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sábado, abril 19, 2014

Problemas dos vizinhos - Míriam Leitão: O Globo

Problemas dos vizinhos - Míriam Leitão: O Globo
Coluna no GLOBO

A Argentina não escapa da recessão, segundo previsão da consultoria do país Abeceb.com. Na Venezuela, recessão é o de menos diante do tumulto social e político. Os dois estão em pleno descontrole inflacionário. O Chile tem as contas em ordem, economia estabilizada e cresce, mas, há pouco mais de um mês no cargo, Michelle Bachelet já enfrentou um terremoto e um incêndio de grandes proporções.

A previsão do FMI para o PIB da Argentina em 2014 é de 0,5%, ou seja, na linha d'água. Mas a do economista Dante Sica, diretor da consultoria Abeced.com e ex-vice-ministro de Indústria do país, é pior. Estima um número vermelho: -1,5% para o PIB e uma inflação de 34,8% este ano. Para 2015, prevê crescimento de 1% e inflação ainda alta, de 26,4%.

— O governo fez algumas correções, com um corte nos subsídios ao gás e à água, e um ajuste monetário e cambial, mas não fez um plano integral. A economia entrará em contração em 2014, com uma taxa de inflação em alta. Como os desequilíbrios continuarão — principalmente a inflação —, o investimento permanecerá fraco. Esperamos apenas uma leve melhora da atividade, só no ano que vem — diz Dante.

O PIB argentino cresceu em torno de 3% em 2013, puxado pela boa colheita agrícola e a recuperação das exportações automotivas para o Brasil. No terceiro trimestre, segundo o economista, houve aumento de gastos por motivos eleitorais. Depois, a economia perdeu ritmo. Ele estima que o PIB tenha caído 0,3% no primeiro trimestre de 2014 em relação ao quarto.

— Por enquanto, a desaceleração foi sentida mais pela indústria e, em particular, nos segmentos como o setor automotivo e o de metal-mecânica. Entretanto, o consumo também pode começar a mostrar maior fraqueza nos próximos meses, à medida em que se confirme uma queda do salário real e a estagnação do mercado de trabalho — prevê.

Os empresários argentinos estão preocupados. Há incerteza sobre a economia, volatilidade das regras do jogo, debilidade do mercado interno e aumento dos custos por conta da inflação elevada.

No Chile, que tem ótima nota de crédito e contas públicas equilibradas, o problema não está na economia. O país deve crescer 3,6% este ano, segundo o FMI, mas revive o pesadelo das tragédias. Michelle Bachelet já enfrentou dois momentos extremos: um terremoto de 8,2 graus e um incêndio "de dimensões nunca vistas", como ela mesma afirmou, em Valparaíso. As perdas humanas e os prejuízos ainda estão sendo contabilizados. No primeiro mandato de Bachelet, o Chile chorou a morte de 525 pessoas, provocadas por um terremoto de 8,8 graus. Esses eventos adiam um pouco os planos da presidente, que se elegeu com a promessa de aumentar os gastos sociais.

A Venezuela entrou em um beco sem saída. Na economia, o país não deve escapar da recessão este ano. O FMI estima que o PIB terá queda de 0,5% em 2014 e um tombo ainda maior, de 1%, em 2015. A economia vai mal, mas é apenas um ingrediente da crise.

Debaixo de sol forte, consumidores fazem filas para comprar produtos da cesta básica em tendas do lado de fora dos supermercados, como mostrou o "El Nacional". Foi a estratégia das redes para tentar "manter a ordem". É que estavam ocorrendo brigas dentro dos estabelecimentos por produtos, roubos, e "alguns comiam o alimento enquanto faziam fila". Com o índice de escassez batendo recorde, os venezuelanos têm dificuldades para comprar produtos básicos, como farinha, leite em pó, óleo e açúcar. A venda é racionada.

A inflação fechou 2013 em 56,3%. Apesar de ser grande produtora de petróleo, a Venezuela vive uma crise cambial e tem reservas baixas. Maduro comemora um ano no poder, os protestos não param, e o saldo é terrível: mais de 40 mortos, muitos feridos, e o número de presos passa de 2 mil. Nas reuniões entre governo e oposição, não houve clima de diálogo.



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Controle-se, Mino! - Demetrio Magnoli - Folha de S.Paulo

Controle-se, Mino! - 19/04/2014 - Demetrio Magnoli - Colunistas - Folha de S.Paulo

Estimado Mino Carta:

Desde que registrei, neste espaço, os textos de bajulação sistemática da ditadura militar publicados sob a sua direção na revista "Veja", em 1970, você dedicou-me dois editoriais, que apareceram em edições sucessivas de "CartaCapital" (4/4 e 11/4). São peças verborrágicas, odientas, patéticas. Compreendo seu tormento, mas creia-me: estou do seu lado. Esclarecendo a verdade factual, liberto-o do fardo de ocultar seu passado.

Os editoriais trouxeram-me à mente o sarcástico ensaio "A arte de ter razão", escrito por Schopenhauer em 1831. Nele, o filósofo enumerava as técnicas polêmicas vulgares destinadas a circundar um problema -e também ensinava a arte da refutação. Leia-o -ou, se preferir uma síntese didática, veja a "pirâmide do desacordo" de Paul Graham. Seus editoriais circulam nos níveis inferiores da "pirâmide": o xingamento e o ataque "ad hominem". Num voo mais alto de um único parágrafo, o segundo deles atinge o medíocre nível intermediário: a contradição (você afirma, contra provas documentais, que não bajulou a ditadura). Entendo: a refutação é, no caso, impossível.

O tal parágrafo diz que a bajulação era de brincadeirinha -uma ironia genial do herói da resistência. Mino, Mino, aí está o "argumento" perfeito para todos os jornais que, em momentos e países diferentes, bajularam os tiranos! Mas leia novamente, na minha coluna de 5/4, o que você escreveu e assinou. É a narrativa histórica completa fabricada pelo regime militar, que Médici enunciava e você repetia -a mesma que Bolsonaro ainda repete hoje. Brincalhões, esses dois aí, não?

Você brincou sem parar, naqueles anos. São edições e mais edições da "Veja" consagradas à puxação de saco explícita (não exagero, convenhamos: o acervo digital da revista está à distância de dois cliques do mouse de qualquer um). Na edição de 1º/4/1970, deparo-me com uma longa "ironia": a reportagem de capa "Os militares". São seis páginas dedicadas à apologia do poder militar que poderiam ter sido escritas pela assessoria de imprensa de Médici. Na edição de 4/2/1970, à página 25, encontro uma "ironia" breve: a manufatura de um álibi para os torturadores e o elogio da Oban. Desculpe-me, Mino, mas cito entre aspas.

O álibi: "(...) policiais e militares também sabem agora evitar melhor os erros. As notícias de prisões e confissões de terroristas não são mais anunciadas com tanta pressa, como antes. (...) A tática é não fornecer ao inimigo informações preciosas que lhe permitam (...) a recomposição de seus esquemas antes de qualquer ação repressiva". Dá vontade de vomitar, não, Mino? A "tática", você sabia muito bem (até eu sabia, aos 11 anos!), tinha outra finalidade: gerar a "janela da tortura", um intervalo apropriado antes que as "informações preciosas" chegassem a entidades de defesa dos direitos humanos.

O elogio: "Na semana passada, a Organização Bandeirante, que coordena o combate ao terror em São Paulo, divulgou todo o trabalho feito para desarticular (...) grupos terroristas. Foi uma notícia dada em momento oportuno, tranquilizando o povo e, ao mesmo tempo, evitando prestar serviço ao terrorismo". Vontade de vomitar, Mino.

Você não escreveu, diretamente, essas reportagens "brincalhonas". Mas, segundo seu próprio depoimento, dirigia a revista com plenos poderes e seus patrões só a liam depois de impressa. Você recomendou as reportagens repulsivas na Carta ao Leitor. Compreendo seu descontrole.

Hoje, contorcendo-se na jaula dos níveis inferiores da "pirâmide de Graham", você (justo você!) cobra críticas minhas ao apoio prestado pela Folha ao regime militar. Já o fiz, duas vezes, mas atenção: nunca editei a Folha; apenas escrevo colunas de opinião. Você é quem deve achar um modo de viver com seu passado. Quanto a mim, nesses tempos de Comissão da Verdade, tento ajudá-lo. Sério.



As mentiras 'verdadeiras' - IVES GANDRA DA SILVA MARTINS - O Estado de S.Paulo

As mentiras 'verdadeiras' - opiniao - versaoimpressa - Estadão

"Comparados ao carniceiro
profissional do Caribe, os
militares brasileiros parecem
escoteiros destreinados apartando um conflito de subúrbio"
In O Homem Mais Lúcido
do Brasil - as melhores frases
de Roberto Campos, p. 53,
organização Aristóteles
Drummond (Ed.
Resistência Cultural, 2014)

Na memória dos 50 anos do Movimento de 1964, que derrubou o governo Jango, tem sido ele criticado pelos que fizeram guerrilha, muitos deles treinados na sangrenta ditadura de Cuba e que objetivavam implantar um regime semelhante no Brasil, ao mesmo tempo que se vangloriam como sendo os únicos e verdadeiros democratas nacionais. Assim é que a própria Comissão da Verdade se negou a examinar os crimes dos que pegaram em armas - muitos deles terroristas, autores de atentados a shoppings e de homicídio de inocentes cidadãos -, procurando centrar-se exclusivamente nos praticados pelo governo militar, principalmente nas prisões onde houve tortura.
Com a autoridade de quem teve um pedido de confisco de seus bens e abertura de um inquérito policial militar (IPM), nos termos do Ato Institucional n.º 5, em 13/2/1969, pertenceu à época à Anistia Internacional, combatendo a tortura perpetrada pelo governo, foi conselheiro da OAB-SP, opondo-se ao regime, e presidiu o Instituto dos Advogados de São Paulo na redemocratização, quero enumerar algumas "mentiras verdadeiras" dos adeptos de Fidel Castro recém-convertidos à democracia.
A primeira é a de que foram os militares que quiseram a derrubada do governo. Na verdade, foi o povo que saiu às ruas, com o apoio da esmagadora maioria dos jornais, como se pode ver pelas fotografias do dia 19 de março de 1964 na Praça da Sé, diante das sinalizações do governo de que pretendia instalar o comunismo no Brasil. Depois do fatídico 13 de março, em que Jango incitou os sargentos a se rebelarem contra a hierarquia militar, até mesmo nomeando um oficial-general de três estrelas para comandar uma das Armas, os militares apenas atenderam ao clamor popular para derrubá-lo.
A segunda mentira é a de que a repressão militar levou à morte de milhares de opositores. Entre combatentes da guerrilha, mortes nas prisões ou desaparecimentos, foram 429 os opositores que perderam a vida, conforme Fernão Lara Mesquita mostrou em recente artigo publicado no Estado. Por sua vez, os guerrilheiros, entre inocentes mortos em atentados terroristas e soldados em combate, mataram 119 pessoas.
Comparados com os paredóns de Fidel Castro, que sem julgamento fuzilou milhares de cubanos, os militares foram, no máximo, aprendizes desajeitados.
A terceira mentira é a de que o movimento militar prejudicou idealistas, que só queriam o bem do Brasil. Em comissão pelos próprios opositores do governo de então organizada, foram indenizadas 40.300 pessoas com a fantástica importância de R$ 3,4 bilhões.
Eu poderia ter requerido indenização, pois o pedido do confisco de meus bens e a abertura de um IPM contra mim prejudicaram, por anos, minha carreira profissional. Mas não o fiz, pois minha oposição, à época, ao regime não era para fazer, mais tarde, um bom negócio, com ressarcimentos milionários.
A quarta mentira é a de que os democratas recém-convertidos queriam uma plena democracia para o Brasil. A atitude de "admiração cívica" da presidente Dilma Rousseff ao visitar o mais sangrento ditador das Américas, Fidel Castro, em fotografia estampada em todos os jornais, assim como o inequívoco apoio ao aprendiz de ditador que é Nicolás Maduro, além de aceitar o neoescravagismo cubano, recebendo médicos da ilha - tratados, no Brasil, como prisioneiros do regime, sobre ganharem muito menos do que seus colegas que integram o programa Mais Médicos -, parecem sinalizar exatamente o contrário. Apesar de viverem sob as regras da democracia brasileira, há algo de um saudosismo guerrilheiro e uma nostalgia que revela a atração inequívoca por regimes que ferem os ideais democráticos.
E para não me alongar mais neste artigo, a quinta mentira é a de que o Brasil regrediu naquele período. Nada é menos verdadeiro. Durante o regime militar os ministros da área econômica eram muito mais competentes que os atuais, tendo inserido o Brasil no caminho das grandes potências. Tanto que, ao final, o Brasil estava entre as dez maiores economias do mundo. Hoje, com o crescimento da inflação, a redução do PIB, o estouro das contas públicas, o desaparecimento do superávit primário do início do século, os déficits do balanço de pagamentos e a destruição dos superávits da balança comercial, além do aparelhamento da máquina pública por não concursados - amigos do rei -, o País vai perdendo o que conquistara com o brilhante Plano Real, do presidente Fernando Henrique Cardoso.
O ministro Torquato Jardim, em palestra em seminário na OAB-SP, que coordenei, sobre Reforma Política (2/4), ofereceu dados alarmantes. O presidente Barack Obama, numa economia quase oito vezes maior que a do Brasil, tem apenas 200 cargos comissionados. A presidente Dilma tem 22 mil!
Tais breves anotações - mas já longas para um artigo - objetivam mostrar que, em matéria de propaganda, Goebbels, titular de comunicação de Hitler, tinha razão. Uma mentira dita com o tom de verdade, pela força da propaganda que o poder oferece, passa a ser uma "verdade incontestável".
Espero que os historiadores futuros contem a realidade do período, a qual não pode ser contada fielmente por "não historiadores" que se intitulam mentores da "verdade", ou por comissões com esse estranho nome criadas.
PROFESSOR EMÉRITO DAS UNIVERSIDADES MACKENZIE, UNIP, UNIFIEO, UNIFMU, DO CIEE/O ESTADO DE S. PAULO, DA ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO E DA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA, É PRESIDENTE DO CONSELHO
SUPERIOR DE DIREITO DA FECOMÉRCIO-SP, FUNDADOR E PRESIDENTE HONORÁRIO DO CENTRO DE


Como evitar o massacre - CELSO MING Estadão

Como evitar o massacre - economia - versaoimpressa - Estadão

Como reduzir as mortes de motoqueiros no trânsito brasileiro? Conforme apontou esta Coluna no dia 30 de março, 14,6 mil motociclistas morreram em 2011 (40 por dia) em acidentes de trânsito no Brasil. Só para comparar, nesse mesmo ano, na Guerra do Afeganistão, houve 3.131 mortes de civis.

Aqui vão algumas sugestões de especialistas em saúde pública, segurança no trânsito e do próprio mercado de motos para enfrentar o problema.

Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), com base em ocorrências na zona oeste de São Paulo, concluiu que 67% dos motociclistas acidentados aprenderam a pilotar sozinhos e 45% conduziam motocicleta havia menos de dois anos. "Os acidentes ocorrem principalmente por despreparo e comportamento agressivo dos motociclistas", observa Júlia Maria Greve, autora da pesquisa Causas de Acidentes com Motociclistas, de 2013.

Ela recomenda que as autoescolas desenvolvam um trabalho de maior conscientização sobre segurança na condução das motos. "Também é preciso estimular a convivência pacífica. Os condutores dos outros veículos precisam entender que as motos chegaram para ficar."

O especialista em Educação e Segurança no Trânsito Eduardo Biavati pede alterações no processo de habilitação dos motociclistas: "O procedimento é antiquado e ultrapassado. É do tempo em que a motocicleta era apenas veículo de luxo e de lazer". Ele sustenta que a habilitação deveria ser progressiva. Assim, o motoqueiro só deveria ter permissão para percorrer vias de tráfego intensivo e mais perigoso depois que comprovasse maior experiência.

A Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo) também defende a segmentação da Carteira Nacional de Habilitação por categoria de cilindrada. "É bem diferente conduzir uma moto 150 e outra 450. O processo de habilitação tem de ser mais rigoroso. Precisa preparar o condutor para situações de risco e de pilotagem defensiva", afirma José Eduardo Gonçalves, diretor executivo da Abraciclo.

Biavati lembra que outros países foram bem-sucedidos na redução das mortes de motociclistas em acidentes a partir de mudanças na sinalização e na própria engenharia do trânsito: "A moto tende a sumir da visão dos demais motoristas no cenário dos grandes centros urbanos. É preciso adotar intervenções que acomodem melhor a motocicleta nesse cenário".

Na Espanha, por exemplo, entre 2007 e 2011, os acidentes com mortes de motociclistas caíram 47%. O resultado foi alcançado depois que o departamento de trânsito incluiu, no processo de habilitação, exercícios de pilotagem defensiva e exames realizados em via pública. A infraestrutura viária também passou por melhorias para que as pistas proporcionassem maior aderência aos pneus das motos.

Signatário da resolução da ONU que instituiu a Década de Ação pelo Trânsito Seguro 2011-2020, o governo brasileiro tem seis anos para adotar as medidas necessárias para reverter o cenário de guerra que se instalou nas ruas daqui. / COLABOROU DANIELLE VILLELA



sexta-feira, abril 18, 2014

Risco de racionamento - Míriam Leitão: O Globo

Risco de racionamento - Míriam Leitão: O Globo
O consultor Mário Veiga, que tem uma das mais respeitadas consultorias de energia do mercado, acha que é "recomendável" que o governo decrete racionamento a partir de maio. Sabe que isso não será feito e o risco é o de que se chegue ao fim do ano com apenas 10% de água nos reservatórios, o que seria uma situação "desesperadora" e forçaria um racionamento mais drástico.
Veiga, em entrevista que me concedeu na Globonews, deu um número assustador para a conta que está se acumulando entre 2013 e 2014 pela decisão da presidente Dilma de reduzir o preço da energia:
— Em 2013, a compensação pela redução ficou em R$ 18 bilhões, sendo que R$ 10 bilhões serão pagos pelo consumidor a partir do ano que vem, o resto o contribuinte pagou através de subsídios do Tesouro. Em 2014, serão R$ 10 bilhões do Tesouro e mais empréstimos às distribuidoras entre R$ 12 bi a R$ 24 bi. Ao todo, a conta chega a R$ 50 bilhões no pior cenário, e isso será pago em parcelas em cinco anos, o que dá 7% de aumento real por ano sem falar em outros custos.
A situação chegou nesse ponto por vários motivos. Um deles é que o governo errou e não fez os leilões necessários para permitir que as distribuidoras contratassem toda a energia que têm que fornecer:
— As distribuidoras têm zero de culpa. O governo falhou ao não fazer o leilão. Pela lei, as empresas têm que comprar em leilão toda a energia que vão vender. É como se fosse assim: como vai chover, a pessoa tem que comprar guarda-chuva. A lei manda que todos tenham guarda-chuva. Sempre houve pequenos problemas, mas que as distribuidoras pagavam e depois, no reajuste anual da tarifa, se compensavam. Só que agora houve um grande vencimento de contratos. Uma quantidade brutal de energia ficou sem contrato. Venceram 8.600 megawatts médios.
Isso desequilibrou as empresas financeiramente, porque elas têm que pagar um custo muito maior do que podem cobrar dos consumidores:
— Elas foram ao governo e disseram que iriam quebrar. O custo é de R$ 10 bi e isso é mais do que toda a renda das empresas somadas.
Mário Veiga disse que há um mistério no setor de energia: mesmo em anos em que a hidrologia é boa e começa-se com um nível alto nos reservatórios — isso aconteceu em 2010 e 2012 — o ano termina com baixo volume de água nos reservatórios. Ele fez cálculos, simulou o que houve em anos anteriores e como deveria ter se comportado o nível de água. Pelo modelo do governo, dá sempre mais do que realmente há de água poupada:
— Diante de um mistério como esse, tem que se fazer como Sherlock Holmes: eliminar todas as causas impossíveis e aí a causa possível é a mais provável.
A causa possível é que as hidrelétricas estão gastando mais água para gerar o volume previsto de energia:
— Alguns reservatórios são enormes, maiores que a Baía de Guanabara, e se medem calculando a profundidade. Mas é necessário atualizar o cálculo do fundo do reservatório porque pode haver assoreamento e sedimentos. Há décadas ninguém atualiza essas contas.
Então, mais do que não fazer investimento em aumento da eficiência das atuais hidrelétricas, o governo não tem sequer feito análises para saber quanto de água realmente há nos reservatórios e qual a dimensão deles. Toma como garantido a situação inicial desses reservatórios. Veiga compara o comportamento a uma pessoa que compra um carro zero que faz 30 quilômetros por litro e que com o passar do tempo perde eficiência, mas o dono continua contando com aquele mesmo consumo:
— O comportamento das hidrelétricas, a água que elas gastam para produzir cada MWh é maior do que está nas projeções oficiais.
Ele disse que é possível ver esse desequilíbrio avaliando as projeções do governo nos anos recentes em que, mesmo quando a situação estava normal, a queda de água foi maior do que o previsto. Este ano, piorou.
— Este ano, a situação está ruim. Vamos chegar ao fim de abril com 37% de água armazenada nos reservatórios. Numa análise de 18 anos, este é o segundo pior número. Só superado por 2001, o ano em que houve aquela coisa que não se pode falar a palavra.
Ele acha que seria prudente o governo começar a falar a palavra racionamento e no próximo mês, mas sabe que ele não será prudente. Isso aumenta a conta hidrológica e financeira para 2015. Até 2020 estaremos pagando essa conta.






Inflação mais branda - CELSO MING - Estadão

Inflação mais branda - economia - versaoimpressa - Estadão

Inflação mais branda

Dois indicadores ontem divulgados interromperam um período de secura de resultados positivos da economia. Um terceiro não é tão bom.

O primeiro desses números mais promissores foi o Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), que apontou para uma inflação mais baixa do que o esperado.

Para quem não está familiarizado com essas siglas, o IPCA-15 é o mesmo IPCA, o indicador de inflação que serve de base para a política de juros. A diferença é que o período de inflação não é medido pelo mês-calendário, mas pelo período do dia 15 do mês anterior ao dia 15 do mês de referência. É um jeito de antecipar a inflação.

Como a evolução do IPCA de março atingira 0,92%, um avanço do IPCA-15, divulgado uma quinzena depois, de apenas 0,73% mostra desaceleração da inflação. Não é tudo maravilha porque, embora mais atenuada, a inflação segue deteriorando o poder aquisitivo do consumidor. Não se concentra sobre dois ou três setores, mas está muito espalhada: seu índice de difusão é elevado, nada menos que 72% dos artigos que compõem a cesta de consumo (média) do brasileiro acusam alta de preços.

Se o avanço final do IPCA do mês ficar por aí mesmo, não será em abril que haverá a perfuração do teto da meta de inflação (acumulada de 6,5% ao final de dezembro). Isso acontecerá muito provavelmente em maio.

Do ponto de vista da política de juros, ainda é cedo para um prognóstico seguro. Se ficar tudo como está, o Banco Central se sentirá mais à vontade para cumprir sua intenção de dar por terminado o ciclo de alta de juros iniciado em abril de 2013. E, a partir da próxima reunião do Copom (dias 27 e 28 de maio), irá esperar para ver. Em todo o caso, até lá muita coisa ainda pode acontecer.

A outra informação relativamente positiva é o novo recuo do índice de desocupação (desemprego) para 5,0% da população economicamente ativa. Em fevereiro, estava nos 5,1%.

É menos gente à procura de trabalho, o que vai confirmando a fase de quase pleno-emprego. Tem mais a ver com a redução da força de trabalho do que com o aumento do emprego, tanto porque aumentou o tempo de estudo quanto porque também cresceu a tal geração nem-nem, que não estuda nem trabalha. (Os dados do Caged, o terceiro indicador divulgado ontem, também apontam para essa direção - veja o Confira.)

Aparentemente, a geração nem-nem se concentra no segmento de baixa renda e, paradoxalmente, está relacionada com o aumento do poder aquisitivo familiar, que deixa de pressionar os jovens a procurarem trabalho firme. Parecem contentar-se com ganhos esporádicos.

Essa situação tem seu lado ruim, uma vez que o mercado de trabalho continua aquecido, o que não favorece a redução da inflação. Também não favorece o aumento da atividade econômica, já que a situação de pleno-emprego pode ser obstáculo ao aumento da produção.

Ficou mais notória a redução de poder aquisitivo pela inflação. O coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, Cimar Azevedo, observou que a renda nominal do trabalhador já começa a ser comida pela inflação.





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    quarta-feira, abril 16, 2014

    A inflação, como é que fica? - CELSO MING - Estadão

    A inflação, como é que fica? - economia - versaoimpressa - Estadão

    O governo Dilma mostra certa perplexidade diante da escalada dos preços. Já entendeu que é alto o risco de que a inflação anual de 2014 salte para acima do teto da meta, de 6,5%, mas aparentemente não sabe como enfrentá-lo.

    A Pesquisa Focus, realizada pelo Banco Central (BC), já aponta projeção de 6,47% no período, número que tende a crescer nas próximas semanas.

    Embora o negue, o BC está sendo surpreendido. Em vez de comandar as expectativas, vem sendo rebocado por elas. Como não tem resposta, o governo Dilma prefere o discurso de que a inflação não é tão grave e que a dinâmica da economia corrigirá eventuais desvios produzidos pelos choques de oferta de alimentos. O BC conta com os efeitos positivos da valorização do real (queda do dólar), o que pode ajudar a reduzir os preços, e, ainda, até com o marasmo interno, que pode frear a demanda e os preços.

    Após a última reunião do Copom, nos dias 1.º e 2 de abril, o BC vinha dando a entender que pararia de apertar a política monetária. Seu principal argumento é que a carga dos juros ainda não produziu todo o efeito esperado, daí por que seria preciso dar tempo ao tempo.

    O problema é que a inflação nos próximos três ou quatro meses deve rodar acima do teto da meta e isso, por si só, tende a acionar os mecanismos de indexação (correções automáticas de preços), especialmente se o governo atender à pressão da indústria de veículos e baixar mais incentivos para destravar o consumo.

    Boa parte dessa perplexidade tem origem na postura original do governo, de descrédito da política de metas de inflação, "que só favorece os banqueiros". Em 2011, a decisão da presidente Dilma foi derrubar os juros básicos (Selic) para os dois pontos porcentuais ao ano em termos reais (descontada a inflação), na certeza de que não ocorreria nada, como se o Brasil pudesse repetir os padrões dos países mais avançados, que fixaram os juros perto de zero sem que a inflação ameace avançar para além de 2% ao ano.

    A estratégia da derrubada da Selic tinha por objetivo economizar recursos com o pagamento do serviço da dívida para serem direcionados para projetos sociais. Essa postura foi acompanhada da política de rédea mais solta nas despesas públicas e por permitir maior desvalorização do real (alta do dólar). O arranjo, que se denominou de Nova Matriz de Política Macroeconômica, produziu mais frustrações do que resultados.

    Nesse ambiente de consumo alto e frouxidão de controles, a inflação disparou. A partir de abril de 2012, o BC retomou o aperto monetário, como único recurso à mão para conter a alta.

    O governo sente que o sapato está apertando. De um lado, gostaria que o BC deixasse de puxar pelos juros, porque, além de cara, essa política não está mostrando serviço. De outro, entende que não é bom para a atual estratégia deixar o flanco tão exposto em pleno debate eleitoral, por mais que tente enfatizar outros pontos positivos da política econômica na percepção do eleitor, como o baixo nível do desemprego e a farta transferência de renda para os mais pobres.

    Por ora, a atitude do governo é a do goleiro traído pela trajetória da bola, que só pode torcer para que o gol não ocorra.







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    Recordação, sofrimento e saudade - ROBERTO DAMATTA - Estadão

    Recordação, sofrimento e saudade - cultura - versaoimpressa - Estadão
    David Brooks é o colunista cultural do New York Times. Neste último dia 8, ele escreveu uma profunda e corajosa crônica intitulada What Suffering Does? ("os desdobramentos do sofrimento" numa tradução livre e, por isso mesmo, precisa).


    Eu sou fascinado pelo modo direto usado pelos americanos para falar de assuntos complexos como a felicidade, o amor e o sofrimento. Ao contrário da pose brasileira em que o sujeito pensa que escrever complicado é sinônimo de competência, David Brooks inicia sua meditação invocando a dimensão fundamentalmente otimista da vida americana: a maximização da felicidade individual como uma busca possível e alcançável. Felicidade, aliás, que faz parte do credo constitucional americano, distinguindo a modernidade estadunidense de todas as outras pelo seu otimismo e busca de conforto amparado pela tecnologia, como percebeu Tocqueville.

    Ter a coragem de discutir o sofrimento levou-me ao que os antropólogos chamam de "American way of life". Uma representação coletiva na qual se acreditava que tudo poderia ser resolvido com bom senso e a honestidade seria - imaginem - o melhor negócio! Nela, o comum seria ser feliz. Sofrer, um acidente. Vale observar como o sofrimento se relaciona à perda de autonomia individual nas sociedades individualistas; e a solidão que individualiza representa o sofrer no caso das sociedades de compadrio ou relacionais, como a brasileira. Num caso, descobre-se a dependência do objeto amoroso perdido noutro, o isolamento revelador de solidão e abandono.

    O problema do cronista americano não é o perene e comovente "por que sofremos?" - questão que leva aos templos e a uma transcendência comparativa quase sempre pueril de achar que existe mesmo alguém que jamais sofreu quando, basta chegar perto do sujeito mais feliz, para logo descobri-lo como um irmão em ansiedade e amargura.

    Por outro lado, o texto de Brooks não é evolucionista, mas estruturalista. Ele não quer saber das origens nem cogita uma era utópica e salvadora, sem sofrimento. O que ele faz é discutir os desdobramentos do inevitável e constitutivo ato de sofrer.

    Não há, diz Brooks, a menor possibilidade de esperar somente a felicidade, porque em toda recordação nenhum de nós fala somente da felicidade. As perdas e o sofrimento se misturam às memórias felizes. "As pessoas buscam a felicidade - diz -, mas sentem que são feitas por meio do sofrimento."

    Para quem pensa que o jornal está apenas em busca do escândalo, eis um cronista maior mostrando como o rotineiro periódico ajuda a encontrar informação e sabedoria. O sofrimento tem, sem dúvida, um lado destrutivo a ser evitado, mas ele é um formidável instrumento de empatia e de marginalidade positiva.

    Tirando-nos da inconsciência das boas rotinas, quando não tínhamos tempo ou motivo para "pensar na vida" como falamos no Brasil, o sofrimento nos põe cara a cara com a honestidade, a coragem, a pusilanimidade e a aceitação. A aceitação de que tudo cabe dentro de nós como um passo decisivo para reagir contra uma doença ou uma perda não apenas dolorosa, mas irreparável.

    O sofrimento não permite evasões. Ele limita brutalmente as nossas ilusões de autonomia e de liberdade. Ele também é exclusivo e desequilibrado, pois não há quem não considere sofrer mais do que julgava cabível ou justo. Ademais, não há cura. Há um englobamento e um duro canibalismo - aceitação é o seu nome.

    Numa conferida sobre a poesia de Camões, proferida no Colégio Vassar no dia 21 de abril de 1909, Joaquim Nabuco relaciona amor e saudade. Essa, diz, seria a palavra mais bela de nossa língua e, como um antecipador de David Brooks, remarca que para traduzir saudade em inglês, seria preciso falar em lembrança, luto, desejo e amor; essas moedas do sofrimento. Nos Estados Unidos dos individualismos e de uma inabalável crença na tecnologia e no progresso, insinua-se o cronista para advertir que a felicidade proposta pelo "American way of life" é possível, mas que uma existência sem sofrimento é impossível.

    Entre nós brasileiros - relacionais e certos de que felicidade não é a regra dos nossos destinos - é a saudade "polida pelas lágrimas", como assinala Nabuco, que permite a reconciliação com o sofrimento. É ela que pacientemente realiza o trabalho de transformar a solidão da dor, do sofrimento, da mágoa, do ressentimento, e da desesperança em saudade!

    Túmulo abençoado, leito amoroso e oficina da vida, a saudade é a palavra mágica que reconcilia o interior fantasioso e agitado de cada um de nós, com a realidade imprevista e dura do mundo.






    Enviada do meu iPad

    Elio Gaspari: O PT paga pela sua ‘compreensão’


    O isolamento de André Vargas deveria ter vindo quando ele atacou Olívio Dutra, a banda limpa do PT

    - O Globo

    André Vargas deveria ter sido isolado pelo PT no ano passado, quando atacou o ex-governador gaúcho Olívio Dutra, que defendera a renúncia do deputado José Genoino depois de sua condenação no processo do mensalão. Na ocasião, disse o seguinte:

    “Quando ele passou pelos problemas da CPI do Jogo do Bicho, teve a compreensão de todo mundo. Para quem teve a compreensão do conjunto do partido em um momento difícil, ele está sendo pouco compreensivo. Ele já passou por muitos problemas, né?”

    Olívio Dutra nunca fora condenado em qualquer instância judicial. Genoino acabava de receber do Supremo Tribunal Federal uma sentença de seis anos e onze meses de prisão. Olívio passou pelo governo e continuou morando no pequeno apartamento que comprou como funcionário do Banrisul.

    Em apenas dez anos, entre sua eleição para vereador em Londrina e sua última eleição para a Câmara, André Vargas decuplicou seu patrimônio. Teve um doleiro amigo, redirecionou R$ 836 mil de doações legais para companheiros e chegou à primeira vice-presidência da Câmara dos Deputados. Certamente foi um militante compreensivo. Felizmente, faltou-lhe a compreensão do comissariado. Prestou um serviço ao partido decidindo renunciar ao mandato de deputado.

    A reeleição da doutora Dilma, bem como a sua possível substituição por Lula, está ameaçada pelo exercício do que André Vargas chamou de “compreensão”. Esse sentimento, amplo, geral e irrestrito, prevaleceu no PT em 2005 quando ele optou pela blindagem dos mensaleiros. Os partidos têm horror a cortar a própria carne. O PSDB manteve Eduardo Azeredo na sua presidência depois da exposição do mensalão mineiro. Fingiu-se de surdo por quase dez anos diante das sucessivas provas de que funcionara em São Paulo um cartel de fornecedores de equipamentos pesados, liderado pela Alstom.

    O comissariado marcha para uma campanha eleitoral onde enfrentará um desejo de mudança. Sua dificuldade estará em mostrar que se pode mudar com mais do mesmo. Se algo mudará com outros candidatos é um problema que caberá a cada eleitor julgar, mas, pela lógica, do mesmo, mudança não sai. Isso fica claro quando a doutora Dilma diz que há uma “campanha negativa” contra a Petrobras. Falso, o que há, desde 2003, é um aparelhamento partidário, com bonificações pessoais, dentro da empresa. Aqui e ali foram tomadas medidas moralizadoras, sempre em silêncio, até que o doutor Paulo Roberto Costa, tentando esconder sua contabilidade, foi parar na cadeia.

    Todos os governantes que fizeram campanhas políticas com a bandeira da moralidade, inclusive Lula, enganaram seus eleitores. A ferocidade com que o tucanato se opõe à manobra diversionista do PT para expandir o foco da CPI das petrorroubalheiras, é um indicador dessa “compreensão” generalizada. Os tucanos de boa memória haverão de se lembrar do que foi a administração do doutor Joel Rennó na Petrobras (1992-1999). Em benefício de Fernando Henrique Cardoso, registre-se que ele herdou-o de Itamar Franco e manteve-o no cargo atendendo ao falecido PFL.

    O rápido isolamento de André Vargas é boa notícia. Ainda assim, é pouco detergente para muito pano. O que a campanha precisa é da luz do sol, inclusive em cima das propostas dos candidatos.

    Miriam Leitão: Em defesa da Petrobras


    - O Globo

    A Petrobras não é do tamanho do Brasil. Exagero da presidente Dilma. Mas é grande, a maior empresa do país, é importante por sua história, seu esforço de desenvolver tecnologia para encontrar o petróleo no mar em águas cada vez mais profundas. Quem a ataca é a corrupção. Os casos que estão surgindo são escabrosos. Informar o que acontece é a melhor forma de defendê-la.

    O truque é velho. Diante das evidências de que houve casos de corrupção na empresa, a presidente-candidata diz que a empresa está sendo atacada por quem revela os fatos. Abraça a bandeira da estatal, que nasceu há 60 anos de um movimento popular, e diz que ela está sendo atacada pelas notícias de que ela teve casos de corrupção. Quer inverter os fatos. Mas o Brasil é mais inteligente do que esse truque de marketing imagina.

    A Petrobras tem um lado luminoso que o Brasil conhece e admira. O país aprendeu a conhecer a persistência com que ela foi buscar o petróleo que era difícil em terra. Conhece a sua excelência tecnológica conquistada com muito investimento em pesquisa e desenvolvimento e que a levou à dianteira da exploração em águas profundas.

    A conjuntura, no entanto, é de uma empresa que perdeu drasticamente valor de mercado por causa de uma política de preços que a atinge diretamente. Seu principal produto é vendido abaixo do preço que a companhia compra no exterior, todos sabem que a petrolífera não tem autonomia na formação de preços, e isso tem outros efeitos como o de desestabilizar o setor sucro-alcooleiro.

    O problema pode ser resolvido com a mudança da política de preços. E se ela for mudada, como quer a atual presidente Graça Foster, a empresa poderá recuperar o valor de mercado que perdeu.

    O mais importante, no entanto, é o que aconteceu na compra de Pasadena, nos escabrosos registros apreendidos com o ex-diretor de abastecimento da empresa Paulo Roberto Costa, hoje na prisão, as relações perigosas entre pessoas da empresa, e do partido, e um doleiro para lá de suspeito. Tudo isso é que ameaça a empresa e não a revelação desses erros e crimes. Não é a notícia, ou a investigação da Polícia Federal, ou eventualmente de alguma outra instituição; o que ameaça a empresa são os fatos em si.

    A auditoria interna da empresa e os programas de prevenção de corrupção devem continuar, mas não foram suficientes. É autoritário achar que a investigação externa não deve haver porque existe um sistema interno de auditoria. São esses órgãos, como a Polícia Federal, que encontraram por exemplo os fios que levaram às descobertas das atividades de Paulo Roberto Costa.

    - Não ouvirei calada a campanha negativa dos que, por proveito político, não hesitam em ferir a imagem da empresa. A Petrobras é maior do que todos nós. A Petrobras tem o tamanho do Brasil – disse a presidente criando um igualdade entre continente e conteúdo. Uma parte não pode ser do tamanho do todo, ainda que seja uma grande parte.

    Os desencontros de versões sobre a compra da Refinaria de Pasadena continuam exigindo que todos se expliquem melhor. Foi um bom negócio como diz o ex-presidente José Sergio Gabrieli ou só foi feito porque a presidente do conselho de administração à época, Dilma Rousseff, não teve todos os dados, ou teve todas as informações como assegura o ex-diretor Nestor Cerveró?

    Quem está enfrentando críticas é a administração da empresa, e isso não inclui todos os dirigentes. O que se busca entender são determinados negócios da estatal e nem todos os negócios. Será bom se a presidente Graça Foster for no seu depoimento ao Senado com as respostas certeiras que sempre teve e seu estilo sincero. Como Foster não é candidata, não precisa da estratégia de marketing de acusar as dúvidas, as perguntas, e as investigações de ataques à Petrobras em si. São, na verdade, a melhor forma de defendê-la de quem não entendeu sua grandeza, nem respeita seus acionistas e os contribuintes brasileiros.

    O discurso eleitoreiro de Dilma de que o PT resgatou a empresa que estava ameaçada não cola mais. A empresa não foi inventada pelo partido. Ela nos seus 60 anos atravessou vários governos. Cresceu em vários governos. Superou crises. E sempre a melhor forma de superar foi submeter-se aos canais democráticos de dúvida e resposta.

    Publicado em 15 de abril de 2014

    O dever que Dilma ignorou: O Estado de S. Paulo - Editorial


    Se é verdade que a presidente Dilma Rousseff procurou antecipar-se a uma eventual acusação de gestão temerária ao declarar no mês passado que apoiara a compra da Refinaria de Pasadena quando dirigia o Conselho de Administração da Petrobrás, em 2006, com base apenas em um resumo executivo que se revelaria "técnica e juridicamente falho" - e que se conhecesse as cláusulas do contrato que o texto omitia "seguramente" objetaria à transação -, o estratagema parece não ter funcionado.

    Um relatório da Procuradoria de Contas, a representação do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), recomendou ao órgão que os responsáveis pela aquisição da refinaria respondam por eventuais prejuízos que o negócio tenha causado à empresa. Ao longo de seis anos, ela desembolsou cerca de US$ 1,2 bilhão pela instalação cujo valor atual de mercado não alcança US$ 200 mil.

    O parecer ao qual o Estado teve acesso e do qual publicou os trechos mais importantes na edição de domingo é incisivo.

    Pede ao tribunal que a cúpula da Petrobrás - "incluindo os membros do Conselho de Administração" - responda por "danos aos cofres públicos, ato antieconômico e gestão temerária" caso se confirmem os indícios de irregularidades que o documento aponta.

    Desde logo, a Procuradoria sustenta que as falhas dos gestores da estatal, no caso, foram "acima do razoável". Elas incluem o veto de Dilma, em 2008, à compra da metade da refinaria que ainda era de propriedade da companhia belga Astra Oil, à qual a Petrobrás se associara.

    Essa aquisição estava prevista no contrato cuja íntegra nem Dilma nem, aparentemente, os outros membros do Conselho leram antes de aprovar a parceria com a Astra, dois anos antes. O acordo, na cláusula chamada "Put Option", estipulava que, em caso de desentendimento entre os sócios, um teria de vender a sua parte ao outro. A recusa de Dilma a acatar o "direito líquido e certo" da associada, argumenta o Ministério Público, arrastou a Petrobrás a um litígio que começou com uma arbitragem e terminou em 2009 com a Justiça americana dando ganho de causa aos belgas.

    Com isso, a estatal não só teve que fazer o que Dilma não queria, mas foi também obrigada a arcar com multas, juros, honorários e despesas processuais que encareceram a compra da segunda metade da refinaria em US$ 173 milhões. "Caso se constate que não havia razões suficientes para o descumprimento da decisão arbitral", recomenda a Procuradoria, "deve-se apurar a responsabilidade dos gestores e membros do Conselho de Administração". Eles teriam errado, portanto, duas vezes. A primeira, ao aceitar um contrato em que "tudo era possível" para a Astra. A segunda, ao tentar reverter o irreversível.

    Como não se sabe como exatamente transcorreu a fatídica reunião do Conselho de 2006 - a Procuradoria, por sinal, pede que a respectiva ata seja verificada, assim como as das decisões subsequentes -, não se pode afirmar se a presidente do colegiado foi quem teve a iniciativa de aprovar o negócio ou se apenas se limitou a acompanhar os votos favoráveis dos demais conselheiros. Seja como for, dada a função que exercia - e a sua condição correlata de ministra da Casa Civil da Presidência da República -, a sua responsabilidade era maior.

    Nessa ordem de ideias, é de perguntar por que Dilma não adiou a decisão do Conselho até o recebimento das informações adicionais necessárias à avaliação circunstanciada da operação. Isso partindo da premissa de que tudo o que conhecia objetivamente do contrato era o que constava do resumo executivo de um par de páginas que ela viria a considerar "técnica e juridicamente falho".

    A ressalva se impõe porque a primeira reação do ex-presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli à alegação de Dilma foi dizer que a documentação completa esteve à disposição dos conselheiros.

    Tivesse zelado pelos interesses da maior empresa brasileira, no mínimo faria jus à fama de gestora minuciosa que a acompanhava desde o Ministério de Minas e Energia. Mais do que isso, teria agido de acordo com a legislação que impõe ao administrador público o dever estrito do cuidado e da diligência.

    Publicado em 15 de abril de 2014

    Fernando Rodrigues: A imagem trincada


    - Folha de S. Paulo

    A presidente da Petrobras, Graça Foster, fez um depoimento sóbrio ontem no Senado. Falou sobre as péssimas transações realizadas pela estatal. Reconheceu que a compra de uma refinaria nos EUA "não foi um bom negócio".

    Numa resposta, Graça Foster rebateu um senador de oposição que chamara a Petrobras de "quitanda", uma empresa na qual todos passariam para dar uma beliscada num produto ou outro. A impressão geral foi a de que ali estava uma servidora dedicada ao bom funcionamento da máquina pública. Até aí, tudo bem. Mas não era esse o ponto.

    Observado do ângulo eleitoral, o depoimento foi um desastre. As cenas estão gravadas. Voltarão à TV na campanha. Não houve desculpa a respeito da depreciação do valor da Petrobras. Milhares de brasileiros perderam dinheiro ao comprar ações da empresa com o saldo do FGTS.

    O aspecto principal desse episódio da Petrobras é o dano causado na imagem de boa gestora da presidente Dilma Rousseff. A petista se enredou sozinha em um labirinto sem saída. Disse que sua decisão sobre o mau negócio com a refinaria nos EUA foi tomada sem ter acesso a todas as informações. Mas por que, então, o diretor responsável pela omissão só foi demitido agora se o erro tão grave foi causado em 2006?

    Graça Foster não teve uma resposta satisfatória a essa indagação. Seria algo indizível. Muitos estiveram ou estão na Petrobras por conveniências políticas. Tome-se o caso do ex-presidente da empresa José Eduardo Dutra. Ex-presidente também do PT, ele é hoje diretor corporativo e de serviços. Político afável, é comum vê-lo postando no Twitter comentários políticos ou sobre futebol durante o horário de trabalho.

    Dilma se elegeu em 2010 com dez partidos ao seu lado. Essa gente gosta de dinheiro e de cargos. Lula distribuiu cargos a granel. Dilma sabia de tudo. Inclusive do aparelhamento que persiste dentro da Petrobras.

    domingo, abril 13, 2014

    ‘Gasto público deveria ser limitado por uma lei’, diz Armínio Fraga - economia - geral - Estadão

    'Gasto público deveria ser limitado por uma lei', diz Armínio Fraga - economia - geral - Estadão

    'Gasto público deveria ser limitado por uma lei', diz Armínio Fraga

    Há poucas semanas, o senador Aécio Neves, candidato dado como certo para disputar a presidência pelo PSDB, oficializou a escolha do economista Armínio Fraga para o posto de coordenador econômico de sua campanha. Nesta série de entrevistas que ouve economistas integrados ao debate político e, não raro, ligados aos partidos, Fraga é o mais engajado. Muitos já o consideram ministro da Fazenda, caso o PSDB ganhe a eleição. Ex-presidente do Banco Central, Fraga diz que ainda não se aprofundou no estudo das propostas, mas o esboço tem pilares claros: fortalecer a política fiscal, ajustar a inflação para o centro da meta, desengavetar a reforma tributária, entre outras medidas que podem exigir ajustes nem sempre populares. Mas ele acredita que o importante é antecipar o que deve ser feito, sem "populismo" eleitoral. "O custo de tomar medidas impopulares é muito menor do que o de não tomar", diz na entrevista que segue.

    Como o sr. vê a economia hoje?

    Estou vendo um quadro que se quantifica com poucos números. Um crescimento baixo, já entrando pela quarto ano, e a sinalização de que o ano que vem também pode ser difícil por causa dos problemas que estão se acumulando. Ao mesmo tempo, há uma inflação alta, em torno de 6%, já há bastante tempo, mas reprimida. A inflação real anda mais alta. Talvez entre 7% e 8%. Esse não é um quadro bom. Há também o fato de que o déficit em conta corrente do Brasil caminha para 4% do PIB no momento em que os Estados Unidos segue para a normalização da taxa de juros e, eventualmente, a China deve desacelerar. Isso também é uma questão, especialmente porque a taxa de investimento do País não está aumentando. Agora está acontecendo um movimento no mercado - que eu diria ser técnico, com recursos mais de curto prazo, indo para um lado ou para outro, mas isso não deve trazer um grande conforto. O quadro geral ainda não é tranquilo lá fora. Olhando aqui para dentro no Brasil, hoje o governo concede 60% do crédito, que incorpora ainda repasses do BNDES. Há não muitos anos eram 40%. É um modelo testado por nós, testado por vários outros países que tende a não entregar o resultado que se quer - tanto do ponto de vista de produtividade, da qualidade das decisões de crédito e financiamento que são tomadas, quanto do ponto de vista do risco. O exemplo radical são os Estados Unidos com as grandes do mercado de hipotecas, Fannie Mae e Freddie Mac (empresas privadas, mas com propósito público, que eram implicitamente garantidas pelo governo), que tiveram uma participação fundamental na bolha - uma senhora bolha. Mesmo nos países mais maduros, essas lições permanecem válidas. Há outros temas, de caráter mais setorial. Energia está no topo da lista. Estamos correndo um risco muito grande nessa área. Os dados, infelizmente, vêm piorando. É grave a questão. O setor de petróleo é outro bem conhecido. À Petrobrás foi designado o papel de grande locomotiva do setor, mas, ao mesmo tempo, o governo vem asfixiando o fluxo de caixa da empresa. Para não falarmos de outras intervenções, como o mix de política industrial, política setorial também. Enfim, que não vem dando resultado. Talvez fosse até previsível. Em paralelo, estamos vivendo a crise no setor de etanol - o que é uma tristeza. O setor tem tudo para ser um líder global. Esse é um setor menos antipático ao meio ambiente do que o do petróleo, que o dos combustíveis fósseis. Estamos na situação singular de subsidiar o setor de combustíveis fósseis - algo que vai na contra mão da recomendação técnica. A determinação é taxar e não subsidiar, porque esse setor produz um efeito negativo para a sociedade. Esse é o típico caso em que se recomenda fazer o oposto do que estamos fazendo. A infraestrutura também é uma área que apresenta muitos desafios. Nesse caso, a visão é que temos uma moeda com dois lados. Por um lado, a infraestrutura virou um gargalo seriíssimo em praticamente todas as suas dimensões - e, portanto, é uma barreira ao crescimento. Mas ela deveria ser uma fantástica oportunidade. Eu acho que se os futuros governos acertarem a mão nas questões regulatórias e em outras que influenciam esse setor, eu penso que ele pode virar ao nosso favor. Mas, nesse momento, é um problema. O resumo é o seguinte, pensando de uma maneira mais esquemática: a minha leitura é que hoje nós temos uma macroeconomia que está perdendo as âncoras. A área fiscal perde credibilidade, o chamado tripé certamente está bem fragilizado. A microeconomia, que deveria funcionar mais livre, apostando na concorrência, sofre por estar muito amarrada - e amarrada na parte que cabe ao governo. Portanto, temos dificuldades em buscar mais produtividade. Subindo ainda mais um nível nesse esquema, penso que isso tudo espelha uma grande crise no Estado - um Estado que vem continuamente crescendo, mas não tem sucesso em entregar aquilo que se espera dele. A qualidade da educação avança lentamente. A população se queixa muito dos serviços de saúde. Hoje um tema absolutamente vivo e importante é o da segurança. No geral, seria preciso atacar essas questões. Claro que ninguém ainda inventou uma fórmula para fazer transplante de Estado - essa é uma questão de prática. São os governos que vão, aos poucos, melhorando ou piorando as instituições de um país - e o governo precisa cuidar disso melhor. Não há exemplo de país que tenha se desenvolvido sem um Estado bom. Pode ser pequeno ou médio. Eu sou cético em relação a ideia de que um País como nosso pode e se desenvolver com um Estado grande demais. Um país precisa crescer, precisa distribuir também, com certeza, mas eu não vejo o mundo social como um jogo de soma zero. É preciso balancear as coisas. Mas eu vejo o nosso modelo falhando, tanto pelo lado da distribuição, que ainda é muito ruim, como pelo lado do crescimento. Diga-se de passagem, não acho que os dois sejam incompatíveis. Ao contrário. Mas é preciso estruturar o funcionamento do Estado para que ele atinja esses objetivos - e nesse momento, eles não estão sendo atingidos. 



    O que, na sua avaliação, pode acontecer por causa dos problemas que descreveu?

    Eu vejo várias dimensões, como já mencionei. Algumas delas mais dramáticas, outras menos. Eu colocaria no topo da lista hoje a questão da energia. Na medida que a água atingir um certo nível - e já estamos quase lá - provavelmente será preciso organizar um pouco as regras do setor. A política de subsidiar ou reduzir de maneira artificial o custo da energia aponta na direção de mais escassez lá na frente. Não ajuda. Há que se tomar muito cuidado. Se nós tivermos o azar de as chuvas continuarem fracas, será preciso tomar providências o quanto antes. Isso é delicado porque o tema é facilmente misturado com a política - mas é inevitável que seja assim. Faltou planejamento. Esse setor deveria trabalhar com flexibilidade para aguentar não um ano de seca, mas três. Essa era a regra dos especialistas. A energia é o caso em que poderia haver um problema maior - os outros casos não são tão dramáticos, mas são igualmente sérios. O governo vem esticando a corda em várias áreas da chamada macroeconomia. Chega um ponto em que o cobertor fica curto. Eu penso que chegamos a esse ponto. O caso da Petrobrás é um exemplo. Descapitalizaram a empresa. O governo precisa arrumar recursos de outra maneira. Isso gera subsídios. No setor elétrico, por exemplo, os custos elevados de sustentar esse modelo, as estimativas variam, mas os consumidores já estão sentindo o custo das termoelétricas. É grave. O custo é grande. Então: de um lado a inflação preocupa, do outro lado, o impacto fiscal preocupa. Assim, há uma sensação geral de perda de confiança que vem paralisando bastante o investimento. Esse é um caminho mais lento em direção ao futuro - e lento numa direção ruim. Estamos em um ano de eleição. Tipicamente, em anos de eleição, os governos são mais flexíveis na condução das políticas. Aconteceu em 2010. Só que, neste ano, o governo já entra com dificuldades. O saldo do primário já vem sendo atingido com receitas não recorrentes e alguns artifícios de natureza contábil, mas é preciso dar uma resposta mais clara, até para que, mais adiante, seja possível retomar a trajetória de queda da taxa de juros, que voltou a níveis muito elevados. Essa, ao meu ver, é uma boa forma de se pensar o que precisamos num regime macroeconômico. Eu venho dizendo, já há algum tempo, que o Brasil tinha que ter como objetivo juros de BNDES para todo mundo. O Pérsio Arida (um dos economistas que idealizou o Plano Real), numa palestra recente, sugeriu que o conjunto das políticas macroeconômicas se voltasse para atingir esses objetivos também. Ou seja: ter juros mais normais no Brasil. Esse é um quadro que sugere o esgotamento de um modelo. Já vivemos isso na nossa história. Modelos se esgotam. Isso é percebido por analistas, mas, normalmente, se encontra muita dificuldade na hora de mudar. Os modelos, por piores que sejam, têm sempre ganhadores - e os ganhadores se agarram aos modelos e procuram evitar as mudanças. É uma questão de economia política. Isso aconteceu conosco na década de 70, quando o Brasil procurou esticar o modelo que já não era capaz de entregar resultados. Deu no que deu. Naquela época foram crises de balanço de pagamento, inflação e tudo mais. Não quero dizer que a situação é igual. Mas é fato que o Brasil hoje está vulnerável e precisa mudar. Essa segunda dimensão de crise é mais difusa porque são vários fatores agindo ao mesmo tempo. E ainda temos a possibilidade de 2015 ser ainda um ano com baixo crescimento. Há tensões políticas e sociais. São quadros complexos, mas que tem no fundo essa linha - é preciso mudar.

    Levando em conta essas questões de curto prazo, o que o governo precisa fazer na largada em 2015 para resolver os problemas?

    Cabe uma resposta bem ampla - talvez mais ampla do que possamos detalhar aqui. Eu começaria com o lado macroeconômico. Começaria com um reforço muito transparente das bases do tripé. Deveríamos ter metas claras e transparentes para a contabilidade do saldo primário. As metas deveriam ser plurianuais. Haveria também um comprometimento com a normalização dessa situação de inflação reprimida e, ao mesmo tempo, a busca de convergência para a meta. Se as duas ações são coerentes, elas se reforçam. Nos últimos anos, o Brasil viveu momentos difíceis em que a política fiscal era expansionista, a política de crédito público - que é muito relevante aqui no Brasil - era também expansionista e o Banco Central tentava, do seu lado, enxugar a demanda e segurar a inflação. Eu penso que esse reforço traria um grau de coerência. Racionalizar a atuação dos bancos públicos faria parte dessa equação. Do lado macro, isso ajudaria a reduzir o prêmio de risco que o Brasil paga. Quando o Brasil paga mais, todas as empresas que estão aqui pagam mais, todas as pessoas que vivem aqui pagam mais também. É algo muito direto. No lado que nós podemos chamar de micro, eu penso que há necessidade de abrir mais frentes. Na infraestrutura, ao meu ver, seria necessário um trabalho detalhado em cada área, repensando o que vem sendo feito, procurando estimular o debate e o entendimento sobre porque as coisas não estão acontecendo. Penso que há dimensões que são de arquitetura - do desenho mesmo. Mas tem também o lado da execução. É preciso repensar o modelo com o setor privado em diferentes áreas. Em vários casos, pode caber privatização. A agenda da infraestrutura é muito ampla - inclui portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, energia, telecomunicações, saneamento. Inclui praticamente tudo da nossa infraestrutura. Mas existem vários outros temas. O Brasil precisa, urgentemente, pensar numa reforma tributária que simplifique o sistema. Isso envolveria, essencialmente num primeiro momento, todo o aparato de tributação indireta. ICMS. IPI. Organizar e simplificar seria muito bom. Cabe mencionar que, ao meu ver, o crescimento da carga tributária precisa ser limitado. Para isso, volto um pouquinho ao lado macro - o Brasil precisa também adotar um limite para relação gasto público e PIB.

    Por lei?

    Por lei ou por decisão de governo, num primeiro momento. Mas é preciso trabalhar para isso. Hoje, para um País de renda média, nos temos uma carga tributária muito elevada. Isso é contraproducente. Isso está dentro daquela ideia de que a economia precisa continuar trabalhando para melhorar a distribuição de renda desse País - que é terrível ainda - mas, ao mesmo tempo, precisa também criar condições para que a taxa de investimento também aumente, para que o País seja mais produtivo. São muitos os assuntos nesse mundo que chamo de micro. É muito trabalhoso. Mas não creio que seja um bicho de sete cabeças. Dá para fazer se tivermos uma agenda e também pessoas capazes ocupando posições chaves. É um desafio enorme de RH também.

    Qual seria o teto de crescimento do gasto público?

    Os gastos teriam que crescer igual ou abaixo do PIB. E na trajetória que está os gastos crescem mais que o PIB...
    Há muito tempo - e isso é natural. A sociedade tem demandas. Por mais que tenha crescido e melhorado muito nos últimos 20 anos, o Brasil ainda é um País carente. Mas é fato que se você fizer uma pesquisa vai identificar que a sociedade quer tudo. Mas isso é uma grande ilusão. É preciso pensar a coisa de uma forma dinâmica. Instantaneamente, você pode até tentar alocar mais. Mas olhando a trajetória para frente, esse não é o melhor modelo. É um trabalho difícil, mas politicamente importante. Precisa ser feito com transparência. É típico em momentos de eleição a gente ouvir propostas em que a conta não fecha. Dizem: eu quero 10% para cá, outros 10% lá, mais 10% aqui. Você vai fazer a conta e não fecha. E vem: vou ter de aumentar a carga tributária em tantos pontos do PIB. Sinceramente, para um País como o nosso, é difícil imaginar como isso possa acontecer. É um tema difícil. Eu não sou político. Vejo apenas a necessidade de um debate honesto. Não populista.

    Qual seria o tamanho do esforço fiscal?

    Acho que será preciso fazer um levantamento da situação. Não dá para arriscar um número agora. Mas acho que o Brasil precisa de uma meta positiva para o saldo primário, talvez maior um pouco do que ela é hoje, nem que seja um tempo. E essa meta deve ser plurianual. Essa parte é menos difícil. O tema do crescimento do gasto é complexo. Não podemos nos iludir. Mas esse tem que ser um objetivo a perseguir com rigor e, se for necessário, com a proposição de reformas também. Não tenho um programa pronto aqui para discutir.

    Em que campos as reformas?

    Eu penso que em todas as dimensões do gasto. Antes de tudo, é preciso mapear para, depois, tomar as decisões. Hoje eu presto uma assessoria ao senador. Estudo e acompanho o que acontece no Brasil, mas continuo dedicando uma parte do meu tempo à minha empresa. Mais adiante, se ocorrer uma mudança, e eu participar, com a eleição do senador Aécio, seria o caso de eu e muitos outros refinarmos essas questões. Mas elas estão na categoria de questões polêmicas que se prestam ao populismo que, ao meu ver, não agregam nada à qualidade da discussão e ao próprio eleitor. Eu estou sendo um pouco cuidadoso porque acho que é impossível negar a importância disso. Mas ir além é perigoso.

    O próprio Aécio falou que está disposto a tomar medidas impopulares...

    Sim, falou. Mas o que ele não falou - e eu não tenho procuração para falar por ele - é que o custo de tomar as medidas por ventura impopulares é muito menor do que o de não tomar. As pessoas têm de cair na real.



    Na prática, como é possível reduzir o gasto público com tanta demanda reprimida?


    É questão de dar ao orçamento a importância que ele merece num ambiente democrático. É preciso incluir tudo no orçamento - todos os subsídios - e discutir o que dá para fazer e o que não dá para fazer. A sociedade quer ou não aumentar a carga tributária? Que custos e benefícios isso traria? A questão é decidir. Não é possível transformar o Brasil instantaneamente numa Suíça ou num Estados Unidos. Dá para chegar lá, mas demora um pouco e de trabalho.

    A como fica a distribuição de renda? Uma das críticas é que isso implicaria cortes em programas sociais...

    Não creio. Se você olhar os números vai ver que o bolsa família não consome tanto dinheiro assim para o tamanho do resultado que gera. Acho que precisamos discutir o que fazer além do bolsa família. O próprio senador Aécio Neves tem feito propostas nessas direção - inclusive pensa em transformar em lei. Seria ótimo para deixar claro à população que esse é um tema importante. Mas precisamos ir além. As pessoas querem ter qualidade vida, mesmo quando têm uma vida difícil. Mais do que isso - querem trabalhar, querem que seus filhos se qualifiquem para ter uma vida digna. Temos que usar o bolsa família como uma base. Todos os candidatos sabem disso. Às vezes fazem ameaças: dizem que vão acabar com o bolsa família. Isso é um absurdo. É uma mentira. É preciso analisar melhor para onde o dinheiro público está indo. O Gustavo Franco fala com frequência que há no Brasil o bolsa empresário. Ele coloca isso de uma maneira muito gráfica, muito boa. Isso precisa ser discutido. Sempre. Agora, antes da eleição, e depois também. É uma carência no debate: para onde vai o dinheiro? Qual o impacto distributivo de tudo isso? É um ótimo tema para encarar de frente.

    E de onde o sr. acredita que viria o crescimento econômico?

    Esse é outro ponto bom. É uma bela pergunta: de onde vem o crescimento? É como aquela pergunta das criancinhas: de onde vem os bebês? Certamente, o crescimento não vem com as cegonhas. O crescimento vem de mais investimento em capital, em educação e de mais produtividade em geral. Ou seja: vem de uma economia que funcione melhor. E quem é o grande participante da economia? O Estado. Então é preciso que o Estado também faça a sua parte. Mas isso não querer dizer que seja preciso aumentar o gasto público. Aumentar o gasto pode gerar demanda no curto prazo. Mas demanda não basta. É preciso resposta da oferta: mais produção, mas emprego, mais investimento. O crescimento depende do casamento entre demanda e oferta. Hoje fica claro que o governo fez uma aposta hiper keynesiana na demanda. De novo, eu insisto: claro que deve haver demanda. Nenhum empresário vai investir se não acreditar que vão comprar os produtos deles. Mas precisa haver oferta - e é isso que está falando no Brasil. Não falta demanda. A demanda continua lá.

    Estabilizando o Brasil, quando o crescimento poderia ser mais robusto?

    Rápido. Um ano. Dizer em quanto é chutar um pouco, mas um País que tem uma renda per capita inferior em 20% a renda per capita dos mais ricos deveria poder crescer durante vários anos a 4%, 5% ao ano, mesmo com a demografia piorando. Temos que nos lembrar que a taxa de crescimento da força de trabalho caminho para zero ao longo de relativamente pouco tempo. No passado, só daí vinham uns 3 pontos porcentuais de crescimento. Essa nova realidade sugere que um crescimento sustentável de 4 a 5% seria excepcional. E acho também que a China vai cair para algo assim. Havia um certo sonho aqui de que o Brasil poderia crescer 10% ao ano - mas é bem mais difícil. Nem sei se é viável numa sociedade como a nossa, que tem uma preocupação muito grande e correta com o social. A China tem uma preocupação com o emprego, mas só um regime autoritário poderia fazer o que eles fizeram: reproduzir um modelo de desenvolvimento sem rede de proteção social - algo altamente indesejável do meu ponto de vista. Mas aqui no Brasil há uma certa inveja do que eles fizeram. Eu não teria inveja, não. Acho que estamos bem. É só arrumar a casa.

    O sr. mencionou privatizações. Há setores em mente?

    Nenhum especificamente. Mas penso que todos os da infraestrutura se oferecem bem para esse caminho - o que o governo chama de concessões. É a mesma coisa. Eu não tenho medo de usar a palavra que acho correta. Mas praticamente todos da infraestrutura cabem em regimes de concessão, em parcerias público privadas, sem perda de controle do regramento que cabe ao Estado em vários desse setores. Não creio que isso seja incompatível com esse desenho. Como esse desenho é do presidente Fernando Henrique, ficou hibernando um tempo, e agora voltou. É ótimo que tenha voltado.

    No evento de aniversário do Real, o ex-presidente Fernando Henrique disse que o Plano Real é o início de um processo que foi interrompido. O espírito é retomar àquele processo?

    É preciso ter na cabeça a sequência do que aconteceu. O Plano Real tirou o País do caos. Não havia chance para nós na bagunça da hiperinflação. Depois veio a reforma do Estado. O Estado no Brasil fazia coisas demais. Estava envolvido em siderurgia, fertilizantes, tinha presença maciça no setor financeiro, com bancos estaduais. Nada daquilo vinha dando certo. Houve essa guinada e, na época, a decisão de Fernando Henrique foi focar em saúde e educação especificamente. Nas outras, ter uma presença indireta - sempre que possível, acreditando na concorrência. Eu penso que não há nada mais saudável do que a concorrência. Os empresários não querem moleza. Querem um ambiente previsível, limpo, para concorrer, inovar, investir e assim por diante. Hoje eles são meio reféns da situação e isso não é o ideal. Depois da guinada, as coisas foram evoluindo. Houve a chegada do PT ao poder - num primeiro momento, uma excelente surpresa. Agora, de uma certa maneira, estamos retrocedendo. O presidente Fernando Henrique, naquela comemoração, fez menção a um ponto claro, como aliás é do feitio dele, sobre a atuação do governo. Usando minhas palavras, mas colocando mais o ou menos o que ele disse: a fase de uma presença e de atuação do governo em vários desses pontos, saúde e educação, por exemplo, já alcançou quantitativamente um tamanho bom. Mas agora chegou a fase da qualidade. O Estado precisa melhorar a qualidade dos serviços que entrega para a população. Além desses dois, o tema da segurança é um dos mais importantes e o tema da regulação, idem. Tem muita coisa a ser feita do ponto de vista qualitativo. Foi o que ele colocou lá e eu penso que é uma boa maneira de definir o que é preciso fazer.

    O que fazer com a política do salário mínimo, que começa a ser revista no início de 2015?

    É outro tema que precisa ser discutido. O salário mínimo cresceu muito ao longo dos anos. É uma questão de fazer conta. Mesmo as grandes lideranças sindicais reconhecem que, não apenas o salário mínimo, mas o salário em geral, precisa guardar alguma proporção com a produtividade, sob pena de, em algum momento, engessar o mercado de trabalho. A política do salário mínimo tem tido impactos relevantes. É um tema muito complexo e polêmico. Não tenho uma receita pronta. Estou prestando uma assessoria ao senador Aécio Neves, mas não estou entrando neste nível de detalhe. Outras perguntas que chegam com frequência é sobre como fazer a reforma tributária, o que fazer com as desonerações, o que fazer com os preços congelados - vão liberar de uma vez, vão fazer gradualmente? São questões da maior importância. Quem assumir o governo vai ter de pensar em tudo isso. Mas o tema é polêmico. Eu gosto muito de analisar as coisas antes de emitir uma opinião. É opinião antiga, de gente que faz conta, que o vínculo do salário mínimo com a previdência tem um custo. Como ocorre em todos os outros temas, é preciso pensar em custos e benefícios. Nesse ponto, entramos no terreno da política, onde não me sinto à vontade para entrar, especialmente neste momento. É fácil ser mal interpretado.

    O sr. mencionou que o importante é ter um ambiente favorável aos negócios. Estão pensando também na reforma trabalhista?

    É outro tema. Não tenho dedicado muito tempo a essa área. Todo economista que fala de reforma no Brasil cita as reformas tributária, trabalhista, previdenciária. São temas antigos. Eu não teria uma proposta. O Brasil, bem ou mal, está com o desemprego baixo. Talvez não seja um tema tão urgente quanto o da reforma tributária.

    E além da reforma tributária, há outra reforma prioritária?

    Sim. Toda a política externa do Brasil precisa ser repensada. Essa estranha predileção por parcerias e aproximações com regimes autoritários, como Cuba e outros exóticos, não tem trazido nenhum benefício ao Brasil. Não quero dizer que o Brasil não precisa ter um diálogo com todo mundo, com a Venezuela, por exemplo. Mas o Brasil precisa se engatar nas grandes locomotivas mundiais. Esse é um ponto muito importante. Já não é de hoje que vejo com muita preocupação a posição do Brasil no ranking do Banco Mundial chamado Doing Business. É um ranking de ambiente de negócios e o Brasil está lá embaixo na classificação. Não me lembro exatamente a posição, mas sei que ele está lá atrás. Eu penso que o Brasil poderia tratar de todas essas dimensões.

    Em termos de política externa, o que deveria ser feito?

    Como a maioria dos economistas, tenho muita simpatia por acordos multilaterais. Mas esse front não tem avançado. Quem sabe agora, com o embaixador Roberto Azevêdo (diplomata brasileiro, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, a OMC), as coisas comecem a andar. Ele começou muito bem. Mas é uma tarefa muito difícil. O Brasil precisa estar preparado para entrar nela e ter, claro, do outro lado, uma costura igualmente aberta. A própria postura dos Estados Unidos tem sido difícil em temas como o setor agrícola e o antidumping. Esse é um caminho. Mas, na prática, em paralelo à OMC, a maioria dos países tem feito acordos bilaterais e regionais. O Brasil precisa avançar nesse direção. Primeiro, imagino, com a Europa, que já está pipeline (expressão em inglês que significa roteiro) há algum tempo. Eventualmente, poderíamos pensar algo com Estados Unidos e China. Talvez seja necessário repensar o Mercosul também. Especialistas acreditam que o Brasil, a essa altura, poderia transformar a união aduaneira num tratado de livre comércio. Tenho simpatia pela ideia.

    O sr. é a favor da autonomia do Banco Central?

    Sou. E sou porque, na prática, é o que os governos tendem a fazer na maior parte do mundo. Eu gosto de usar a nomenclatura "autonomia operacional". Ou seja: a definição das metas ficaria com o governo e, claro, deveriam ser metas de longo prazo para não ficarem expostas aos ventos do círculo político. Mas o governo preservaria esse direito. Isso significa ter mandatos para os dirigentes do Banco Central. Claro que se houvesse problemas na atuação, se não estiverem cumprindo os seus objetivos, o governo, no limite, poderia pedir ao Senado a remoção de quem for, inclusive do presidente. Esse é um sistema bem testado e requer um Banco Central transparente. Mas, hoje, ninguém questiona isso. Eu passei pelo Banco Central e posso garantir: uma das grandes vantagens do modelo de metas da inflação é justamente a interação com os analistas, os economistas, os consultores que trabalham, no fundo, de graça para o Banco Central. O Banco Central apresenta suas ideias, explica o porque de suas ações e recebe as críticas, que são extremamente úteis. Funciona bem. Claro que precisa ser um sistema flexível, no sentido de o Banco Central poder e dever trabalhar para suavizar o ciclo econômico - é uma função clássica - e ser o guardião da estabilidade financeira. Esse seria o desenho. Eu creio que isso deva ser transformado em lei.

    Na sua passagem pelo Banco Central, em 1999, o sistema de metas de inflação serviu como uma âncora. Nesse momento de transição, que o sr. descreve como difícil, o sistema de metas pode ser um âncora ou será preciso outra política?

    O sistema de metas de inflação é muito bom, mas sozinho não chega lá - é preciso uma âncora fiscal. Foi o que aconteceu naquela época. Lembro muito bem do esforço fiscal, naquele momento muito maior e, em paralelo ao esforço de aumentar o saldo primário, houve também todo um trabalho que desembocou na Lei de Responsabilidade Fiscal. Nós que estávamos no governo na época já procurávamos cumprir. O projeto já havia sido apresentado e aquilo era uma bússola para o nosso trabalho. Sem o fiscal, o sistema de metas teria fracassado. Eu penso que a situação hoje é idêntica nesse sentido. O momento naquela época era mais turbulento, porque havia medo que a inflação voltasse a níveis elevados. Primeiro, as expectativas no início de 1999 eram muito dispersas, depois, muito elevadas, entre 20% e 50%. Nós tínhamos saídos de um ambiente hiperinflacionário, a duras penas. Antes do Plano Real, vários planos foram testados e deram errado. Havia um receito naquele momento: será que vai ser mais um caso como os outros? Felizmente, não foi. Mas foi preciso um esforço fiscal que, aliás, foi anunciado pelo presidente antes da eleição - isso é muito importante. Ele teve a coragem e o bom senso de pactuar isso com a sociedade e, depois, pôde fazer as coisas com toda a tranquilidade. De novo, eu repito o que disse para a situação de hoje: o custo para o ajuste é muito menor que o custo do não ajuste. Naquela época, as projeções para o crescimento do PIB eram menos 4% em janeiro de 1999. Depois, acabou sendo ligeiramente positivo - uma diferença de 4%. Eu sou a favor que as providências sejam tomadas.

    Nessa reorganização, como ficam os repasses dos bancos públicos, como BNDES?

    Esse é um daqueles temas. Eu penso que o trabalho dos bancos públicos carece de mais análise e transparência. Não existem estudos sobre o que o BNDES vem fazendo há décadas. Eu até conheço o trabalho do BNDES e creio que um estudo seria bastante interessante. Mas o BNDES vem se agigantando, fazendo empréstimos a taxas muito baixas, sem, ao meu ver, uma análise do impacto social desses programas, até para que se possa decidir se vale a pena continuar ou não. Carece de transparência. Minha impressão é que vai ser preciso fazer essa análise - e o papel do BNDES, a médio prazo, será menor. Não há muita dúvida. É preciso dizer que a maioria das atividades não precisa de subsídio. Eu já disse isso. Os empresários precisam ter um ambiente bom para trabalhar, mas não há necessidade de subsidiar. Até acho que os subsídios põem pressão na taxa de juros para o não favorecidos.

    Qual seria o papel da indústria?

    O papel da indústria é muito importante. É inegável que a nossa indústria vive um momento difícil. O ataque nessa questão precisa ser feito em várias frentes. Toda essa questão do Custo Brasil, da infraestrutura, da questão tributária faz parte da resposta, bem como a integração do País às cadeias globais. Eu penso que as lideranças empresariais - hoje muito bem representadas por pessoas como Pedro Passos (sócio da Natura e Presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), que vêm revolucionando a maneira de pensar o setor - têm uma visão mais holística da coisa. Mas é inegável, também, que a evolução natural do desenvolvimento leva o setor de serviços a ficar maior do que o da indústria. Não há problema nisso. Às vezes, as pessoas pensam que só é bom o que elas podem pegar, mas não é assim. Só para citar um exemplo: há os serviços de saúde. Tem coisa mais importante do que a saúde? Vai ser natural: com o tempo, o setor de serviços vai ganhar mais espaço. O turismo, o entretenimento, a saúde, a educação. Mas está claro que a indústria precisa de uma atenção. Tem cura. O Brasil é grande. Não tenho medo nessa área, mas vejo muitas dificuldades.

    O sr. viveu duas transições na prática - a de 1998 para 1999 e depois o final do governo de Fernando Henrique para o de Lula. Agora está no meio do debate de uma eventual transição. Há comparações entre os diferentes momentos?

    Eu vivi outra transição. Fui diretor do Banco Central em 1991 e 1992. Fiz parte da segunda equipe econômica do governo Collor (ex-presidente Fernando Collor de Mello) para criar as condições de estabilização. Foi uma tremenda encrenca aquela época. Eu acho que faz parte do processo de amadurecimento. Se eu puder colaborar, estou disposto. Desde que haja - e no caso do meu relacionamento com o senador Aécio há - um alinhamento muito grande de visões de sociedade, de governo. É uma visão genuinamente progressista e eficiente, que tem capacidade de entregar resultado. Eu fiquei muito contente quando ele me procurou.

    E faz quanto tempo?

    Eu o conheço há mais de 20 anos. Não foi uma coisa da noite para o dia. Mas a conversa começou em janeiro de 2013 e se aprofundou nos últimos meses. De novo: eu estou mais na estratégia do que na prática. Não faço parte da campanha. No momento, eu não posso e não é isso que ele espera de mim. Mas, eventualmente, se ele tiver sucesso - e eu acredito que terá - eu estou a disposição.

    Como sr. está vendo o cenário eleitoral?

    Muita água ainda vai correr. Há um clara insatisfação com o que se tem hoje. Há espaço para a mudança. Eu espero que isso aconteça - não vou esconder as minhas preferências que são óbvias a essa altura -, mas penso que seria bom, de qualquer maneira, que aconteça. Eu acredito no debate que acontece pela imprensa, mais no caderno econômico do que no de política, aqui no Brasil. O debate econômico é muito bom. Eu leio os jornais de outros países. O Brasil tem densidade nessa discussão. É preciso que essa densidade seja de alguma utilidade também para o debate político. Isso tudo pode ser muito bom, mesmo que seja o ano em que os governos costumam esticar um pouco acorda para se reelegerem.





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