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domingo, agosto 28, 2016

Samuel Pessoa Política esperará inflação ou punição do mercado para arrumar a casa? - 28/08/2016 - Colunistas - Folha de S.Paulo

Política esperará inflação ou punição do mercado para arrumar a casa? - 28/08/2016 - Colunistas - Folha de S.Paulo
O governo interino do presidente Michel Temer tem emitido sinais dúbios. Há o diagnóstico de que é necessário realizar um ajuste fiscal estrutural. No entanto, o governo emite muitos sinais na direção contrária.
Foram aprovados ou estão próximo da aprovação pelo Congresso Nacional 14 projetos que aumentam salários de inúmeras carreiras do serviço público. Desnecessário dizer que, nas atuais circunstâncias de desemprego elevado e salário real em queda para o setor privado, é difícil justificar politicamente o tratamento privilegiado às corporações do serviço público, que gozam de estabilidade e de salários maiores aos pagos pelo setor privado.
Já o projeto de lei complementar que renegocia as dívidas dos governos estaduais com a União foi desfigurado pelo Congresso. A principal contrapartida estrutural era definir melhor o conceito de gasto com pessoal para efeitos da verificação do limite de 60% da receita corrente líquida. Essa definição era essencial para impedir uma série de formas de contornar a LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) que foram criadas nos últimos anos.
Adicionalmente, a renegociação das dívidas dos governos estaduais não foca o problema das finanças públicas dos Estados, que estruturalmente gastam mais do que arrecadam. Durante muitos anos essa situação ficou escondida, pois a receita cresceu muito acima da economia.
Ou seja, diferentemente do que boa parcela da classe política pensa, o desequilíbrio das finanças dos Estados não cessará com a volta do crescimento econômico. O crescimento minorará o problema fiscal estadual, mas não inverterá o sinal da equação.
Aparentemente tucanos e democratas reconheceram o tamanho do problema e estão pressionando o governo Temer. Para todos os que conhecem o PMDB, é difícil se convencer da súbita conversão à responsabilidade fiscal.
O senador Ricardo Ferraço, do PSDB do Espírito Santo, apresentou relatório contrário ao projeto de lei que eleva os salários do STF, na terça-feira passada (23), na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos). Valdir Raupp, do PMDB de Rondônia, apresentou voto em separado favorável ao pleito do Supremo.
Já se fala que o projeto de emenda constitucional que estabelece o teto para o crescimento nominal do gasto primário da União ficará para ser aprovado em 2017. Certamente a aprovação da reforma da Previdência ficará para depois.
É possível que a lassidão fiscal verificada até o momento seja reflexo da falta de força que resulta da interinidade.
Outra interpretação é que os políticos –num momento em que a economia ensaia retomada tímida e as expectativas inflacionárias e a própria inflação são cadentes– têm muita dificuldade de enxergar claramente o problema fiscal e consideram que a elevação da receita que virá com a recuperação será suficiente para arrumar a casa. Nunca faltarão economistas para defender essa tese. E, certamente, os políticos preferirão seguir esses economistas com mensagens mais auspiciosas.
Assim, há risco real de termos que esperar alguma punição maior do mercado –como ocorreu com Joaquim Levy a partir de agosto do ano passado– ou o retorno da inflação para que a política pense de fato em arrumar a casa fiscal.

sábado, agosto 27, 2016

Olimpíadas: oportunidades em aberto Josef Barat



O ESTADO DE SÃO PAULO - Economia e Negócios

Quarta Feira , 24 de Agosto de 2016.



Em geral, a importância de sediar os Jogos Olímpicos é medida pelo legado que deixam nas cidades que os recebem. São profundas mudanças na configuração urbana, melhorias nas infraestruturas em geral – particularmente nas de mobilidade – parques olímpicos que se integram ao lazer dos cidadãos, bem como construções e equipamentos esportivos que, em tese, contribuirão para ampliar a cultura do esporte. Outra métrica é a do número de visitantes, principalmente estrangeiros, pelo que aportam de receita para o comércio e serviços, além da ampla divulgação mundial das atratividades da cidade sede.

No entanto, os Jogos Olímpicos também têm impactos na economia como um todo, na medida em que estimulam expectativas e confiança nos agentes produtivos. Há toda uma cadeia de produção e negócios que se forma em torno dos Jogos, o que acaba por dinamizar o ambiente econômico. Em países onde prevalece uma visão voltada para estratégias de longo prazo, sediar uma Olimpíada pode ser o detonador de uma multiplicidade de iniciativas nas atividades criativas voltadas para a inovação e o aproveitamento de talentos. Neste sentido, há toda uma soma de esforços coordenados de entidades públicas e privadas, para fortalecer e ampliar o alcance desta cadeia produtiva.

Em um mundo globalizado e competitivo, abre-se assim uma oportunidade única de inserção mais ampla e forte no cenário internacional. O que pode beneficiar, em muito, o comércio exterior, a atração de investimentos, a divulgação de marcas e produtos do país, enfim toda uma gama de possibilidade para atingir um novo patamar de presença mundial. Se as oportunidades são bem aproveitadas, abrem-se perspectivas muito amplas, que acabam por transcender o esporte e a magnitude do evento em si.

Um legado importante, também, é o de todo um esforço coordenado de governos, grupos empresariais, universidades e centros de pesquisa, no sentido de tirar partido dos Jogos Olímpicos para fomentar o esporte. O planejamento de longo prazo e os investimentos voltados para o fator humano – aprimorando atletas e treinadores – acabam difundindo pela sociedade, o interesse e oportunidades para atrair mais atletas. Os exemplos recentes de Pequim e Londres, mostram como, desde os anos 90, a visão de longo prazo influiu decisivamente no posicionamento atual das equipes desses países no ranking de medalhas.

Países que investem na pluralidade das práticas esportivas e no treinamento consistente da escola à universidade atingem níveis de excelência em uma gama mais ampla de modalidades do esporte. Maior o número de medalhas, maior o potencial de disseminação do esporte. O caso dos Estados Unidos é emblemático e demonstra o sucesso da articulação de investimentos privados e interesse público no estimulo à pratica esportiva, modelo que permaneceu e se aprimorou ao longo do tempo. Grã-Bretanha e China são casos bem planejados de sucesso, a primeira estimulando parcerias público-privadas e a segunda driblando a ortodoxia estatal.

O Brasil, com o seu renitente distanciamento em relação ao mundo, não entendeu bem para que serve o privilégio de sediar os Jogos Olímpicos. A atenção – sempre de curto prazo e oportunista – concentrou-se nas obras e nos aspectos mais superficiais e visíveis do legado urbano. Pouco se aproveitou do gigantesco potencial de estimulo econômico e subestimou-se o potencial de maior integração ao circuito mundial da inovação e criatividade.

Do ponto de vista estrito da atividade esportiva, frustrou-se a expectativa de programas bem estruturados e consistentes de descoberta de talentos e treinamento desde a escola até a universidade. Com a exceção de apoios pontuais e meritórios das Forças Armadas e de algumas empesas, nossos atletas tiveram que enfrentar, via de regra, enormes dificuldades para alcançarem sucesso nas competições. Avançamos nas medalhas e diversificamos as participações, é verdade, mas ainda há um longo caminho a percorrer para superarmos a monocultura do futebol e ingressarmos no seleto grupo das potências olímpicas.


Josef Barat - Economista, Consultor de entidades públicas e privadas, é Coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo. 

 

 

 


quinta-feira, agosto 25, 2016

O reajuste previsto no... déficit - Carlos Alberto Sardenberg

O reajuste previsto no... déficit - Jornal O Globo

O reajuste previsto no... déficit

Indicadores da economia brasileira, nesta véspera do impeachment, podem ser divididos em três grupos:

— os que continuaram piorando, mas estão piorando menos;

— os de estabilidade (pararam de piorar no fundo do poço);

— os que mostram um começo de recuperação.

E há indicadores misturados. Considerem, por exemplo, os salários pagos no setor privado formal. Em maio, segundo a pesquisa Salariômetro, da Fipe-USP, a folha de salários nacional chegou a R$ 99,3 bilhões. É menor do que o número verificado um ano atrás, porém um pouco maior que a folha de abril.

Outro dado importante da mesma pesquisa. Em janeiro deste ano, nada menos que 68% dos ajustes salariais negociados ficaram abaixo da inflação — portanto, com perda real para os trabalhadores. Para junho, 37% dos ajustes perderam da inflação. É melhor, indica que a maior parte dos assalariados conseguiu repor sua renda nesse mês, mas continua ruim para boa parte dos trabalhadores com carteira assinada.

Mas, por qualquer lado que se verifique, há uma conclusão comum: a sociedade brasileira já está pagando um preço muito alto pela crise econômica causada pelos enormes erros dos governos Lula (no segundo mandato) e Dilma. A carga maior ficou para os trabalhadores do setor privado: o desemprego chega a 12 milhões de pessoas, e os salários reais caíram.

Não raro, houve queda dos rendimentos nominais. Segundo a mesma pesquisa da Fipe, entre janeiro e junho deste ano, 208 acordos coletivos tiveram redução de salários. Claramente, esses trabalhadores trocaram salário por emprego, entendendo a situação de dificuldade real das empresas, com queda de vendas e aumento de custos.

Pois este é um ponto a ressaltar. As empresas não constituem um grupo de vampiros querendo sugar o sangue dos trabalhadores e dos consumidores. As companhias evitam demitir e fazem esforços enormes para não aumentar preços neste momento de recessão.

Em vários setores, trabalhadores e patrões conseguiram colocar-se de acordo para ao menos amenizar as perdas.

Mas tem uma grande empresa chamada governo, cujos donos, os contribuintes, não comandam a sua gestão. Quem toma as decisões sobre essa grande companhia são deputados e senadores e dirigentes do Executivo.

Essa empresa está quebrada — e por ser a parte dominante da economia brasileira, sua crise se espalha por toda a sociedade. Para simplificar, a causa maior da crise brasileira está na destruição das finanças públicas: despesas crescendo mais do que a receita; estatais endividadas; bancos públicos com problemas de inadimplência; obras inacabadas e muito mais caras que o previsto; má gestão e corrupção; empresas público/privadas, como a Sete Brasil, espalhando prejuízos para o governo e setor privado.

Resumindo: essa companhia, no seu braço federal, vai fazer um déficit de R$ 170 bilhões neste ano e outro de R$ 139 bilhões em 2017.

Faz sentido essa companhia-governo conceder reajustes salariais para as categorias de trabalhadores mais bem remuneradas e com garantia de emprego?

Sim, sabemos o argumento dos dirigentes sindicais e dos políticos e gestores: esses reajustes do funcionalismo apenas repõem a inflação.

Apenas?

Uma companhia quebrada — e cuja situação prejudica toda a sociedade — tem que fazer um baita ajuste, com redução de seus gastos.

Dizem ainda: os novos gastos com a folha já estavam previstos no Orçamento. Mas o Orçamento é deficitário. Logo, estão nos dizendo: tudo bem reajustar os salários do funcionalismo, pois isso já está previsto no... déficit!

Tem mais. Essa companhia-governo pretende cobrar uma conta de parte de sua clientela, os aposentados e pensionistas do INSS. Aprovada uma reforma, esses clientes, todos do setor privado, que já pagam pela crise com salários menores e desemprego — terão benefícios menores e trabalharão mais anos para obter a aposentadoria.

Sim, a reforma da Previdência é uma necessidade. Sem ela, não há ajuste, o que seria ruim para toda a sociedade.

Por isso mesmo, é mais do que necessário, é justo, eticamente indispensável e politicamente obrigatório que se faça também reforma na administração pública, na gestão dessa companhia-governo. Inclusive para ao menos reduzir as distorções que separam elite e base do funcionalismo.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista



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sexta-feira, agosto 19, 2016

Montoro, votos e valores

Montoro, votos e valores

Montoro, votos e valores

Este é o ano do centenário de André Franco Montoro, deputado estadual, federal, senador e governador de São Paulo, um político vindo da Democracia Cristã, então uma corrente ideológica influente. O que se segue é um relato baseado em observações de quem participou da campanha e do governo Montoro.

         Estamos em 1982. Começam as campanhas para governador em todos os Estados, as primeiras eleições livres  e diretas desde a instalação do regime militar, em 1964. O Brasil está em recessão, logo vai dar um calote na dívida externa e esse fracasso econômico é a pá de cal que enterra o regime. O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) vai ganhar. Em São Paulo, o então senador Franco Montoro abre sua campanha como favorito disparado.

         Ainda assim, havia um certo pé atrás em relação a ele, isso no ambiente político profissional. Dizia-se: é muito ideológico, pouco realista; muito visionário, pouco capaz na política do dia-a-dia; sonhador, não pragmático.

         Havia alguma verdade nesses comentários. Montoro colocava temas então inesperados. Por exemplo: meio ambiente, ou a tese segundo a qual o desenvolvimento industrial deveria ser submetido a regras de proteção ambiental. Isso dito em 1982, quando o país precisava justamente de uma retomada da indústria, parecia uma loucura.

         E não era só uma tese. Montoro havia assumido a bronca da população da Baixada Santista com a poluição espalhada pela indústria petroquímica de Cubatão - e prometia mudanças.

         Vai matar a indústria, diziam.

         Também se empolgava com as ideias de economia comunitária. Nos comícios pelo interior, pregava a criação das hortas familiares e comunitárias.

         Ora, diziam, São Paulo precisa é de um baita agronegócio.

         Descentralização era outro tema caro. A ideia: transferir poder e recursos para os municípios, o que seria mais eficiente e mais fácil de fiscalizar.

         Também era criticado por isso: os prefeitos vão gastar tudo em fontes luminosas, diziam.

         Aliás, aqui estava outro ponto crucial, a volta dos políticos ao poder. Depois de 18 anos de regime militar e tecnocrático, os políticos sonhavam com o momento em que poderiam de novo comandar a distribuição de verbas e cargos.

         Muitos dos que estavam na campanha, entre os quais me incluo, demoraram para entender Montoro. Olhando assim de imediato, de fato parecia ridículo falar em hortas comunitárias no momento em que o país passava por uma forte recessão, sendo São Paulo duramente atingido.

         Com o tempo, a gente foi percebendo que Montoro estava longe da ingenuidade. Ao mesmo tempo em que falava das hortas, cercava-se de economistas de primeira linha, aos quais confiou e delegou a gestão da macroeconomia. Falava em dar poder aos políticos, mas acrescentava as restrições orçamentárias e éticas.

         Certo dia, prefeitos do Vale do Paraíba, uma próspera região paulista, foram ao governador exigir a construção de um sistema de viadutos. Montoro dizia que a demanda era justa, mas não tinha dinheiro no orçamento.

         Os prefeitos insistiam: o senhor está agindo como tecnocrata; esta não é uma decisão técnica, é política.

         Montoro: então, está feito; politicamente, o viaduto está decidido; quando tiver dinheiro a gente faz.

         Outra história exemplar: na reta final da campanha, já vitoriosa, o MDB passa a receber uma enxurrada de adesões. Certo dia, há um comício para receber líderes sindicais. Terminando o evento, os militantes mais ideológicos, digamos, questionam: esses caras aí são pelegos, estavam quietinhos até ontem.

         Montoro: bom, se a gente dividir o mundo em pelegos e não-pelegos, eles caem no lado dos pelegos. Mas o mundo não funciona assim.

         Então entra todo mundo neste ônibus?

         Entram muitos, respondeu, mas vamos lembrar durante o governo: esses aí não gostam da gente, muito menos de nossas ideias, gostam do poder.

         O início do governo Montoro foi difícil e tumultuado. Houve pesada oposição do PT, que dizia não haver diferença entre MDB e Arena, o partido do regime militar, e restrições administrativas e econômicas do governo militar. Além disso, a primeira gestão Montoro tinha de fato muitos românticos, mais do que operadores políticos.

         Isso foi balanceado - e a coisa andou. Inclusive com a políticas de municipalização e restrições ambientais, que funcjonaram. E com a horta que se cultivou no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo.

         Na política nacional, lançou as Diretas Já, romântico, e depois lançou Tancredo a candidato nas indiretas, pragmático.

         Fico pensando que o país precisa de mais políticos assim, com votos e valores.  



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domingo, julho 03, 2016

Artur Xexeo Em boca fechada O Globo

Às vezes, é melhor calar. Vivemos tempos de muitos mal-entendidos. O senador Renan Calheiros, por exemplo, está toda hora na televisão dizendo que “a crise não passa pelo Senado”. E acrescenta: “o Senado é a solução”. Agora, então me explica por que o nobre parlamentar está interessado em aprovar, em regime de urgência, uma lei que dificulta a realização de grampos telefônicos, invalida boa parte das delações premiadas, enfim, que dá um freio na Operação Lava-Jato? Certamente, ele não está falando em nome da sociedade. Parece mais preocupado com as denúncias contra o próprio senador. E, por mais que os repórteres que entrevistam Renan tentem associar seu novo projeto de lei à Operação Lava-Jato, ele insiste que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Tá vendo? É o mal-entendido. Então, melhor calar. 
Só pode ser mal-entendido também o que dizem os advogados de defesa de políticos e empreiteiros que têm recebido acusações criminais ultimamente. As doações sempre são legais e estão registradas na Justiça Eleitoral, eles nunca têm conta no exterior, nunca usaram o caixa dois, a declaração comprometedora está tirada de contexto... Na quinta-feira passada, com a decretação da prisão preventiva do empresário Fernando Cavendish, os advogados do ex-dono da Delta não agiram de modo diferente. A defesa se disse “estarrecida” e garantiu que “tomará as providências judiciais para reverter essa ilegalidade”. Deixa eu ver se entendi: o Cavendish foi o empreiteiro responsável pela construção das quatro arenas esportivas dos Jogos Pan-Americanos, aquelas obras mal feitas, superorçadas, que mal resistiram ao Pan e, diante de sua prisão, quem fica estarrecida é a sua defesa? Mas este é mais um caso no qual o melhor é ficar calado. Na sexta-feira, a prisão preventiva já tinha se transformado em prisão domiciliar. Fica aqui uma pergunta que não quer calar: será que o domicílio de Cavendish foi construído pela Delta? Porque, se foi, talvez ele estivesse mais seguro na cadeia mesmo.
Tem também o presidente provisório. Michel Temer é o rei do fica o dito pelo não dito. Ele assumiu sua interinidade apostando em austeridade fiscal. Um mês depois aumenta o Bolsa-Família e aumenta o vencimento dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Nada contra mais dinheiro para todos, mas geralmente novos gastos não combinam com austeridade. Foi um mal-entendido?
É por isso que, nestes tempos difíceis, o melhor é ficar quieto. Qualquer coisa que você diga pode ser mal interpretada e você vai acabar passando por mentiroso. O governo de Francisco Dornelles prometeu pagar o que deve de salário ao servidores nesta segunda-feira. Mas ele estava falando do salário de maio. Nesta segunda, o governo já estará devendo também o salário de junho. Não há mal-entendido maior no momento do que a maneira de o Governo do Estado interpretar o que significa um salário. Além de não pagar o que deve, ele não tem repassado para os bancos o que desconta dos empréstimos consignados dos servidores. Roubo? Não... É só um mal-entendido.
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Não é fácil para mulher alguma entrar numa delegacia e denunciar o marido, o namorado ou o companheiro como autor de violência que sofreu. Para uma mulher famosa, então, fica ainda mais difícil. Dos muitos constrangimentos pelos quais passa uma mulher numa situação dessas, a exposição pode machucar quase tanto quanto quatro costelas quebradas. Luiza Brunet construiu uma carreira de modelo de muito sucesso, que se prolonga agora com a de empresária e, mais recentemente, com tentativas de ser atriz. Durante toda a sua trajetória, soube manter a vida privada longe das colunas de fofocas. 
Às vezes, apertada nos modelos de jeans da Dijon cobertos de tachas de gosto duvidoso, ela era a única garantia de o produto à venda não se tornar vulgar ou cafona. Luiza Brunet foi sempre discreta. Esta característica só dá mais valor à atitude que levou seu nome aos jornais neste fim de semana. A notícia publicada pela coluna de Ancelmo Gois dando conta da violência que sofreu na casa de seu companheiro não mostrou só o sofrimento pelo qual Luiza tem passado. Mostrou a coragem de uma mulher que sabe que seu caso vai servir como exemplo. Ela tem consciência de que pode ser um modelo para outras mulheres que, sem a sua celebridade, sofrem a mesma violência doméstica. A exposição é consequência.
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Os integrantes daquele grupo alegre, a turma do guardanapo, que ganhou destaque em fotos que se seguiram a um celebrado jantar em Paris, está todo voltando a cena. Mas... cadê o Sérgio Cabral?

sábado, junho 18, 2016

Infraestruturas, financiamento e governo JOSEF BARAT



Infraestruturas, financiamento e governo
JOSEF BARA. Estadao

A partir de 1995, ocorreu uma profunda revisão do papel do Estado, com a abertura dos investimentos e operações das infraestruturas de serviços públicos à participação privada. Isto se deu por meio das concessões e parcerias e foi importante a criação das Agências Reguladoras para controle e fiscalização das concessões. Avanços significativos foram alcançados, tanto em volumes de investimento, quanto em aumentos de produtividade e qualidade nas operações dos serviços concedidos.
As deficiências físicas e operacionais, acumuladas por décadas, impuseram grandes dificuldades e obstáculos para que o Brasil se tornasse mais competitivo no mercado mundial, reduzisse o custo do abastecimento interno e propiciasse mais eficiência às tomadas de decisão dos agentes econômicos. O fato é que muitos gargalos e as crônicas ineficiências nas infraestruturas de transporte, energia e comunicações só começaram a ser superadas após as concessões e os aportes de recursos privados. 
No entanto, os governos Lula e Dilma não aproveitaram o ciclo de crescimento baseado nos preços das commodities, para estimular novas concessões. Além disso, mudanças na política econômica a partir de 2009 impuseram ações mais intervencionistas, o abandono dos fundamentos macroeconômicos e a insegurança devido à politização das agências reguladoras. Tal ambiente afugentou o aporte de capitais privados para investimentos nas infraestruturas. O retorno ao modelo Nacional-Desenvolvimentista dos anos 70, resultou em recrudescimento da inflação, queda dos investimentos públicos, ambiente de incertezas para os investimentos privados e afastamento dos fluxos de financiamento mundial.
Por outro lado, o drástico declínio dos investimentos públicos agravou, em muito, as já precárias condições das rodovias, portos, aeroportos e saneamento, entre outras, que não apresentavam interesse para o capital privado. Ou seja, ficou-se por muito tempo no pior dos mundos: o governo “desenvolvimentista” sem recursos para investir em infraestruturas essenciais e seu viés intervencionista – nos poucos editais de concessão que fez – afugentando investidores. No afã de interferir na fixação nas tarifas e taxas de retornos, via de regra selecionou os consórcios menos capacitados.
Para completar este quadro desolador, o modelo de associação entre grandes empreiteiras, fundos de pensão das estatais e BNDES, para viabilizar os consórcios licitantes, simplesmente desmoronou. A operação Lava-Jato, atingiu gravemente as empreiteiras, a quebra de muitos fundos e os limites do BNDES como única fonte de financiamento de longo prazo, obviamente inviabilizou a continuidade deste tipo de governança. Desnecessário dizer que, diante das incertezas e do rebaixamento do país pelas agências de risco, o capital privado externo – abundante no mundo – buscou países mais seguros para investir no longo prazo.
Portanto, o momento agora é o de pensar em um novo modelo de governança capaz de atrair o interesse do capital externo e dos bancos para este tipo de investimento. É obvio que empreendimentos privados por meio de concessão, com maturação e retorno de longo prazo, exigem um ambiente de credibilidade nas ações do governo – em especial, os fundamentos econômicos –, segurança jurídica e estabilidade política. 
Para restabelecer um ambiente de confiança é preciso mudar a lógica da governança dos processos de concessões e parcerias. Com isto, pode-se atrair capitais privados estrangeiros provenientes de uma gama de fundos interessados em retornos de longo prazo, quais sejam, fundos de investimentos, de pensão, de seguradoras, entre outros. É hora de o Brasil adotar uma nova agenda externa, relegando ao segundo plano alianças insignificantes e se reintegrar ao mundo que compete, comercia, inova, investe e forma grandes alianças transcontinentais. É hora, sobretudo, de se reintegrar aos grandes núcleos mundiais de decisão e negócios. Sem isso, continuaremos estrangulados pelos gargalos nas infraestruturas e patinando na mediocridade...

sábado, junho 11, 2016

Lula e Mercadante na cadeia! Reinaldo Azevedo

Folha de S Paulo

A semana que termina foi a mais obscurante –sim, a palavra existe!– da política brasileira desde que teve início a Lava Jato.
Nem sempre, e eu o apontei quando considerei pertinente, os homens de negro atuaram em terreno legalmente prudente. Mas, desta feita, foram além do limite que separa o Estado de Direito do arbítrio e do abuso de autoridade. E que fique claro: apoio a operação para que ela contribua com o fim da impunidade. E isso só se fará nos limites da lei.
Não serei eu a negar que existam razões para mandar prender os senadores Renan Calheiros e Romero Jucá e o ex-presidente José Sarney. Se existem, não são aquelas que vazaram dos diálogos gravados por Sérgio Machado. No que veio a público até agora, não há crime nenhum. Há no que não veio? Como saber? Se temos ciência do pedido, deveríamos conhecer as causas.
Também é um despropósito que dez ministros do STF sejam informados pela imprensa de que Rodrigo Janot quer prender o presidente do Congresso e um ex-presidente da República. Não existem Poderes soberanos na democracia –e isso inclui o Ministério Público Federal, que Poder não é.
Infelizmente, a esmagadora maioria da imprensa se calou a respeito. Os colunistas que se fizeram notáveis e notórios por atacar a Lava Jato não deram um pio. Eles são contra exageros apenas com os de sua turma. Uns verdadeiros moralistas!
A propósito: por que Janot, pelos mesmos motivos, não pediu a prisão de Lula e de Aloizio Mercadante?
"Obscurante" é tudo aquilo que nos priva de luz. E, por óbvio, também o jornalismo tem sido, a cada dia, mais vítima de ardis que lhe tiram a clarividência e o fazem flertar com as três Górgonas da inteligência: o esquerdismo, a demagogia e o oportunismo.
O esquerdismo é nefasto porque corrói a honestidade intelectual. Quem acha que a justiça deve se sobrepor à precisão merece levar chicotadas metafóricas. Em vez de escrever, deveria se dedicar à revolução ou à caridade. "Sarney, Renan e Jucá? Danem-se! Todos reaças mesmo e do PMDB! Cadeia neles!".
Quem acaba de entender que eu criei uma contradição entre jornalismo e justiça já está perdido. Que vá pra rua babar o "não-vai-ter-golpe".
A demagogia é o conforto dos falsos puros. Confere a seus usuários certo ar de coragem militante, com soluções tão mirabolantes como erradas. É o refúgio da covardia. Entre o ruim e o menos ruim, o demagogo escolhe o impossível, mas com potencial para inflamar os desinformados. "Que tal novas eleições, já que está tudo dominado?".
E o oportunismo completa a obra obscurante e obscurantista ao fazer do contingente o imanente, ao confundir os meios com o fim, ao dar à circunstância o valor da perenidade. Exemplifico, claro!
Ao defender novas eleições (demagogia oriunda do esquerdismo), aproveitando a onda criada pelos pedidos de prisão, Marina Silva deu à luz a seguinte pérola: "A grande contribuição que a Lava Jato vai dar é fazer uma reforma política na prática, já que ela não sai pelos processos políticos". É uma fala fascistoide. Desde quando uma reforma política se faz na delegacia de polícia?
A democracia, à diferença dos que pensam alguns tontos, não aceita todos os desaforos. Não estou ameaçando com o risco de uma ditadura. Não virá. Há coisa ainda pior: a bagunça.

sábado, junho 04, 2016

Patrulha recatada e do lar, por Guilherme Fiuza, O Globo Noblat

Patrulha recatada e do lar, por Guilherme Fiuza, O Globo Noblat

Patrulha recatada e do lar

Guilherme Fiuza, O Globo

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Temer deu posse a Maria Silvia na presidência do BNDES. Silêncio na patrulha progressista.

Explicando melhor: o presidente Michel Temer empossou na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o maior orçamento público do país, a economista Maria Silvia Bastos Marques, executiva de renome consagrada no Brasil e no exterior.

Silêncio sepulcral na claque progressista, humanitária e feminista.

Tentando de outra forma: o BNDES, um dos maiores bancos de desenvolvimento do mundo, alvo de vários inquéritos sobre tráfico de influência do PT, com destaque para as tramoias do ex-ministro Fernando Pimentel para eleger Dilma Rousseff, e de Lula para alegrar suas empreiteiras de estimação, foi colocado por Michel Temer nas mãos de uma executiva séria e brilhante, que vai combater a farra com o dinheiro do contribuinte.

Outrora febril, a patrulha progressista, agora recatada e do lar, vira-se de lado e dorme. Quando alguém tenta despertá-la, ela pergunta sonolenta: mas e o Cunha?

Se já era difícil explicar o que o Cunha tem a ver com as calças, que dirá com as saias. Melhor não contrariar. Para os brasileiros da resistência democrática, irmanados à quadrilha de Dilma e Lula contra os golpistas, mulher de verdade é Erenice, Gleisi, Ideli, Rosemary, Rosário, Graça, Belchior e as demais heroínas que fizeram história na Era Rousseff. Gosto não se discute.

Melhor passar à próxima notícia: Michel Temer empossa Pedro Parente na presidência da Petrobras. Silêncio ensurdecedor na patrulha moralizadora contra o novo governo.

Em se tratando de moral, vale explicar com paciência: o governo dos abutres que vieram atacar os cordeiros indefesos do PT colocou um dos melhores executivos do país, reconhecido nacional e internacionalmente, para gerir a empresa usada por Lula e Dilma para patrocinar o maior escândalo da história da República.

Alguém cometeu de novo a indelicadeza de acordar a patrulha do bem, exausta da luta sem tréguas contra os conservadores malvados, e a reação veio na bucha: mas e o Cunha?

Aí Michel Temer demite sumariamente os suspeitos de seu governo. Um careta, conservador, que não tem noção de solidariedade. Dilma nunca fez isso. Sempre procurou manter seus picaretas de fé a salvo, como é o caso do supracitado Fernando Pimentel. E jamais negou apoio público aos companheiros mensaleiros e aos guerreiros do povo brasileiro presos no assalto à Petrobras.

É aí que mora o perigo, bravos democratas que resistem contra Temer: vocês não podem aceitar assim, de bico calado, a entrega escandalosa da Petrobras a Pedro Parente.

Vocês já pensaram nas consequências disso? Quantos doleiros e tesoureiros progressistas ficarão à míngua? Quantas eleições presidenciais e parlamentares deixarão de ser compradas, desempregando milhares de funcionários de gráficas fantasmas, agências de publicidade de fachada, marqueteiros espertos e jornalistas de aluguel, fora a crise no mercado da mortadela?

Vocês não devem estar se lembrando quem é Pedro Parente, caros gladiadores da resistência democrática. Então compreendam a gravidade da coisa: quase 20 anos atrás, Pedro Parente foi um dos principais guardiões da implantação de uma barbaridade chamada Lei de Responsabilidade Fiscal. Não estão ligando o nome à pessoa? Ora, bravos guerreiros do bem, foi essa maldita excrescência que derrubou a nossa impoluta presidenta.

Entenderam o golpe? Pedro Parente, colocado pelo governo branco, velho e conservador de Temer para tomar conta da maior empresa nacional, tramou a queda de Dilma lá atrás, nos anos 90. Esses golpistas pensam em tudo.

Junto com a gangue que fez o Plano Real (página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória), esse ardiloso previu que um dia os companheiros chegariam ao poder, e criariam uma maravilha chamada contabilidade criativa — que é você conquistar a liberdade de gastar sem culpa o dinheiro dos outros.

E foi assim que Dilma caiu. Só porque foi flagrada fraudando a responsabilidade fiscal para manter os bonzinhos no poder, isto é, roubando honestamente — o que para os brancos, velhos, chatos, bobos, feios, recatados e do lar, é crime.

Esse talvez tenha sido o golpe mais doloroso. Se você e o seu grupinho depenam a Petrobras para enriquecer a elite vermelha, a polícia descobre tudo, e você cai por causa por causa de uma fraude fiscal — praticamente um roubo de galinha perto das obras completas —, tem que reclamar mesmo. Era só o que faltava a autora de tal façanha passar à história pedalando. Mais respeito, por favor — como pediu aquele pessoal simpático em Cannes.

Também não é para desesperar. O companheiro Al Capone passou pelo mesmíssimo problema. Um dos maiores gangsteres da história, já ia passando aos livros como um reles sonegador fiscal. Mas a resistência democrática contra o golpe trabalhou bem lá em Chicago, e Capone hoje é reconhecido mundialmente em toda a sua magnitude. Isso há de acontecer também com Dilma, Lula e o PT. Não esmoreçam.

Silêncio (Foto: Arquivo Google)

Guilherme Fiuza é jornalista



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sábado, maio 21, 2016

PMDB precisa mostrar que tem como liderar o país, diz FHC - 21/05/2016 - Poder - Folha de S.Paulo

PMDB precisa mostrar que tem como liderar o país, diz FHC - 21/05/2016 - Poder - Folha de S.Paulo

PMDB precisa mostrar que tem como liderar o país, diz FHC

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso acha que o desempenho do presidente interino, Michel Temer, nos próximos meses será crucial para determinar se o PMDB terá condições de liderar o país à frente de um novo bloco de poder, como petistas e tucanos fizeram antes dele.

Para o líder do PSDB, a recessão na economia e a fragmentação política do Congresso limitam as possibilidades do novo governo, e o futuro do PMDB dependerá da maneira como Temer lidar com essas dificuldades.

"Ele pode dar sinais para a economia, mas vai demorar para colher o fruto", diz FHC, que lança na próxima semana o segundo volume do seu "Diários da Presidência" (ed. Companhia das Letras), com memórias do biênio 1997-98.

Na opinião do ex-presidente, o PMDB "tem capacidade para fazer o Estado funcionar", mas ainda não demonstrou "capacidade de apontar o rumo" para o país, como ele explica na entrevista a seguir.

Fernando Henrique comentou ainda as denúncias de compra de votos para aprovar a emenda constitucional que permitiu sua reeleição em 1998.

*

Folha - Ao descrever pressões que recebia do PMDB por cargos em seu governo, o sr. diz a certa altura dos seus diários que elas estavam "cheirando mal". Qual era o problema?
Fernando Henrique Cardoso - Eu fiquei irritado com a pressão, que achei muito grande, desproporcional. Queria manter a autonomia de escolha do presidente frente aos candidatos, aos partidos. Consegui no primeiro mandato, relativamente.

É mais difícil para Temer lidar com esse tipo de pressão?
Eu tinha mais força pessoal, e legitimidade, porque fui eleito. Segundo, eu tinha uma agenda, um objetivo que justificasse a aliança política. A grande diferença é que não havia um sistema partidário tão fragmentado como o atual. E você podia fazer uma maioria um pouco mais consistente no Congresso. Essa fragmentação vai continuar.

Como isso afetará o governo?
A nomeação do novo líder na Câmara [André Moura (PSC-SE), réu no Supremo Tribunal Federal] é fruto disso. PSDB e PT foram os dois partidos que até aqui conseguiram liderar o processo político sem ter maioria, com apoio do PMDB. A maioria sempre foi formada por uma massa useira e vezeira em utilizar o aparelho do Estado, como esse novo centrão de que estão falando agora.

O PMDB é diferente?
O PMDB não é isso. É um partido que tem capacidade para fazer o Estado funcionar. Agora está tentando ter uma certa capacidade de apontar o rumo. Fizeram um programa [o documento "Uma Ponte para o Futuro"]. É uma novidade, porque implicaria na transformação do PMDB em um partido com aspiração para liderar o país.

Acha o projeto viável, diante da composição do novo governo e de seus primeiros passos?
Este governo nasceu por decisão do Congresso, de acordo com a Constituição. Temer foi eleito como vice, tem legalidade. Mas não tem apoio [popular]. Não pode descuidar desse ponto de partida, porque o processo de impeachment ainda não acabou. Tem que ser cuidadoso, inclusive nas nomeações. Ele é mais amarrado a essas circunstâncias do que eu era, ou do que [o ex-presidente] Lula.

Significa que o novo governo também ficará paralisado?
Vai depender do que ele fizer com a crise econômica e a crise moral. Ele precisa emitir sinais de que levará o país a um caminho melhor na economia e que dará prestígio à Operação Lava Jato. Ele não terá tempo de resolver os problemas da segurança, da educação, da saúde, do transporte. Pode dar sinais para a economia e a infraestrutura, mas vai demorar para colher o fruto. Você não pode cobrar deste governo o que ele não pode dar. É um governo de transição. Se ele chegar a 2018 começando a botar em ordem esses pontos, é o que historicamente precisa fazer.

As pessoas que apoiaram o impeachment pensando que as coisas iam mudar no dia seguinte não ficarão frustradas?
A população é suficientemente realista para não pedir o impossível. Ela não saiu na rua gritando: "Viva Temer". Saiu gritando: "Fora, Dilma". As pessoas não têm uma expectativa tão elevada assim para se sentirem frustradas.

O que achou do ministério?
Eles são bons operadores políticos. Na economia, montaram uma equipe consistente. Não sei dizer como é a capacidade gerencial dos vários ministérios, porque não conheço. Mas não acho que se possa dizer que está tudo perdido logo na partida. A situação é que é muito difícil.

Temer terá condições de fazer a reforma da Previdência?
Vão chorar por não terem ajudado a aprovar lá atrás no meu governo, quando a idade mínima para as aposentadorias caiu por um voto. Talvez já exista maturidade para obter algum avanço. O motor da reforma tem que ser a busca de um sistema mais equânime, que pode trazer uma situação fiscal melhor como consequência. Não podem dizer que estão fazendo isso só porque o Tesouro está mal.

O novo governo representa uma guinada conservadora?
Ele nasceu no Congresso, e o Congresso hoje é mais conservador, porque a sociedade ficou mais conservadora. É importante para o PSDB não entrar nessa. Temos que ser sociais-democratas nas relações entre sociedade, mercado e Estado, e liberais no comportamento, aceitando a diversidade. Mas a sociedade não pensa assim, e tem que dar a batalha nesse sentido.

Com três ministros e ex-integrantes do seu governo no comando do Banco Central, da Petrobras e do BNDES, os tucanos têm como se dissociar do governo se algo der errado?
O partido está comprometido, mas não é o núcleo do poder. O poder é do PMDB, que legitimamente vai buscar protagonismo. Vai querer ser o motor do próximo passo. Por enquanto, tínhamos PT e PSDB. Agora, talvez o PMDB queira. Vai depender de quem tiverem na eleição [presidencial de 2018]. Tudo passa pelo personagem, quem é o candidato, como é que fala, se vai captar o sentimento do futuro... Sabe Deus.

Claudio Belli - 19.mai.16/Valor/Folhapress
Data: 19/05/2016 Editoria: Politica Reporter: Cesar Felício dos Santos Local: Sao Paulo Setor: Politica Pauta: Entrevista com FHC Personagem: Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da Republica do Brasil Tags: presidente, ex-presidente, iFHC, instituto, politica, Brasil Fotos: Claudio Belli/Valor ***FOTO DE USO EXCLUSIVO FOLHAPRESS***
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em seu instituto


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