pode subir indefinidamente até o céu. A taxa é insustentável, e quem olha para os exemplos históricos percebe isso. Quando comecei nesse mercado, em 2001, o percentual de crédito H era 1%. Hoje, subiu para 3%. Existe uma enorme correlação entre o crescimento forte do crédito e a alta do crédito inadimplente - afirmou.

O que preocupa nesses números é que 42% do crédito em atraso no Brasil são de consumidores. Ou seja, muitos brasileiros que estão sendo estimulados a fazer financiamentos não estão conseguindo pagar as contas.

O economista Felipe Queiroz, da Austin Rating, aposta que os atrasos não devem crescer tanto este ano porque a perspectiva é de crescimento da economia. Mas alerta que uma mudança brusca na Europa, que afete os níveis de emprego no país, tornariam o quadro pior:

- A expectativa é que a inadimplência não aumente. Temos a economia com projeção de crescimento, aumento do salário mínimo, redução da Selic. Tudo vai facilitar os pagamentos. O que pode dar errado é um agravamento da crise na Europa. Uma recessão profunda por lá que tenha reflexo nas nossas exportações e na oferta de crédito.

Os economistas costumam olhar só o crédito/PIB e dizer que, na comparação com outros países, os nossos 49% são baixos. Mas aqui o dinheiro é caro demais. Um vento contra pode complicar. Por isso, é hora de olhar esses números com lupa.

Capturando o Banco Central Europeu - JOSEPH E. STIGLITZ


O GLOBO - 11/02/12


Nada ilustra melhor as contracorrentes políticas, interesses especiais e políticas econômicas míopes em ação hoje na Europa que o debate sobre o reescalonamento da dívida soberana da Grécia. A Alemanha defende que seja profundo - investidores aceitariam pelo menos 50% de abatimento da dívida - enquanto o Banco Central Europeu (BCE) insiste que toda reestruturação deve ser voluntária.

Nos velhos tempos - pense na crise da dívida da América Latina nos anos 80 - conseguia-se reunir credores, em sua maioria grandes bancos, numa pequena sala e sair de lá com um acordo, ajudado por alguns agrados, ou mesmo queda de braço, por parte de governos e autoridades reguladoras ansiosos para que tudo corresse sem problemas. Mas, com o advento da securitização da dívida, os credores se tornaram muito mais numerosos e passaram a incluir fundos hedge e outros investidores sobre os quais reguladores e governos têm pouca influência.

Além disso, uma "inovação" nos mercados financeiros tornou possível que os detentores de títulos comprem um seguro. Isto permite que tenham um lugar na mesa, mas não arrisquem sua pele. Eles de fato têm interesses: querem receber o seguro, mas para isso o reescalonamento deve ser um "evento de crédito" - equivalente ao default. A insistência do BCE em reestruturação "voluntária" - que contorna o evento de crédito pos os dois lados em desacordo.

A ironia é que os reguladores permitiram a criação desse sistema disfuncional.

A posição do BCE é singular. O ideal era que os bancos tivessem feito seguro para se garantir em relação ao risco de default dos títulos em seus portfólios. Se fosse assim, o regulador preocupado com a estabilidade sistêmica ia querer que o segurador pagasse no caso de perda. Mas o BCE deseja que o banco tenha uma perda de 50% sobre os títulos em seu poder, sem que os benefícios do seguro tenham de ser pagos.

Há três explicações para a posição do BCE, nenhuma das quais fala a favor da instituição e de sua conduta regulatória e supervisora. A primeira é que os bancos de fato não compraram seguros e alguns adotaram posições especulativas. A segunda é que o BCE sabe que o sistema financeiro não tem transparência - e sabe que os investidores sabem que não podem medir o impacto de um default involuntário, o que poderia congelar os mercados de crédito, reprisando o que se seguiu ao colapso do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Finalmente, o BCE pode estar tentando proteger os poucos bancos que fizeram seguro.

Nenhuma dessas explicações é uma desculpa adequada para a oposição do BCE a uma profunda reestruturação involuntária da dívida da Grécia. O BCE deveria ter insistido em maior transparência - de fato, esta deveria ter sido uma das principais lições de 2008. Os reguladores não deveriam ter permitido que os bancos especulassem como fizeram; a fazer alguma coisa, deveriam ter exigido que eles contratassem seguros - e então insistido no reescalonamento de uma forma que assegurasse o pagamento do seguro.

Há, além disso, pouca evidência que uma reestruturação profunda e involuntária seria mais traumática do que uma profunda e voluntária.

Ao insistir no caráter voluntário, o BCE pode estar tentando assegurar que o reescalonamento não seja profundo; mas, neste caso, ele está pondo os interesses dos bancos adiante dos da Grécia, para a qual uma profunda reestruturação é essencial se ela quiser emergir da crise. De fato, o BCE pode estar colocando os interesses de alguns poucos bancos que contrataram seguros (credit-defaultswap, CDS) na frente dos da Grécia, dos contribuintes europeus e dos credores que agiram com prudência e compraram seguros.

A última esquisitice da posição do BCE diz respeito à governança democrática.

A decisão sobre a ocorrência ou não de um evento de crédito é atribuída a um comitê secreto da International Swaps and Derivatives Association, um grupo setorial que tem interesse no resultado. Se algumas reportagens estiverem corretas, alguns membros do comitê têm usado sua posição para promover posições negociadoras mais acomodadas.

Mas parece injusto que o BCE delegue a um comitê secreto de participantes do mercado com interesse na questão o direito de determinar o que é uma reestruturação aceitável da dívida.

O único argumento que parece - pelo menos superficialmente - pôr o interesse público em primeiro lugar é que um reescalonamento involuntário poderia levar ao contágio financeiro, com grandes economias como as de Itália, Espanha e mesmo França enfrentando um drástico, e talvez proibitivo, aumento nos custos do crédito. Mas isto pede a pergunta: por que deveria um reescalonamento involuntário levar a um contágio mais forte do que um reescalonamento voluntário de profundidade comparável? Se o sistema bancário fosse bem regulado, com os bancos credores de dívidas soberanas tendo comprado seguro, uma reestruturação involuntária deveria perturbar menos os mercados financeiros.

É claro, poder-se-ia argumentar que, se a Grécia obtiver uma reestruturação involuntária, outros ficariam tentados a consegui-la também. Os mercados financeiros, preocupados com isso, imediatamente elevariam as taxas de juros para outros países da zona do euro, grandes e pequenos.

Mas os países que apresentam maior risco já foram excluídos dos mercados financeiros, então a possibilidade de uma reação de pânico é limitada.

É claro que outros ficariam tentados a imitar a Grécia se o país de fato estivesse em melhores condições fazendo a reestruturação do que não a fazendo. É verdade, mas todo mundo já sabe disso.

O comportamento do BCE não deveria causar surpresa: como vimos em outros lugares, instituições que não são democraticamente responsáveis tendem a ser capturadas por interesses especiais. Isto era verdade antes de 2008; infelizmente para a Europa - e para a economia global - o problema não foi adequadamente abordado desde então.

A disputa pela classe C - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 11/02/12


O controle político da chamada "nova classe média", que pode se transformar na célebre situação de a criatura se voltar contra o criador, tem provocado polêmicas a partir da explicitação da preocupação do ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência e olhos e ouvidos de Lula na administração Dilma, no Fórum Social Mundial.
Ele chamou a atenção para a necessidade de não deixar a nova classe média "à mercê" dos meios de comunicação no país, sugerindo que são disseminadores de uma ideologia conservadora.
Ao mesmo tempo, chamou para o centro da luta política os evangélicos, com quem disse que as esquerdas devem disputar ideologicamente a massa dos emergentes.
Gilberto Carvalho chegou a falar na criação de um sistema de comunicação de massas para transmitir a esses novos consumidores as ideias do governo.
Anteriormente, ele já havia deixado claro que essa é uma preocupação prioritária do governo, pois a nova classe emergente seria, no seu modo de ver, "um pouco polêmica, porque não tem uma posição ainda consolidada".
Os evangélicos reagiram com vigor, e o ministro foi chamado até mesmo de "safado" pelo deputado Magno Malta, líder de um partido aliado do governo.
E a nova ministra da Secretaria das Mulheres, Eleonora Menicucci, mal assumiu e já se tornou alvo dos evangélicos por sua defesa do aborto.
O cientista político Amaury de Souza diz que não apenas a classe C, mas grande parte da população brasileira é conservadora "se por tal se entende o apego à lei e ordem e a um conjunto de valores relativos ao comportamento individual, à família e à vida em sociedade, muitos dos quais compõem o que se conhece por "moral cristã"".
Ele chama a atenção para a impossibilidade de uma classe que engloba a metade do eleitorado votar de forma homogênea.
"No entanto, os segmentos política e institucionalmente mais organizados da classe C, como os evangélicos, constituem uma formidável força política.
Basta lembrar o papel decisivo que desempenharam na eleição de 2010, capitaneando uma onda conservadora que levou a disputa presidencial ao segundo turno.
Se os evangélicos se tornarem antipetistas, o mérito, ironiza Amaury de Souza, será em boa medida do secretário-geral da Presidência Gilberto Carvalho, que convocou o seu partido a travar "uma disputa ideológica com líderes evangélicos pelos setores emergentes".
O ex-ministro Mangabeira Unger achava "decisivo" para qualquer orientação transformadora do Brasil o surgimento de uma nova classe média, e uma nova cultura de emergentes, "esse pessoal que estuda à noite, luta para abrir um negócio, ser profissional independente, que está construindo uma nova cultura de autoajuda e de iniciativa, e está no comando do imaginário nacional".
Dentro desse contexto, ele considerava que o movimento evangélico precisava ser visto "como um elemento entre muitos dessa nova base social.
São dezenas de milhões de brasileiros organizados".
Mangabeira desenvolveu a tese de que evangélicos brasileiros têm semelhança com pioneiros que fundaram os EUA e tinham o espírito empreendedor que faria a diferença para o desenvolvimento do Brasil.
O cientista político Alberto Carlos de Almeida, do Instituto Análise, acha que não são os políticos e os partidos que fazem a cabeça do eleitorado e doutrinam os grupos sociais, neste caso a classe C, "mas é o oposto que acontece".
Para ele, os políticos têm que adaptar seu discurso para uma nova maneira de pensar. "Assim, se a classe C for mais numerosa e mais conservadora, o PT precisará de um discurso mais conservador para se manter no poder".
O PT já fez isso e continua fazendo, ressalta, lembrando que na eleição de 2010 "o discurso de Dilma enfatizou a importância da classe média, de progredir na vida". Isso não foi feito pelo PT, por exemplo, na eleição de 2002 e 2006.
Alberto Carlos está convencido de que a nova classe C, seu aumento numérico, o aumento de sua renda e escolaridade "empurrarão todos para a direita".
Ainda nesta mesma direção, uma das coisas que acontecerá em breve, na sua previsão, é a demanda por um discurso político permanentemente a favor de redução de impostos.
"Os políticos irão atender a esta demanda, é só uma questão de tempo", diz ele.
O economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas, criador do termo e um estudioso da "nova classe média", explica que a designação reflete "o sentido positivo e prospectivo daquele que realizou — e continua a realizar — o sonho de subir na vida. Mais importante do que de onde você veio ou está é aonde vai chegar".
Ele diz que "o que caracteriza a nova classe média é o lado do produtor. A carteira de trabalho é seu principal símbolo. É o que chamamos de lado brilhante dos pobres".
Marcelo Neri explica que quando as pessoas sobem na vida, começam a ter o que perder e ficam mais conservadoras.
Seu grupo na Fundação Getulio Vargas, em acordo com o Senai, produziu pesquisa sobre a educação profissional relacionada às ideias da nova classe media.
A educação profissional é "a cara da classe C", define Neri: "Mais que a cultura bacharelesca da classe média tradicional", como reflexo de novos valores, "um misto de buscar semelhança com a tradicional classe média e ter origens diferenciadas". (Continua amanhã)

Quinta-feira, Fevereiro 09, 2012

Estreita vigilância Dora Kramer



O Estado de S. Paulo - 09/02/2012
 

Os Ministérios da Justiça e da Defesa monitoram de perto a mobilização de policiais militares em vários Estados onde há risco de greves e já fazem um planejamento para o envio de tropas no caso de os governadores pedirem auxílio para a garantia da ordem pública.
Há 4 mil homens na Bahia desde a semana passada, quando o governador Jaques Wagner pediu ajuda em função dos tumultos de rua provocados por grevistas e da ocupação da Assembleia Legislativa por policiais amotinados.
Diante do risco de ocorrerem greves também no Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul e Alagoas, o governo federal programa possíveis deslocamentos levando em conta um efetivo de até 10 mil soldados da Força Nacional mais o que for preciso de pessoal do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.
Embora o governo abrace a tese de que a greve da Bahia e as ameaças em outros Estados façam parte de uma mobilização nacional para forçar a votação da emenda constitucional (PEC 300) que institui o piso salarial para policiais militares e bombeiros, não prevê outra ação de caráter nacional além da garantia da ordem.
Segundo alta autoridade da área federal de segurança, não há o que fazer a não ser aguardar que os governadores consigam resolver o problema de modo pontual com as corporações dos respectivos Estados, "dentro das possibilidades orçamentárias de cada um".
Segurança pública é função estadual e, portanto, não haveria como a União agir sem que se configurasse uma intervenção. Oficialmente, Brasília mantém distância regulamentar, mas, na prática, atua.
De um lado, em consonância com a presidência da Câmara dos Deputados na decisão anunciada de manter a PEC 300 fora da pauta de votações; de outro, em conformidade com os governadores na posição de não negociar anistia para grevistas que tenham ou venham a se envolver em crimes.
No caso específico da Bahia, há um evidente pisar em ovos na abordagem do assunto em virtude do desgaste político que o episódio rende ao governador Jaques Wagner, do PT.
Não só pelo fato de o partido ter apoiado a greve de dez anos atrás quando o governador (César Borges) era um adversário, mas também porque os petistas precisam se equilibrar entre o discurso "duro" contra a quebra de hierarquia e a hesitação em utilizar efetivamente a força do Estado contra os grevistas e arcar com os riscos de imagem resultantes de atos mais violentos.
Isso sem contar o evidente constrangimento em função da demora do governador em reconhecer a amplitude do movimento. Não se fala em "erro de avaliação" de Jaques Wagner. Fala-se, isso sim, em "informações incompletas" que teriam sido passadas a ele pelos comandos igualmente interessados nas reivindicações salariais.
Quanto ao principal, a solução que será dada à greve dos policiais baianos, no governo federal o que se diz é que o nome do jogo agora é paciência e negociação.
Por "questão de estratégia" não é revelado se há ou não intenção de haver desocupação forçada da Assembleia Legislativa, caso não se consiga resolver o impasse na base do diálogo.
Na realidade, a impressão que dá é que há pouco de estratégia e muito de torcida para que os grevistas sejam vencidos pelo cansaço sem que o governador tenha necessidade de trocar o discurso "duro" por ações mais efetivas ou que precise ceder além do inicialmente pretendido.
Alegar que a motivação é nacional e que a mobilização tem motivações políticas regionais, além de uma contradição em termos - a PEC 300 não faz parte de pauta das negociações em curso na Bahia nem no Rio - não constrói caminho para a solução necessária para um cenário de total insegurança pública.
Balança. A permanência de Fernando Bezerra à frente do Ministério da Integração Nacional não é uma questão resolvida.
Pode vir a sair sim, mas longe das circunstâncias de denúncias e mais próximo do prazo de desincompatibilização de candidatos às eleições municipais.

Mandem a conta para Lula- Carlos Alberto Sardenberg


O Globo - 09/02/2012

Há um interessante debate sobre a privatização dos aeroportos feita pelo governo Dilma, mas há também o entendimento de que a mudança é positiva.
E desde já, se a coisa funcionar mais ou menos, fica assim: o governo ganha dinheiro com os aeroportos, ao vender as concessões (R$ 26 bilhões numa tacada inicial!) e receber participação nos lucros e ainda consegue turbinar os investimentos nessa área crucial de infraestrutura.
Ou seja, se tivesse feito isso há mais tempo, o governo poderia ter utilizado em outros setores carentes, saúde, por exemplo, o dinheiro que gastou em aeroportos e o que teria recebido nas privatizações.
E o público estaria mais bem servido.
Por que não se fez antes? Porque o então presidente Lula não deixou.
A conversa sobre privatização dos aeroportos não é nova, sobretudo no mundo privado.
No governo FHC, tratouse disso no segundo mandato, quando o presidente já estava desgastado e privatizar era pior do que qualquer outra coisa.
Em suas duas campanhas vitoriosas, Lula voltou a demonizar a privatização, com tal força que os próprios tucanos fugiram dela como diabo da cruz.
Mas no segundo governo Lula, a partir de 2007, o tema voltou, quando a administração lidava com o caos aéreo que explodira no final de 2006.
Foi quando as autoridades finalmente admitiram que todo o sistema aéreo era, literalmente, uma permanente ameaça de desastre: recursos mal administrados; os aeroportos sem estrutura adequada; falta de pessoal especializado, como os controladores de tráfego aéreo; radares com zonas cegas; falhas nas comunicações via rádio.
Feitas as contas, estava na cara que os recursos necessários para atacar todos esses problemas estavam muito acima da capacidade do governo federal.
Conclusão óbvia: era preciso trazer dinheiro, empresas e gente nova para o setor.
Vender concessões era a óbvia saída.
Pelo menos três ministros do governo Lula disseram a este colunista que a privatização era inevitável.
A necessidade venceria as resistências ideológicas.
Modelos foram analisados pelos técnicos da administração federal, alguns chegaram a ser anunciados.
Por exemplo: em julho de 2007, o então ministro da Defesa, Nelson Jobim, deu prazo de 90 dias para que a Agência Nacional de Aviação Civil, Anac, e a Infraero apresentassem o projeto para o terceiro aeroporto de São Paulo.
Ficou pelo caminho.
A coisa simplesmente morreu, não se falou mais nisso.
Já havia então um projeto preparado por um grupo de empresas privadas para a construção desse aeroporto na região de Araucária.
Aliás, o projeto continua de pé, e voltou a ser lembrado agora que o governo fez três concessões privadas de aeroportos já existentes.
Por que não autorizar a construção de um outro, inteiramente e desde o início privado? Resumindo: a presidente Dilma e seu pessoal celebraram os leilões de Guarulhos, Viracopos e Brasília.
Disseram, corretamente, que se inicia uma nova era, com mais investimentos e mais eficiência.
Por que não fizeram antes se todos estavam no governo Lula? Porque Lula disse que tudo se resolveria com o PAC, no qual destinou uns R$ 5 bilhões à Infraero, para os 12 aeroportos da Copa.
Reparem como não fazia sentido além da propaganda.
Só para a privatização de Guarulhos, o governo exigiu da nova concessionária compromisso de investimentos de...
R$ 5 bilhões.
Para Brasília, mais de R$ 8 bilhões.
Resumo da ópera: Lula é responsável por um atraso de cinco anos nessa privatização.
GREVE DE POLICIAIS Tem ainda uma outra conta para o ex-presidente, a falta de legislação regulando greves de funcionários e de policiais, como essa que assombra a Bahia.
Entre o final de 2006 e o início de 2007, houve uma sequência de greves de servidores públicos da educação, previdência, meio ambiente e também da polícia.
O impacto foi tão negativo que até o presidente Lula reclamou.
Lembramse? Disse que funcionário público em greve parecia, na verdade, estar em férias, pois não tinha desconto dos dias parados.
Encarregou o então ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, de preparar um projeto regulamentando o tema.
O ministro chegou a anunciar os princípios da nova legislação.
Por exemplo: servidor armado não pode fazer greve; greves têm de ser aprovadas em assembleias com pelo menos dois terços da categoria (a greve dos PMs da Bahia seria ilegal nos dois quesitos); e servidor em greve não recebe salário.
Onde está o projeto? Sumiu.
Os sindicatos de funcionários não gostaram, Lula esqueceu.
É sempre difícil saber como as coisas teriam se passado se outras providências tivessem sido tomadas.
Mas o olhar em retrospectiva mostra, sim, o que deixou de ser feito.

Conta coletiva - MIRIAM LEITÃO



Quinta-feira, Fevereiro 09, 2012


O GLOBO - 09/02/12



O PIB da Grécia é 2,3% da Zona do Euro e representa uma economia equivalente à da Colômbia. Ela não tem tamanho para fazer o mundo prender a respiração por um ano. O problema não é a Grécia em si, mas as quedas em dominó que ocorrerão se ela apertar o botão de ejetar. Depois de dias de discussão, ontem à noite o acordo entre os líderes para corte de gastos estava sendo fechado.

Na crise da Grécia, o que se tem é medo do desconhecido. Nunca antes um país saiu de uma união monetária. O acordo negociado entre os líderes políticos gregos para um corte de 3 bilhões já está muito atrasado. Pelo cronograma da dolorosa, tensa e detalhada negociação entre os credores e o governo grego esses cortes deveriam estar aprovados desde a noite de terça-feira. Ontem, os manifestantes continuavam nas ruas, e os políticos ainda negociavam a aprovação dos três partidos da coalizão para o ajuste fiscal exigido pela Troica (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia).

Um dos impasses surgidos de tarde foi a reação de políticos ao fato de que o documento de 50 páginas de medidas de austeridade estava escrito em inglês. Um detalhe apenas, mas revelador do grau de intervenção que vive hoje a sociedade grega.

O acordo com a Troica permitirá a troca de títulos da dívida grega junto aos bancos por novos papéis com desconto. O calote é enorme. Os bancos perderão a maior parte do que emprestaram ao governo grego. Mais de 100 bilhões vão virar fumaça. A corrida é para que o acordo entre os políticos gregos pelo plano de austeridade seja aprovado por todos os membros do gabinete antes da reunião de ministros em Bruxelas.

Crises fiscais e cambiais já aconteceram muitas vezes, mas uma crise fiscal generalizada dentro de uma união monetária é problema de outra natureza. E escala. Quem sair da união monetária e retornar para a sua moeda nacional estará devendo na moeda forte e com seus ativos em outra, mais fraca. Só isso já precipitará uma crise cambial de grandes proporções. A corrida das últimas horas é para evitar o calote descontrolado, o que levaria à saída abrupta da Grécia da Zona do Euro.

A Grécia, hoje submetida a ordens externas para cortar salário mínimo, demitir funcionário público, aumentar impostos, reduzir gastos sociais, suspender o décimo terceiro e o décimo quarto salários, é o mesmo país que teve um salto de nível de vida da população após a entrada na União Europeia.

Os bancos emprestaram sem controle para o governo grego. O governo conservador de então fez pior do que se endividar além da conta: maquiou os números do déficit e da dívida.

A verdadeira conta acabou sendo feita pelo governo de George Papandreau, socialista. Ele não conseguiu pilotar a grave crise e caiu quando propôs que o ajuste exigido para que a Europa emprestasse mais recursos para a Grécia fosse submetido a um plebiscito. O novo governo tecnocrata de Lucas Papademus tenta fazer o ajuste que seu antecessor não fez.

Um calote desordenado cobraria uma conta alta da Grécia e seria pesado para todos: para os bancos credores, que hoje têm a expectativa de receber pelo menos uma parte do que emprestaram e dentro de um processo negociado; o Banco Central Europeu, que também tem títulos do governo grego em carteira e não sabe ainda o que fazer com esse mico; a Europa em si, que passaria por uma discussão sobre o próximo da lista. O contágio é um dos maiores medos das autoridades europeias, e todos sabem que o candidato a ser o segundo da fila chama-se Portugal. Por isso, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, num dos momentos de dúvida do longo dia de ontem, disse que é mais caro deixar a Grécia sair do que pagar o preço para ela permanecer na União Europeia.

O problema é saber se o corte no valor do principal da dívida - o chamado haircut - que será de 50%, no mínimo, é o suficiente para permitir que a Grécia reorganize as suas finanças. Outra dúvida é se o programa de austeridade não terá um efeito bumerangue: será tão forte que vai deprimir a economia e impedir que o país se reorganize.

O caso da Grécia - e das confusões dos últimos anos da Zona do Euro - mostram mais uma vez que moeda é melhor cada um ter a sua. E, de preferência, tratar de protegê-la com boas políticas fiscais, monetárias e cambiais. A união da Europa é uma experiência política fascinante, mas ter uma moeda comum com critérios fiscais diferenciados não dá certo, como se vê agora, da forma dolorosa.

A Europa achou que estava atendendo a esse pré-requisito quando assinou o acordo de Maastricht, estabelecendo 65% de teto para a dívida pública e 3% de limite para o déficit. O acordo se desmoralizou, e hoje o que se negocia é um novo tratado nas mesmas bases, mas com punições para os faltosos. Essa punição implica em perda de soberania. Mas não se faz uma união monetária mantendo a integridade da soberania. O que os eleitores terão de dizer, nas futuras eleições, é o tamanho da perda que eles estão dispostos a tolerar.

Discussão semântica - MERVAL PEREIRA


Quinta-feira, Fevereiro 09, 2012



O GLOBO - 09/02/12




Mudou o paradigma, e é bom que isso tenha acontecido, superamos essa discussão inútil, estéril, ideológica sobre as privatizações que dominou as últimas eleições presidenciais. Mas será que conseguiremos sair mesmo desse impasse vazio? Pela reação dos petistas, parece que não. Estão todos na defensiva, tentando explicar que "concessão" não é o mesmo que "privatização", uma discussão semântica ridícula.

Concessão tem a ver com o tipo de serviço que o Estado vende. Serviços públicos como rodovias, Distribuição de energia elétrica - um monopólio natural - só podem ser vendidos via concessão.

No governo Fernando Henrique ou neste, as privatizações desses setores tiveram de ser feitas por concessão por prazo determinado, não poderiam ter sido feitas de outra maneira.

É o artigo 175 da Constituição que define: "serviços públicos são concedidos ou explorados diretamente pela União".

Por isso, na telefonia, o que era serviço público foi concedido, o que não era foi vendido. O que define se é privatização ou não é o controle, e os consórcios que venceram o leilão dos aeroportos terão o controle das operações.

A Infraero será minoritária e, mesmo assim, entrou nessas privatizações como um arranjo político, para os petistas poderem dizer que o governo ainda tem uma ingerência no setor.

Considerados de "segurança nacional", os aeroportos demoraram a ser privatizados, causando um grande transtorno à população, por questões ideológicas anacrônicas, e hoje alguns petistas tentam justificar a decisão dizendo que o espaço aéreo ainda continuará sendo controlado pela Aeronáutica.

O que há de ruim nessa privatização é que não foi feito um planejamento de reestruturação do sistema aeroviário brasileiro.

Por exemplo, é preciso aperfeiçoar as ligações entre São Paulo, Rio e o Nordeste, e o aeroporto internacional do Rio ainda não foi licitado, nem nenhum do Nordeste.

Minas é outro estado fundamental na malha aérea brasileira que ficou para depois. A ampliação dessa rede aérea exigirá também controladores de voos bem treinados, e isso não temos nem na quantidade suficiente para atender às nossas demandas atuais.

O que o governo está fazendo, no momento, é vender os ativos sem ter uma lógica para o país, com o objetivo de garantir as obras para que tenhamos um mínimo necessário para sediar a Copa do Mundo.

Com o risco de manter uma gestão ruim se a Infraero tiver influência política nos consórcios.

Quando as telecomunicações foram privatizadas, no governo Fernando Henrique, houve uma reorganização do sistema.

Outra alteração importante, a se registrar nessa mudança de paradigma, foi a de usar o preço de outorga mais alto para definir o vencedor.

Quando fizeram as primeiras concessões de rodovias, com Dilma ainda à frente da Casa Civil, os petistas festejaram a "mudança de critérios".

Exigiram tarifas mais baixas, para supostamente beneficiar o usuário, e deu no que deu: as obras nessas rodovias não saem do lugar, pois o pedágio não cobre os custos e mais os investimentos, mas a agência reguladora não retoma as concessões apesar de ninguém cumprir os editais.

O PT utilizou os mesmos métodos do PSDB, os fundos de pensão entraram firme na parceria, pois precisam de bons investimentos. E o governo usou o BNDES para garantir o financiamento dos vencedores.

A única diferença foi a manutenção da Infraero no controle de 49% dos aeroportos, espécie de concessão aos petistas contrários às privatizações, mas nada indica que esse seja um bom caminho, pois a Infraero não controlará os aeroportos e ainda terá que arcar com uma parte substancial dos investimentos, para o que não tem recursos.

O governo não tem dinheiro para investir em aeroportos, em infraestrutura, assim como não tinha dinheiro para desenvolver a Vale.

A presidente Dilma, quando ainda era candidata, disse célebre frase em encontro com intelectuais no Rio: "Fazer concessões no pré-sal é privatizar, é dar a empresas privadas um bilhete premiado."

Muito aplaudida, ela fingiu que não sabia - e é provável que a plateia que se maravilhou com sua afirmação não soubesse - que o governo Lula já licitara, utilizando o sistema de concessão, vários blocos do pré-sal.

Com relação à Vale, é importante relembrar a história de como o governo petista não quis reverter a privatização por razões técnicas.

Em 2007, o deputado Ivan Valente (PSOL) fez projeto nesse sentido, analisado na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio da Câmara.

O relator foi José Guimarães (PT), aquele mesmo cujo assessor foi apanhado com dólares na cueca num aeroporto na época do mensalão. Pois seu voto foi pela rejeição ao projeto, alegando em primeiro lugar que "não há como negar que a mudança das características societárias da Companhia Vale do Rio Doce foi passo fundamental para estabelecer uma estrutura de governança afinada com as exigências do mercado internacional, que possibilitou extraordinária expansão dos negócios e o acesso a meios gerenciais e mecanismos de financiamento que em muito contribuíram para este desempenho e o alcance dessa condição concorrencial privilegiada de hoje".

Segundo o petista, "a privatização levou a Vale a efetuar investimentos numa escala nunca antes atingida pela empresa, (&) o que, naturalmente, se refletiu em elevação da competitividade da empresa no cenário internacional".

Guimarães assinalou que, com a privatização, a Vale fez seu lucro anual subir de cerca de US$ 500 milhões em 1996 para aproximadamente US$ 12 bilhões em 2006. Em 2010, o lucro da empresa foi de US$ 30 bilhões .

Também a arrecadação tributária da empresa cresceu substancialmente: em 2005, a empresa pagou R$ 2 bilhões de impostos no Brasil, cerca de US$ 800 milhões ao câmbio da época, valor superior em dólares ao próprio lucro da empresa antes da privatização. Em 2011, só de uma disputa judicial que perdeu, a Vale pagou cerca de R$ 6 bilhões em impostos atrasados.

A era do oportunismo - JOSÉ SERRA


Quinta-feira, Fevereiro 09, 2012



O Estado de S.Paulo - 09/02/12


As últimas semanas trazem acontecimentos reveladores de um aspecto peculiar da "luta política" no Brasil, como a entendem o PT e o governo que ele lidera. Poderia ser resumido em dois conceitos: o relativismo como ideologia e a tática de recolher dividendos políticos sem se envolver diretamente, tirando, como se diz, a castanha do fogo com a mão do gato.

A moral da fábula do macaco esperto, que, faminto, mandava o bichano recolher as castanhas das brasas esteve visível nos sucessivos movimentos na USP. A chamada extrema esquerda desencadeou ações violentas e o petismo saiu a criticar a "falta de diálogo" e a "falta de democracia" que supostamente estariam na raiz dos distúrbios.

De olho no voto moderado, o PT não quer para si os ônus do radicalismo ultraminoritário, mas pretende sempre recolher os bônus de se apresentar como a solução ideal para evitar essa modalidade de movimento político. Como se, em algum lugar do mundo ou momento da História, o extremismo, de direita ou de esquerda, tivesse sido contido apenas com diálogo e negociação. É um discurso conveniente, pois se apresenta como alternativa "racional" de poder. Uma vez lá, os tais movimentos serão cooptados na base da fisiologia e, se necessário, da repressão. Os críticos exigirão "coerência" e o partido fará ouvidos moucos.

Mas a vida é mais complicada do que esses esquemas espertos. À medida que vai acumulando força, o PT precisa lidar com desafios concretos e, aí, surge a utilidade do relativismo. Querem um exemplo? Quando um governante adversário cuida de garantir o cumprimento da lei e manter a ordem pública, o aparato de comunicação sustentado com verbas públicas sai a campo para denunciá-lo, atacá-lo, desgastá-lo a qualquer custo. Quando, porém, esse governante é do PT ou aliado próximo, a posição se inverte.

Se o adversário cumpre a lei, é acusado de "criminalizar os movimentos sociais"; quando um deles cumpre a mesma lei, então são eles a criminalizar. Assim, os PMs em greve na Bahia governada pelo PT são chamados de "bandidos". Cadê o exercício do entendimento, a tolerância? Em São Paulo, em 2008, o PT ajudou na organização de uma marcha de policiais civis grevistas rumo ao Palácio dos Bandeirantes - marcha que, felizmente, não atingiu os objetivos sangrentos almejados.

Em Estados governados pelo petismo e aliados, são rotineiras as reintegrações de posse, mas quando precisam ser feitas em São Paulo, por exemplo, a mando da Justiça e sempre sob sua supervisão, o PT - e eis de novo a história das castanhas - cavalga o extremismo alheio para denunciar inexistentes violações sistemáticas dos direitos humanos. Nunca ofereceu uma possível solução ao problema social específico, mas se apresenta incontinenti quando sente a possibilidade de sangue humano ser vertido e transformado em ativo político.

Vivemos uma era em que o oportunismo político do PT acabou ganhando o status de virtude. Perde-se qualquer referência universal ou moral de certo e errado e essa separação é substituída por outra. Se é o partido que faz, tudo será sempre correto - os fins justificam os meios, seja lá quais forem esses fins. Se é o adversário, tudo estará sempre errado, pois suas intenções sempre seriam viciosas. A política torna-se definitivamente amoral.

É uma lógica que acaba derivando para o cômico em algumas situações. No atual governo, os ministros foram divididos em duas classes. Alguns são blindados, podem dar de ombros quando são alvo de acusações; outros são lançados ao mar sem muita cerimônia. Quando é do PT, especialmente se for do grupo próximo, a proteção é altíssima. Mas se tiver a sorte menor de ser apenas um "aliado" - conceito que embute a possibilidade de se tornar futuramente um adversário -, logo aparecem os vazamentos dando conta de que "o Palácio" mandou o infeliz se explicar no Congresso, a senha para informar aos leões que há carne fresca na arena.

Essa amoralidade essencial se estende às políticas públicas. Em 2007, quando governador de São Paulo, aflito com o congestionamento aeroportuário, propus ao presidente Lula e sua equipe a concessão à iniciativa privada de Viracopos, cujo potencial de expansão é imenso. Nada aconteceu. Na campanha eleitoral de 2010, a proposta de concessões foi satanizada. Pois o novo governo petista a adotou em seguida! Perdemos cinco anos! E a adotou privatizando também o capital estatal: o governo torna-se sócio minoritário (49% das ações) e oferece crédito subsidiado (pelos contribuintes, é lógico) do BNDES. Tudo o que era pra lá de execrado passou a ser "pragmatismo", "privatização de esquerda".

O ridículo comparece também à internet, onde a tropa de choque remunerada, direta ou indiretamente, com dinheiro público e treinada para atacar a reputação alheia desperta ou se recolhe em ordem unida, não conforme o tema, mas segundo os atores. São os indignados profissionais e seletivos. Como aquelas antigas claques de auditório, seguindo disciplinadamente as placas que alternam "aplaudir", "silenciar" e "vaiar".

Vivemos tempos complicados, um tanto obscuros, algo assim como "se Deus está morto, tudo é permitido" - e chamam de "pragmatismo" o oportunismo deslavado. A oposição, a despeito de notáveis destaques individuais, confunde-se no jogo, dado o seu modesto tamanho, mas também porque alguns são sensíveis aos eventuais salamaleques e piscadelas dos donos do poder. Um adesismo travestido de "sabedoria". A política real vai se reduzindo a expedientes necessários à manutenção do poder e à mitigação do apetite dos aliados. A conservação do statu quo supõe uma oposição não mais do que administrativa e burocrática. Parece que a nova clivagem da vida pública é esta: estar ou não na base aliada, de sorte que a política se definiria entre os que são governo e os que um dia serão.

Não sou o único que pensa assim, mas sou um deles: política também se faz com princípios, programa e coerência. E disso não se pode abrir mão, no poder ou fora dele.

Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012

Mais privatizações no ar - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 08/02/12


Próximos aeroportos seriam Galeão, Confins e Salvador; mas ainda falta plano para o "novo modelo"


COMO SE previa pelas conversas de ontem nos corredores da privatização dos aeroportos, o governo, ou pelo menos parte dele, se animou tanto com o resultado do leilão que pretende vender ("conceder") mais aeroportos até 2014.

O plano seria o de adiantar a concessão do Galeão (Rio) e de Confins (perto de Belo Horizonte), já na lista de privatizações, e, novidade, colocar na mira o aeroporto de Salvador, porta de entrada do Nordeste.

O motivo não é, nem deveria ser, apenas pecuniário, embora o rendimento dos leilões tenha sido espantoso. Mesmo as propostas derrotadas vieram muito acima do sonhado pelo governo.

Em tese, ou na teoria, o objetivo da privatização é elevar a eficiência do transporte aéreo. Para tanto, em suma, é preciso haver mais voos por dia, para mais lugares, a preço melhor, com menos atrasos. Para alcançar tais objetivos, é preciso mais lugar nos aeroportos (pistas, terminais), mais aeroportos, mais rotas.

É fácil perceber que não é possível incrementar a eficiência do sistema melhorando apenas um, dois ou três aeroportos.

Parece quase piada, mas note-se que um avião precisa pousar e voltar a decolar dos aeroportos de destino: não pode despejar seus passageiros de paraquedas. Se o aeroporto de destino é ruim e/ou apertado, a coisa toda não anda.

No caso brasileiro, é preciso melhorar os corredores entre São Paulo e Rio e entre São Paulo e Nordeste -apenas para começo de conversa. Para continuar a conversa, é preciso incluir Minas Gerais e Rio Grande do Sul, cuidar do turismo (e carga) em Manaus e em Foz do Iguaçu, por exemplo. É preciso melhorar alguns aeroportos regionais, em especial em São Paulo.

É preciso criar uma rede eficiente. Decerto, o problema não se limita à infraestrutura física. A capacidade de controle de voo precisa aumentar e melhorar, por exemplo.

Existe um programa completo de melhorias? Ainda não. Movido pelo medo de dar vexame na Copa, por falta de aeroportos, o governo mudou faz muito pouco tempo (no ano passado) toda a sua política de expansão do setor, que não previa privatizações. Nessa nova diretriz, o trabalho está apenas começando.

Há gente no governo, porém, mais ressabiada. Tanto no que diz respeito a privatizações em geral quanto a algumas concessões em particular, que não têm funcionado muito bem, caso de algumas ex-estradas federais.

Esses integrantes do governo gostariam de ver como vai funcionar a concessão em Guarulhos, Viracopos e Brasília antes de deslanchar mais concessões e dar com burros n"água.

Essa corrente não se opõe, em tese, a mais concessões. Mas prefere que o processo ande mais devagar. Observa, ainda, que o governo terá mais dinheiro em caixa para reformar aeroportos estatais.

As empresas concessionárias devem pagar, a partir do ano que vem, cerca de R$ 1,5 bilhão, o equivalente a uns três anos (recentes) de investimentos da Infraero, a estatal aeroportuária que será sócia minoritária das novas concessionárias de aeroportos.

Mas há planos para o uso desse dinheiro? O pessoal desconversa. Fica difícil saber, se não há prioridades definidas, agora que o "modelo" mudou; e/ou se o governo não vai guardar no caixa esse dinheiro.

Xadrez paulista - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 08/02/12


A incapacidade do PSDB de definir seus rumos, empacado eternamente na disputa entre suas principais lideranças, tem sido muito discutida nos últimos dias, tanto por seus próprios membros, o mais destacado deles, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quanto pelos analistas petistas ou ligados ao partido por interesses variados.

A disputa pela Prefeitura de São Paulo é o reflexo da disputa nacional, que continua sendo entre o PT e o PSDB, em que pese o aparente favoritismo do candidato petista, Fernando Haddad, tendo à frente o ex-presidente Lula, e a explícita fragilidade dos tucanos, que, como sempre, ainda esperam que o ex-governador José Serra se decida a entrar no ringue.

Acontece que, para se decidir a disputar a prefeitura paulistana, Serra tem antes que se decidir a abrir mão do sonho da Presidência da República, convencendo-se de que, desta vez, o candidato óbvio, como disse Fernando Henrique, é o senador Aécio Neves.

Serra até o momento está convencido de que a política brasileira é muito volúvel e que o jogo não está ainda jogado.

O que está em causa em São Paulo é um estilo de fazer política. O PSDB, com este mandato de Alckmin, estará no comando do estado por no mínimo 20 anos, e, mesmo sem nomes de destaque nacional para apresentar para a prefeitura - que desde 2004 está em poder dos tucanos ou de aliados como Kassab -, valoriza a fama de boa gestão pública e preservação da ordem.

O apoio maciço que o governo do estado tem recebido pela sua ação na Cracolândia demonstra que a população leva em conta esses valores.

O PT tem tentado estressar as divergências criticando ações do governo paulista em Pinheirinho, onde uma retomada de posse de um terreno invadido, determinada pela Justiça, foi taxada de "barbaridade" pela própria presidente Dilma.

A luta pela hegemonia na política de São Paulo tem a ver, sobretudo, com a disputa de 2014, quando a base paulista do PSDB estará representada pela tentativa de reeleição do governador Alckmin contra os novos quadros que o PT apresenta no reduto principal do adversário.

Uma derrota de Haddad na eleição da prefeitura paulistana será uma derrota de Lula e seu esquema político, e uma vitória, o primeiro passo para tirar os tucanos do poder estadual.

Aloizio Mercadante, nomeado recentemente para o Ministério da Educação, estaria sendo preparado para disputar o governo paulista em 2014, que ele já perdeu para Serra em 2006.

Na prefeitura, Haddad daria o apoio da máquina petista à campanha de governador de Mercadante, e a influência de Lula em São Paulo ganharia força política, confirmando as pesquisas que indicam que hoje Lula tem mais prestígio entre os paulistas do que jamais teve.

O PSDB está convencido, e Serra também, de que a alta rejeição que aparece nas pesquisas se deve ao receio que o cidadão comum tem de que o tucano novamente deixe a prefeitura para tentar a Presidência da República, como fez em 2006 para disputar e ganhar o governo do estado.

Caso se decida afinal pela disputa, ele teria que apoiar o candidato tucano Aécio Neves à Presidência, para colocar um final nessa angustiante disputa.

Serra encerraria sua carreira política na Prefeitura de São Paulo, o terceiro maior orçamento do país, e teria prestígio político para influenciar um eventual governo de Aécio. É uma opção que Serra prefere a ter que encerrar a vida política como senador.

Ao mesmo tempo, teria o apoio do prefeito Gilberto Kassab, restabelecendo um acordo político por ele firmado na sua sucessão na prefeitura.

Kassab, no momento, negocia uma aproximação com o PT na tentativa de não virar um saco de pancadas eleitoral durante a campanha.

Seu PSD encontra espaço em qualquer aliança, mas ele considera que nenhum dos candidatos tucanos que disputarão as prévias tem densidade política suficiente para ser cabeça de chapa.

Uma de suas alternativas é oferecer o vice-governador Afif Domingos como candidato a prefeito, com o apoio do PSDB, que daria o vice.

Mesmo que não se resolva desta vez a disputa tucana, com Serra insistindo em pagar para ver, na verdade o ex-governador mineiro só não será o candidato do PSDB à Presidência da República se não quiser, ou se for abatido por algum torpedo vindo do submundo da política.

Nos últimos dias, cresceu a boataria, ouvida até aqui em Paris, em torno de uma possível tendência de Aécio de não concorrer à Presidência em 2014, retornando a seu estado na qualidade novamente de candidato a governador, para reorganizar suas forças e disputar em 2018.

O lançamento de sua irmã Andrea Neves como eventual candidata teria o objetivo de segurar o lugar até que se decida a anunciar seu retorno a Minas.

A especulação é de que o recuo ocorrerá caso a presidente Dilma continue mantendo sua popularidade, e a economia se mostre robusta apesar da crise econômica internacional, o que a colocaria como favorita na corrida presidencial.

Em 2018, o PT não teria nem Lula nem Dilma como candidatos, e a disputa poderia ser mais favorável ao PSDB. Mas aí entra o xadrez paulista.

O governador Geraldo Alckmin, se reeleito em 2014, seria um candidato tão forte quanto o governador de Minas em 2018, e o mesmo impasse estaria formado.

Contra essa especulação, há um fato concreto: nunca o PSDB esteve tão unido em torno de um candidato, e o senador Aécio Neves tem um mandato de oito anos, que lhe permitiria até mesmo se lançar candidato à Presidência apenas para ficar conhecido nacionalmente, retornando ao Senado em caso de derrota.

É a indústria... - ANTONIO DELFIM NETTO


FOLHA DE SP - 08/02/12


Em relação à política industrial ("Brasil Maior"), acreditamos que é razoável exigir cuidado sobre como executá-la num ambiente globalizado em que os produtos devem ser "mundiais" e cada país tenta criar uma plataforma de exportação. O que não é razoável é condenar, "a priori", qualquer política industrial apoiada na "teoria do equilíbrio geral", da qual não se pode extrair conclusões normativas.

Há um estado de guerra econômica entre três parceiros importantes, os EUA, a eurolândia e a China. Cada um deles usa como arma políticas industriais explícitas ou veladas, apoiadas na manipulação de suas taxas de câmbio.

Os EUA e a eurolândia utilizam suas políticas monetárias, e a China surfa uma espécie de "dollar standard", arbitrando a fixação de sua taxa à americana. Isso acabará num massacre do setor industrial dos países emergentes pela consequente tendência à valorização das suas moedas.

Quem ainda tem dúvida sobre o estado de guerra não deve deixar de ler o capítulo referente à política industrial dos EUA, contido no "State of the Union Address", que, todos os anos, o presidente americano apresenta ao Congresso no fim de janeiro.

"Pense -nos diz ele nas preliminares- na América que está ao nosso alcance. Um país que lidera o mundo na educação do seu povo. Uma América que atrai uma nova geração de indústrias de alta tecnologia e empregos bem remunerados. Num futuro no qual nós estaremos no controle de nossa própria energia, de nossa segurança, de nossa prosperidade e (sic) relativamente independentes das instabilidades do mundo. Uma economia construída para ficar, onde o trabalho duro vale o sacrifício e a responsabilidade é recompensada."

E continua: "Essa nova América começa com o setor industrial... Apostamos nos trabalhadores americanos. Apostamos na sua engenhosidade. Nesta noite, nossa indústria automobilística está de volta. Podemos trazer de volta também os empregos que foram exportados (para a China)".

A seguir explica como vai fazê-lo: 1º) modificar o sistema tributário que estimula a fuga industrial; 2º) aumentar os impostos das multinacionais que produzem no exterior; 3º) reduzir a tributação do setor de alta tecnologia; 4º) investigar as práticas comerciais de países como a China e 5º) reafirmar o projeto, que vai muito bem, de dobrar as exportações nos próximos cinco anos.

A mensagem é simples: "É tempo de pararmos de beneficiar quem produz no exterior e exporta emprego e de estimular os que criam emprego aqui na América". Não importa a avaliação dos economistas sobre esse programa. O que interessa é o que Obama vai fazer com ele...

Um pacto pelo atraso - ROLF KUNTZ


O Estado de S.Paulo - 08/02/12


Saiu no Clarín: a presidente Cristina Kirchner pretende convencer o governo brasileiro a adotar sua política comercial, para deixar mais dólares no Mercosul e frear a busca de lucros das multinacionais na região. A intenção, segundo o jornal, é juntar o Brasil à "estratégia de fomentar o comércio intra-Mercosul em substituição ao externo". É mais uma ideia contrária aos objetivos iniciais do bloco, há muito tempo esquecidos pelos governos da região. O Mercado Comum do Sul foi concebido como projeto de integração regional e como plataforma de inserção global das economias brasileira, argentina, paraguaia e uruguaia. Não foi planejado como fortaleza para defender a produção regional da concorrência externa, mas como arranjo destinado a facilitar a criação de escala (pelo aumento do mercado), o aproveitamento do potencial de cada sócio (pela criação de cadeias produtivas) e a inserção competitiva nos mercados (pelos ganhos de produtividade e qualidade).

O Mercosul, portanto, foi uma concepção voltada para o futuro. A política dos Kirchners é voltada para o passado, assim como boa parte da impropriamente chamada política industrial brasileira. Esta política tem sido amplamente protecionista e pouco dedicada à superação das deficiências da economia nacional. Mesmo os itens aparentemente positivos, como a desoneração parcial da folha de pagamentos e o incentivo à inovação, continuam mal planejados e com alcance muito curto. No caso da desoneração, a política, além de restrita a poucos setores, ainda resulta no aumento de encargos para alguns segmentos. Quanto à inovação, falta muito para uma política bastante articulada e com potencial para envolver mais que as empresas já empenhadas em pesquisa e desenvolvimento.

Estudo recente com 40 grandes empresas - 30 nacionais e 10 estrangeiras - ressalta a pouca importância do mercado exterior e da internacionalização das companhias como determinantes da inovação. O foco está claramente no mercado interno.

"Mais do que a falta de cultura, a baixa inserção externa da empresa brasileira responde pelo seu tradicional atraso", escreveu o professor Júlio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial (Iedi) e ex-secretário de Política Econômica, em comentário sobre aquele estudo.

A "concorrência em mercados do exterior, muito mais do que a defesa do mercado interno, tem o poder de renovar e perpetuar a necessidade das empresas de atualizar produtos, elevar a produtividade e reduzir custos", acrescentou.

A relativa abertura da economia brasileira, hoje bem mais ampla do que até o começo dos anos 90, com certeza traz para dentro do País um pouco desse estímulo. A importação expõe o produtor nacional à pressão de concorrentes mais propensos a ganhos de eficiência e de qualidade por meio da inovação. Mas a pressão é certamente menor do que se esse mesmo produtor estivesse mais empenhado em conquistar fatias do mercado global e menos protegido por barreiras tarifárias e não tarifárias. A tendência protecionista do atual governo reforça a barreira contra aquela pressão competitiva, sem, no entanto, neutralizá-la.

O empresário instalado no Brasil enfrenta, é claro, muitos outros obstáculos, apenas parcialmente compensados pelo protecionismo - deficiências de infraestrutura, custos fiscais, insegurança, energia absurdamente cara, escassez de mão de obra adequada, etc. Se o governo cuidasse desses problemas, seria menos pressionado ou tentado a criar barreiras. Mas, nesse caso, as concepções seriam outras e a política seria mais voltada para a inserção externa.

Criado como instrumento de projeção global de quatro países, o Mercosul foi desvirtuado pela ação combinada dos Kirchners e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A mudança de rumo, oficializada quando o presidente Lula decidiu, como ele mesmo disse, "tirar a Alca da pauta", condenou o bloco a reduzir suas ambições e a se concentrar no jogo da divisão inferior, com a prioridade à chamada relação Sul-Sul. O fracasso na negociação do acordo com a União Europeia foi um desdobramento normalíssimo dessa decisão.

O acordo com os europeus, por alguma razão muito obscura, foi considerado menos odioso que um pacto com participação dos Estados Unidos. Mas o esforço deu em nada e isso se deveu, em boa parte, a obstáculos criados pelo lado argentino. O Mercosul jamais funcionou de fato como zona de livre comércio, embora seja, nominalmente, uma união aduaneira. Se o governo argentino conseguir mais uma vez enrolar o governo brasileiro e cooptar a presidente Dilma Rousseff, o compromisso com o atraso será reforçado. Só restará, nesse caso, caprichar ainda mais no protecionismo rastaquera, tirar o pó da substituição de importações e preparar o consumidor para produtos caros e vagabundos.

Nova decolagem - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 08/02/12


Brasília é um aeroporto de 14 milhões de passageiros e é de conexão, por estar no meio do caminho entre as várias regiões do país. Agora, o aeroporto terá uma nova fonte de renda: a tarifa de conexão. Guarulhos, que tem hoje 30 milhões de passageiros, quando concluir o terminal 3 vai ter capacidade para 50 milhões. O presidente da Infraero, Gustavo do Vale, acha que é o começo de uma nova era.

A empresa está diante de uma série de desafios:

- Um estudo que fizemos mostra que em 30 anos nós teremos 30 milhões de passageiros não atendidos se não tivermos novos aeroportos. Isso significa faltar um aeroporto do tamanho de Guarulhos, no Brasil. Portanto, São Paulo terá que ter outro aeroporto, em alguma outra das grandes cidades do interior.

Neste momento pós-privatização dos três primeiros aeroportos, Gustavo do Vale diz que tudo está em análise. Funcionários da Infraero estão se preparando, por exemplo, para o desafio de serem integrantes de conselhos de administração:

- Estamos treinando alguns dos nossos executivos porque a Infraero até hoje era uma empresa monopolista sem associação com nenhum outro grupo. Agora teremos que nos sentar em conselhos de administração com outras empresas.

Quando era tudo da mesma empresa, a tarifa aeroportuária era cobrada apenas na origem, mas agora, com a diferenciação, haverá uma tarifa de conexão.

- Disso, quem se beneficia é, por exemplo, Brasília, que é o maior hub que liga Norte-Sul, Sul-Norte-Centro-Oeste. Terá uma nova fonte de receita, além de ter um potencial comercial enorme. Temos grandes áreas próximas ao aeroporto - afirma Gustavo do Vale.

Essa enorme área poderá ser explorada comercialmente porque passará a ser do consórcio que levou o Aeroporto de Brasília pagando 673% de ágio. Gustavo do Vale não quis entrar no mérito de discutir a qualidade do consórcio nem as dúvidas que se tem sobre a capacidade de o grupo tocar o projeto. Esta semana entra em análise a qualidade das garantias oferecidas pelos consórcios, que é a terceira fase do leilão, o que será feito pela Secretaria de Aviação Civil. Enquanto isso, a Infraero continua tocando as obras, mesmo em aeroportos vendidos:

- Os investimentos não podem parar, alguns são nossa responsabilidade pelos termos do edital. A terraplanagem do pátio do terminal 3 de Guarulhos tem que ser concluído até julho, concluindo um investimento de R$ 450 milhões. O comprador tem que fazer o resto. Em Brasília, há uma reforma que estamos terminando, mas os concessionários têm que concluir a ampliação do terminal. Esses dois são mais urgentes por causa da Copa.

A contradição de todo o processo é que a Infraero também pagará parte da conta que foi contraída pelos consórcios que elevaram o preço, apesar de terem sido vendidos ativos da empresa.

- Quem vai pagar será a Sociedade de Propósito Específico, que será formada pelo consórcio que comprou e a Infraero, e o custo dessa outorga será pago por esta SPE com a remuneração da operação do aeroporto - disse Gustavo do Vale.

Isso é uma evidente contradição. Mas ele argumenta que tudo irá para o fundo destinado a ter recursos para investir em outros aeroportos pelo Brasil. O risco, no entanto, é entrar no caixa único e virar superávit primário, como ocorreu com o Fust (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações), que deveria ser usado para incentivar as telecomunicações no Brasil, mesmo nas áreas em que não há interesse comercial, e para aumentar a informatização das escolas.

Dos grandes aeroportos, faltam ainda o Galeão, no Rio; Salgado Filho, em Porto Alegre; Confins, em Belo Horizonte; Guararapes, no Recife, entre outros, mas nada ainda foi divulgado sobre qual deles irá a leilão. Tudo será decidido dentro do Plano de Outorgas, que será divulgado pela Secretaria de Aviação Civil, em março. Gustavo do Vale disse que não se conversou na Infraero sobre a venda de outros aeroportos, por enquanto, e que isso será decidido por instâncias superiores.

A Infraero terá que entrar com R$ 600 milhões do capital inicial das empresas que vão gerir os três aeroportos. Mas, segundo presidente da empresa, esse valor já está provisionado.

Entre os especialistas, continua havendo dúvidas sobre a capacidade de alguns consórcios, principalmente o de Brasília, mas ao mesmo tempo há a expectativa de que melhoras nos aeroportos aconteçam em pouco tempo. Sem as amarras do setor público, será possível tomar decisões mais rapidamente. Não porque o setor público seja incompetente, é que ele toma decisões mais devagar através de licitações, contratações, demissões e rompimentos de contratos. Tudo é mais lento com as amarras do setor público.

O presidente da Infraero não acha que o fato de o consórcio que comprou Guarulhos ser formado por fundos de pensão de estatais faz com que na prática o aeroporto continue estatal. Acha que o importante é que esta semana o setor aeroportuário entrou em novo momento, saindo do modelo em que eram todos geridos pela mesma estatal.

Há várias esquisitices no Brasil, como a que acontece com pequenos aeroportos que não são públicos, ou seja, não são usados pelas companhias aéreas, como os pequenos aeródromos instalados em resorts, por exemplo. Pela lei, eles não podem ter receitas, e obviamente têm. A partir da privatização dos primeiros aeroportos, tudo começou a mudar.

Cavalhadas - ROBERTO DaMATTA


O Estado de S.Paulo - 08/02/12


Meu artigo sobre o cavalo do Spielberg suscitou mensagens. Todas generosas. Quando recebi o telefonema de um colega, tive a certeza de que havia acertado na mosca! Dois leitores chamaram minha atenção para os cavalos não citados e eu quero usar a lembrança de um deles para reiterar como o ditado "santo de casa não faz milagre" é verdadeiro.

Meu texto sobre o cavalo é uma prova de como é realmente impossível controlar o consciente - esse agente motivador da atividade de escrever - e o seu lado obscuro, o inconsciente (esse hóspede não convidado), indispensável em qualquer escrita. Pois durante o ato de escrever, o inconsciente promove incríveis esquecimentos e faz inusitadas lembranças, deixando ao leitor a complementaridade essencial ao sucesso da empreitada.

De fato, ao falar dos cavalos eu mencionei São Jorge, um "santo a cavalo", mas deixei de fora - vejam o trabalho do inconsciente - o "cavalo de santo". Mencionei os cavalos dos nossos automóveis, mas esqueci os que são cavalgados pelos deuses nos nossos "terreiros". Esses mediadores que, como montaria dos orixás, eventualmente ajudam na nossa cavalhada neste mundo.

O conceito brasileiro de "cavalo de santo" revela a luta que ocorre em todas as sociedades conhecidas entre uma percepção do ser humano como sendo feito de muitas "almas " e num processo e a visão individualista e moderna que estabelece a consciência de si como uma entidade indivisível e acabada, dada de uma vez por todas sendo - seria preciso lembrar Freud, Lévi-Strauss, Louis Dumont e alguma literatura como Poe, Stevenson, Machado? - no mínimo problemática. Pois como disse na semana passada, por mais que sejamos individualistas, somos todos fabricados pelos outros, de modo que por mais que cavalguemos nos nossos egos, outros egos e relações também cavalgam com e contra nós.

Valores como dignidade, honra, culpa, vergonha, gratidão e amor são indicativos dos laços e dos pesos desses vínculos dentro de nós. Donde os "cavalos de santo". Essa expressão apresenta um extremo da experiência da subjetividade. Pois não existe nenhum homem por quem os sinos não dobrem e nenhum que não tenha tido os seus projetos individuais dobrados por alguma relação ou afeto.

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Coincidentemente, a coerência como um valor cavalgou conosco nestas últimas semanas. Em relação a Cuba, por exemplo, a presidente Dilma disse com todas as letras que os direitos humanos não têm importância universal. Tais direitos devem ser relativizados em casos como o de Cuba (e, é claro, dos Estados Unidos) porque todos temos "telhados de vidro". Ou seja, em algum momento somos cavalgados por coisas maiores (ou menores) do que nós. Por isso, escolher e desejar introduzem a incerteza em todo pensamento que tenta ser absolutamente fiel a si mesmo. O governo Dilma criou uma imponente Comissão da Verdade, mas os vínculos que a esquerda brasileira tem com Cuba e a sua personalização na figura de Fidel Castro (vejam a força desse nome!) facultam escapar de valores cruciais da vida democrática. Algo que nas cavalgadas corresponde ao peso que cada ideologia, fé e moralidade coloca no lombo do cavalo, fazendo-o empacar ou mudar de rumo.

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Assisti, deslumbrado, ao espetáculo Tim Maia. Um musical que faz mais do que trazer à tona um formidável talento musical, pois o drama de Nelson Motta ressuscita Tim Maia e, por meio da música, transforma em mito e ritual a "vida real" do artista que o próprio Nelsinho biografou no livro Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia (Objetiva, 2007). Com isso, o espetáculo põe no palco a complexa cavalgada entre a força de um talento vulcânico e o seu gerenciamento; a onipotência do sucesso e a sua capacidade de devastar os seus cavaleiros; o deixar que tudo possa acontecer conosco e os limites que cada qual se vê obrigado a se impor, sob pena de acelerar o próprio fim, embora o fim - eis o que Tim Maia descobriu - seja inevitável. Graças ao bom gosto e à lucidez de Nelsinho Motta, todos se emocionam com essa biografia musicada reveladora de uma alma sensível aprisionada num corpo que ia se avolumando na medida em que sucessos e fracassos permeavam sua vida. É muito raro assistir a um casamento tão benfeito entre vida, época, mito e música.

Nesta semana em que testemunhamos a grande cavalgada cósmico-legal dos ministros do STF que, para o bem de todos, deram um passo adiante no sentido de reiterar que numa democracia ninguém deve escapar da igualdade perante a lei, chegou a sexta-feira. E nessa véspera da ilegalidade dos sábados imortais do Vinicius de Moraes eu, a todo pulmão, cantei com o Tim Maia e graças ao Nelson Motta, uma das minhas fantasias favoritas: "O que eu quero? Sossego!"

A César o que é de César - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 08/02/12





A Lula o que é de Lula. A Dilma o que é de Dilma. Desde que seja tudo do PT, a maioria dos petistas não vai se incomodar. É assim que eles veem a adoção do modelo de privatização tucano para os aeroportos

Na Santa Igreja, a frase "a César o que é de César" representa a separação do que é do mundo dos homens e o que se deve ao mundo de Deus. Foi dita por Jesus aos fariseus e herodianos que queriam saber se era lícito pagar impostos ao imperador. Está na Bíblia. Na boca do povo, é bem mais simples: "Cada um com as suas coisas" e ponto. Na política, entretanto, o PT decidiu reformular esse ensinamento divino e ficar com as coisas de um e de outro: a Lula o que é de Lula. A Dilma o que é de Dilma. Desde que seja tudo do PT.

É mais ou menos assim o que ocorre agora com o discurso da privatização dos aeroportos, o qual mencionei aqui na segunda-feira. "Os tucanos já perderam vários discursos, o da estabilidade da moeda, o do Bolsa Família, que eles (do PSDB) começaram com a Bolsa Escola, lá em Campinas. Agora, perdem mais esse, o da privatização", dizia-me ontem o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), coberto de razão.

Os tucanos tanto sentiram o golpe que ontem convocaram uma entrevista coletiva na sala de reuniões da liderança do PSDB para deixar claro que os petistas passaram oito anos negando as privatizações. Em 2006, Geraldo Alckmin, perdeu a graça no segundo turno por causa desse tema. Ficou um tempo precioso na defensiva, vendo os votos migrarem para o então presidente-candidato. Em 2010, os petistas passaram a campanha tratando das privatizações como "coisa de tucanos".

No caso dos aeroportos, até o modelo de privatização, avisa o PSDB, é igual ao adotado no governo Fernando Henrique Cardoso: financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e participação ostensiva dos fundos de pensão, como a Previ, do Banco do Brasil. O ágio foi considerado espetacular. Se está tudo bem, entretanto, avisa o PSDB, com boas doses de razão, veremos lá na frente, em 2014.

Por falar em "lá na frente"...

Os petistas sequer franziram o cenho para as reclamações do PSDB quanto ao "estelionato eleitoral" das privatizações. Estão como aquele time que joga feio, mas, até o momento, está ganhando o jogo. Quando eles criticavam as privatizações, o PSDB não as defendeu. Seus dois candidatos a presidente, José Serra por duas vezes, 2002 e 2010, e Geraldo Alckmin, em 2006, deixaram de lado os aspectos positivos. Renderam-se aos conselhos marqueteiros que, não raras as vezes, fazem avaliações equivocadas. Como dizia Olga Curado a Dilma, nos bastidores da campanha petista, "quando estiver emparedada, procure a verdade dentro de você, sempre funciona". O PSDB se escondeu.

No PT, a avaliação geral é a de que cobrar isso agora não cola. O partido, entretanto, terá seus problemas internos. No Rio Grande do Sul, por exemplo, os petistas com assento na Assembleia Legislativa estadual são contra a prorrogação do pedágio nas estradas gaúchas para não ferir a coerência partidária no que se refere às privatizações, tão criticadas na campanha. Em Brasília, por enquanto, o partido, nem "tchum". Há quem diga que não se faz política para o retrovisor. Se o PSDB não defendeu as privatizações, o problema é dele. Ontem, ouvi de muitos integrantes do PT que, se o modelo de concessão escolhido por Dilma der certo, o lucro é deles. Simples assim. Se der errado, o que eles não acreditam que vá dar, aí, eles estão no sal. Mas isso é o chamado lá na frente.

Perguntei a alguns se o fato de Lula ter sido contra as privatizações e ter atrasado as obras nos aeroportos não contava pontos negativos ao partido. A resposta foi curta e grossa: "Olha, o governo Lula teve muitos méritos. Agora, Dilma está fazendo um outro governo, de continuidade, mas com algumas mudanças". Ah, tá. Agora entendi. A Lula o que é de Lula. A Dilma o que é de Dilma. Desde que seja tudo do PT, a maioria dos petistas não vai se incomodar. É assim que o PT vê a adoção do modelo tucano de privatização para os aeroportos brasileiros.

Enquanto isso, na Rodoviária de Brasília…

Começa esta semana a distribuição de panfletos convocando os policiais militares para a greve no Distrito Federal. A carta da categoria já circula na internet. O carnaval de 2012 promete. Aguardemos.

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