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domingo, setembro 21, 2014

Arminio Fraga: "No genérico", plano econômico de Marina não tem diferença de Aécio | GGN

Arminio Fraga: "No genérico", plano econômico de Marina não tem diferença de Aécio | GGN

Arminio Fraga: "No genérico", plano econômico de Marina não tem diferença de Aécio

Atualizado em 21/09/2014 - 09:30

Jornal GGN - Em entrevista ao Jornal O Globo, o economista de Aécio Neves (PSDB), Arminio Fraga, confirmou que as ideias de Marina no plano econômico não tem diferenças das de Aécio. "Vamos ver na prática se ela for eleita", completou.

Sobre a teoria do Banco Central independente, no papel de ambos os candidatos a presidência, o economista afirma que é um "absurdo o que fizeram para atacar" a candidata do PSB, e argumentou que Aécio nem tentou desmontar os argumentos do PT de que essa autonomia só interessa aos bancos.

Disse, ainda, que atual modelo econômico só faz remendos e que "não dá para o governo só fazer bondade".

De O Globo

Chefe da equipe econômica do candidato à Presidência Aécio Neves promete acabar com fator previdênciário de 'forma responsável'

Por Alexandre Rodrigues e Clarice Spitz

RIO — Em busca de um lugar no segundo turno, Aécio Neves (PSDB), prometeu uma "forma responsável" de acabar com o fator previdenciário. Em entrevista ao GLOBO, o chefe da equipe econômica dele, Arminio Fraga, diz que é possível, mas só se economia crescer.

Ainda acha possível para Aécio chegar ao segundo turno?

Claramente não é fácil, mas é possível uma concentração da atenção do eleitor na reta final. Aécio está tentando se diferenciar de Marina, mas a postura é muito diferente da do PT, que é até truculenta.

Qual é o desafio da economia no longo prazo?

Fazer conta, encarar a realidade e, se for preciso, fazer algum ajuste. É uma ilusão postergar tudo. Não dá para (o governo) só fazer bondade. A gente não consegue transformar o Brasil numa Noruega por decreto. Vamos ter que trabalhar muito, educar muito. É preciso fazer o melhor uso possível dos recursos em vez de colocar um remendo aqui ou ali e esperar as coisas se resolverem.

Mas Aécio promete várias bondades, como o fim do fator previdenciário. Não é contraditório com seu diagnóstico?

Salário mínimo e Previdência são questões importantes no longo prazo, que precisam ser discutidas, mas precisamos ver o todo. Só ficar listando bondades já sabemos que não dá certo. É possível mexer no fator previdenciário? É, mas não tem dinheiro sobrando. Só vai ter se o Brasil crescer. O modelo atual não está funcionando. Quer mais dinheiro para fazer bondade? Organiza a economia para crescer. O crescimento permite esse tipo de coisa. Posso querer distribuir mais dinheiro para os mais velhos agora, mas vou tirar das crianças? É de opções que estamos falando. Não é possível ter tudo ao mesmo tempo. Com uma economia mais arrumada, que possa crescer mobilizando o capital privado, é possível distribuir mais porque teremos mais. Mas não podemos ter medo de arrumar a casa.

O ambiente eleitoral dificulta o debate econômico?

Dificulta totalmente. A tentação populista é enorme. Isso precisa de alguma forma ser enquadrado. Mas o que atrapalha é o populismo, não as eleições, que é um momento glorioso da democracia. Por favor, registra isso porque, com o grau de mentira que há nesse debate hoje, o pouquinho que chegou perto de mim me deixou enojado.

Por que um candidato como Aécio não consegue desmontar argumentos do PT como o de que um BC independente só interessa aos bancos?

Acho que ele nem tentou.

Deveria?

Talvez. É um absurdo o que fizeram para atacar Marina, que falou em BC independente, mas certamente pensando no modelo de autonomia, como uma agência de governo.

Qual a sua opinião?

Sempre defendi autonomia operacional do BC como um bom modelo. Inflação baixa é um bem público. Aécio já deixou claro que vai, logo de cara, dar ao BC autonomia para perseguir uma meta de longo prazo que ele vai determinar. Ele não é fechado a transformar em lei (depois).

Marina se cercou de economistas com ideias parecidas com as do PSDB. Há uma diferença clara em relação a Aécio nesse campo?

No genérico não. Vamos ver na prática se ela for eleita. Essas ideias não são propriedade de ninguém, né? Vamos parar com essa história...

Participaria de um governo dela?

Estou totalmente comprometido com Aécio, a campanha está viva. Se ele por acaso não chegar lá, não pretendo ir para o governo.

O que investidores internacionais com quem fala pensam de Marina?

Não há opinião formada. Há curiosidade sobre como ela governaria sem base política, essa ideia de maiorias temáticas e gestos na direção de democracia direta.

Para o mercado, o mais importante é Dilma não se reeleger?

Essa é a força dominante. E não só no mercado financeiro. É uma percepção da economia como um todo.

Sem Aécio, Marina é melhor que a reeleição da Dilma?

Pelas pesquisas, é a opinião da maioria. E certamente é a minha.



Enviado do meu iPad

sábado, setembro 20, 2014

Quatro anos de fiasco, mas a culpa é dos outros Rolf Kuntz

- O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2014 | 02h 12

O inferno é o outro, conforme escreveu há 70 anos um filósofo e dramaturgo francês. A presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, certamente concordam. Mas o outro, poderiam acrescentar, tem lá seu valor. Sem ele, em quem jogar a culpa de nossos males, especialmente daqueles produzidos por nós? Para isso servem as potências estrangeiras, os bancos internacionais, os pessimistas de todas as nacionalidades e até o Banco Central do Brasil (BC), por sua insistência em manter os juros em 11%. Os maiores males deste momento ainda estarão por aí quando começar o próximo governo, em janeiro:

1) Os aumentos de preços ganharam impulso de novo. O IPCA-15, prévia da inflação oficial de setembro, subiu 0,39%, muito mais que o dobro da variação de agosto, 0,14%. A alta acumulada no ano, 4,72%, já ficou bem acima da meta, 4,5%. Em 12 meses chegou a 6,62% e dificilmente ficará abaixo de 6% no fim do ano.

2) Os economistas do mercado financeiro e das consultorias continuam reduzindo as projeções de crescimento econômico. A mediana das estimativas, na semana passada, ficou em 0,33%, de acordo com pesquisa do Banco Central. Coincidiu com a nova previsão divulgada pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE): 0,3%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicará números atualizados em outubro. A previsão para o Brasil será, com certeza, bem menor que a de julho, 1,3%.

3) As finanças do governo continuam virando farelo. Nem receitas especiais têm resolvido o problema. Pelas primeiras informações, a arrecadação inicial do novo Refis, o refinanciamento de impostos em atraso, ficou abaixo do valor previsto - algo na faixa de R$ 13 bilhões a R$ 14 bilhões. O pessoal do Tesouro deverá continuar recorrendo à criatividade contábil. Qualquer balanço razoável no fim de 2014 será uma surpresa.

4) As contas externas continuam fracas e o déficit em conta corrente, no fim do ano, deverá ficar ainda próximo de US$ 80 bilhões, segundo estimativas do mercado. Nada, por enquanto, indica resultados muito melhores em 2015.

5) O País ainda vai depender fortemente de financiamento externo para fechar o buraco das transações correntes. O investimento direto estrangeiro tem sido e provavelmente continuará insuficiente para isso. Faltarão uns US$ 20 bilhões neste ano e, segundo as projeções do mercado, uma quantia muito parecida em 2015. Essa diferença será coberta, em grande parte, por dinheiro especulativo. As condições internacionais de financiamento serão provavelmente menos favoráveis que as de hoje, especialmente se o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, confirmar a elevação dos juros básicos, atualmente na faixa de zero a 0,25% ao ano.

Mesmo com o desemprego bem mais baixo, o Fed provavelmente só começará a aumentar os juros se os seus diretores estiverem convencidos da firme recuperação econômica dos Estados Unidos. Essa recuperação será boa para todo o mundo. Atividade mais intensa na maior economia resultará em mais oportunidades comerciais para todos os parceiros - ou, pelo menos, para aqueles preparados para aproveitar a ocasião. A indústria brasileira tem mais perdido que aproveitado oportunidades, por falta de investimento, por excesso de custos e por erros da diplomacia comercial.

Mas o começo do aperto monetário, possibilitado pela recuperação americana, afetará os investimentos e o custo dos empréstimos. Juros mais altos atrairão dinheiro para os Estados Unidos. Isso poderá neutralizar, em boa parte, a sobra de recursos provocada pelo esperado afrouxamento da política do Banco Central Europeu.

Todo mundo espera essa mudança no quadro internacional. Governos competentes procuram tornar seus países menos vulneráveis a riscos financeiros e mais capazes de acompanhar a onda de crescimento liderada pelos Estados Unidos e acompanhada, com algum atraso, pelas economias europeias mais sólidas.

Economistas do FMI, em documento preparado para a conferência ministerial do Grupo dos 20 (G-20) neste fim de semana, na Austrália, chamam a atenção para os perigos e para os ajustes necessários. A recuperação continua, mas num ambiente de riscos. No Brasil, aponta o estudo, o baixo crescimento dificultará a execução da política fiscal e a redução da dívida pública. Além disso, a inflação elevada poderá tornar necessário um novo aumento de juros se as expectativas piorarem. Isso é exatamente o contrário do caminho apontado pelo ministro da Fazenda.

Mas o governo brasileiro, especialmente em caso de reeleição, sempre poderá atribuir parte dos problemas de 2015 ao Fed. O banco central americano foi responsabilizado por males brasileiros quando inundou os mercados com dólares, tentando estimular a economia dos Estados Unidos. A valorização do real, uma das consequências, encareceu as exportações brasileiras e barateou as importações. O ministro Mantega reclamou de uma guerra cambial.

Desde o ano passado o jogo mudou. Ao anunciar a redução dos estímulos monetários, o Fed mexeu nos fluxos de capitais, valorizou o dólar e, segundo Brasília, criou pressões inflacionárias. O impacto da mudança poderá ser mais forte no próximo ano, com o aumento dos juros. Bendito seja o Fed, um dos culpados de sempre.

A presidente Dilma Rousseff tem citado com insistência uma frase famosa de Nelson Rodrigues sobre o complexo de vira-lata. Não se sabe quantas páginas da obra rodriguiana ela realmente leu, mas a tal frase é importante no repertório presidencial. Não se sabe, também, quantas páginas de Sartre ela terá lido. Mas a ideia sartriana sobre inferno, reduzida a uma tosca simplicidade, tem servido à retórica defensiva de um governo fracassado. Benditos sejam os outros.

JORNALISTA

segunda-feira, setembro 15, 2014

Carlos Alberto Di Franco - O nobre político O Estado de S.Paulo

O nobre político - Opinião - Estadão



15 Setembro 2014 | 02h 03

A política brasileira está podre. Ela é movida a dinheiro e poder. "Dinheiro compra poder, e poder é uma ferramenta poderosa para se obter dinheiro. É disso que se trata as eleições: o poder arrecada o dinheiro que vai alçar os candidatos ao poder. Saiba que você não faz diferença alguma quando aperta o botão verde da urna eletrônica para apoiar aquele candidato oposicionista que, quem sabe, possa virar o jogo. No Brasil, não importa o Estado, a única coisa que vira o jogo é uma avalanche de dinheiro. O jogo é comprado, vence quem paga mais." Assustador o diagnóstico que o juiz Márlon Reis faz da política brasileira. Conhecido por ter sido um dos mais vibrantes articuladores da coleta de assinaturas para o projeto popular que resultou na Lei da Ficha Limpa, foi o primeiro magistrado a impor aos candidatos a prefeito e a vereador revelar o nome dos financiadores de suas campanhas antes da data da eleição. Seu livro O Nobre Deputado: Relato Chocante (e Verdadeiro) de Como Nasce, Cresce e se Perpetua um Corrupto na Política Brasileira (Editora LeYa, 2014) inspirou o título deste artigo.

A radiografia do juiz, infelizmente, acaba de ser poderosamente confirmada pelas revelações feitas pelo ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa. Em resumo, amigo leitor, durante oito anos, de 2004 a 2012, os contratos da maior empresa brasileira com grandes empreiteiras eram usados como fonte de propina para partidos e políticos. Dá para entender as razões da crise da Petrobrás - pilhagem, saque, puro banditismo -, que atinge em cheio os governos de Dilma Rousseff e Lula.

A lista de políticos que se teriam beneficiado do esquema de propina incluiria os presidentes da Câmara e do Senado, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) e Renan Calheiros (PMDB-Al); o secretário de Finanças do PT, João Vaccari Neto; o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão; a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB-MA); os ex-governadores do Rio de Janeiro e de Pernambuco Sérgio Cabral (PMDB) e Eduardo Campos (PSB), morto em agosto. As revelações também apontam como beneficiários das propinas os senadores Romero Jucá (PMDB-RR) e Ciro Nogueira (PP-PI) e os deputados Cândido Vaccarezza (PT-SP) e João Pizzolatti (PP-SC).

Mas é só o começo. Costa decidiu fazer a delação premiada para tentar encurtar sua temporada na cadeia, não quer repetir a experiência de Marcos Valério, condenado a 40 anos de prisão. Quando Valério quis fazer acordo de delação premiada, o operador do mensalão não tinha mais nada a oferecer à Justiça porque o esquema já estava desvendado. Agora a conversa é outra. Com o processo no início, não havendo ninguém denunciado, é o momento propício para oferecer o que os investigadores precisam: os autores e as provas do crime. As coisas estão difíceis para os acusados.

O novo escândalo é a ponta do iceberg de algo mais profundo: o sistema eleitoral brasileiro está bichado e só será reformado se a sociedade pressionar para valer. Hoje, teoricamente, as eleições são livres, embora o resultado seja bastante previsível. Não se elegem os melhores, mas os que têm mais dinheiro para financiar milionárias e sofisticadas campanhas. Empresas investem nos candidatos sem idealismo, é negócio, espera-se retorno do investimento. A máquina de fazer dinheiro para perpetuar o poder tem engrenagens conhecidas no mundo político: emendas parlamentares, convênios fajutos e licitações com cartas marcadas.

Recente editorial do Estado, apoiado na força da informação, revela parte dessa perversa engrenagem eleitoral. Levantamento do jornal em parceria com a ONG Transparência Brasil escancara um escândalo: "Apenas três empresas - a Construtora OAS, o frigorífico JBS e a Construtora Andrade Gutierrez, nesta ordem - respondem por 39% das doações aos candidatos à Presidência da República, conforme as prestações de contas de suas respectivas campanhas, encaminhadas à Justiça Eleitoral, como exige a lei".

A promiscuidade entre candidatos e empreiteiras está na origem de inúmeros desvios. É, no fundo, um empréstimo das empresas com resgate certo e lucrativo lá na frente. E quem paga a conta somos nós.

Indignação? Desencanto? É óbvio. O macroescândalo da Petrobrás promete. O mensalão vai parecer um berçário. O Brasil está piorando? Não. Está melhorando. A exposição da chaga é o primeiro passo para a cura do doente. Ao divulgar as revelações do ex-diretor da Petrobrás, a imprensa cumpre relevante papel: impede que o escândalo fique na gaveta de uma CPI do Congresso. Tem gente que não gosta do trabalho da imprensa. O ministro Gilberto Carvalho, por exemplo, ensaiou uma lição de ética jornalística ao criticar o vazamento do depoimento de Costa: "Vazamento sempre é condenável, porque pode ter sido por advogado de réu para proteger algum réu e prejudicar outro". E quando o vazamento é feito pelo PT, prática recorrente, tudo bem? A imprensa existe para divulgar informações relevantes. E alguém duvida da importância das revelações de Costa?

Há razões para otimismo? Creio que sim. A Lei da Ficha Limpa começa a dar os primeiro frutos. Paulo Maluf (PP-SP) e José Roberto Arruda (PR-DF), entre outros, podem estar fora das próximas eleições. A promiscuidade entre políticos e empresas parece estar com os dias contados. O Supremo Tribunal Federal, provavelmente, votará pelo fim das doações de empresas na ação movida nesse sentido pela OAB.

A imprensa de qualidade, livre e independente, está aí. Incomodando. Felizmente. Leia jornais. Informe-se. Acredite no Brasil, não em salvadores da pátria. E vote bem. O caminho é longo. Mas vale a pena.

*Carlos Alberto Di Franco é doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor do departamento de comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais. E-mail: difranco@iics.org.br




Tortuosos trajetos do dilmês - Opinião - Estadão

Tortuosos trajetos do dilmês - Opinião - Estadão

Tortuosos trajetos do dilmês

O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2014 | 02h 04

Se algo ficou evidente nos anos de governo Dilma foi a incrível batalha que ela mantém com a língua portuguesa e com o próximo - seja ele quem for. Nestes anos, o País pôde conhecer em detalhes o dilmês, um modo único de falar, que expressa não apenas ideias desconexas, mas evidencia um jeito conflituoso de se relacionar com o interlocutor. Talvez isso explique o fato de, apesar da sua longa vivência política, até 2010 Dilma Rousseff nunca ter disputado nenhuma eleição. Para ela, a comunicação em público e com o público deve ser um tormento. Mas o dilmês não é apenas uma maneira de falar. É também um comportamento que tem caracterizado a sua administração, marcada pelo convívio difícil, se não rude, com seus auxiliares, ações descoordenadas e falhas de harmonia.

Ao ver o projeto de reeleição cada vez mais distante do seu horizonte, e sob a orientação do chefe Lula - que, não de hoje, lhe vem sugerindo para deixar de lado eventuais escrúpulos e afirmar que o seu eventual segundo governo não terá nada a ver com o que se acaba, especialmente em relação à economia -, Dilma na semana passada começou a ceder e disse que, caso a população lhe dê um novo mandato, formará uma outra equipe. "Obviamente, novo governo, novas e necessariamente (sic) atualização das políticas e das equipes." No dia seguinte, surgiu nova oportunidade para seguir a recomendação do chefe Lula e, questionada sobre a permanência do ministro Guido Mantega no Ministério da Fazenda, ela respondeu: "Eleição nova, governo novo, equipe nova, agora só não faço uma coisa, não nomeio ministro em segundo mandato". Para todos, inclusive para o principal interessado, ficou certo que Guido Mantega deve continuar à frente do Ministério da Fazenda num eventual segundo mandato.

Naturalmente, Mantega - que é o ministro da Fazenda mais longevo da história recente do País - não ficou lá muito satisfeito com as declarações da presidente. Logo ele, que, sem se preocupar com a imagem pública e muito menos em demonstrar a consistência de seus conhecimentos de economia, leal e submisso, acompanhou Dilma pelos tortuosos caminhos que ela quis trilhar.

Diante do mal-estar criado, a presidente sentiu que era necessário socorrer o seu fiel escudeiro. E então novamente entrou em ação o dilmês. Tratou de explicar que o que havia dito - e todos haviam entendido - não era bem aquilo. Começou com o seu habitual "meu querido" - palavras gentis que, no entanto, significam que a presidente está se paramentando para a batalha e partindo para o ataque. "Meu querido, eu farei uma nova equipe, alguns (ministros) poderão ficar, outros serão renovados." E prosseguiu: "Um governo novo fará uma equipe nova. As pessoas que vão compor essa equipe podem vir do governo anterior, mas é uma nova equipe". Alguma dúvida sobre o que ela quer agora dizer?

Dias depois, Dilma voltou ao tema - a recorrência é uma prática habitual do dilmês - para dizer que Mantega sairá, mas não por causa de uma mudança nos rumos da economia. Simplesmente "por questões eminentemente pessoais".

Não é de todo estranho que Lula, velha raposa da comunicação, de vez em quando confidencie - não muito confidencialmente - seu arrependimento por ter escolhido Dilma como sua sucessora. De forma não indolor, ele prova agora o mesmo que a população brasileira provou nestes últimos quatro anos: um governo tão confuso quanto a fala de Dilma - aquela confusão que, no início de agosto, a fez assim explicar o porquê das atuais dificuldades do setor energético. "Temos regime hidrológico muito sensível à água."

O trajeto do dilmês não é linear. E os resultados, tampouco. Dilma queria comunicar algo em princípio simples: novo governo, novos rumos para a economia. Mas o fez de forma atabalhoada e sem se preocupar em ferir os sentimentos de Mantega. Muito menos considerou que a demissão extemporânea do ministro da Fazenda provocaria reações entre os agentes econômicos, corroeria ainda mais a credibilidade da duramente criticada política econômica do governo e poderia prejudicar a já abalada economia nacional.


domingo, setembro 14, 2014

Veríssimo - Marina

A comparação da Marina com o Jânio e o Collor é gratuita, mas, se ela for eleita, entrará na lista dos nossos presidentes exóticos — o que não significa que terá o mesmo destino dos outros. Mulher, negra, com uma história pessoal de superação da sua origem mais admirável até do que a do Lula, ela seria, no governo, no mínimo uma curiosidade internacional, e talvez uma surpresa. Acho difícil que sobreviva a todas as suas contradições e chegue lá, mas no Brasil, decididamente, você nunca pode dizer que já viu tudo. Temos uma certa volúpia pelo excêntrico.

A influencia da religião numa hipotética administração Marina é discutível. Não se imagina que o bispo Malafaia e outros bispos evangélicos teriam o mesmo poder no governo que tiveram sobre a redação dos princípios da candidata, obrigada a mudar alguns para não desagradá-los. E o que significaria termos um governo evangélico em vez de um governo católico ou umbandista? Obscurantismo por obscurantismo, daria no mesmo. Outra excentricidade do momento — sob a rubrica "Só no Brasil" — é o fato de a candidata mais revolucionária nestas eleições ser ao mesmo tempo a mais conservadora.

A aprovação quase universal do casamento gay está tornando esta questão obsoleta, para não dizer aborrecida, mas outras questões em choque com princípios religiosos, como a da liberação do aborto e a pesquisa com células-tronco, afetam a vida e a morte de milhões de pessoas. É impossível saber quantas mulheres já morreram em abortos clandestinos por culpa direta da proibição do uso de preservativos pelo Vaticano, por exemplo.

Não faz a menor diferença para mim, para você e para o nosso cotidiano se Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo porque nem Ele era de ferro, ou se a humanidade descende de macacos. Eu mesmo adotei uma crença mista a respeito: acredito que todos os antepassados da nossa espécie eram filhos de macacos menos os meus, que foram adotados. Mas a oposição à pesquisa com células-tronco que pode levar à cura de varias doenças hoje mortais não é brincadeira. É criminosa.

Acho a Marina uma mulher extraordinária. Mas, como alguém que está na fila para receber os eventuais benefícios de pesquisas com células-tronco, voto no meu coração.



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Os socialistas na Oscar Freire Elio Gapari

A elite dos Jardins, o socialismo e a campanha de Marina Silva

Luis Fernando Verissimo criou grandes personagens como o Analista de Bagé e a Velhinha de Taubaté, aquela que acreditava em tudo o que o governo dizia. A velhinha morreu e o analista sumiu, mas resta Dora Avante, fundadora do movimento Socialites Socialistas. Se Dorinha tivesse aparecido na reunião de Walter Feldman e Bazileu Margarido, o coordenador-geral e o tesoureiro da campanha de Marina Silva, com a Associação de Lojistas dos Jardins (SP) teria visto que pode estar próximo o dia em que a humanidade chegará ao coletivismo de grife. As repórteres Marina Dias e Ligia Mesquita estiveram lá e contaram o que viram.

Marina, como se sabe, disputa a Presidência da República pelo Partido Socialista Brasileiro, e na Associação dos Lojistas dos Jardins estão pessoas que trabalham com a vanguarda do socialismo de consumo. Ela inclui as vitrines da gloriosa Rua Oscar Freire, sacrário das grande etiquetas. A presidente da entidade vestia uma camiseta bordada com a bandeira brasileira e abriu a sessão pedindo a todos que cantassem o Hino Nacional. Feldman contou o que seria a sua "democracia de alta intensidade". Caíra mal na plateia a proposta de criação de "conselhos de participação da sociedade". Ele explicou que a ideia nada tem a ver com os "conselhos populares" de Dilma Rousseff:

"Vejo que vocês estão nervosos com isso. Temos que tomar cuidado para não remeter aos sovietes".

Uma das senhoras foi ao ponto: "O que me assusta em ter uma participação popular ativa é que a maioria às vezes é burra". Noves fora o fato de que se busca exatamente a formação de uma maioria para levar Marina ao Planalto, restou outra questão. Se o Partido Socialista Brasileiro é socialista, uma senhora tinha motivo para expor sua preocupação: "Isso é comunismo". Feldman explicou que Marina está apenas abrigada no partido e que o socialismo do PSB é um compromisso programático de 1947, ano de sua fundação.

Dora Avante, a Dorinha, acredita que surgiu o embrião para a vitória do seu movimento na busca da forma mais avançada de socialismo, o czarismo.

EIKE EM LONDRES

Eike Batista negocia em Londres a venda da ultima joia de sua coroa, a mina de ouro que tem na Colômbia. Pode valer US$ 800 milhões, e já se habilitaram a esse ervanário os bancos Itaú e Bradesco, além do poderoso grupo Mubadala, de Abu Dhabi.

Enquanto isso, a Caixa Econômica continua à cata das garantias do empréstimo de R$ 4 bilhões do Fundo de Marinha Mercante que fez ao estaleiro OSX. Elas eram compostas por ações da empresa (que viraram pó), pelo empreendimento (um terreno no porto do Açu), pelo aval do empresário e por uma apresentação em PowerPoint.

Sobrou o PowerPoint.

CASO ESQUECIDO

No que se refere à campanha eleitoral, a doutora Dilma explica tudo, menos o que aconteceu com sua promessa e de Fernando Haddad, então ministro da Educação, de realizar dois exames do Enem a cada ano.

A promessa foi renegada pelo comissário Aloizio Mercadante quando passou pelo ministério e pelo atual presidente do Inep, Chico Soares. Esse exame substitui o vestibular, no qual a garotada é obrigada a jogar um ano de suas vidas num só exame (nos Estados Unidos, numa prova semelhante, as oportunidades são sete a cada ano).

O comissariado gosta de cobrar de Marina o que ela disse e não diz mais. Bem que poderia cobrar de si o que prometeu durante o governo, reiterou e não faz.

LULA NA POSSE

Pelo andar da carruagem, no dia 1º de janeiro Lula estará na posse da nova presidente do Brasil, dizendo-se satisfeito com a posse da amiga.

OLHO DE GENEBRA

O Ministério Público brasileiro está de palavra passada com seu similar suíço na investigação das trilhas financeiras de Paulo Roberto Costa e de seu parceiro Alberto Youssef.

Cuidam para que essa investigação transcorra sem dar oportunidade às travas colocadas no Brasil para atrasar em anos o trabalho que desvendou uma parte do esquema tucano com o cartel da Alstom.

ROOSEVELTS

Está chegando às lojas americanas mais uma feitiçaria do grande diretor de documentários Ken Burns. É "Os Roosevelts". São sete episódios cruzando as vidas de três personagens que marcaram como ninguém os Estados Unidos do século XX. O primeiro, Theodore, governou de 1901 a 1909. O segundo, Franklin, de 1933 a 1945. A terceira, Eleanor, era sobrinha de um e casou-se com o outro.

Burns já fez uma série sobre a Guerra Civil americana que revolucionou a arte dos documentários históricos. Aristocratas abatidos por dramas pessoais, os Roosevelts deram a volta por cima, bateram de frente com a plutocracia americana e reformaram o país. Teddy perdeu a mãe e a mulher no mesmo dia, na mesma casa. Por pouco não morreu numa expedição à Amazônia. Franklin ficou paralítico aos 39 anos, pegou um país quebrado em 1933, reformou sua economia, venceu a Segunda Guerra e transformou-o numa potência que jamais voltou a ser.

Se Deus é brasileiro, um dia "Os Roosevelts" vai ao ar em Pindorama. Alguns capítulos da série da Guerra Civil estão no YouTube, em português.

DEIXEM O PAULINHO FALAR EM PAZ

A colaboração do petrocomissário Paulo Roberto Costa com a Viúva tornou-se o pesadelo de maganos e grandes empresas metidas em seus negócios e nos do doleiro Alberto Youssef.

Mais que depressa, parlamentares querem que ele vá depor na CPI Mista da Petrobras. Logo numa CPI, instituição transformada em lavanderia de escândalos. O que se busca não é seu depoimento, pois esse está sendo colhido sigilosamente pelo Ministério Público, com vídeo e áudio. Esse serviço só terminará quando os procuradores concluírem as oitivas. Não há por que fatiá-lo. O que se quer é tumultuar as investigações, e nisso entram toda sorte de interesses.

Para ilustrar a manobra, vai aqui uma fábula:

Às oito da manhã de 24 de agosto de 1954, um advogado chegou a uma pensão da Rua do Catete. Fora chamado por um cliente que matara a mulher a facadas e saíra no corredor, ensanguentado, empunhando a arma do crime. Pouco havia a fazer, mas um rádio anunciou: "O presidente Getulio Vargas suicidou-se com um tiro no coração".

O advogado vira-se para o delegado e diz: "Doutor, esses dois acontecimentos estão relacionados, peço-lhe que leve em conta esse fato na sua investigação".

Juntando-se as duas coisas, poderiam aparecer novas versões, novas testemunhas e novos tumultos.

Nos últimos anos, o Congresso já montou duas CPIs para cuidar da Petrobras. Deram em nada, isso para não se falar da teatral e inútil CPI do bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Elio Gaspari é jornalista

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quinta-feira, setembro 11, 2014

Independente do governo. Carlos Alberto Sardenberg

Independente do governo

Independente do governo

Vamos deixar de lado a privatização da Petrobras. Só o pastor Everaldo defendeu a tese e ele tem 1% nas pesquisas de intenção de voto. Se quase ninguém acha viável essa ideia, não convém perder tempo com ela, ao menos por ora. Mas há uma questão inadiável: como dirigir uma estatal desse tamanho?
Reparem no nome: é estatal, não governamental. Faz diferença. Governos mudam a cada quatro anos, o Estado é sempre o mesmo. Se aceita a preliminar de que o Estado brasileiro deve ter uma companhia de petróleo, não decorre daí que o governo de plantão pode administrá-la como bem entender.
Sim, o governante é eleito pelo povo para aplicar determinado programa político. Mas assim como esse programa não pode, por exemplo, estatizar a imprensa, também o governo eleito, o Executivo, não pode, pelo outro lado, decidir vender a Petrobras.
O monopólio do petróleo, que é da União, está na Constituição. A Petrobras foi criada por lei do Congresso Nacional como um estatal no ramo do petróleo, mas não é mais a titular do monopólio. Perdeu essa condição por uma emenda constitucional votada em 1997.
Eis um ponto curioso, portanto: o Congresso pode, mediante emenda constitucional, abolir o monopólio do petróleo e manter a Petrobras como estatal operante. Ou o contrário: pode fechar a Petrobras e manter o monopólio, contratando outras empresas para extrair o óleo.
Nada disso está na pauta, mas um dia estará. De todo modo, para qualquer lado que se vá, trata-se de questão estratégica, a ser decidida por ampla maioria do Congresso Nacional. São objetivos do Estado brasileiro, não do governo deste ou daquele partido.
Por isso, a Constituição e as leis precisam proteger o Estado da ação de maus governos. Há governos incompetentes e mal intencionados, não é mesmo?
Além disso, o bom senso sugere que administrar uma multinacional de petróleo, seja privada ou estatal, não é coisa para amadores. Como se faz no mundo privado? Os donos, os controladores da companhia estão no conselho de administração (ou de diretores) e daí definem os objetivos estratégicos. E contratam no mercado os executivos que vão tocar o negócio, segundos os parâmetros definidos pelo conselho.
Em tese, é isso que acontece com a Petrobras. O governo eleito, representando a União, a controladora, nomeia membros para o conselho de administração. E este escolhe os diretores executivos.
Mas algo, evidentemente, saiu muito errado nos últimos anos. Não é possível que uma companhia séria cometa tantos erros e perca tanto dinheiro em tantos negócios mal feitos.
A origem do problema é uma perversa combinação de fisiologismo com ideologia. Fisiologia, como se dizia antigamente, é a ação dos partidos que se apropriam do aparelho do Estado para beneficiar os correligionários, amigos e apoiadores com cargos e/ou negócios. Governar é nomear e demitir — ainda se diz por aí.
A ideologia, no caso, é a de esquerda, que considera essencial o controle das estatais para, digamos, colocá-las "a serviço do povo".
Juntem esses partidos e dá na Petrobras de hoje. Lula, quando presidente, mandou a Petrobras construir muitas refinarias, considerando isso um objetivo estratégico. E a construção dessas magníficas obras caiu nas mãos, quer dizer, nos bolsos do pessoal da fisiologia.
Errado duas vezes. A companhia não tinha capacidade financeira nem operacional para tocar tanta coisa ao mesmo tempo, mesmo que não houvesse erros técnicos e desvio de verbas.
Como proteger a Petrobras desses malfeitos? Controle mais rígido das decisões do conselho de administração, nomeação obrigatória de conselheiros representantes do Congresso, por exemplo, e de executivos de fora do governo, todos com responsabilidades definidas, além regras de gestão, inclusive para contratação dos executivos. Um presidente contratado no mercado internacional, com mandato, não seria mais eficiente para tocar os objetivos definidos pelo Estado?
Em resumo, regras formais de governança e controle externo. A empresa terá objetivos estratégicos definidos politicamente. Mas a gestão deve ser independente dos interesses partidários do governo de plantão.
Vale também para o Banco Central. O objetivo, controlar a inflação, sustentar crescimento, deve ser fixado no âmbito político. A gestão, independente, do governo e dos interesses privados e partidários.
O Banco Central da Inglaterra contratou seu presidente, o canadense Mark Carney, numa seleção internacional. Publicou edital definindo as competências e recebeu inscrições.
E podem reparar: onde há inflação controlada, melhor desempenho econômico e, sobretudo, juros menores, há um banco central independente, do governo.
Carlos Alberto Sardenberg é jornalista


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O petróleo é deles Demetrio Magnoli

O petróleo é deles

O petróleo é deles

'O Ildo não é do governo, ele é um petroleiro", teria dito Dilma Rousseff, segundo o próprio Ildo. A frase, real ou imaginária, lança luz tanto sobre a captura da Petrobras pelos interesses de financiamento partidário quanto sobre a narrativa nacionalista que recobre as empresas estatais. Ildo Sauer enxerga nas estatais a salvação do Brasil. O governo enxerga nas estatais uma poderosa ferramenta de um projeto partidário de poder — e, com razão, sorri com desdém da ingenuidade do "petroleiro" que acreditou nas suas proclamações retóricas. O capitalismo de Estado é um negócio, muito mais que uma doutrina.

Sauer é um comunista da vertente nacionalista, o tipo que interpreta a teoria do imperialismo de Lênin sob um viés terceiro-mundista e ainda elogia o suposto sucesso econômico da antiga União Soviética. O professor da USP ajudou a elaborar o programa de Lula para o setor elétrico e ocupou a diretoria de Gás e Energia da Petrobras entre 2003 e 2007, de onde saiu atirando obuses contra a retomada dos leilões de petróleo. Ele qualificou a concessão de campos na franja do pré-sal à OGX como "o ato mais entreguista da história brasileira", acreditou que a empresa de Eike Batista produziria 1,4 milhão de barris/dia e, junto com a Federação Única dos Petroleiros (FUP), denunciou o leilão de Libra como mais uma traição à pátria. Hoje, seus bens estão bloqueados por um TCU engajado na seleção de bodes expiatórios.

Dias atrás, o PT decidiu acusar Marina Silva de "antinacionalista", difundindo a mentira de que ela pretende privatizar a Petrobras. A FUP, sob controle petista, entrou na campanha de Dilma, encarregando-se de organizar atos "em defesa do pré-sal" com o objetivo de conferir substância ao discurso anti-Marina. Os sindicalistas são realistas: sabem que devem ajustar a chama de seu "nacionalismo" segundo o ritmo dos ciclos eleitorais. Sauer, um Quixote do estatismo, acredita de fato nas assombrações que invoca. O "petroleiro" nunca entendeu a lógica do lulopetismo nem o significado político da retórica nacionalista.

Os habitantes da antiga União Soviética não estavam de acordo com Sauer sobre o desempenho econômico do "socialismo real". O fracasso histórico do sistema soviético provocou a implosão do "império vermelho" — e, junto com ela, a falência ideológica do estatismo tout court, ainda hoje pregado por Sauer. No mundo que emergiu depois de 1991, a alternativa realista à economia de mercado é o capitalismo de Estado. Contudo, nesse modelo, como entendeu perfeitamente o lulopetismo, as empresas estatais funcionam como nexos entre o poder político e as grandes empresas transnacionais ou nacionais. Lula e Dilma sujaram as mãos de petróleo celebrando a súbita (e, viu-se, efêmera) conversão de Eike Batista num magnata genuinamente nacional. Os atos "entreguistas" que escandalizam Sauer inscrevem-se na normalidade do capitalismo de Estado. O "petroleiro" é um sonhador — mesmo se seu sonho não passa de uma reprodução do pesadelo soviético do passado.

No universo mental de Sauer, o perigo mora no investimento privado. Sua acusação básica incide sobre os leilões de campos de petróleo. "Fernando Henrique fez quatro, Lula fez cinco. Lula entregou mais áreas e mais campos para a iniciativa privada do petróleo do que Fernando Henrique", explicou numa longa entrevista à "Revista Adusp", em 2011. Entretanto, à frente de uma diretoria da Petrobras, o inflexível estatista descobriu que outros interesses privados participavam do grande jogo do petróleo. Numa entrevista concedida há uma semana a "O Estado de S.Paulo", Sauer oferece testemunho da nomeação de "despachantes de interesses" na estatal: "O governo de coalizão do presidente Lula passou a permitir que grupos de parlamentares e partidos se reunissem para indicar dirigentes." Obviamente, ele não diz que nisso reside uma das diferenças cruciais entre a Petrobras do governo Fernando Henrique e a do governo Lula.

A FUP não se importa com a captura partidária da estatal, preferindo concentrar-se em promover uma pobre contrafação eleitoral do discurso estatista de Sauer. Mas o "petroleiro", emparedado num sonho carente de suporte político e abandonado pelo partido que escolheu, já não pode mais virar as costas à realidade. Na entrevista recente, ele aponta na direção certa, rejeitando a lenda de que os "despachantes de interesses" operavam à margem do Planalto. "Lula se queixou a um deputado que eu não ajudava muito e que ele estava muito impressionado com a ajuda de Paulo Roberto, que ajudava muito", contou Sauer, referindo-se ao episódio de sua demissão. No capitalismo de Estado, as estatais têm dono.

Paulo Roberto Costa começou a "ajudar" em 2004, quando Lula o catapultou à Diretoria de Abastecimento da Petrobras, e continuou "ajudando" até 2012, segundo ano do governo Dilma. Sauer acompanhou, à distância, a montagem da operação que resultaria nos escândalos das refinarias de Pasadena e Abreu e Lima. "Não me envolvia com isso porque achava que não era pertinente", justifica-se tardiamente o "petroleiro", que consumiu 20 páginas da "Revista Adusp" para bombardear o "neoliberalismo" sem nunca mencionar a privatização partidária da estatal. Nitidamente, o seu novo foco reflete o impacto pessoal das decisões do TCU, que incriminam os peixes pequenos e os inocentes, resguardando Dilma e Graça Foster, as principais vozes oficiais de comando.

"Um Estado dentro do Estado" — a célebre definição da Petrobras, utilizada pelo próprio Lula, sintetiza o dilema de governança das estatais. A única alternativa à captura política do "Estado paralelo" pelo governo de turno é inscrever a Petrobras no sistema de contrapesos da economia de mercado, intensificando a concorrência no setor da exploração de petróleo e expondo-a à competição internacional. Sauer, o inimigo jurado do mercado, jamais entenderá isso.

Demétrio Magnoli é sociólogo



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11/09/14

quarta-feira, setembro 10, 2014

Fica, Guido! - 10/09/2014 - Alexandre Schwartsman - Colunistas - Folha de S.Paulo

Fica, Guido! - 10/09/2014 - Alexandre Schwartsman - Colunistas - Folha de S.Paulo

Fica, Guido!

Passei o fim de semana desnorteado. A presidente antecipou a demissão do ministro da Fazenda, que agora que desfruta da inédita condição de ex-ministro em atividade, com consequências funestas para a temperatura de seu cafezinho (pelo que me lembro, o café da Fazenda já era particularmente abominável; frio então...), assim como para qualquer iniciativa que ainda pretenda tomar no campo da política econômica.

Funestas serão também as implicações para minha vida de colunista. Desde que aceitei o convite para escrever uma vez por semana neste espaço, sempre me angustiei com o tema da coluna. Suores frios, insônia, o tique-taque implacável, o cursor piscando na tela em branco... Nestas horas, porém, sempre pude contar com a contribuição inestimável de Guido Mantega: quase toda semana ele me ofereceu, de forma mais que graciosa, ideias para meus artigos, ideias que, francamente, minha parca imaginação jamais atingiria.

O desmantelamento do tripé macroeconômico, por exemplo, rendeu dezenas de colunas. A possibilidade de avaliar a tal da "nova matriz macroeconômica", em particular prever seu fracasso com anos de antecedência (não estou me gabando: qualquer bom aluno de graduação chegaria às mesmas conclusões), foi imprescindível para o enorme sucesso desta coluna entre todos os meus 18 leitores.

Não foram poucas também as chances de detalhar as várias instâncias de contabilidade criativa: o fundo soberano, os empréstimos para o BNDES, a contabilização da venda de ações da Petrobras em troca de direitos de exploração de petróleo como receita da União e, mais recentemente, a "pedalada", entre tantos outros. Cada uma destas foi objeto de mais de um artigo e, para ser sincero, este veio ainda não se esgotou.

Isso sem contar as oportunidades únicas de comparação de declarações ministeriais prestadas em momentos distintos e geralmente contraditórias. No dia 30 de maio deste ano, por exemplo, ao comentar o pibículo do primeiro trimestre, o ministro disse que "a Copa do Mundo deve ajudar a melhorar a economia do país, e que o resultado do PIB no segundo trimestre provavelmente será melhor que no primeiro".

Confrontado, porém, com a queda do PIB no segundo trimestre e a revisão para baixo do desempenho no primeiro, "o ministro culpou o cenário internacional, a seca (...) e a redução de dias úteis em razão da Copa pelo resultado negativo da economia brasileira". Por outro lado, segundo ele, não devemos nos preocupar, pois "provavelmente vai chover muito em 2015"...

Desconfio ter me empolgado, mas, pelos exemplos acima deve ficar claro que a presença de Guido Mantega no Ministério da Fazenda é garantia contra bloqueios criativos, pelo menos no caso de colunistas econômicos à busca de temas. Não é outro o motivo da minha preocupação com a crônica da demissão anunciada.

Ao contrário da revista "The Economist", que tempos atrás pediu de forma irônica a permanência do ministro, apelando à psicologia reversa, eu sou franco em meu apelo, ainda mais porque se trata, como se viu, de matéria do meu mais profundo interesse.

Acredito, inclusive, que seria caso de mantê-lo como ministro qualquer que seja o resultado da eleição. Não é que eu deseje o mal do país, mas poderíamos deixá-lo na mesma posição que hoje ocupa, isto é, sem qualquer relevância para a formulação ou execução da política econômica; apenas para nosso entretenimento.

AGRADECIMENTO

Aproveito o espaço para agradecer às muitas expressões de apoio e solidariedade referentes à tentativa frustrada do Banco Central em abrir queixa-crime contra mim por críticas à política adotada pela instituição, refletida na taxa de inflação acima da meta bem como acima do intervalo de dois pontos percentuais ao seu redor.

Tivesse mais do que os cerca de 3.800 caracteres desta coluna, agradeceria a cada um pessoalmente; na impossibilidade, manifesto aqui minha gratidão a todos.



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A revanche contra o Ocidente Luiz Felipe Lampreia

A revanche contra o Ocidente

O Globo

Na Batalha de Poitiers, em 732, Carlos Martel derrotou as tropas muçulmanas e freou o expansionismo árabe, que já havia conquistado boa parte da Península Ibérica e pretendia avançar sobre o continente europeu. Em janeiro de 1492, com a vitória dos reis católicos na Batalha de Granada, consumou-se a queda do Califado de al-Andalus e o fim da presença muçulmana na Europa. Estas duas derrotas marcaram o fim da presença árabe no continente europeu e representaram uma humilhação que os muçulmanos jamais digeriram. A al-Qaeda e agora o Estado Islâmico buscam, de certo modo, vingar estas derrotas para o Ocidente.

O califado extremista no Iraque e Síria é um fato novo. Isso significa que o inesperado ocorreu: existe hoje um Estado Islâmico (EI) com recursos humanos, fundos amplos, armamentos pesados, bases militares, um sentimento nacional e uma liderança determinada. Tal Estado é uma perigosa organização terrorista e muito mais. Trata-se de um governo de fato que procura impor sua concepção do mundo a milhões de pessoas e hoje controla e busca expandir suas fronteiras, além de promover ações terroristas no exterior. Atua com base em concepções políticas medievais, mas vale-se de todos os recursos modernos da comunicação social. Seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi, divulgou um comunicado elogiando Bin Laden no momento de sua morte e ameaçou uma violenta retaliação. É o que está em curso hoje.

Os Estados Unidos e o mundo em geral foram subitamente confrontados com esta nova realidade. Pela primeira vez, este governo de fato procura expandir suas fronteiras, nas quais procura impor sua visão a milhões de pessoas sobre as quais exerce uma ascendência, como suas ações recentes têm demonstrado.

O Iraque, um estado em decomposição, tem sido o principal teatro de operações do EI e sua base original. Mas a Síria, outro estado em desagregação, é hoje o núcleo principal de suas ações militares. Acreditou-se ingenuamente que os oponentes de Bashar Al-Assad eram democratas. Rapidamente, porém, os grupos radicais assumiram a vanguarda. A partir daí, começa o fluxo de recursos financeiros, recrutas e armamentos para os radicais do EI.

Henry Kissinger, a despeito de seus 90 anos, continua agudamente lúcido e afirma em livro recém-publicado que "a Síria e o Iraque provavelmente serão incapazes de reconstruir-se como estados. O conflito nesses países e nas áreas próximas tornou-se o símbolo de uma nova tendência inquietante: a desintegração dos estados nacionais e sua absorção por unidades sectárias e tribais, através das fronteiras em violentos confrontos entre si e manipulados por forças externas, sem observar nenhum regra além da força bruta".

Depois da grande ilusão da Primavera Árabe, que antevia amanhãs risonhos e democráticos para o Oriente Médio, a roda da História gira agora em sentido inverso. Da desintegração da ordem regional vigente e sua substituição por crescentes forças radicais e antiocidentais surge um quadro mais preocupante do que nunca. A ameaça das forças que buscam uma revanche de Carlos Martel e dos reis católicos de Granada é uma ameaça sistêmica sem precedentes. O Ocidente começa a dar-se conta disso. Ainda não é claro que conclusões tirará.

Luiz Felipe Lampreia foi ministro das Relações Exteriores



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Candidatos, pedintes e profetas Roberto DaMatta

Candidatos, pedintes e profetas
O Globo 

Omomento pré-eleitoral expõe uma inversão carnavalesca. Um igualitarismo e uma descentralização somente admitidos nos eventos liminares desregrados ou orgiásticos quando Apolo, o controlador dos acontecimentos, cede o palco a Dionísio, o revelador.

De saída, vale mencionar a mudança dos poderosos que — bem vestidos e protegidos, os que sabem tudo sobre o Brasil — transformam-se em profetas e pedintes. É com o coração na mão que nós os vemos fantasiados de gente simples, ouvindo eleitores em locais insalubres e perigosos. Em botequins baratos, a comer pastéis ou traçando com indisfarçável falta de jeito um bandejão.

Essa saída dos palácios e partidos (com seus protocolos protetores) para mergulhar nos braços do populacho é dramática, mas é a prova de que alguns desses profetas amam esse "povo" de coração. Quanto mais não seja por mero reconhecimento, porque é dele que vivem, enriquecem, fazem suas revoluções e morrem e é para ele que profetizam.

São poucas as promessas que fecham com a realidade, mas, como em política "vale tudo", todos tentam convencer que há um mundo novo a nascer de suas mãos.

De recebedores ricos, tornam-se modestos passistas. Visam acima de tudo aos votos dos desvalidos e, como não trabalham, focam, fascinados, o "trabalhador". O fato, porém, é que, uma vez vitoriosos e "arrumados", esses profetas da mudança, da honestidade e da revolução tornam-se "políticos" e viram amigos dos seus inimigos e compadres e comparsas dos seus exploradores, de modo que tudo muda, menos a "política" cuja promessa era justamente mudar.

Vindo de cima ou de baixo, nenhum eleito recusa o palácio, as mordomias e os milhares de cargos que pode preencher nomeando por mérito ou — e essa é uma complicação — simpatia, aparelhamento, parentesco ou no roubo puro e simples em nome do partido.

É tocante.

Havia um desses candidatos que, após visitar os morros, sentia-se "sujo". Tal como um brâmane — esse ser que habita todos os "superiores" deste nosso Brasil da desigualdade — era somente após um banho que ele ficava à vontade com seus partidários e amigos. Mas muitos, advirto, sentem-se realmente à vontade ao lado do povo pobre, embora o cargo que desejam, com suas incríveis vantagens financeiras e a sua roupagem aristocrática (as "mordomias") venha contraditoriamente tirá-lo da esfera dos desvalidos.

Não quero estigmatizar os candidatos que surgem na minha televisão como um patético álbum de figuras dignas de um Lombroso no pior método de propaganda eleitoral do planeta pago com dinheiro público. Desejo apenas acentuar essa carnavalização da autoridade obrigada a confrontar-se pessoalmente com a sua obra: a rua esburacada, o esgoto a céu aberto, o mar e os rios emporcalhados, a miséria chocante dos que lhes pagam um grandioso estilo de vida. De todos os idiotas que, de tempo em tempo, retornam ao ato eleitoral tendo como motivo um fio de esperança ao lado das grossas algemas das profecias. E dos últimos escândalos...

Exatamente como num desfile carnavalesco no qual os pobres surgem magicamente fantasiados de felicidade, a fase pré-eleitoral faz o arrogante virar humilde; o insincero tornar-se um marco de honestidade e — pasmemos todos! — os que jamais fizeram coisa alguma a prometer uma enorme competência num novo governo ou num governo novo!

Não deve ser fácil pedir para quem mandava. A competição faz surgir uma dimensão esquecida do papel de administrador público — aquele que depende do seu lado lamentavelmente apagado: o eleitor. O homem comum que não tem puxa-sacos e mordomias. Que mal educa os filhos; que teme a violência e enfrenta todas as filas. Inclusive a do voto.

Trata-se de uma reviravolta dramática porque surge numa moldura de temível igualdade e numa indeterminação competitiva que amedronta. Na eleição, todos dependem de uma conjuntura imprevista que corrói fachadas. Ademais, como competir num país que, mesmo adotando a democracia, ainda chama de "bate-boca" e toma como agressividade discordâncias legítimas?

Seria o medo do retorno do nosso velho companheiro? O famoso autoritarismo risonho, doce e feito sob medida para o povo e de quem discorda e ao qual critica? Esse neofascismo que permitiria permanecer décadas no poder porque somente assim o Brasil pode mesmo ser arrumado, cuidado e consertado?

A ausência de valores e a política como um campo no qual os fins justificam brutal e abertamente os meios, inventa um tempo patético e arriscado. A palavra final não está mais com o governante, mas com o eleitor. Com a opinião pública que o neofascismo nacional sempre odiou, porque ela cria novos fatos para quem, no poder, pensa que não está sujeito a nenhuma circunstância.

Subitamente, vejam que enrascada, a democracia no seu implacável trabalho de igualar, desequilibrar e limitar, mostra que o papel que ocupávamos não é nosso, mas pertence a esse povão que governamos e que aceita e acredita em (quase) tudo.

Roberto DaMatta é antropólogo



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INDICE DE ARTIGOS 10/09/14

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