Entrevista:O Estado inteligente

sábado, maio 06, 2006

Oitavo passageiro REINALDO AZEVEDO

O GLOBO



No sábado, enquanto vocês estiverem lendo este texto, uma máquina terá perfurado o meu crânio em busca do "Outro". Uma junta militar de médicos, sob a minha orientação civil, foi encarregada de restabelecer a ordem no caos e a "vontade augusta de ordenar a criatura ao menos". Eu sempre cito Mário Faustino em tudo o que faço. "Tanta violência, mas tanta ternura."

O subversivo que vai ser banido não me fez guardador de rebanhos, não me saudou com uma nova metafísica, não me deu nada. Acenei com um Bandeira na mão: "Olá, iniludível". Mas devo passar (Lucas) pela "porta estreita". É o que diz uma máquina chamada PET Scan, que indica as regiões com maior metabolismo de glicose, que caracteriza tumores malignos. Nada de mal, só de mau. Então lá vou eu no tobogã.

Escrevo num quarto de hospital, onde pedi para instalarem um laptop. Nada tenho a fazer com doenças. Creio ser razoavelmente comum que as pessoas sintam alguma pena de si mesmas a partir do momento em que se olham no espelho sem procurar, a exemplo dos macacos, quem é aquele cara atrás do vidro. A imagem me foi soprada por Contardo Calligaris. "Aquilo é você" é a chave para entender o mundo. O resto é quase só perfumaria.

Para lembrar uma das muitas maravilhas de Musil, o segredo não está no bordado da roupa que exibimos, e sim na "fina roupa de baixo de nossa consciência". Mas e os bordados que trazemos de família, brasões, que já estão colados à nossa pele, hábitos que nos são mais íntimos que a própria roupa de baixo? E o que sobra de nosso queixo no queixo de nossos filhos?

Eu juro para vocês que cheguei a ensaiar alguma solenidade. Sob certas circunstâncias, talvez seja permitido a todo mundo um quê de ridículo, só para que a vigilância não se transforme também ela num maneirismo. Não existe ascetismo virtuoso que tenha consciência de ser o que é. E eu não tenho nada de asceta. Sou até bastante efusivo nos meus ódios e nos meus amores. E tenho a pretensão de ter inimigos com a mesma fé com que tenho amigos.

Há um homem barroco em mim, impossível de ser extirpado. Assim, é bem possível que tenha delirado algumas antíteses, que tenha sonhado algumas metáforas, que, doido, tenha imaginado psicografar o futuro, com aquelas cascatas alegóricas que caracterizam as profecias.

Volto a "O Homem Sem Qualidades", de Musil: um casal anda na rua. Alguém é atropelado.

"A dama estava com uma sensação ruim no coração e no estômago, que tinha o direito de considerar compaixão; uma sensação vaga, paralisante. Depois de algum tempo, o cavalheiro disse:

— Os caminhões pesados que se usam por aqui têm um tempo de freagem longo demais.

A dama se sentiu mais aliviada e agradeceu com o olhar (...); bastava-lhe que aquilo explicasse o terrível acidente, reduzindo-o a um problema técnico, que já não a interessava diretamente (...)."

Musil está comigo e sempre. Eu queria ser despido de anseios a ponto de dizer pessimismos e grandezas como quem constata: "vai chover" ou "hoje é sábado". A exemplo de uma de suas personagens, queria me sentir atraído "por todas as coisas magras e severas", sem nem mesmo me ocupar em pensar na minha predileção por "coisas magras e severas".

O diabo é que há cirurgias que não podem ser feitas, por mais que tentemos limpar nossa cabeça de impurezas, desejos, tumores e adjetivos. Você se olha no espelho, leitor amigo, e sabe que é um macaco com erro de cálculo e alguns anseios. E logo se vê tentado a reformar o mundo inteiro — e é claro que esse é o grande mal que fazemos a nós mesmos.

Já escrevi hoje sobre Lula, Evo Morales, Chávez, a mulher barbada e os anões xifópagos. Tenho receio de começar a desenvolver uma relação doentia com este circo de horrores. Um querido amigo e eu não vemos a hora de o Apedeuta cair fora pra gente mudar de assunto e tratar de outros tumores.

A verdade é que queria um governo sobre o qual não desse vontade de falar nada. Governos devem servir apenas para a gente olhar o poente em paz.

Aos esperançosos de um e de outro lado, faço fé: eu volto.
REINALDO AZEVEDO é jornalista. E-mail: mahfud@uol.com.br.

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