ARQUIVO DE ARTIGOS ETC

quarta-feira, abril 23, 2014

CELSO MING-Preço via custos

- O Estado de S.Paulo
A presidente Dilma parece ter uma noção equivocada do que sejam e de como se devem formar os preços da economia. É daí que derivam alguns dos maiores erros econômicos dos últimos três anos.
Para ela, os preços devem refletir os custos e não o resultado do enfrentamento entre oferta e procura. Quando, em 2012, definiu a redução de 20% das tarifas da energia elétrica (MP 605/2013), seu raciocínio foi de que a maioria das concessões das hidrelétricas estava próxima do vencimento. A renovação só seria admitida com a redução de tarifas imposta pelo governo. Algumas geradoras não aceitaram a regra e passaram a vender seus quilowatts no mercado livre (spot). Depois veio a seca, a queda dos níveis dos reservatórios e a necessidade de acionar as termoelétricas, responsáveis hoje por cerca de um terço da oferta de energia elétrica no Brasil. O resultado foi o desastre que se viu e que ainda se verá. Os preços explodiram porque a oferta ficou menor do que a demanda.
Agora, o governo está autorizando as concessionárias a repassar reajustes de 15% a 30% nas tarifas ao consumidor, e isso se deve só a custos passados. Outros reajustes de peso serão inevitáveis. Ninguém sabe se, uma vez recuperados os níveis dos reservatórios e desativadas as usinas térmicas, as tarifas serão ajustadas de novo para baixo, ou se voltará a prevalecer a lei da oferta e da procura.
O tabelamento pelos custos aconteceu, também, quando da fixação da Taxa Interna de Retorno dos investimentos (lucro das operadoras) prevista nas novas concessões. Foi o fator de maior atraso das concessões.
O mesmo critério deveria prevalecer, também, no regime de spread bancário (juros cobrados nos empréstimos) e nos preços dos combustíveis e do etanol. Os resultados foram os desastres ou quase desastres já conhecidos.

domingo, abril 20, 2014

Risco de racionamento Miriam Leitão



Enviado por Míriam Leitão e Alvaro Gribel - 
20.4.2014
 | 
9h00m
COLUNA NO GLOBO


O consultor Mário Veiga, que tem uma das mais respeitadas consultorias de energia do mercado, acha que é “recomendável” que o governo decrete racionamento a partir de maio. Sabe que isso não será feito e o risco é o de que se chegue ao fim do ano com apenas 10% de água nos reservatórios, o que seria uma situação “desesperadora” e forçaria um racionamento mais drástico.
Veiga, em entrevista que me concedeu na Globonews, deu um número assustador para a conta que está se acumulando entre 2013 e 2014 pela decisão da presidente Dilma de reduzir o preço da energia:
— Em 2013, a compensação pela redução ficou em R$ 18 bilhões, sendo que R$ 10 bilhões serão pagos pelo consumidor a partir do ano que vem, o resto o contribuinte pagou através de subsídios do Tesouro. Em 2014, serão R$ 10 bilhões do Tesouro e mais empréstimos às distribuidoras entre R$ 12 bi a R$ 24 bi. Ao todo, a conta chega a R$ 50 bilhões no pior cenário, e isso será pago em parcelas em cinco anos, o que dá 7% de aumento real por ano sem falar em outros custos.
A situação chegou nesse ponto por vários motivos. Um deles é que o governo errou e não fez os leilões necessários para permitir que as distribuidoras contratassem toda a energia que têm que fornecer:
— As distribuidoras têm zero de culpa. O governo falhou ao não fazer o leilão. Pela lei, as empresas têm que comprar em leilão toda a energia que vão vender. É como se fosse assim: como vai chover, a pessoa tem que comprar guarda-chuva. A lei manda que todos tenham guarda-chuva. Sempre houve pequenos problemas, mas que as distribuidoras pagavam e depois, no reajuste anual da tarifa, se compensavam. Só que agora houve um grande vencimento de contratos. Uma quantidade brutal de energia ficou sem contrato. Venceram 8.600 megawatts médios.
Isso desequilibrou as empresas financeiramente, porque elas têm que pagar um custo muito maior do que podem cobrar dos consumidores:
— Elas foram ao governo e disseram que iriam quebrar. O custo é de R$ 10 bi e isso é mais do que toda a renda das empresas somadas.
Mário Veiga disse que há um mistério no setor de energia: mesmo em anos em que a hidrologia é boa e começa-se com um nível alto nos reservatórios — isso aconteceu em 2010 e 2012 — o ano termina com baixo volume de água nos reservatórios. Ele fez cálculos, simulou o que houve em anos anteriores e como deveria ter se comportado o nível de água. Pelo modelo do governo, dá sempre mais do que realmente há de água poupada:
— Diante de um mistério como esse, tem que se fazer como Sherlock Holmes: eliminar todas as causas impossíveis e aí a causa possível é a mais provável.
A causa possível é que as hidrelétricas estão gastando mais água para gerar o volume previsto de energia:
— Alguns reservatórios são enormes, maiores que a Baía de Guanabara, e se medem calculando a profundidade. Mas é necessário atualizar o cálculo do fundo do reservatório porque pode haver assoreamento e sedimentos. Há décadas ninguém atualiza essas contas.
Então, mais do que não fazer investimento em aumento da eficiência das atuais hidrelétricas, o governo não tem sequer feito análises para saber quanto de água realmente há nos reservatórios e qual a dimensão deles. Toma como garantido a situação inicial desses reservatórios. Veiga compara o comportamento a uma pessoa que compra um carro zero que faz 30 quilômetros por litro e que com o passar do tempo perde eficiência, mas o dono continua contando com aquele mesmo consumo:
— O comportamento das hidrelétricas, a água que elas gastam para produzir cada MWh é maior do que está nas projeções oficiais.
Ele disse que é possível ver esse desequilíbrio avaliando as projeções do governo nos anos recentes em que, mesmo quando a situação estava normal, a queda de água foi maior do que o previsto. Este ano, piorou.
— Este ano, a situação está ruim. Vamos chegar ao fim de abril com 37% de água armazenada nos reservatórios. Numa análise de 18 anos, este é o segundo pior número. Só superado por 2001, o ano em que houve aquela coisa que não se pode falar a palavra.
Ele acha que seria prudente o governo começar a falar a palavra racionamento e no próximo mês, mas sabe que ele não será prudente. Isso aumenta a conta hidrológica e financeira para 2015. Até 2020 estaremos pagando essa conta.

E o real vira sonho -Ferreira Gullar - Folha de S.Paulo

E o real vira sonho - 20/04/2014 - Ferreira Gullar - Colunistas - Folha de S.Paulo

Fui ao Museu de Arte Moderna do Rio a fim de ver as obras do hiper-realista Ron Mueck, numa terça-feira, para conseguir entrar, uma vez que, nos fins de semana, as filas são intermináveis. Mas eu tinha que ver essa exposição porque ela punha em questão uma tese minha.

Quem costuma me ler conhece a tese: tenho afirmado que, ao contrário do que se costuma dizer, a arte não revela a realidade, mas a inventa. Se isso for verdade, a conclusão inevitável é que o realismo —ou seja, a arte que pretende copiar a realidade— será arte menor. Então, o surrealismo seria arte maior? Não, não é tão simples assim. Pode ser, pode não ser.

Na verdade, mesmo quando um pintor procura, em sua tela, retratar fielmente uma paisagem, não o conseguirá, pelo simples fato de que a paisagem que tenta retratar pode medir quilômetros e sua tela medirá, digamos, um metro por um metro. Quero dizer com isso que é impossível representar fielmente a realidade, pelo fato mesmo de que a imagem da montanha não é a montanha, por mais fiel que seja a cópia realizada pelo pintor. Por isso mesmo, o que deu uma nova qualidade à pintura moderna foi precisamente a descoberta de que a arte é um modo outro de nos fazer ver a realidade; ou seja, a maçã pintada não é a maçã real —é pintura. Por isso mesmo, quando o pintor quer fingir que a maçã pintada é a maçã mesma, imprime-lhe certa falsificação. A pintura moderna, a escultura moderna, não fingem que reproduzem realidade mas, sim, a inventam.

Em face dessas considerações, como ficam as obras de Ron Mueck, expostas no MAM do Rio? Como era terça-feira, não havia tanta gente na fila mas, lá dentro, já um número considerável de visitantes se acumulava em torno de cada uma das obras expostas. A primeira que vi era uma galinha morta, pendurada pelos pés e depenada. A semelhança com o bicho de verdade era total: as unhas dos pés, as escamas das pernas, o pescoço, a cabeça do animal, com crista, os olhos e o bico. Tudo igual à galinha real, menos num ponto: essa galinha de Mueck é gigantesca, umas dez ou quinze vezes maior que a de verdade.

Aliás, é nisso que as suas figuras se diferenciam das figuras reais: pelo tamanho. A figura de um menino negro, por exemplo, está ali em tamanho reduzido e isso contraria-lhe o realismo, do mesmo modo que o gigantismo do casal, que aparenta estar numa praia, também o torna, por assim dizer, " não real". Esse contraste entre a extrema e minuciosa imitação das pessoas reais e a desproporção do tamanho imprime às figuras uma chocante estranheza que as transforma em aparições, seres oníricos, irreais.

Ron Mueck é um artista bem diferente dos demais (e isto num momento em que a extravagância tomou conta das artes). Numa época em que a linguagem artística afastou-se da representação da realidade, vem ele, não apenas representá-la, como representá-la a ponto de sua representação se confundir com a própria realidade. Isso por um lado; por outro lado, embora ele se aproxime, na sua arte, do gosto popular, usa de recursos modernos e sofisticados, como materiais produzidos pela tecnologia avançada, como poliéster, resina de vidro, fibra de acrílico, poliuretano, além de tecidos especiais.

Não obstante, se não estou enganado, essas obras de Ron Mueck não são, de fato, esculturas, se as comparamos com o que, através dos séculos, se definiu como tais. Certamente, embora as obras de um Praxíteles ou de um Michelangelo difiram das de Rodin ou de Brancusi, há entre elas traços qualitativos e expressivos que as identificam esteticamente, uma vez que sua expressividade reside, basicamente, na harmonia dos volumes e das superfícies, quer sejam essas esculturas figurativas ou abstratas.

Já as obras de Mueck não têm tais características nem tais preocupações definidoras da linguagem escultórica: o que esse artista busca é a cópia fiel das formas humanas, em seus mínimos detalhes e a tal ponto que pareçam seres humanos de verdade, postos ali diante de nós. Esse realismo só é violado, como já disse, pelo tamanho que ele dá a essas figuras, ou desproporcionalmente maior ou menor que na realidade têm. Por isso mesmo, ora parecem bonecos, ora parecem fantasmas.


O dinamismo da economia - João Ubaldo Ribeiro - Estadão

O dinamismo da economia - cultura - versaoimpressa - Estadão

Antes de seu mais recente sumiço, no que se acreditou ser um afamado torneio de pôquer internacional em Pilão Arcado, Zecamunista andou conversando muito sobre consultorias.

- Não sei se você já notou - disse ele. - Agora só se fala em consultoria. Alguém recebe ou paga uma bufunfa que não dá para explicar e aí diz que foi por serviços de consultoria. É mole, qualquer um pode dar consultoria e qualquer assunto serve. O consultor não precisa nem saber ler, basta ser bom em cuspe à distância, por exemplo. O sujeito explica à Polícia Federal que depositou cem milhões na conta do compadre roceiro, em paga por serviços de consultoria sobre cuspe à distância. Sempre apreciou esse difícil esporte e pagou a consultoria para melhorar sua marca e atingir um nível internacional. O jornal agora anda cheio dessas coisas, acho que não tem mais nenhuma roubalheira ou lavagem de dinheiro sem consultoria no meio. Era de uma atividade econômica assim que a gente estava precisando aqui na ilha.

- E você acha que uma coisa dessas ia dar certo aqui?

- Não, assim nesses moldes, claro que não, até porque íamos chegar muito atrasados, o campo está todo tomado. E sozinhos não temos força para bancar a ideia que estou tendo aqui, é coisa para a união de todo o Recôncavo.

Seus olhos brilharam, sob a aba do boné com as insígnias do Pacto de Varsóvia estampadas, recebido como herança do falecido companheiro de lutas clandestinas Marcelino Kremlin, que não foi registrado com este sobrenome, mas nunca se soube qual o verdadeiro. Não, disse ele, soterrando a cabeça no boné com decisão, não me contaria o que ia fazer, depois eu viria a saber, através dele próprio. E, sem mais uma palavra, deixou o Bar de Espanha e aparentemente a ilha, para dar as caras somente muitos dias depois.

Cabe agora um parêntese para informações importantes. Em algumas poucas ocasiões, mencionei aqui o Lupanar do Moura Ltda., tradicional firma do ramo do entretenimento erótico, sita em Nazaré das Farinhas e já por várias gerações administrada, com discrição, espírito público e competência, pelo clã dos Mouras, desde o dia remoto, ainda no fim do século 19, em que aportou à cidade o português Nuno Almeida Moura, disposto a jamais pôr os pés de volta em Portugal. Pois que, segundo até hoje narram os contadores de histórias, entre arrepios e esgares, fora vítima de tão medonho corneamento que, ouvi-lo descrito, enregelava nas veias o sangue de qualquer marido. Mas, espanou a poeira dos borzeguins, ergueu a cabeça com altivez, percebeu a demanda reprimida, abraçou a cidade, fundou seu estabelecimento e foi à luta.

Começou, então, a trajetória vitoriosa do Lupanar do Moura, que inovou desde seus primeiros dias, oferecendo uma tabela com preços adequados a vários segmentos de consumidores e iniciativas promocionais de grande visão mercadológica. Havia descontos especiais para o desfrute simultâneo das atenções de duas mulheres-damas (tipo "pague uma e meia e leve duas"), para estudantes, para militares e assim por diante. As promoções funcionam até hoje, embora, nestes tempos politicamente corretos, algumas tenham sido postas de lado, como a do Dia do Anão, que fez tanto sucesso que foi transformado na Semana do Anão - e dizem que, durante os vários anos em que rolou, vinha anão até da América do Norte, para tomar parte na indescritível fuzarca.

Assim de cabeça, não dá para rememorar nem uma pequena fração dos feitos e episódios que fizeram o renome do Lupanar, a exemplo do sucedido com o finado Zenóbio Merdinha, donzelão já quase desenganado para o sexo, com uns quarenta anos de irresignada virgindade nas costas, por todos deplorada, para grande vergonha sua e de seus familiares. Quando soube do caso, o então gerente da casa, Manelão Moura, considerou afrontosa tal ocorrência em seu território, mandou buscar Zenóbio em Itaparica, chamou uns amigos, deu uma festa e tacou em cima dele o Trio Maravilhoso Regina, conjunto poderosíssimo, composto por Regina Roda Viva, Regina Vai-Vai e Regina Boa Manobra, uma carioca, uma paulista e a outra sergipana, uma coisa fatal mesmo. No início, Zenóbio confirmou a reputação de astenia das vias luxuriosas, mas, após umas duas horas de empenho por parte do Trio, dizem que passou a ser homem de entrar lá na quarta de tarde e só sair na segunda ao meio-dia, obrigando todo mundo a fazer hora extra, até se dar seu glorioso passamento, quase aos noventinha e ainda freguês às terças, quintas e sábados.

E bem mais poderia ser contado, mas isto já é suficiente para que se compreenda o alvoroço instaurado depois que Zecamunista regressou à ilha com a novidade de que havia armado um esquema envolvendo não apenas o Lupanar do Moura, mas diversos congêneres respeitados em todo o Recôncavo. Previa que esse esquema iria reviver o dinamismo da economia da ilha e da região. Os serviços prestados pelos estabelecimentos filiados continuariam os mesmos de sempre, mas agora funcionários públicos, prefeitos e políticos em geral iam poder pagar normalmente por esses serviços com dinheiro público, sem precisar esconder nada, até com um sub ou um superfaturamentozinho, para adoçar a situação. Abrira-se um grande mercado, ia entrar dinheiro.

- Ah, vai ser tudo consultoria, como você falou antes.

- É, mais ou menos, só que eu vou aproveitar para fazer uma campanha educativa e usar o nome certo para esse tipo de transação, seja no Moura, seja em Brasília. O que se faz aqui no Brasil tem outro nome.

- Eu não sabia que havia um nome certo para isso.

- Mas há - disse ele. - Não é consultoria, é consultaria. E o consultor não é consultor, é consulteiro. Acompanhou meu raciocínio?






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sábado, abril 19, 2014

Problemas dos vizinhos - Míriam Leitão: O Globo

Problemas dos vizinhos - Míriam Leitão: O Globo
Coluna no GLOBO

A Argentina não escapa da recessão, segundo previsão da consultoria do país Abeceb.com. Na Venezuela, recessão é o de menos diante do tumulto social e político. Os dois estão em pleno descontrole inflacionário. O Chile tem as contas em ordem, economia estabilizada e cresce, mas, há pouco mais de um mês no cargo, Michelle Bachelet já enfrentou um terremoto e um incêndio de grandes proporções.

A previsão do FMI para o PIB da Argentina em 2014 é de 0,5%, ou seja, na linha d'água. Mas a do economista Dante Sica, diretor da consultoria Abeced.com e ex-vice-ministro de Indústria do país, é pior. Estima um número vermelho: -1,5% para o PIB e uma inflação de 34,8% este ano. Para 2015, prevê crescimento de 1% e inflação ainda alta, de 26,4%.

— O governo fez algumas correções, com um corte nos subsídios ao gás e à água, e um ajuste monetário e cambial, mas não fez um plano integral. A economia entrará em contração em 2014, com uma taxa de inflação em alta. Como os desequilíbrios continuarão — principalmente a inflação —, o investimento permanecerá fraco. Esperamos apenas uma leve melhora da atividade, só no ano que vem — diz Dante.

O PIB argentino cresceu em torno de 3% em 2013, puxado pela boa colheita agrícola e a recuperação das exportações automotivas para o Brasil. No terceiro trimestre, segundo o economista, houve aumento de gastos por motivos eleitorais. Depois, a economia perdeu ritmo. Ele estima que o PIB tenha caído 0,3% no primeiro trimestre de 2014 em relação ao quarto.

— Por enquanto, a desaceleração foi sentida mais pela indústria e, em particular, nos segmentos como o setor automotivo e o de metal-mecânica. Entretanto, o consumo também pode começar a mostrar maior fraqueza nos próximos meses, à medida em que se confirme uma queda do salário real e a estagnação do mercado de trabalho — prevê.

Os empresários argentinos estão preocupados. Há incerteza sobre a economia, volatilidade das regras do jogo, debilidade do mercado interno e aumento dos custos por conta da inflação elevada.

No Chile, que tem ótima nota de crédito e contas públicas equilibradas, o problema não está na economia. O país deve crescer 3,6% este ano, segundo o FMI, mas revive o pesadelo das tragédias. Michelle Bachelet já enfrentou dois momentos extremos: um terremoto de 8,2 graus e um incêndio "de dimensões nunca vistas", como ela mesma afirmou, em Valparaíso. As perdas humanas e os prejuízos ainda estão sendo contabilizados. No primeiro mandato de Bachelet, o Chile chorou a morte de 525 pessoas, provocadas por um terremoto de 8,8 graus. Esses eventos adiam um pouco os planos da presidente, que se elegeu com a promessa de aumentar os gastos sociais.

A Venezuela entrou em um beco sem saída. Na economia, o país não deve escapar da recessão este ano. O FMI estima que o PIB terá queda de 0,5% em 2014 e um tombo ainda maior, de 1%, em 2015. A economia vai mal, mas é apenas um ingrediente da crise.

Debaixo de sol forte, consumidores fazem filas para comprar produtos da cesta básica em tendas do lado de fora dos supermercados, como mostrou o "El Nacional". Foi a estratégia das redes para tentar "manter a ordem". É que estavam ocorrendo brigas dentro dos estabelecimentos por produtos, roubos, e "alguns comiam o alimento enquanto faziam fila". Com o índice de escassez batendo recorde, os venezuelanos têm dificuldades para comprar produtos básicos, como farinha, leite em pó, óleo e açúcar. A venda é racionada.

A inflação fechou 2013 em 56,3%. Apesar de ser grande produtora de petróleo, a Venezuela vive uma crise cambial e tem reservas baixas. Maduro comemora um ano no poder, os protestos não param, e o saldo é terrível: mais de 40 mortos, muitos feridos, e o número de presos passa de 2 mil. Nas reuniões entre governo e oposição, não houve clima de diálogo.



Enviada do meu iPad

Controle-se, Mino! - Demetrio Magnoli - Folha de S.Paulo

Controle-se, Mino! - 19/04/2014 - Demetrio Magnoli - Colunistas - Folha de S.Paulo

Estimado Mino Carta:

Desde que registrei, neste espaço, os textos de bajulação sistemática da ditadura militar publicados sob a sua direção na revista "Veja", em 1970, você dedicou-me dois editoriais, que apareceram em edições sucessivas de "CartaCapital" (4/4 e 11/4). São peças verborrágicas, odientas, patéticas. Compreendo seu tormento, mas creia-me: estou do seu lado. Esclarecendo a verdade factual, liberto-o do fardo de ocultar seu passado.

Os editoriais trouxeram-me à mente o sarcástico ensaio "A arte de ter razão", escrito por Schopenhauer em 1831. Nele, o filósofo enumerava as técnicas polêmicas vulgares destinadas a circundar um problema -e também ensinava a arte da refutação. Leia-o -ou, se preferir uma síntese didática, veja a "pirâmide do desacordo" de Paul Graham. Seus editoriais circulam nos níveis inferiores da "pirâmide": o xingamento e o ataque "ad hominem". Num voo mais alto de um único parágrafo, o segundo deles atinge o medíocre nível intermediário: a contradição (você afirma, contra provas documentais, que não bajulou a ditadura). Entendo: a refutação é, no caso, impossível.

O tal parágrafo diz que a bajulação era de brincadeirinha -uma ironia genial do herói da resistência. Mino, Mino, aí está o "argumento" perfeito para todos os jornais que, em momentos e países diferentes, bajularam os tiranos! Mas leia novamente, na minha coluna de 5/4, o que você escreveu e assinou. É a narrativa histórica completa fabricada pelo regime militar, que Médici enunciava e você repetia -a mesma que Bolsonaro ainda repete hoje. Brincalhões, esses dois aí, não?

Você brincou sem parar, naqueles anos. São edições e mais edições da "Veja" consagradas à puxação de saco explícita (não exagero, convenhamos: o acervo digital da revista está à distância de dois cliques do mouse de qualquer um). Na edição de 1º/4/1970, deparo-me com uma longa "ironia": a reportagem de capa "Os militares". São seis páginas dedicadas à apologia do poder militar que poderiam ter sido escritas pela assessoria de imprensa de Médici. Na edição de 4/2/1970, à página 25, encontro uma "ironia" breve: a manufatura de um álibi para os torturadores e o elogio da Oban. Desculpe-me, Mino, mas cito entre aspas.

O álibi: "(...) policiais e militares também sabem agora evitar melhor os erros. As notícias de prisões e confissões de terroristas não são mais anunciadas com tanta pressa, como antes. (...) A tática é não fornecer ao inimigo informações preciosas que lhe permitam (...) a recomposição de seus esquemas antes de qualquer ação repressiva". Dá vontade de vomitar, não, Mino? A "tática", você sabia muito bem (até eu sabia, aos 11 anos!), tinha outra finalidade: gerar a "janela da tortura", um intervalo apropriado antes que as "informações preciosas" chegassem a entidades de defesa dos direitos humanos.

O elogio: "Na semana passada, a Organização Bandeirante, que coordena o combate ao terror em São Paulo, divulgou todo o trabalho feito para desarticular (...) grupos terroristas. Foi uma notícia dada em momento oportuno, tranquilizando o povo e, ao mesmo tempo, evitando prestar serviço ao terrorismo". Vontade de vomitar, Mino.

Você não escreveu, diretamente, essas reportagens "brincalhonas". Mas, segundo seu próprio depoimento, dirigia a revista com plenos poderes e seus patrões só a liam depois de impressa. Você recomendou as reportagens repulsivas na Carta ao Leitor. Compreendo seu descontrole.

Hoje, contorcendo-se na jaula dos níveis inferiores da "pirâmide de Graham", você (justo você!) cobra críticas minhas ao apoio prestado pela Folha ao regime militar. Já o fiz, duas vezes, mas atenção: nunca editei a Folha; apenas escrevo colunas de opinião. Você é quem deve achar um modo de viver com seu passado. Quanto a mim, nesses tempos de Comissão da Verdade, tento ajudá-lo. Sério.



As mentiras 'verdadeiras' - IVES GANDRA DA SILVA MARTINS - O Estado de S.Paulo

As mentiras 'verdadeiras' - opiniao - versaoimpressa - Estadão

"Comparados ao carniceiro
profissional do Caribe, os
militares brasileiros parecem
escoteiros destreinados apartando um conflito de subúrbio"
In O Homem Mais Lúcido
do Brasil - as melhores frases
de Roberto Campos, p. 53,
organização Aristóteles
Drummond (Ed.
Resistência Cultural, 2014)

Na memória dos 50 anos do Movimento de 1964, que derrubou o governo Jango, tem sido ele criticado pelos que fizeram guerrilha, muitos deles treinados na sangrenta ditadura de Cuba e que objetivavam implantar um regime semelhante no Brasil, ao mesmo tempo que se vangloriam como sendo os únicos e verdadeiros democratas nacionais. Assim é que a própria Comissão da Verdade se negou a examinar os crimes dos que pegaram em armas - muitos deles terroristas, autores de atentados a shoppings e de homicídio de inocentes cidadãos -, procurando centrar-se exclusivamente nos praticados pelo governo militar, principalmente nas prisões onde houve tortura.
Com a autoridade de quem teve um pedido de confisco de seus bens e abertura de um inquérito policial militar (IPM), nos termos do Ato Institucional n.º 5, em 13/2/1969, pertenceu à época à Anistia Internacional, combatendo a tortura perpetrada pelo governo, foi conselheiro da OAB-SP, opondo-se ao regime, e presidiu o Instituto dos Advogados de São Paulo na redemocratização, quero enumerar algumas "mentiras verdadeiras" dos adeptos de Fidel Castro recém-convertidos à democracia.
A primeira é a de que foram os militares que quiseram a derrubada do governo. Na verdade, foi o povo que saiu às ruas, com o apoio da esmagadora maioria dos jornais, como se pode ver pelas fotografias do dia 19 de março de 1964 na Praça da Sé, diante das sinalizações do governo de que pretendia instalar o comunismo no Brasil. Depois do fatídico 13 de março, em que Jango incitou os sargentos a se rebelarem contra a hierarquia militar, até mesmo nomeando um oficial-general de três estrelas para comandar uma das Armas, os militares apenas atenderam ao clamor popular para derrubá-lo.
A segunda mentira é a de que a repressão militar levou à morte de milhares de opositores. Entre combatentes da guerrilha, mortes nas prisões ou desaparecimentos, foram 429 os opositores que perderam a vida, conforme Fernão Lara Mesquita mostrou em recente artigo publicado no Estado. Por sua vez, os guerrilheiros, entre inocentes mortos em atentados terroristas e soldados em combate, mataram 119 pessoas.
Comparados com os paredóns de Fidel Castro, que sem julgamento fuzilou milhares de cubanos, os militares foram, no máximo, aprendizes desajeitados.
A terceira mentira é a de que o movimento militar prejudicou idealistas, que só queriam o bem do Brasil. Em comissão pelos próprios opositores do governo de então organizada, foram indenizadas 40.300 pessoas com a fantástica importância de R$ 3,4 bilhões.
Eu poderia ter requerido indenização, pois o pedido do confisco de meus bens e a abertura de um IPM contra mim prejudicaram, por anos, minha carreira profissional. Mas não o fiz, pois minha oposição, à época, ao regime não era para fazer, mais tarde, um bom negócio, com ressarcimentos milionários.
A quarta mentira é a de que os democratas recém-convertidos queriam uma plena democracia para o Brasil. A atitude de "admiração cívica" da presidente Dilma Rousseff ao visitar o mais sangrento ditador das Américas, Fidel Castro, em fotografia estampada em todos os jornais, assim como o inequívoco apoio ao aprendiz de ditador que é Nicolás Maduro, além de aceitar o neoescravagismo cubano, recebendo médicos da ilha - tratados, no Brasil, como prisioneiros do regime, sobre ganharem muito menos do que seus colegas que integram o programa Mais Médicos -, parecem sinalizar exatamente o contrário. Apesar de viverem sob as regras da democracia brasileira, há algo de um saudosismo guerrilheiro e uma nostalgia que revela a atração inequívoca por regimes que ferem os ideais democráticos.
E para não me alongar mais neste artigo, a quinta mentira é a de que o Brasil regrediu naquele período. Nada é menos verdadeiro. Durante o regime militar os ministros da área econômica eram muito mais competentes que os atuais, tendo inserido o Brasil no caminho das grandes potências. Tanto que, ao final, o Brasil estava entre as dez maiores economias do mundo. Hoje, com o crescimento da inflação, a redução do PIB, o estouro das contas públicas, o desaparecimento do superávit primário do início do século, os déficits do balanço de pagamentos e a destruição dos superávits da balança comercial, além do aparelhamento da máquina pública por não concursados - amigos do rei -, o País vai perdendo o que conquistara com o brilhante Plano Real, do presidente Fernando Henrique Cardoso.
O ministro Torquato Jardim, em palestra em seminário na OAB-SP, que coordenei, sobre Reforma Política (2/4), ofereceu dados alarmantes. O presidente Barack Obama, numa economia quase oito vezes maior que a do Brasil, tem apenas 200 cargos comissionados. A presidente Dilma tem 22 mil!
Tais breves anotações - mas já longas para um artigo - objetivam mostrar que, em matéria de propaganda, Goebbels, titular de comunicação de Hitler, tinha razão. Uma mentira dita com o tom de verdade, pela força da propaganda que o poder oferece, passa a ser uma "verdade incontestável".
Espero que os historiadores futuros contem a realidade do período, a qual não pode ser contada fielmente por "não historiadores" que se intitulam mentores da "verdade", ou por comissões com esse estranho nome criadas.
PROFESSOR EMÉRITO DAS UNIVERSIDADES MACKENZIE, UNIP, UNIFIEO, UNIFMU, DO CIEE/O ESTADO DE S. PAULO, DA ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO E DA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA, É PRESIDENTE DO CONSELHO
SUPERIOR DE DIREITO DA FECOMÉRCIO-SP, FUNDADOR E PRESIDENTE HONORÁRIO DO CENTRO DE


Como evitar o massacre - CELSO MING Estadão

Como evitar o massacre - economia - versaoimpressa - Estadão

Como reduzir as mortes de motoqueiros no trânsito brasileiro? Conforme apontou esta Coluna no dia 30 de março, 14,6 mil motociclistas morreram em 2011 (40 por dia) em acidentes de trânsito no Brasil. Só para comparar, nesse mesmo ano, na Guerra do Afeganistão, houve 3.131 mortes de civis.

Aqui vão algumas sugestões de especialistas em saúde pública, segurança no trânsito e do próprio mercado de motos para enfrentar o problema.

Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), com base em ocorrências na zona oeste de São Paulo, concluiu que 67% dos motociclistas acidentados aprenderam a pilotar sozinhos e 45% conduziam motocicleta havia menos de dois anos. "Os acidentes ocorrem principalmente por despreparo e comportamento agressivo dos motociclistas", observa Júlia Maria Greve, autora da pesquisa Causas de Acidentes com Motociclistas, de 2013.

Ela recomenda que as autoescolas desenvolvam um trabalho de maior conscientização sobre segurança na condução das motos. "Também é preciso estimular a convivência pacífica. Os condutores dos outros veículos precisam entender que as motos chegaram para ficar."

O especialista em Educação e Segurança no Trânsito Eduardo Biavati pede alterações no processo de habilitação dos motociclistas: "O procedimento é antiquado e ultrapassado. É do tempo em que a motocicleta era apenas veículo de luxo e de lazer". Ele sustenta que a habilitação deveria ser progressiva. Assim, o motoqueiro só deveria ter permissão para percorrer vias de tráfego intensivo e mais perigoso depois que comprovasse maior experiência.

A Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo) também defende a segmentação da Carteira Nacional de Habilitação por categoria de cilindrada. "É bem diferente conduzir uma moto 150 e outra 450. O processo de habilitação tem de ser mais rigoroso. Precisa preparar o condutor para situações de risco e de pilotagem defensiva", afirma José Eduardo Gonçalves, diretor executivo da Abraciclo.

Biavati lembra que outros países foram bem-sucedidos na redução das mortes de motociclistas em acidentes a partir de mudanças na sinalização e na própria engenharia do trânsito: "A moto tende a sumir da visão dos demais motoristas no cenário dos grandes centros urbanos. É preciso adotar intervenções que acomodem melhor a motocicleta nesse cenário".

Na Espanha, por exemplo, entre 2007 e 2011, os acidentes com mortes de motociclistas caíram 47%. O resultado foi alcançado depois que o departamento de trânsito incluiu, no processo de habilitação, exercícios de pilotagem defensiva e exames realizados em via pública. A infraestrutura viária também passou por melhorias para que as pistas proporcionassem maior aderência aos pneus das motos.

Signatário da resolução da ONU que instituiu a Década de Ação pelo Trânsito Seguro 2011-2020, o governo brasileiro tem seis anos para adotar as medidas necessárias para reverter o cenário de guerra que se instalou nas ruas daqui. / COLABOROU DANIELLE VILLELA



sexta-feira, abril 18, 2014

Risco de racionamento - Míriam Leitão: O Globo

Risco de racionamento - Míriam Leitão: O Globo
O consultor Mário Veiga, que tem uma das mais respeitadas consultorias de energia do mercado, acha que é "recomendável" que o governo decrete racionamento a partir de maio. Sabe que isso não será feito e o risco é o de que se chegue ao fim do ano com apenas 10% de água nos reservatórios, o que seria uma situação "desesperadora" e forçaria um racionamento mais drástico.
Veiga, em entrevista que me concedeu na Globonews, deu um número assustador para a conta que está se acumulando entre 2013 e 2014 pela decisão da presidente Dilma de reduzir o preço da energia:
— Em 2013, a compensação pela redução ficou em R$ 18 bilhões, sendo que R$ 10 bilhões serão pagos pelo consumidor a partir do ano que vem, o resto o contribuinte pagou através de subsídios do Tesouro. Em 2014, serão R$ 10 bilhões do Tesouro e mais empréstimos às distribuidoras entre R$ 12 bi a R$ 24 bi. Ao todo, a conta chega a R$ 50 bilhões no pior cenário, e isso será pago em parcelas em cinco anos, o que dá 7% de aumento real por ano sem falar em outros custos.
A situação chegou nesse ponto por vários motivos. Um deles é que o governo errou e não fez os leilões necessários para permitir que as distribuidoras contratassem toda a energia que têm que fornecer:
— As distribuidoras têm zero de culpa. O governo falhou ao não fazer o leilão. Pela lei, as empresas têm que comprar em leilão toda a energia que vão vender. É como se fosse assim: como vai chover, a pessoa tem que comprar guarda-chuva. A lei manda que todos tenham guarda-chuva. Sempre houve pequenos problemas, mas que as distribuidoras pagavam e depois, no reajuste anual da tarifa, se compensavam. Só que agora houve um grande vencimento de contratos. Uma quantidade brutal de energia ficou sem contrato. Venceram 8.600 megawatts médios.
Isso desequilibrou as empresas financeiramente, porque elas têm que pagar um custo muito maior do que podem cobrar dos consumidores:
— Elas foram ao governo e disseram que iriam quebrar. O custo é de R$ 10 bi e isso é mais do que toda a renda das empresas somadas.
Mário Veiga disse que há um mistério no setor de energia: mesmo em anos em que a hidrologia é boa e começa-se com um nível alto nos reservatórios — isso aconteceu em 2010 e 2012 — o ano termina com baixo volume de água nos reservatórios. Ele fez cálculos, simulou o que houve em anos anteriores e como deveria ter se comportado o nível de água. Pelo modelo do governo, dá sempre mais do que realmente há de água poupada:
— Diante de um mistério como esse, tem que se fazer como Sherlock Holmes: eliminar todas as causas impossíveis e aí a causa possível é a mais provável.
A causa possível é que as hidrelétricas estão gastando mais água para gerar o volume previsto de energia:
— Alguns reservatórios são enormes, maiores que a Baía de Guanabara, e se medem calculando a profundidade. Mas é necessário atualizar o cálculo do fundo do reservatório porque pode haver assoreamento e sedimentos. Há décadas ninguém atualiza essas contas.
Então, mais do que não fazer investimento em aumento da eficiência das atuais hidrelétricas, o governo não tem sequer feito análises para saber quanto de água realmente há nos reservatórios e qual a dimensão deles. Toma como garantido a situação inicial desses reservatórios. Veiga compara o comportamento a uma pessoa que compra um carro zero que faz 30 quilômetros por litro e que com o passar do tempo perde eficiência, mas o dono continua contando com aquele mesmo consumo:
— O comportamento das hidrelétricas, a água que elas gastam para produzir cada MWh é maior do que está nas projeções oficiais.
Ele disse que é possível ver esse desequilíbrio avaliando as projeções do governo nos anos recentes em que, mesmo quando a situação estava normal, a queda de água foi maior do que o previsto. Este ano, piorou.
— Este ano, a situação está ruim. Vamos chegar ao fim de abril com 37% de água armazenada nos reservatórios. Numa análise de 18 anos, este é o segundo pior número. Só superado por 2001, o ano em que houve aquela coisa que não se pode falar a palavra.
Ele acha que seria prudente o governo começar a falar a palavra racionamento e no próximo mês, mas sabe que ele não será prudente. Isso aumenta a conta hidrológica e financeira para 2015. Até 2020 estaremos pagando essa conta.






Inflação mais branda - CELSO MING - Estadão

Inflação mais branda - economia - versaoimpressa - Estadão

Inflação mais branda

Dois indicadores ontem divulgados interromperam um período de secura de resultados positivos da economia. Um terceiro não é tão bom.

O primeiro desses números mais promissores foi o Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), que apontou para uma inflação mais baixa do que o esperado.

Para quem não está familiarizado com essas siglas, o IPCA-15 é o mesmo IPCA, o indicador de inflação que serve de base para a política de juros. A diferença é que o período de inflação não é medido pelo mês-calendário, mas pelo período do dia 15 do mês anterior ao dia 15 do mês de referência. É um jeito de antecipar a inflação.

Como a evolução do IPCA de março atingira 0,92%, um avanço do IPCA-15, divulgado uma quinzena depois, de apenas 0,73% mostra desaceleração da inflação. Não é tudo maravilha porque, embora mais atenuada, a inflação segue deteriorando o poder aquisitivo do consumidor. Não se concentra sobre dois ou três setores, mas está muito espalhada: seu índice de difusão é elevado, nada menos que 72% dos artigos que compõem a cesta de consumo (média) do brasileiro acusam alta de preços.

Se o avanço final do IPCA do mês ficar por aí mesmo, não será em abril que haverá a perfuração do teto da meta de inflação (acumulada de 6,5% ao final de dezembro). Isso acontecerá muito provavelmente em maio.

Do ponto de vista da política de juros, ainda é cedo para um prognóstico seguro. Se ficar tudo como está, o Banco Central se sentirá mais à vontade para cumprir sua intenção de dar por terminado o ciclo de alta de juros iniciado em abril de 2013. E, a partir da próxima reunião do Copom (dias 27 e 28 de maio), irá esperar para ver. Em todo o caso, até lá muita coisa ainda pode acontecer.

A outra informação relativamente positiva é o novo recuo do índice de desocupação (desemprego) para 5,0% da população economicamente ativa. Em fevereiro, estava nos 5,1%.

É menos gente à procura de trabalho, o que vai confirmando a fase de quase pleno-emprego. Tem mais a ver com a redução da força de trabalho do que com o aumento do emprego, tanto porque aumentou o tempo de estudo quanto porque também cresceu a tal geração nem-nem, que não estuda nem trabalha. (Os dados do Caged, o terceiro indicador divulgado ontem, também apontam para essa direção - veja o Confira.)

Aparentemente, a geração nem-nem se concentra no segmento de baixa renda e, paradoxalmente, está relacionada com o aumento do poder aquisitivo familiar, que deixa de pressionar os jovens a procurarem trabalho firme. Parecem contentar-se com ganhos esporádicos.

Essa situação tem seu lado ruim, uma vez que o mercado de trabalho continua aquecido, o que não favorece a redução da inflação. Também não favorece o aumento da atividade econômica, já que a situação de pleno-emprego pode ser obstáculo ao aumento da produção.

Ficou mais notória a redução de poder aquisitivo pela inflação. O coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azevedo, observou que a renda nominal do trabalhador já começa a ser comida pela inflação.





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    quarta-feira, abril 16, 2014

    A inflação, como é que fica? - CELSO MING - Estadão

    A inflação, como é que fica? - economia - versaoimpressa - Estadão

    O governo Dilma mostra certa perplexidade diante da escalada dos preços. Já entendeu que é alto o risco de que a inflação anual de 2014 salte para acima do teto da meta, de 6,5%, mas aparentemente não sabe como enfrentá-lo.

    A Pesquisa Focus, realizada pelo Banco Central (BC), já aponta projeção de 6,47% no período, número que tende a crescer nas próximas semanas.

    Embora o negue, o BC está sendo surpreendido. Em vez de comandar as expectativas, vem sendo rebocado por elas. Como não tem resposta, o governo Dilma prefere o discurso de que a inflação não é tão grave e que a dinâmica da economia corrigirá eventuais desvios produzidos pelos choques de oferta de alimentos. O BC conta com os efeitos positivos da valorização do real (queda do dólar), o que pode ajudar a reduzir os preços, e, ainda, até com o marasmo interno, que pode frear a demanda e os preços.

    Após a última reunião do Copom, nos dias 1.º e 2 de abril, o BC vinha dando a entender que pararia de apertar a política monetária. Seu principal argumento é que a carga dos juros ainda não produziu todo o efeito esperado, daí por que seria preciso dar tempo ao tempo.

    O problema é que a inflação nos próximos três ou quatro meses deve rodar acima do teto da meta e isso, por si só, tende a acionar os mecanismos de indexação (correções automáticas de preços), especialmente se o governo atender à pressão da indústria de veículos e baixar mais incentivos para destravar o consumo.

    Boa parte dessa perplexidade tem origem na postura original do governo, de descrédito da política de metas de inflação, "que só favorece os banqueiros". Em 2011, a decisão da presidente Dilma foi derrubar os juros básicos (Selic) para os dois pontos porcentuais ao ano em termos reais (descontada a inflação), na certeza de que não ocorreria nada, como se o Brasil pudesse repetir os padrões dos países mais avançados, que fixaram os juros perto de zero sem que a inflação ameace avançar para além de 2% ao ano.

    A estratégia da derrubada da Selic tinha por objetivo economizar recursos com o pagamento do serviço da dívida para serem direcionados para projetos sociais. Essa postura foi acompanhada da política de rédea mais solta nas despesas públicas e por permitir maior desvalorização do real (alta do dólar). O arranjo, que se denominou de Nova Matriz de Política Macroeconômica, produziu mais frustrações do que resultados.

    Nesse ambiente de consumo alto e frouxidão de controles, a inflação disparou. A partir de abril de 2012, o BC retomou o aperto monetário, como único recurso à mão para conter a alta.

    O governo sente que o sapato está apertando. De um lado, gostaria que o BC deixasse de puxar pelos juros, porque, além de cara, essa política não está mostrando serviço. De outro, entende que não é bom para a atual estratégia deixar o flanco tão exposto em pleno debate eleitoral, por mais que tente enfatizar outros pontos positivos da política econômica na percepção do eleitor, como o baixo nível do desemprego e a farta transferência de renda para os mais pobres.

    Por ora, a atitude do governo é a do goleiro traído pela trajetória da bola, que só pode torcer para que o gol não ocorra.







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    Recordação, sofrimento e saudade - ROBERTO DAMATTA - Estadão

    Recordação, sofrimento e saudade - cultura - versaoimpressa - Estadão
    David Brooks é o colunista cultural do New York Times. Neste último dia 8, ele escreveu uma profunda e corajosa crônica intitulada What Suffering Does? ("os desdobramentos do sofrimento" numa tradução livre e, por isso mesmo, precisa).


    Eu sou fascinado pelo modo direto usado pelos americanos para falar de assuntos complexos como a felicidade, o amor e o sofrimento. Ao contrário da pose brasileira em que o sujeito pensa que escrever complicado é sinônimo de competência, David Brooks inicia sua meditação invocando a dimensão fundamentalmente otimista da vida americana: a maximização da felicidade individual como uma busca possível e alcançável. Felicidade, aliás, que faz parte do credo constitucional americano, distinguindo a modernidade estadunidense de todas as outras pelo seu otimismo e busca de conforto amparado pela tecnologia, como percebeu Tocqueville.

    Ter a coragem de discutir o sofrimento levou-me ao que os antropólogos chamam de "American way of life". Uma representação coletiva na qual se acreditava que tudo poderia ser resolvido com bom senso e a honestidade seria - imaginem - o melhor negócio! Nela, o comum seria ser feliz. Sofrer, um acidente. Vale observar como o sofrimento se relaciona à perda de autonomia individual nas sociedades individualistas; e a solidão que individualiza representa o sofrer no caso das sociedades de compadrio ou relacionais, como a brasileira. Num caso, descobre-se a dependência do objeto amoroso perdido noutro, o isolamento revelador de solidão e abandono.

    O problema do cronista americano não é o perene e comovente "por que sofremos?" - questão que leva aos templos e a uma transcendência comparativa quase sempre pueril de achar que existe mesmo alguém que jamais sofreu quando, basta chegar perto do sujeito mais feliz, para logo descobri-lo como um irmão em ansiedade e amargura.

    Por outro lado, o texto de Brooks não é evolucionista, mas estruturalista. Ele não quer saber das origens nem cogita uma era utópica e salvadora, sem sofrimento. O que ele faz é discutir os desdobramentos do inevitável e constitutivo ato de sofrer.

    Não há, diz Brooks, a menor possibilidade de esperar somente a felicidade, porque em toda recordação nenhum de nós fala somente da felicidade. As perdas e o sofrimento se misturam às memórias felizes. "As pessoas buscam a felicidade - diz -, mas sentem que são feitas por meio do sofrimento."

    Para quem pensa que o jornal está apenas em busca do escândalo, eis um cronista maior mostrando como o rotineiro periódico ajuda a encontrar informação e sabedoria. O sofrimento tem, sem dúvida, um lado destrutivo a ser evitado, mas ele é um formidável instrumento de empatia e de marginalidade positiva.

    Tirando-nos da inconsciência das boas rotinas, quando não tínhamos tempo ou motivo para "pensar na vida" como falamos no Brasil, o sofrimento nos põe cara a cara com a honestidade, a coragem, a pusilanimidade e a aceitação. A aceitação de que tudo cabe dentro de nós como um passo decisivo para reagir contra uma doença ou uma perda não apenas dolorosa, mas irreparável.

    O sofrimento não permite evasões. Ele limita brutalmente as nossas ilusões de autonomia e de liberdade. Ele também é exclusivo e desequilibrado, pois não há quem não considere sofrer mais do que julgava cabível ou justo. Ademais, não há cura. Há um englobamento e um duro canibalismo - aceitação é o seu nome.

    Numa conferida sobre a poesia de Camões, proferida no Colégio Vassar no dia 21 de abril de 1909, Joaquim Nabuco relaciona amor e saudade. Essa, diz, seria a palavra mais bela de nossa língua e, como um antecipador de David Brooks, remarca que para traduzir saudade em inglês, seria preciso falar em lembrança, luto, desejo e amor; essas moedas do sofrimento. Nos Estados Unidos dos individualismos e de uma inabalável crença na tecnologia e no progresso, insinua-se o cronista para advertir que a felicidade proposta pelo "American way of life" é possível, mas que uma existência sem sofrimento é impossível.

    Entre nós brasileiros - relacionais e certos de que felicidade não é a regra dos nossos destinos - é a saudade "polida pelas lágrimas", como assinala Nabuco, que permite a reconciliação com o sofrimento. É ela que pacientemente realiza o trabalho de transformar a solidão da dor, do sofrimento, da mágoa, do ressentimento, e da desesperança em saudade!

    Túmulo abençoado, leito amoroso e oficina da vida, a saudade é a palavra mágica que reconcilia o interior fantasioso e agitado de cada um de nós, com a realidade imprevista e dura do mundo.






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