sábado, dezembro 13, 2003

Diogo MainardiDiplomacia da rapadura


"O Brasil não precisa de política externa,
precisa só de preços baixos. Deveríamos
transformar
nossas embaixadas em frigoríficos
para frango congelado e suco de laranja"

Vamos vender rapadura aos árabes. Foi o saldo da viagem de Lula ao Oriente Médio. O contrato para o fornecimento de rapadura depende da construção de uma refinaria de açúcar na Síria, por parte de usineiros de Ribeirão Preto. Não entendi se o empreendimento irá contar com dinheiro do BNDES. Entendi apenas que o Brasil não receberá investimentos dos árabes, serão os árabes a receber investimentos dos brasileiros. Para um mascate internacional, como Lula definiu a si mesmo, o resultado não é muito animador: 150 milhões de dólares aplicados num país que está na bica de sofrer um boicote econômico.

Os usineiros de Ribeirão Preto que irão construir a refinaria na Síria são antigos aliados do PT. Eles financiaram as campanhas eleitorais de Antonio Palocci. O prefeito petista de Piracicaba, José Machado, também foi financiado por usineiros da região. José Machado era sócio do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel numa empresa de consultoria que intermediava licitações em prefeituras do PT. Outros sócios da empresa eram Miriam Belchior, atual secretária de Lula, e Sérgio Gomes, suspeito de ser o mandante do assassinato de Celso Daniel. Luiz Gu-shiken também tinha uma empresa de consultoria, contratada pelo PT para traçar o projeto da reforma da Previdência. Quando virou ministro, Gushiken tratou de nomear os diretores dos fundos de pensão das estatais. O setor, um dos mais ricos da economia, está inteiramente nas mãos dele. Os petistas podem não saber cuidar dos interesses da nação, mas sem dúvida sabem cuidar de seus próprios interesses.

Tudo indica que Lula pretende inserir o Brasil no falido movimento dos países não-alinhados. Ele repete sem parar os bordões do movimento sobre o multilateralismo e a cooperação Sul-Sul. Os cinco países árabes que ele visitou são não-alinhados, assim como Bolívia, Peru e Venezuela, que receberam dinheiro público brasileiro ao longo do ano. O maior engano do PT é acreditar que mais peso político significa mais poder de barganha no comércio internacional. O Brasil não precisa de política externa, precisa só de preços baixos. Deveríamos transformar nossas embaixadas em frigoríficos para frango congelado e suco de laranja. Deveríamos também abrir mão da cadeira no Conselho de Segurança na ONU, e ficar em silêncio por algum tempo. Iraque? Israel? Palestina? Cuba? Colômbia? Problema deles. Não temos nada a ver com isso. Os brasileiros, sempre que deparam com um mendigo, viram a cara e fingem que não estão vendo. É o jeito certo de agir diante dos grandes conflitos mundiais.

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Na semana passada falei sobre a dificuldade de encontrar escola para meu filho deficiente. Recebi montes de cartas. Fui parado na rua. Me telefonaram. Muitos pais sofreram a mesma discriminação. O Brasil está cheio de gente boçal. Mas também está cheio de gente dedicada e corajosa, que se mexe, que protesta, que acolhe. Relataram-me uma infinidade de experiências bem-sucedidas em escolas espalhadas pelo país, de Maringá a Maceió. Foi bom saber. Não somos um caso perdido.

sábado, dezembro 06, 2003

Diogo Mainardi Deficientes discriminados


"Ter um filho deficiente não é nenhum drama, nenhum peso, nenhum problema. Basta que
os outros não perturbem.
Os pais de crianças
deficientes não querem favores nem comiseração.
O que eles querem é que as crianças tenham a
oportunidade de conviver com outras crianças"

Rio de Janeiro. Teimei em morar de frente para o mar. Difícil encontrar apartamento. Tudo caro demais. Comicamente, os melhores que visitei pertenciam a gente ligada à política. O primeiro era de Antonio Carlos Magalhães. O segundo era da filha de Tancredo Neves, mãe de Aécio. Perdi este último para uma herdeira de Getúlio Vargas, ex-mulher de Moreira Franco. Estou pensando em lançar minha candidatura a governador de Roraima.

Mais difícil que encontrar apartamento é encontrar escolinha para meu filho. Ele é deficiente físico. Escolinhas não querem deficientes por perto. Três delas já nos enxotaram. Eram escolas alternativas, piagetianas, daquelas que ensinam a plantar feijão e a melecar as paredes com tinta vermelha. Mil reais de mensalidade. Você pode achar que não é problema seu. Engana-se. É em escolinhas como essas que seus filhos estão estudando. Aprendem o preconceito desde cedo. Aprendem a afastar quem parece diferente deles.

Na Escola Nova, a diretora barrou meu filho na porta. Disse que não estava preparada para educar quem não sabe andar. Se ela não está preparada para educar uma criança deficiente de 3 anos, não está preparada para educar ninguém. Como sou endinheirado, ofereci algumas facilidades: material escolar adaptado, orientação por parte das terapeutas de meu filho e uma assistente de plantão na sala de aula para ajudar sempre que necessário. No caso de deficientes, porém, nem o indefectível privilégio de classe brasileiro funciona: ricos e pobres são discriminados do mesmo jeito.

Em outra escolinha, chamada Vilhena de Moraes, a coordenadora informou que aceitava portadores de todos os tipos de deficiência, menos os deficientes físicos. Criou uma discriminação dentro da discriminação, como num sistema de castas. O pária é meu filho. No Espaço Educação, a coordenadora recusou-o alegando falta de pessoal. Eu repeti que estava disposto a pagar o salário de uma assistente, em tempo integral. Não adiantou. Fomos despachados.

Ter um filho deficiente não é nenhum drama, nenhum peso, nenhum problema. Basta que os outros não perturbem. Os pais de crianças deficientes não querem favores nem comiseração. Pelo contrário: sentem um orgulho desmesurado de seus filhos. O que eles querem é que as crianças tenham a oportunidade de conviver com outras crianças. Nada de muito complicado.

Outro dia, Lula posou para fotografias com os atletas paraolímpicos. Foi mais uma manobra eleitoreira do presidente. Quando chegou a hora de agir, ele escolheu o lado oposto: vetou a transferência de recursos para entidades particulares que atendem deficientes e vetou a isenção de IPI e do imposto de importação sobre equipamentos como cadeiras de rodas. Nos anos 70, todo mundo tinha um contrabandista de uísque escocês. Eu, agora, tenho de apelar para um contrabandista de apetrechos ortopédicos. Acabo de receber um moderno andador de alumínio. É a muamba fisioterápica.

O Brasil discrimina portadores de deficiência assim como discrimina negros. O maior entrave para o crescimento do país é a nossa infinita ignorância. Quando eu for governador de Roraima, garanto que todos terão acesso à escola e todos terão apartamentos de frente para o mar, se é que Roraima tem mar.

sábado, novembro 29, 2003

Diogo Mainardi A praga brasileira


"O maior problema do Brasil é a propaganda
política. Fomos da ditadura dos militares diretamente para a ditadura dos políticos.
Para cada minuto de informação, somos
obrigados a engolir meia hora de programação
partidária, em que os políticos podem nos
enganar à vontade, sem desmentidos"

Fome? Desemprego? Criminalidade? Nada disso. O maior problema do Brasil é a propaganda política. Em nenhum lugar do mundo há tanta propaganda política quanto aqui. Toda noite tem algum partido mentindo para a gente, nos intervalos do Jornal Nacional. Fomos da ditadura dos militares diretamente para a ditadura dos políticos. Instauraram uma espécie de totalitarismo democrático. Para cada minuto de informação, somos obrigados a engolir meia hora de programação partidária, em que os políticos podem nos enganar à vontade, sem desmentidos.

Eles aparecem em comerciais de trinta segundos e em programas de vinte minutos. Também aparecem no canal de televisão da Câmara ou no do Senado. No rádio, podem contar com a Hora do Brasil. O presidente da República, quando quer, fala à nação em cadeia nacional. Como se não bastasse, decidiu ter um programa no rádio, toda segunda-feira. Prefeitos e governadores dispõem de televisões públicas. Compram, igualmente, espaços publicitários nas televisões comerciais. Os ministros usam as verbas de propaganda das empresas estatais para reforçar a imagem do governo e para barganhar a cumplicidade de veículos de comunicação, muitos dos quais dependem dessas verbas para sobreviver. Difícil encontrar um político que não seja dono de uma emissora de televisão ou rádio. Os que não são donos são amigos dos donos. Os jornalistas, que teoricamente serviriam de contrapeso para o poder político, também estão do lado de lá. De fato, o Estado emprega muito mais jornalistas do que qualquer grupo particular. Nem na Romênia de Ceausescu a ocupação dos meios de comunicação pelos políticos foi tão grande.

Propaganda política não é só o que a gente acompanha na imprensa, no rádio, na televisão. Ela pode assumir muitas outras formas. Uma viagem para participar de um comício. Uma inauguração de uma obra. Um programa social. Uma campanha de vacinação. Um trecho de um livro didático. Um patrocínio de um evento cultural. Tudo é manipulado pelos políticos. Tudo é pago por nós. Por um preço alto demais. Entre o que se gasta em propaganda oficial, mais o que se gasta em propaganda camuflada, mais o que se gasta com empreguismo eleitoreiro, mais o que se gasta em corrupção para financiar a propaganda, a política acaba custando mais do que educação e saúde. Um exemplo: o Brasil tem 5.000 e tantos municípios. Boa parte não conta com receita própria. Funciona apenas como curral eleitoral. Pagamos o salário e a aposentadoria de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores cuja única função é arrebanhar votos para os caciques locais. Ou seja, pagamos para que façam propaganda.

Diminuir a presença dos políticos na vida nacional só traria benefícios. Eu tenho algumas sugestões. Fechar as televisões públicas. Vender Petrobras, Eletrobrás e Banco do Brasil. Abolir toda a propaganda política, paga ou gratuita, exceto no período eleitoral. Cortar pela metade o número de municípios. Proibir os políticos de possuir qualquer forma de concessão pública. Limitar com rigor os gastos das campanhas.

Quanto menos os políticos aparecerem, melhor.

sábado, novembro 15, 2003

Diogo Mainardi A África que Lula adorou


"Lula encantou-se com a capital da Namíbia,
produto arquitetônico do apartheid. É bonita e
limpa porque foi feita por brancos e para brancos.
Os negros foram segregados em Katatura, feia e
suja. Lula não foi a Katatura"

A África é feia e suja, segundo Lula. Exceto Windhoek, capital da Namíbia. Windhoek é bonita e limpa. Tanto que nem parece a África. Gilberto Gil e Benedita da Silva concordaram com o presidente. Quem também concordou foi outra ministra negra do governo, Matilde Ribeiro, que recebe um salário para promover a igualdade racial no Brasil.

Windhoek é bonita e limpa porque foi feita por brancos e para brancos. Fundada por descendentes de holandeses, foi sucessivamente ocupada pela Alemanha, Inglaterra e África do Sul. Lula apreciou muito a arquitetura de Windhoek. Ele acha que a eleição a presidente lhe conferiu legitimidade para proferir julgamentos estéticos. No caso de Windhoek, todas as atrações arquitetônicas foram construídas por brancos, durante o regime colonial. Como a catedral luterana, que fica numa rua chamada Fidel Castro, em homenagem ao ditador de Cuba. Ou o Congresso Nacional, que fica numa avenida chamada Robert Mugabe, em homenagem ao ditador do Zimbábue.

A África do Sul, depois da II Guerra Mundial, implantou o regime de apartheid na Namíbia. Windhoek se tornou uma cidade exclusivamente branca, e permaneceu assim até 1990. Os pardos foram transferidos à força para o subúrbio de Khomasdal. Os negros foram segregados em Katatura, ainda mais distante. Katatura significa "o lugar onde não queremos estar". Como o resto da África, é feia e suja. Um amontoado de favelas, onde só moram negros. Tem até uma favela chamada Babilônia, como a do Rio de Janeiro. O crítico de arte Lula não emitiu uma opinião estética sobre Katatura. Ele não foi a Katatura.

Tecnicamente, Lula seria considerado um pardo no regime de apartheid. Não poderia morar na bonita e limpa Windhoek. Nem poderia ter casado com uma branca. Mas isso não importa. O revisionismo histórico é uma especialidade dos petistas. Eles já engoliram tudo o que disseram no passado a respeito da ditadura militar, dos coronéis nordestinos, dos alimentos transgênicos, da reforma agrária, do salário mínimo, do FMI e do neoliberalismo malaniano. Faltava apenas enaltecer a política social do apartheid.

O importante, agora, é descobrir se o encantamento do presidente com o produto arquitetônico do apartheid terá alguma conseqüência prática. O planejamento urbano de Windhoek levou à demolição arbitrária de todos os barracos pertencentes a negros e pardos. O Rio de Janeiro, como Windhoek, ficaria mais bonito e limpo sem suas 700 favelas. O governo federal poderia incendiar todos os barracos e reflorestar as encostas dos morros. Benedita da Silva e os outros favelados seriam removidos para além de Duque de Caxias. A microcriminalidade diminuiria, sobretudo se os favelados, para entrar no Rio de Janeiro, fossem submetidos a uma meticulosa inspeção, como acontecia em Windhoek.

Depois de elogiar o cenário do apartheid, Lula assumiu novamente o papel de crítico de arte e prometeu que o Brasil participaria da Renascença africana. Lula não gosta de pobre. Ele gosta mesmo é de Palladio e Sansovino.

sábado, novembro 08, 2003

Diogo Mainardi A revolução do PT


"O governo de Lula lembra A Revolução dos
Bichos, de George Orwell. Só que
é uma
revolução dos bichos sem revolução. Uma
revolução dos bichos posterior
à queda do
Muro de Berlim. O final é bastante conhecido"

O governo Lula lembra A Revolução dos Bichos, de George Orwell. Só que é uma revolução dos bichos sem revolução. Uma revolução dos bichos posterior à queda do Muro de Berlim. No livro, que é uma parábola anti-stalinista de Orwell, porcos semiletrados libertam os bichos da eterna tirania dos homens e assumem o comando da granja, prometendo igualdade entre os animais. Logo se apropriam de todo o leite, de todas as maçãs e de toda a cevada. Cachorros adestrados perseguem os opositores do regime. Ovelhas analfabetas repetem mecanicamente os bordões doutrinários criados pelos porcos. Cavalos obedientes trabalham até morrer. Embora sejam incompetentes na administração da granja, os porcos se mostram muito competentes na arte da propaganda e na manutenção do poder.

O governo Lula, neste primeiro ano, também foi incompetente na administração da granja. O que não significa que não tenha tido alguns méritos. O principal deles foi tentar ludibriar a Constituição para diminuir o gasto em saúde. O Brasil tem um tabu: ninguém pode cortar o gasto social. Mesmo quando é ineficiente. Mesmo quando alimenta a roubalheira. Mesmo quando poderia ser mais bem empregado de outras maneiras. Se o dinheiro desperdiçado em maus hospitais fosse aplicado no pagamento da dívida pública, a população miserável sairia ganhando. As taxas de juro cairiam, favorecendo os investimentos produtivos, geradores de empregos. Se o mesmo dinheiro fosse usado para cortar os impostos da classe média, os miseráveis também se beneficiariam. Porque o crescimento da economia respingaria, ainda que minimamente, sobre eles. O governo Lula quebrou o tabu e tentou cortar o gasto em saúde. Falta pensar em cortar o gasto em educação, em alimentação, em habitação, em cultura. Falta, igualmente, cortar os gastos administrativos. O governo deveria suprimir ministérios, Estados, municípios e órgãos públicos, mandando um monte de políticos e funcionários para a rua.

Outro mérito de Lula foi denunciar a caixa-preta do Judiciário. Quando ele deu a declaração, muitos comentaristas indignados o acusaram de leviandade. Mas ele não foi leviano. Pelo contrário: sabia perfeitamente do que estava falando. Pelo que VEJA revelou duas semanas atrás, parte do Judiciário foi o cão de guarda do PT, perseguindo seus adversários políticos e acobertando questões espinhosas relacionadas com a prefeitura de Santo André. A mais importante assessora de Lula, na área social, foi casada com o prefeito assassinado de Santo André. Fiel e discreta, ela sempre afirmou desconhecer o esquema de propinas da prefeitura. Agora que o caso foi enterrado pelos cães de guarda do Judiciário, será difícil averiguar sua afirmação.

O final de A Revolução dos Bichos é bastante conhecido. Todos os planos dos porcos fracassam. Eles começam a se vestir como homens. Começam a beber, a fumar e a jogar cartas. Começam a negociar com o inimigo. Até o dia em que fica impossível distinguir quem é homem, quem é porco.

sábado, outubro 18, 2003

Diogo Mainardi Eu quero sexo


"A gente não se mete na vida sexual dos políticos por um atavismo escravocrata. Os
senhores
de escravos se comportavam como
bem entendiam,
e seus dependentes eram
obrigados
a fingir que não viam nada"

Os americanos gostam de saber tudo sobre a vida sexual de seus políticos. Os brasileiros também gostariam. Só que ninguém lhes conta nada. Pelas histórias que circulam nos bastidores da imprensa, nossos políticos poderiam oferecer grande divertimento aos leitores. Estão sempre se metendo em alguma grotesca enrascada amorosa. É comum que tenham filhos ilegítimos. É comum que mantenham casamentos de fachada. É comum que abandonem amantes mais velhas por amantes mais jovens. Pena que a gente não seja informado. Teríamos um bom assunto para a hora do jantar. Os americanos argumentam que um político que mente para a própria mulher também mente para os eleitores. Bobagem. Todos os políticos mentem. Adúlteros ou não. O único motivo pelo qual vale a pena investigar suas vidas sexuais é tentar arruinar suas carreiras. Qualquer meio para tentar arruinar a carreira de um político é plenamente legítimo.

O silêncio dos brasileiros em relação à vida sexual dos políticos não tem nada a ver com o respeito à privacidade. Mesmo porque nenhum político tem direito a privacidade. Também não é um sinal de maturidade, contraposto idealmente ao puritanismo infantil dos americanos. A gente não se intromete na vida sexual dos políticos por um atavismo escravocrata. Os senhores de escravos se comportavam como bem entendiam, e seus dependentes eram obrigados a fingir que não viam nada. Suas mulheres ficavam caladas. Suas escravas ficavam caladas. Os maridos de suas escravas ficavam calados. Até hoje é assim. Continuamos calados diante do comportamento de nossos políticos. Os antropólogos brasileiros, nos últimos setenta anos, conseguiram nos convencer de que a devassidão dos senhores de escravos era um motivo de orgulho, um traço distintivo de nosso caráter, uma demonstração de tolerância e liberdade. Não era. Era estupro. Era ameaça de chibatada. A liberdade de alguns, no Brasil, sempre dependeu do cativeiro de outros.

O maior problema do Brasil é que acabamos por acreditar em todos os estereótipos a nosso respeito. O estereótipo da nação alegre. O estereótipo do povo irreverente. O estereótipo do gigante adormecido. Tudo falso, claro. Somos o contrário de tudo isso. Somos uma gente sem graça, bem-comportada, subalterna, previsível, desimportante, sem futuro. O estereótipo mais difundido sobre os brasileiros se refere à nossa suposta liberdade sexual. As violências e os abusos cometidos pelos senhores de escravos passaram a ser vistos como um atributo de todos nós. Passamos a nos identificar com nossos donos. De chavão em chavão sobre nossa sexualidade, apagamos da memória a limpeza étnica que se deu por aqui. Se o Brasil quiser sair do lugar, se quiser aprender a lidar com autoridades, precisa lembrar que não é uma nação de senhores de escravos: é uma nação de filhos ilegítimos, uma nação de bastardos. Por isso devemos saber como se comportam nossos políticos. Para que eles não se sintam livres para agir como nossos senhores. Eles são tão bastardos quanto nós.

sábado, setembro 20, 2003

Diogo Mainardi Escola é perda de tempo


"Pelas estatísticas oficiais, 60% dos
alunos da 4ª série não sabem ler nem
efetuar as quatro operações. Os filhos
dos pobres aprenderiam muito mais
se ficassem o dia inteiro assstindo a
reprises do Scooby-Doo na televisão"

O Estado paga aos pobres para manterem seus filhos na escola. É um mau negócio para todo mundo: custa caro para o Estado e os filhos dos pobres não aprendem nada. Pelas estatísticas oficiais, 60% dos alunos da 4ª série não sabem ler nem efetuar as quatro operações. Ou seja, a escola é uma completa perda de tempo para eles. Aprenderiam muito mais se ficassem o dia inteiro assistindo a reprises do Scooby-Doo na televisão. Os pobres deveriam ser pagos para manter seus filhos em casa.

Desde que assumiu o cargo, o ministro da Educação, Cristovam Buarque, repete que o importante não é medir a quantidade de alunos nas escolas, mas a qualidade do ensino. Ele sempre pede mais recursos para atingir o objetivo. Chega até a incitar passeatas de estudantes contra seu próprio governo. Quando é hora de agir, porém, Cristovam Buarque esquece tudo isso e promete erradicar o analfabetismo oferecendo cursos de seis meses a 20 milhões de iletrados. Quantidade, não qualidade. Basta ler um jornal para perceber que se trata de mais um embuste eleitoreiro. A sorte dos nossos governantes é que os brasileiros são analfabetos e não conseguem entender um artigo de jornal.

Para melhorar a qualidade de ensino, o Ministério da Educação criou um provão para professores. O provão é voluntário. O professor pode ou não se submeter a ele. Difícil entender a lógica dessa medida. Se um professor não sabe sua matéria, é melhor demiti-lo. Se uma escola não ensina, é melhor fechá-la. O salário dos professores demitidos deveria ir para o bolso dos professores competentes. O dinheiro das escolas fechadas deveria ir para as escolas que sabem ensinar. Se faltarem professores competentes para atender a todos os alunos do país, a solução é o telecurso. Uma televisão em cada sala de aula. Os professores incompetentes podem ser convertidos em bedéis.

Outro problema das escolas brasileiras é o currículo. Tem coisa demais. Pretende-se que os alunos do ensino básico aprendam até ética e filosofia moral, os chamados temas transversais. O Ministério da Educação determina que o aluno seja ensinado a "compreender a cidadania como participação social e política, adotando no dia-a-dia atitudes de solidariedade e repúdio às injustiças". A prefeitura de São Paulo conta a mesma lorota. O maior instrumento de propaganda eleitoral da prefeita Suplicy é o Escolão, uma mistura de Projeto Cingapura com Piscinão de Ramos. De acordo com a prefeitura, a função dessas escolas é promover a "integração do cidadão na sociedade". Qual cidadão? Um garoto de 7 anos não é um cidadão, é apenas um garoto de 7 anos. Ele não precisa ser integrado à sociedade, só precisa aprender a ler. Ele não precisa de uniforme nem de merenda, só precisa decorar a tabuada. A escola não pode ser vista como um remendo para todas as nossas carências sociais. Atenção: sempre que um petista usa o termo cidadão, é porque ele quer meter a mão no seu dinheiro.

Tudo indica que Cristovam Buarque será mandado embora do Ministério da Educação. Certamente saberão substituí-lo com alguém ainda pior.

domingo, agosto 24, 2003

Miriam Leitão Hora de crescer

Crescer não deveria ter hora. Deveria ser sempre. Nada mais amargo que uma recessão, nada mais frustrante que o baixo crescimento e temos vivido assim há tempo demais. Não existem soluções simples. Há muitos obstáculos a remover para garantir o crescimento. Os desafios não serão enfrentados todos de uma vez, mas é importante fazer uma lista e ir brigando diariamente sem tirar o olho do objetivo.

Estabilidade é fundamental como pavimentação. Por isso, a luta primeira de qualquer governo sério tem que ser conquistá-la ou preservá-la. O ex-presidente Fernando Henrique comandou a conquista. O presidente Lula e seu ministro da Fazenda preservaram o patrimônio num momento de dúvidas e apostas contrárias. As implicâncias de parte a parte dizem pouco da grandeza dessa corrida de revezamento entre líderes de partidos diferentes. Mas o fato é: não se cresce na inflação. Todas as vitórias dos últimos anos — novos modelos de gestão, aumento da produtividade, novos valores corporativos, debate sobre inclusão — vieram após a redução da inflação. Aquela loucura de antes cegava. O Brasil cresceu a taxas altas até o ano de 1980. De 81 a 93, cresceu apenas 1,6%. Não por coincidência, o pior momento da inflação. Nos anos seguintes, cresceu 2,7%. Mais do que nos anos anteriores e muito menos do que a taxa histórica.



Os juros são altos demais e tornam o ambiente hostil ao investimento. Estão altos por razões conjunturais, e caem ao longo dos próximos meses. Mas o problema é enfrentar as razões estruturais. O que faz com que os juros sejam tão altos no Brasil? A pergunta feita por Pérsio Arida, ao receber o prêmio Economista do Ano, é um convite a que se pense em todos os detalhes desse enigma paralisante.

A dívida pública é alta e isso é, sem dúvida, uma das razões para juros tão altos. Outros países, no entanto, têm dívidas até maiores e juros menores. Não há invenção possível: é pagar a dívida porque ela é a poupança dos brasileiros. Mas reduzi-la é essencial porque hoje a dívida atrai todo o dinheiro que poderia estar em outros projetos, em investimentos, no mercado de capitais. Os novos produtos financeiros vão se fortalecer quando o Estado deixar de drenar tantos recursos para seus títulos. Aqui, pode se formar um círculo virtuoso: menos juros, menor a dívida, mais recursos liberados para oxigenar a economia. Mas o problema é que, quando os juros caem abaixo de determinado ponto, põe-se em risco a estabilidade. Esta é a pedra no caminho.

A produtividade foi a força que empurrou a economia para o pequeno crescimento dos últimos anos. A taxa de investimento caiu, mas a produtividade aumentou, fazendo a economia avançar. Mas é fundamental agora garantir o aumento do investimento.

Do Banco Central, Altamir Lopes continua de olho nos números do investimento direto estrangeiro. E disse esta semana, olhando os dados de julho, que eles estão voltando: deu US$ 1,2 bilhão. Mas a volta dependerá da criação de regras estáveis e dissipação de todos os temores que se formaram nos últimos meses. Regulação estável é pressuposto do investimento privado, seja estrangeiro, seja nacional. O governo promete para esta semana a divulgação de um marco regulatório, uma espécie de moldura dentro da qual os setores serão regulados. Há erros nas agências, sem dúvida. Mais errado foi o governo iniciar o ataque a elas. Espera-se que o marco regulatório dê confiança a quem quer investir. Não é apenas o Executivo o responsável pela criação de um clima favorável ao investimento. O risco jurídico do país no Brasil é uma das razões da incerteza regulatória.

A informalidade atrapalha de diversas formas: reduz a arrecadação, desestimula o setor formal, diminui a produtividade da economia. Quem tem batido nesta tecla é José Alexandre Scheinkman, professor de Princeton. Ele acha que a reforma tributária desperdiça a chance de incentivar a redução da informalidade. E quanto mais entrarem no reino dos pagantes, menor pode ser a carga tributária sobre quem paga.

A pobreza e a desigualdade são temas de estudo constante de vários e excelentes economistas, felizmente. O caminho já está mapeado: rever incentivos e benefícios, porque eles são hoje apropriados pela elite. Ter políticas públicas eficientes, focadas, avaliadas. E antes e depois de tudo: educação! Inclusão é a única estratégia aceitável para o crescimento brasileiro. O desemprego precisa ser enfrentado com olho no futuro e não com a obsessão pelo passado getulista.

Não é possível mais adiar o encontro do país com a necessidade de ter um sistema financeiro de habitação que funcione, que permita aos pobres ter casas decentes — subsidiadas, porque é para isso que existem os subsídios — e que atenda ao sonho da casa própria da classe média como fonte de novos produtos financeiros. A construção e tudo o que ela envolve cria círculos virtuosos e é forma de dar emprego a quem tem pouca qualificação.

Exportação é fundamental e, na balança, a agricultura tem sido campeã. Aqui, o erro a evitar é proteger, escolher e subsidiar setores que supostamente puxam o crescimento. E o país, vez por outra, está flertando com este erro. É preciso aumentar o volume de comércio. Mas não sem antes rever a ilógica logística deste país continental.

Com vários bons estudiosos brasileiros, tenho aprendido que o caminho de retomar o crescimento não é fácil, mas não é impossível. Estas aqui relacionadas não são as únicas barreiras ao crescimento. São as que couberam neste espaço. O país tem muito trabalho pelos próximos anos e décadas para garantir mais crescimento nestes próximos anos e décadas.

sábado, agosto 16, 2003

Diogo Mainardi Varig e TAM


"O fato mais curioso na fusão da Varig
com a TAM é que ninguém sabe direito
quanto o governo federal irá gastar.
Li que o BNDES ofereceu à empresa
um empréstimo-ponte de 700 milhões
de dólares, porém o presidente
do banco não confirma"

As aeromoças da Varig encheram-me de mensagens na última semana. Uma delas me elevou à condição de "defensor da democracia". Outra me atribuiu "grande prestígio entre os leitores". O meu ponto fraco é a adulação. Basta falar bem a meu respeito que eu cedo. Ainda mais quando se trata de aeromoças. Elas querem que eu me manifeste contra a fusão entre a Varig e a TAM? Então eu me manifesto: sou contra. Se tivessem pedido uma manifestação a favor, eu teria me manifestado a favor.

De todas as mensagens enviadas pelas aeromoças da Varig, as de gosto mais duvidoso foram aquelas com recortes de jornal relatando acidentes com os Fokker da TAM. Falam de "fuga de fluido hidráulico", de "fogo no trem de pouso", de "falha no auto-throttle", de "abertura da porta lateral". As aeromoças da Varig mandaram-me também misteriosas mensagens em código: RESTRICAO DE 20 PAX INF DESPACHANTE DVD *CHUVA* EMCWB PT ACFT DEP POA COM 57 PAX TOT PT. O que significa?

As aeromoças e os pilotos da Varig, pelo que entendi, querem usar seus créditos trabalhistas para comprar a companhia, mas o governo federal insiste em fundi-la com a TAM. A proposta dos funcionários da Varig parece ter uns buracos. Inclui investimentos do BNDES, só que o BNDES é favorável à fusão com a TAM. Os funcionários também contam com a participação do fundo de pensão Aerus, embora o diretor do instituto já tenha avisado que não quer saber do projeto, inclusive porque é ilegal.

O sindicato das aeromoças e dos pilotos da Varig é filiado à CUT. Eles se arrependeram de ter votado em Lula. Entupiram-me de mensagens sobre os 600 quilos de bombons encomendados pelo Palácio do Planalto. O principal interessado na fusão entre a Varig e a TAM, segundo as aeromoças, é José Dirceu. Se José Dirceu é a favor de uma coisa, eu sou contra. O problema é que o único aliado que as aeromoças da Varig conseguiram encontrar até agora foi o senador Marcelo Crivella. Eu não quero ser visto em sua companhia.

O fato mais curioso na fusão da Varig com a TAM é que ninguém sabe direito quanto o governo federal irá gastar. Li que o BNDES ofereceu à empresa um empréstimo-ponte de 700 milhões de dólares, porém o presidente do banco, Carlos Lessa, negou-se a confirmar o número, alegando "segredo bancário". As companhias aéreas pleiteiam ajuda estatal porque foram prejudicadas pelo 11 de setembro. A Lufthansa também foi, mas acaba de anunciar um lucro de 400 milhões de dólares para o ano que vem. A Varig e a TAM também reclamam da desregulamentação do setor aéreo brasileiro. Qual desregulamentação? Desregulamentação foi o que aconteceu na Europa. O resultado está aqui na minha frente, no jornal. A Ryanair oferece passagens da Itália para a Inglaterra por menos de 25 dólares. E da Itália para a França por menos de 20. Para desregulamentar de verdade, o Brasil, antes de mais nada, deveria vender os aeroportos e fechar a Infraero.

A PanAm faliu. A TWA faliu. A Swissair faliu. Por que a Varig ou a TAM não podem falir? É a regra básica da economia: empresas mal administradas fecham as portas. Espero que as aeromoças da Varig estejam satisfeitas comigo.

sábado, agosto 09, 2003

Diogo Mainardi A van da literatura


"Qualquer um pode escrever um livro.
Duro
mesmo é ficar no sofá, sem escrever
nada.
Não escreva. Se realmente tiver de
escrever,
trate o resto da humanidade aos
tapas
e pontapés"

Ivan Lessa é o maior escritor brasileiro. Só que o Brasil é tão desgraçado que nosso maior escritor nunca se interessou em escrever um livro. Preferiu dedicar-se a não escrever. É muito mais difícil não escrever do que escrever. Qualquer um pode escrever um livro. Qualquer um pode publicá-lo. Duro mesmo é ficar deitado no sofá, sem escrever nada. Requer uma aceitação filosófica da própria transitoriedade. Requer o desprendimento de um sufi. Ivan Lessa resumiu sua determinação de não escrever da seguinte maneira: "Que nossa presença seja leve aos outros, ocupados com seus mistérios e empombações. Falemos baixo".

Eu escrevi livros. Um monte de livros. Cheios de mistérios e empombações. Quem melhor definiu minha carreira literária foram os humoristas do Casseta e Planeta. Alguns anos atrás, contaram que um assassino, fugindo da polícia, escondeu-se dentro de um dos meus romances, o único lugar que ninguém jamais abriria. No domingo passado, o mesmo Casseta e Planeta voltou ao assunto e retratou-me nos fundos de uma van, a caminho de um festival de literatura em Parati, amolando o tempo todo meus companheiros de viagem, Luis Fernando Verissimo, Arnaldo Jabor e Marilena Chaui. Acontece que agora eu não escrevo mais. Desci da van literária. Como um alcoólatra numa reunião do AA, um dia me levantei da cadeira e jurei que nunca mais escreveria um romance. Há seis anos, quatro meses e duas semanas não faço uma linha de literatura. De tempos em tempos, sou tentado a retomar o hábito, sobretudo depois da noite de autógrafos de algum amigo. Ivan Lessa já disse que o único bom motivo para escrever um livro é irritar os amigos. Ele disse também que amigos custam um dinheirão e, ao contrário de liquidificador, não vêm com garantia. Bem melhor que ter um amigo é ter um conhecido no pub.

Conheci Ivan Lessa em Londres, em 1981. Todas as quartas-feiras almoçava com ele num restaurante chinês no centro da cidade. Ele sempre me levava três livros, dentro de um saco de supermercado. Eu lia tudo e devolvia na semana seguinte. Para ler os livros que ele me emprestava, fui negligenciando os estudos universitários na London School of Economics, até largá-los definitivamente, no fim do 1º ano. Em sua recente passagem por Londres, Lula recebeu uma homenagem da London School of Economics. O reitor chegou a chorar. Eu já era grato a Ivan Lessa por ter sabotado minha carreira estudantil. Depois da homenagem a Lula, fiquei duplamente grato. Embora eu não devesse falar desse jeito. Era divertido debochar do Lula nas primeiras semanas de governo, quando ninguém debochava dele. Agora todo mundo debocha, até o Casseta e Planeta.

Aprendi muitas coisas com Ivan Lessa. Algumas delas, só entendi recentemente. Isso de não sair escrevendo um romance atrás do outro, para mim, foi uma conquista difícil, que precisou de muito esforço e muita autoflagelação. Como nem todo mundo teve a sorte de ter um tutor como Ivan Lessa, estou passando adiante suas lições aqui, agora, de graça. Lição número 1: não escreva. Lição número 2: se realmente tiver de escrever, "trate o resto da humanidade aos tapas e pontapés".

sábado, julho 12, 2003

Diogo Mainardi O Rio dos pornoturistas


"É tão raro o Brasil sobressair em algum
campo que seria justo comemorar o bom
desempenho de nossas prostitutas.
O problema é que não lucramos nada com
isso. Somos inaptos para os negócios"

O Rio de Janeiro é melhor que Cartagena. Também é melhor que San José e Budapeste. A internet está cheia de gente debatendo o assunto. Todos os especialistas estrangeiros concordam num ponto: só Bangcoc é páreo para o Rio em matéria de pornoturismo.

O pornoturismo carioca se concentra em Copacabana. Os hotéis mais recomendados nos guias da categoria são o Debret e o Rio Roiss. Ambos admitem que as prostitutas acompanhem os hóspedes até os quartos. O roteiro dos pornoturistas começa na praia, onde os barraqueiros oferecem, além de cadeira e caipirinha, prostitutas. O barraqueiro Flávio é particularmente prestativo. A seguir, os pornoturistas se dirigem ao bar Meia Pataca, no calçadão. Logo são assediados por garotas de programa de todos os tipos. Como alternativa, podem visitar uma das muitas saunas da cidade: L'Uomo, Quatro-por-Quatro, 65, Monte Carlo, Centaurus. Os guias reclamam do tamanho dos seios das prostitutas do Centaurus. Em compensação, elogiam muito a Roberta, do Monte Carlo.

À noite, os pornoturistas se reúnem na discoteca Help. Tradicionais áreas de meretrício como a Vila Mimosa são desaconselhadas pela falta de higiene. Bem mais seguro é recorrer a empresas como a Escort Company Girl, que possibilitam a escolha das mulheres pelo computador, de Paula, a "ninfeta sapeca", a Lisandra, com "seios à prova de lápis". Um desses guias de pornoturismo jura que "não há nada igual ao Rio". Outro, que nossas "prostitutas gostam de seu trabalho". Outro, que "as brasileiras julgam a prostituição uma atividade natural".

É tão raro que o Brasil consiga sobressair em algum campo que seria justo comemorar o bom desempenho de nossas prostitutas. O problema é que não lucramos praticamente nada com isso. A indústria do sexo rende centenas de bilhões de dólares no mundo todo. O país mais rico, os Estados Unidos, é também o que mais fatura. Só em San Fernando Valley, na Califórnia, são feitos 11.000 filmes pornográficos por ano, que empregam 20.000 pessoas e arrecadam acima de 4 bilhões de dólares. É mais do que a Volkswagen ganha no Brasil. Estrelas como Jasmin Saint-Claire, John Stagliano e Rocco Siffredi já ambientaram alguns de seus filmes no Rio, como os da série Buttman, mas nossas compatriotas só atuaram em papéis secundários. A carioca Veronica Brazil chegou a obter algum sucesso lá fora participando do filme de estréia de John Bobbit, aquele sujeito que foi emasculado pela mulher, mas ela logo desapareceu.

A leitura dos guias de pornoturismo revela as origens do fracasso nacional. A gente está sempre disposto a se vender, mas por um preço baixo demais. Aliamos um temperamento mercenário à mais absoluta inaptidão para os negócios. Nossas autoridades toleram todas as formas de abuso, inclusive a pedofilia e a escravidão, desde que praticadas contra miseráveis. Em nossa sociedade pré-industrial, não sabemos nem ao menos fabricar preservativos, considerados "espessos e pouco confiáveis" pelos turistas estrangeiros. A única contribuição brasileira ao ramo da pornografia, como acontece em todos os outros ramos, é fornecer mão-de-obra não qualificada e mal remunerada. Fernando Gabeira apresentou um projeto de lei para regulamentar a prostituição. Será muito mais útil para o Rio do que os Jogos Olímpicos.

sábado, julho 05, 2003

Diogo Mainardi A bomba do boi-bumbá


"Eu gostaria que Lula esclarecesse que
ensinamentos os intelectuais podem tirar
do boi-bumbá. Aliás, nem sei o que é um
intelectual para Lula, se é um catedrático
petista da USP ou simplesmente alguém
com o ginasial completo"

Em Parintins, Lula ironizou os intelectuais dizendo que eles tinham muito a aprender com a festa do boi-bumbá. Uma semana antes, já havia reclamado que os intelectuais se aposentam aos 53 anos, enquanto os cortadores de cana precisam trabalhar até os 60. Antes de assumir o poder, Lula gostava de se cercar de intelectuais. Agora mudou. Debocha deles.

Dois intelectuais compareceram à festa do boi-bumbá deste ano – Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura. Ambos lulistas, por sinal. Foram convidados pelo guaraná Kuat, o principal patrocinador do evento. Assistiram aos desfiles no camarote do Kuat Clube, trajando camisetas Kuat, e, da mesma forma que as menos intelectualizadas Joana Prado e Samara Filipo, puderam usufruir as comodidades da ilha do Kuat e do iate Kuat. É uma prova de que os intelectuais são bem menos abestalhados do que Lula imagina. Se fossem tão abestalhados assim, pagariam suas viagens do próprio bolso.

Pelo que consegui entender, o boi-bumbá funciona como os desfiles das escolas de samba, só que há apenas dois blocos, Caprichoso e Garantido, e o enredo é sempre o mesmo, ano após ano. Baseia-se numa lenda local. A mulher grávida do negro Francisco deseja comer uma língua de boi. O negro Francisco sacrifica o boi predileto de seu patrão para satisfazer a mulher. O patrão fica contrariado e manda matar o negro Francisco, que foge para o meio do mato e pede ajuda a um pajé. O pajé ressuscita o boi, e tudo termina em festa. Eu gostaria que Lula esclarecesse que ensinamento os intelectuais podem tirar dessa história. O único que eu consigo tirar é que o povo é infinitamente estúpido, mas não creio que o presidente se referisse a isso. Aliás, eu nem sei o que é um intelectual para Lula, se é um catedrático petista da USP ou simplesmente alguém com o ginasial completo.

O fato de os intelectuais se aposentarem aos 53 anos também não me parece escandaloso. Lula, que não é um intelectual nem nada, conseguiu uma barganha ainda melhor, aposentando-se aos 50 anos, com rendimentos especiais. Muito mais justo do que comparar os intelectuais aos cortadores de cana teria sido compará-los aos usineiros. O governo prometeu investimentos de 550 milhões de reais para a estocagem de álcool. Além disso, os usineiros do Nordeste pleiteiam 500 milhões de subsídios, um pouco mais do que embolsaram no ano passado. Os brasileiros plantam cana há 500 anos. Nada mudou de lá para cá. Ainda fazemos queimadas, ainda usamos mão-de-obra escrava, ainda embriagamos os pobres com aguardente de má qualidade, ainda surrupiamos o dinheiro público.

Nos anos 60, quando a economia chinesa começou a afundar, Mao lançou a chamada campanha de reeducação, em que os intelectuais eram ridicularizados em público e mandados para trabalhos forçados no campo. Lula não é Mao. Ele pode achar que existe mais sabedoria no boi-bumbá do que em Aristóteles, mas nunca vai mandar os intelectuais cortar cana. Só vai persegui-los com erros de concordância.

domingo, maio 25, 2003

Diogo Mainardi Lula lá ­ na tel do cinemaa


"Uma biografia de Lula serviu
de base para o roteiro de um filme.
Não sei quais episódios ele irá
mostrar.
Eu incluiria até os mais recentes, como
o de Lula correndo atrás de um pato na
Granja do Torto. O deputado
Sigmaringa
poderia ser interpretado pelo próprio
deputado Sigmaringa"

Estátua, que eu saiba, até agora só ergueram uma para Lula, a do desfile da escola de samba Beija-Flor, no último Carnaval. Em compensação, sua imagem aparecerá em todas as telas de cinema do Brasil. Estão sendo feitos cinco filmes em sua homenagem. O primeiro é dirigido por um de seus maiores cabos eleitorais no meio cinematográfico, Nelson Pereira dos Santos, orador daquele comício que reuniu mais de 2.000 artistas no Canecão. Difícil imaginar que um tiete como Nelson Pereira dos Santos tenha o desprendimento necessário para retratar o presidente com isenção. Isenção, aliás, é o que ninguém quer. O cinema, no Brasil, está nas mãos do Estado. Os produtores do filme de Nelson Pereira dos Santos são os mesmos que, no passado, para financiar outro projeto, embolsaram tutu do BNDES. Os autores dos demais filmes sobre Lula, João Moreira Salles, Eduardo Coutinho e Eryk Rocha, também têm se beneficiado de dinheiro público, através das leis de patrocínio. De maneira direta ou indireta, portanto, o culto à personalidade do chefe do governo será bancado pelo próprio governo.

O quinto filme sobre o presidente é ainda mais enrolado. O roteiro é de Denise Paraná. Ela trabalhou como assessora de imprensa de Lula e escreveu a mais completa biografia dele, O Filho do Brasil, que serviu de base para o roteiro. Em janeiro deste ano, para comemorar a vitória eleitoral, a Fundação Perseu Abramo relançou o livro, numa edição ampliada. Como a Fundação Perseu Abramo é mantida pelo Estado, quem pagou a conta da encomiástica biografia presidencial foi o contribuinte. Estou curioso para saber se o filme também será financiado com dinheiro público.

O Filho do Brasil é definido por sua autora como "psico-história". É composto por uma série de entrevistas com Lula e seus parentes, entre os quais os irmãos Genival, Frei Chico, Marinete e o cunhado Lambari. Lula conta que, na infância, chegou a passar fome. Não fome de verdade, de não ter o que comer, mas de não poder comprar chiclete e mortadela quando bem entendesse. Lula acha que a miséria não é de todo má. O miserável sertanejo, segundo ele, "anda de cabeça erguida, otimista", enquanto "a classe média urbana é muito borocoxô, está sempre reclamando". Esperemos que seu governo arrume um jeito de levar rapidamente a classe média urbana à miséria. Não sei quais episódios da vida de Lula o filme irá mostrar. Eu incluiria até os mais recentes, como o de Lula correndo atrás de um pato na Granja do Torto. O deputado Sigmaringa poderia ser interpretado pelo próprio deputado Sigmaringa.

Das biografias de Lula, minha predileta é a de seu mentor intelectual, Frei Betto. Se me nomeassem diretor da Eletrobrás, eu daria a ele a função de escrever um roteiro sobre o presidente. Frei Betto também é autor de uma autobiografia, Batismo de Sangue, que o ex-guerrilheiro Helvécio Ratton pretende transformar em filme. Como a única guerrilha que resta no Brasil é para abocanhar verbas públicas, Helvécio Ratton parte com uma certa vantagem. Por acaso ainda não apareceu ninguém propondo uma cinebiografia de, digamos, Gilberto de Carvalho, o secretário particular de Lula? Daria um filmão.

domingo, maio 11, 2003

entrevista veja Salman Rushdie "Atravessei o túnel do medo"

11 de maio de 2003
Condenado à morte por fanáticos
muçulmanos em 1989, o escritor
diz que já não teme seus inimigos,
mas acha que a religião é um
veneno para o mundo



Carlos Graieb




O escritor anglo-indiano Salman Rushdie ganhou notoriedade em 1989, quando o regime muçulmano fundamentalista do Irã decretou contra ele uma fatwa, ou sentença de morte. Rushdie foi acusado de blasfemar contra o islamismo no romance Os Versos Satânicos, que acabava de publicar. A década seguinte foi de horror para o romancista, que viveu escondido, sob proteção da polícia britânica. Ao mesmo tempo, ele se tornou uma figura política, assumindo o papel de porta-voz em todo tipo de campanha pelas liberdades civis. E também conseguiu publicar obras de ficção que consolidaram sua reputação como um autor de grande inventividade. Em 1998, depois de muita pressão internacional, o Irã finalmente retirou a condenação contra ele. Apesar de ainda sofrer ameaças, Rushdie diz que hoje procura viver normalmente. Nesta semana, a convite da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, ele desembarca em sua primeira visita ao Brasil. Virá em companhia da namorada, Padma Lakshmi, atriz de ascendência indiana à qual ele dedicou seu mais recente romance, Fúria. Rushdie, de 55 anos, vive hoje em Nova York, de onde falou a VEJA.

Veja – Em 14 de fevereiro, a Guarda Revolucionária do Irã revalidou a sentença de morte contra o senhor, por causa do livro Os Versos Satânicos. Como isso o afeta?
Rushdie – Muito pouco. O governo iraniano retirou oficialmente a condenação contra mim em 1998, mas desde então sempre aparece alguém, uma figura menor do regime, para renovar as ameaças. Esses gestos não têm nenhuma repercussão séria. Eu consegui atravessar o túnel do medo e hoje levo uma vida normal. Tenho endereço certo, tomo o metrô, vou ao mercado, viajo de avião como qualquer pessoa. Já não ando com guarda-costas e não vou me intimidar.

Veja – Quais as cicatrizes que o senhor carrega?
Rushdie – Os nove anos de medo formaram um grande buraco em minha vida. Eles me privaram de uma infinidade de prazeres e alegrias. Eu tinha um filho pequeno, e não pude ser um bom pai para ele. Não podíamos fazer coisas simples como brincar num parque. Também perdi muito trabalho. A sentença de morte me custou um livro, que não foi escrito. Tive de gastar tempo demais em campanhas políticas contra a intolerância e não pude me dedicar ao trabalho literário. É muito bom já não precisar fazer isso.

Veja – Certa vez o senhor disse que o "caso Rushdie" ainda seria visto como um absurdo mesmo no mundo muçulmano. Esse dia está próximo?
Rushdie – Não sei se está próximo, mas quero crer que ele virá. Digo que é possível porque sou de origem muçulmana e lembro do ambiente em que cresci na Índia. A sociedade muçulmana de Bombaim era aberta, tolerante e nada tinha de paranóica. O radicalismo infeccioso, de origem religiosa, é um fato recente. Não sou especialista em Oriente Médio, mas tenho falado com muitos amigos que conhecem a região e eles também lamentam a maneira como a cultura do Islã mudou. Em cidades como Beirute e Damasco a transformação foi drástica. Eram lugares maravilhosos, cosmopolitas, cheios de vida artística. Mesmo Bagdá e Teerã eram grandes cidades. Tudo isso está na memória de pessoas da minha geração. É triste que essas cidades tenham regredido tanto em poucas décadas. Mas não há por que imaginar que essa mudança seja irreversível. Hoje, muitos muçulmanos lêem meus livros, entendem o que digo, acham absurdo o que aconteceu comigo e lamentam que essa história tenha posto sua cultura, desnecessariamente, sob luz desfavorável.

Veja – Por que o senhor afirmou num artigo recente que "a religião é um veneno em nosso sangue"?
Rushdie – O hábito de invocar a autoridade divina para legitimar preconceitos, perseguições e atrocidades é muito antigo, mas ressurgiu com força nos últimos tempos. A meu ver, é o problema central do mundo contemporâneo – e não está de maneira nenhuma restrito ao universo islâmico. O artigo a que você se refere, por exemplo, trata da crueldade da maioria hindu contra os muçulmanos na região indiana do Punjab. Mesmo num país democrático como os Estados Unidos, a religião voltou a interferir na vida pública, e esse é um fato que eu, que pertenço a uma geração de mentalidade extremamente dessacralizada, só posso lamentar. Nos anos 60, quem usava linguagem religiosa em público, num contexto político, era olhado com estranheza. A religião havia se retirado para o campo privado. Nos últimos tempos, contudo, o pêndulo oscilou para o outro lado.

Veja – Existe algum espaço para a religião na esfera política?
Rushdie – Não creio que deva existir. Estaremos muito melhor com os princípios de separação entre Estado e Igreja estabelecidos pela Revolução Francesa. Se as pessoas querem acreditar em Deus, se derivam prazer, conforto ou apoio moral dessa crença, não sou eu quem vai criticá-las. Mas as coisas tendem a se complicar quando a religião se confunde com o poder e interfere nos processos de decisão política. Pois a linguagem da religião é uma linguagem de absolutos que, mais cedo ou mais tarde, levam à estigmatização de um grupo. Como o grupo dos ateus, por exemplo. Na última eleição presidencial americana, um grande jornal realizou uma pesquisa perguntando em quais candidatos das chamadas minorias os eleitores aceitariam votar. As pessoas, em geral, disseram que não se oporiam a candidatos negros, a mulheres ou a homossexuais. Quando perguntaram se votariam num ateu, contudo, a situação mudou: mais de 50% disseram que não. Você é inelegível se duvidar da existência de Deus.

Veja – O senhor já escreveu que blasfêmias são importantes, pois é graças a elas que o mundo avança.
Rushdie – É a mais pura verdade se você considerar que Sócrates, o próprio Jesus e Galileu foram considerados blasfemos. No Iluminismo, blasfemar tornou-se uma tática deliberada dos filósofos e escritores. Voltaire, Rousseau e Diderot acreditavam que o grande inimigo da liberdade intelectual não era o Estado, mas a Igreja. Blasfemar com alegria era seu meio de dizer que não aceitavam mais os limites que a religião impunha ao pensamento. Devemos a eles muito de nosso conceito de liberdade de expressão. Se Deus existe, creio que ele não se importa nem um pouco com as pessoas que não acreditam nele. Bem menos, em todo caso, do que aqueles que se arrogam o direito de falar em seu nome e que usam palavras como "blasfêmia" e "heresia" para lutar contra todo tipo de novidade ou desejo de mudança.

Veja – O senhor foi contra ou a favor da guerra no Iraque?
Rushdie – Tive sentimentos ambivalentes. Fui a favor da guerra por acreditar que a derrubada de um tirano como Saddam Hussein era um objetivo desejável. Isso me causou problemas com alguns amigos de esquerda. Mas eu acho que esses amigos se enredaram em posições insustentáveis nos últimos anos. Em nome do "objetivo maior" de criticar os Estados Unidos e sua política de poder, eles têm chegado ao ponto de defender o Talibã ou Saddam. Quando não defendem, fazem vistas grossas às suas barbaridades. Ora, a denúncia da tirania sempre foi um tema importante do pensamento de esquerda. É inadmissível que um homem que brutalizou seu povo por quase três décadas se transforme em santo apenas porque são os americanos que guerreiam para depô-lo. O que me deixou insatisfeito foi a pouca discussão do rumo a ser tomado no pós-guerra. Como reconstruir a sociedade iraquiana, como ajudá-la a compor um governo, quanto tempo manter os soldados americanos no país? Nada disso foi discutido abertamente antes da guerra, e vemos as conseqüências. Há o perigo do separatismo curdo, o perigo de o fundamentalismo xiita subir ao poder, toda uma gama de problemas difíceis. Tudo no Iraque é precário e perigoso.

Veja – O senhor saiu da Inglaterra para morar nos Estados Unidos. Foi uma boa troca?
Rushdie – Qualquer um que chegue aos Estados Unidos e seja originário de um país do Terceiro Mundo, como eu, terá uma vivência dupla do país. É impossível não se maravilhar com a energia dos americanos, e morar em Nova York é extremamente prazeroso. Por outro lado, trazemos conosco o conhecimento – e às vezes a memória – de que os Estados Unidos são uma superpotência nem sempre benévola. Ao descrever o país em Fúria, tentei fazer jus a essas ambigüidades. Concentrei no protagonista do romance, o professor Solanka, todas as críticas aos Estados Unidos. Ele é muito rabugento em relação ao país – muito mais que eu, na verdade. Mas, ao redor de Solanka, coloquei as coisas boas da vida americana.

Veja – Para que servem os romances?
Rushdie – Eu acho que o valor do romance está em sua flexibilidade infinita, que o torna um instrumento único para espelhar o mundo e registrar a realidade. Olhe em retrospecto e você perceberá que os grandes romances o informam mais profundamente sobre um determinado período histórico do que qualquer outro tipo de documento. Até mesmo os historiadores reconhecem isso. Outra coisa importante sobre os romances é que eles manifestam visões únicas e pessoais do mundo. Poucas formas de arte são tão individuais, tão pouco dependentes da colaboração externa. Acho essa característica incrivelmente valiosa. Uma biblioteca de romances é um repositório de vozes individuais que sobrevivem no tempo – quanto mais vozes desse tipo puderem ser ouvidas, melhor para a sociedade. Finalmente, romances são importantes porque, se não existissem, eu não teria um emprego e morreria de fome.

Veja – O Chão que Ela Pisa, seu penúltimo romance, tem como protagonistas ídolos do rock. Por que a música pop é um assunto tão importante no romance contemporâneo inglês e americano?
Rushdie – Em primeiro lugar, porque o romance não é uma forma de arte elitista. Para um autor de romances, a distinção entre alta cultura e baixa cultura não é apenas desnecessária, ela é prejudicial. Você precisa estar aberto a tudo, criar personagens que pensem como as pessoas pensam, que se interessem por aquilo que interessa às pessoas. Se só puser referências da alta cultura num romance, você escreverá para poucos, a partir de uma torre de marfim. Quanto à música pop em particular, tenho afinidade natural com esse universo. Ela explodiu enquanto eu crescia, e acho que foi o primeiro fenômeno global de nossa época, a primeira coisa que se espalhou pelo mundo tocando igualmente chineses, europeus ou americanos. E lembre-se de que naquele tempo a mídia não era o que é hoje. No país de minha infância, as rádios eram todas estatais e não tocavam música do Ocidente. Mesmo assim, nós conhecíamos as bandas de rock mais importantes. Em O Chão que Ela Pisa, queria aproximar três mundos diferentes: Índia, Inglaterra e Estados Unidos. Logo descobri que a única coisa que tornaria isso possível era a música pop.

Veja – Bono Vox, do grupo U2, inspirou-se nesse livro para compor uma canção de mesmo nome. Há planos para novas colaborações?
Rushdie – Não temos plano nenhum. E a colaboração anterior ocorreu muito naturalmente. Sou amigo de muitos roqueiros. Eu me encontro com o pessoal do U2 há pelo menos dez anos. Quando fui condenado pelo regime iraniano, eles me deram muito apoio. Ao concluir O Chão que Ela Pisa, mandei uma cópia a Bono. Ele gostou do livro e, lá no meio, encontrou alguns versos que o inspiraram a compor uma canção. Foi tudo assim, por acaso, e por isso mais divertido.

Veja – O senhor é um polemista calejado. Qual a importância da polêmica para a cultura?
Rushdie – Gostaria de fazer uma distinção entre meu trabalho como romancista e como ensaísta. Nunca fiz um romance para provocar polêmica – muito menos Os Versos Satânicos. Não acho que esse seja um papel da ficção. Feita essa ressalva, sempre me interessei em participar das discussões públicas. O exemplo vem de minha infância na Índia. Naquela época, o grande poeta urdu Faiz Ahmed Faiz era amigo de minha família. O artista introspectivo e o homem público conviviam perfeitamente nele. Ele fez poesia maravilhosa, mas também escreveu com paixão sobre os problemas políticos do dia-a-dia. Mas é preciso saber dosar as coisas. No momento estou um pouco enjoado de política. Escrevi uma coluna para o New York Times por quatro anos e agora gostaria de ficar recolhido ao meu canto.

Veja – No começo de sua carreira, o senhor foi descrito como "escritor pós-colonial". Aceita esse rótulo?
Rushdie – O rótulo foi criado na academia para descrever um grupo de autores que chegaram à Inglaterra vindos de antigas colônias britânicas. Não é desprovido de sentido. Eu, por exemplo, nasci em um país que acabava de tornar-se independente e, nos meus primeiros escritos, esse dado foi importante. Hoje, no entanto, o legado colonial já está muito diluído. Mesmo nas antigas colônias o foco da discussão mudou: se você quiser chegar a algum lugar, não adianta mais discutir a relação da Índia com sua antiga metrópole. O problema não é lidar com um passado complicado, mas com um presente complicado. Os problemas que enfrentamos são de nossa própria conta, não podemos tratá-los eternamente como heranças. Aliás, se existe algo de que posso me orgulhar na Índia é o fato de que o debate político por lá se sofisticou e já não se ouve muito a antiga cantilena de que tudo é culpa dos americanos, dos russos ou de um outro povo estrangeiro qualquer. Essa retórica foi deixada de lado. Eu escrevi várias vezes que a única maneira de livrar-se de uma mentalidade colonial é assumir a responsabilidade pela sociedade em que você vive. Enquanto você continuar a fazer papel de oprimido, continuará preso a essa mentalidade.

sábado, maio 10, 2003

Diogo Mainardi A arte de Lula



"É com propaganda que Lula pretende
governar. Tudo virou propaganda. Fome
é propaganda. Reforma da Previdência
é propaganda. Cotação do dólar é
propaganda. Não surpreende que
a cultura também seja recrutada
para difundir a palavra do governo"

Eletrobrás e Furnas anunciaram que só iriam patrocinar projetos culturais que atuassem "em sintonia com a política governamental". Ou seja, para faturar um dinheirinho público, os artistas teriam de divulgar as obras sociais do governo. O cineasta Cacá Diegues esperneou. Ilustres representantes do meio artístico o apoiaram. Diante de tantos protestos, o governo achou melhor ganhar tempo.

Em momento algum os artistas ousaram atacar diretamente Lula. Para Cacá Diegues, o presidente não tinha "conhecimento específico do que estava acontecendo nesse âmbito". Para Arnaldo Jabor, ele não estava "inteirado" do assunto. O medo de desafiar Lula é tão grande que os artistas preferiram tratá-lo como um bobo que desconhecia as iniciativas de seu próprio governo. Lula não é bobo. Pode não ter ouvido falar em Homero ou Eisenstein, mas sabe perfeitamente o que quer do meio cultural. O documento com as novas regras de patrocínio das estatais seguia, ponto por ponto, o programa do PT e as declarações do ministro Gilberto Gil, com todo aquele lero-lero populista de identidade nacional, folclore e inclusão social. Por anos e anos, o setor da cultura viveu exclusivamente à custa do Estado, embolsando bilhões em generosos financiamentos públicos. Era natural que, a certa altura, o poder político resolvesse cobrar a dívida, estabelecendo que, para continuar a usufruir dessa relação parasitária, os artistas oferecessem a chamada "contrapartida social", que nada mais é do que propaganda camuflada do governo.

Lula acredita em propaganda. Foi graças a ela que ganhou as eleições. E é com ela que pretende governar. Tudo virou propaganda. Fome é propaganda. Reforma da Previdência é propaganda. Cotação do dólar é propaganda. Não é surpreendente que a cultura também seja recrutada para difundir a palavra do governo. Empresas estatais, com seus 200 milhões em patrocínio, podem chantagear atores e cineastas. Quanto aos escritores, é ainda mais fácil. Basta o ministro Cristovam Buarque levar adiante uma de suas idéias estapafúrdias, como a de instituir bibliotecas em canteiros de obras ou a de incluir livros na cesta básica. Quero ver a reação de um faminto piauiense ao encontrar um livro de Verissimo no meio dos sacos de farinha.

Historicamente, esquerdistas não gostam de esquerdistas. Lula não é exceção. Ele não manda os velhos companheiros para o paredão, como líderes esquerdistas do passado, mas se deleita em contrariar todas as suas expectativas. Os funcionários públicos foram tachados de contra-revolucionários e terão suas aposentadorias cortadas. Os ecologistas foram obrigados a engolir a usina nuclear Angra 3. O MST teve de escutar calado o discurso de Lula aos pecuaristas de Uberaba. A CUT aceitou o aumento salarial de 1%. A CNBB perdeu o controle do filão da caridade. Os desenvolvimentistas abaixaram a cabeça para Henrique Meirelles. Por fim, Lula começou a enquadrar o meio cultural, que sempre o apoiou incondicionalmente. Conhecendo o caráter de nossos artistas, estou certo de que, depois de um pouco de gritaria, eles saberão se adaptar aos novos tempos. E o dinheiro voltará a circular.

sábado, maio 03, 2003

Diogo Mainardi Fora, Zumbi!

Diogo Mainardi Fora, Zumbi!
Fora, Zumbi!

"A luta contra o racismo não se
dá glorificando
a figura de Zumbi
nos livros escolares, mas ensinando
que
os brancos são negros e os
negros são brancos"

Como Macunaíma, nascemos pretos e fomos embranquecendo à medida que nos afastávamos de nossa terra de origem. É o que ensina Genes, Povos e Línguas, do geneticista italiano Luigi Luca Cavalli-Sforza. Ele analisou mais exames de DNA do que o Ratinho. E, ao contrário do Ratinho, não usou o resultado dos exames para vender mais xampus contra piolho, e sim para traçar um mapa da evolução humana. Seus estudos demonstram que nossos conceitos de raça são uma empulhação. Não existe preto, branco nem amarelo. Ou dividimos a humanidade em mais de 1.000 etnias e línguas, ou acabamos com a classificação por raças, admitindo que somos todos parentes. Os primeiros homens surgiram na África. Tínhamos a pele preta porque ela servia de proteção contra o sol equatorial. Os cabelos eram encarapinhados para reter o suor e resfriar a cabeça. Quando começamos a nos espalhar pelo mundo, 100.000 anos atrás, nossas características físicas foram se adaptando às novas condições climáticas. Quem se mudou para a Europa ficou com a pele branca para captar melhor os raios ultravioleta e suprir a carência de vitamina D. As narinas se estreitaram para aquecer o ar antes da chegada aos pulmões. Os que migraram para o Oriente ganharam dobras adiposas em volta dos olhos para se proteger dos gélidos ventos siberianos. Debochamos muito de Michael Jackson, mas nossos antepassados sofreram as mesmas transformações que ele. Um sueco é um sudanês subnutrido. Um mongol é um pigmeu com frio.

O presidente Lula nomeou uma ministra para combater a discriminação racial. Ela é negra. Teria sido melhor se fosse branca, para mostrar que a discriminação racial não é nociva apenas para os negros, mas para a sociedade inteira, inclusive para os brancos. A ministra defende a política de cotas adotada nos Estados Unidos. É a lógica do gueto. Eu tentaria inverter a questão, extinguindo não só a discriminação racial, mas o próprio conceito de raça. Não é tão difícil assim. Quando eu era pequeno, a escola ensinava que nossos índios pertenciam à raça vermelha. Certo dia, mudou-se de idéia e passou-se a ensinar que, na verdade, a raça vermelha não existia, porque os índios eram amarelos que tinham atravessado o Estreito de Bering 32.000 anos atrás. Seguindo o mesmo raciocínio, a raça amarela também não existe, tendo sido formada por africanos que migraram para a Ásia 100.000 anos atrás. E a raça branca, constituída por asiáticos que se mudaram para a Europa 43.000 anos atrás, é outra ficção genética. Hoje em dia ninguém mais fala em raça vermelha. Seria igualmente correto que ninguém mais falasse em raça negra, branca ou amarela. O melhor jeito para acabar com o racismo no Brasil é eliminar o critério de raça. O movimento negro sempre lutou para que os negros se orgulhassem da própria cor. Eu aboliria essa idéia. Aboliria o Dia Nacional da Consciência Negra, a política de cotas, as ações afirmativas. Aboliria também o mito da miscigenação racial brasileira.

Quando se considera toda a história da humanidade, os alemães são tão miscigenados quanto nós. Raça é uma noção arcaica. Não tem base científica. A luta contra o racismo não se dá glorificando a figura de Zumbi nos livros escolares, mas ensinando que os brancos são negros e os negros são brancos.


sábado, abril 12, 2003

Diogo Mainardi Enfim, como diria Gil...

"Lula atribuiu-se o mérito de ter
salvado a economia. Como os índices
só haviam piorado porque acreditaram
em suas bravatas, não há do que se
gabar. Ele só consertou um pouco
do estrago que havia feito"

Gilberto Gil almoçou na Associação Comercial do Rio de Janeiro. Depois do almoço, discurso. Depois do discurso, entrevista coletiva. Depois da entrevista coletiva, deslocamento para a Biblioteca Nacional. Outro discurso. Não sei para onde Gil foi depois disso. Desisti de segui-lo. Cansei. Durante o almoço, Gil revelou gostar da vida de ministro. Há algo de errado em quem gosta da vida de ministro.

Entre uma coisa e outra, acompanhei Gil por cerca de cinco horas. Não consegui colher uma única declaração aproveitável. No discurso da Biblioteca Nacional, por exemplo, a propósito de um dicionário de música popular brasileira, ele citou Octavio Paz, que teria escrito sobre a "suspensão no ar, na atmosfera, no éter, de signos, símbolos, microrganismos, partículas, células, em extraordinária rotação sobre nossas cabeças, que são os verbetes, em seu próprio suporte, as palavras, com todos os seus interstícios, em suas materializações nos livros...". Preciso reler Octavio Paz urgentemente. Nesse ponto do discurso, perdi a concentração. Deixei de transcrevê-lo. Para passar o tempo, comecei a contar quantas vezes Gil empregava a interjeição "enfim". Foram dezessete.

Bem melhor do que ouvir um discurso de Gil é ouvir um de Lula. Nunca houve, em nossa história, um presidente que falasse tão claro quanto ele. Poucos dias atrás, em Barcarena, no Pará, Lula disse que o Brasil foi castigado por políticos que pensam apenas em seu mandato. No mesmo discurso, ele demonstrou que, como o resto dos políticos, pensa apenas em seu mandato, reivindicando mais quatro anos no poder. Ou seja, 100 dias depois da posse, já estamos novamente em campanha eleitoral. E podemos contar com um presidente que, segundo sua própria definição, se considera um castigo para o país.

Na semana anterior, Lula havia declarado algo ainda mais espantoso. Ele reconheceu que, quando estava na oposição, disparava bravatas o tempo todo. Indiretamente, ele chamou seus eleitores de otários. Porque quem acredita em bravatas só pode ser otário. Lula está certo, claro. Porém é surpreendente que ele tenha a coragem de debochar de seus eleitores em público, de forma tão ostensiva. Nem o mais brucutu dos coronéis nordestinos trataria seu curral eleitoral com tanto desdém. Estou começando a desconfiar dessa história de que Lula saiu de Pernambuco num pau-de-arara. Ele deve ter algum parente latifundiário em Garanhuns.

Na segunda-feira, em cadeia nacional, Lula traçou um balanço de seus primeiros meses de governo. Atribuiu-se o mérito de ter salvado a economia, melhorando câmbio, balança comercial e risco país. Como esses índices só tinham piorado porque os investidores acreditaram em suas bravatas, não há do que se gabar, visto que ele se limitou a consertar um pouco do estrago feito anteriormente. Com muito laquê e piscando o olho esquerdo sem parar, Lula levou cinco horas para extrair nove minutos de programa. Pois eu passei cinco horas com Gil e extraí ainda menos. Ponto para Lula.

domingo, abril 06, 2003

Diogo Mainardi A comédia da fome


O Iraque será reconstruído pelas mesmas empresas que construíram o Brasil. A Halliburton, por exemplo, quando ainda era comandada pelo atual vice-presidente americano, Dick Cheney, construiu o gasoduto Brasil–Bolívia. A Bechtel também foi convidada para repartir o bolo bilionário da reconstrução iraquiana. Em suas atividades no Brasil, a Bechtel ergueu desde usinas elétricas até fábricas de meias de náilon, mas seu nome é recordado, sobretudo, pelos reatores nucleares de Angra dos Reis. A Fluor, cujo nome é associado à instalação de grandes siderúrgicas e fábricas de automóveis no Brasil, irá participar, igualmente, da boca-livre iraquiana, da mesma forma que a Washington Group International, a empreiteira responsável, entre nós, pelas obras da hidrelétrica de Itaipu. Tudo indica, portanto, que o Iraque, depois da guerra, ficará igual ao Brasil. Bagdá será uma réplica exata de Teresina. Basra, uma réplica de Francinópolis. Nassiriah, uma réplica de Guaribas.

O trabalho de reconstrução do Iraque será coordenado pela Usaid, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. Andrew Natsios, seu diretor, ficou conhecido no mundo todo por ter declarado, algum tempo atrás, que os africanos não deveriam receber remédios contra a Aids porque nem sabiam ler as horas. A Usaid sempre foi muito ativa no Brasil. Em 1964, depois do golpe militar, mandou seus técnicos para cá e reformou nosso ensino, do primário até a universidade. Se aplicar a mesma receita educacional no Iraque, conseguirá dobrar o número de analfabetos em poucos anos. Até hoje a Usaid financia programas assistenciais no Brasil, ligados à preservação da floresta tropical, à prevenção da tuberculose e à luta contra a exploração sexual de crianças. Durante a viagem de Lula aos Estados Unidos, cogitou-se inclusive de a Usaid ajudar no Fome Zero.

Não que o Fome Zero precise de ajuda. As melhores mentes do governo já estão engajadas no projeto. Outro dia, o Ministério da Cultura anunciou que pretende oferecer incentivos fiscais aos produtores que se dispuserem a rodar seus filmes em regiões carentes, usando mão-de-obra e figurantes locais. Depois do bolsa-escola, bolsa-renda, bolsa-alimentação, bolsa-criança cidadã e bolsa-qualificação profissional, agora também querem lançar o bolsa-figuração. Guaribas vai virar um pólo cinematográfico, a futura Hollywood do agreste. O único inconveniente é que nordestinos famintos só servem para interpretar nordestinos famintos. Ficam um pouco inverossímeis em outros papéis. Temo que, nos próximos anos, tenhamos de assistir a uns dezoito filmes sobre Antônio Conselheiro e Canudos. Mas nunca se sabe. Pode ser que surja um novo Marlon Brando por lá. Ou um novo Fred Astaire, que revolucione o gênero musical. Se a experiência de implantar um pólo cinematográfico em Guaribas der certo, os técnicos do Ministério da Cultura, em direta concorrência com os da Usaid, podem ajudar a implantar um em Nassiriah, transformando-a numa Hollywood do deserto. Será nossa contribuição desinteressada para a reconstrução do Iraque. O problema da fome, pelo menos, estará resolvido. Tanto aqui como lá.

sábado, março 29, 2003

Diogo Mainardi A PanTomima beduína



"Marta Suplicy pode ficar mais tranqüila
porque seu companheiro arrumou uma
posição no governo Lula.
O mundo pode
ficar mais tranqüilo. Estamos todos em
boas mãos, brasileiros, iraquianos,
ingleses, americanos"

O melhor de todos é Mohamed Said al-Sahaf, o ministro da Informação iraquiano. Outro dia ele chamou o presidente americano de "anão" e o secretário de Defesa britânico de "asno". Para alguém que passa o dia inteiro na frente da TV e já enjoou do habitual espetátulo de bombas de fragmentação caindo sobre a população civil de Bagdá, não pode haver atração mais excitante do que as entrevistas coletivas de Sahaf. Dão um pouco de cor local, com seu repertório clássico de insultos vindos diretamente da casbá ou de filmes de segunda linha de Hollywood. Cuspindo nos microfones, Sahaf declarou que o "pequeno Bush lidera uma gangue internacional de bastardos criminosos, uma superpotência de Al Capone", que ele é um "vilão", "um biltre", "um homem vil que será amaldiçoado pela eternidade". Para Sahaf, Colin Powell é um "idiota", e Donald Rumsfeld, um "cão", à frente de "mercenários abomináveis". Quanto aos britânicos, só merecem o profundo desdém de Sahaf, pois não passam de "hediondos lacaios que os canalhas dos americanos esmagam com a sola dos pés". Em entrevista recente, o assessor especial de Lula para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, ofereceu asilo no Brasil a Saddam Hussein. Ao mesmo tempo, os vereadores do Rio de Janeiro decretaram o presidente Bush "persona non grata" na cidade. Se Saddam Hussein é bem-vindo por aqui, e Bush não, faço questão de convidar, igualmente, o ministro Sahaf, essa impagável pantomima beduína. Por mais atrocidades que ele tenha cometido em nome do regime iraquiano, aceito hospedá-lo em minha casa, contanto que ele prometa ficar o tempo todo no terraço, deblaterando contra os moradores do prédio ao lado.

Além de oferecer asilo a Saddam Hussein, Marco Aurélio Garcia também afirmou que o Brasil está disposto a acolher refugiados de guerra iraquianos. Como se nossas cidades fossem muito melhores do que Basra sob o bombardeio de tropas anglo-americanas. Como se nossos bandidos fossem muito melhores do que "Ali, o Químico", aquele que exterminou os curdos com gás mostarda. Como se nossos miseráveis vivessem muito melhor do que refugiados num acampamento da ONU. Por falar nisso, Benedita da Silva confessou que não gostaria de estar na pele do articulador do Fome Zero, José Graziano, "com essa responsabilidade de dar combate à fome e à miséria". Benedita da Silva é ministra da Assistência e Promoção Social. Seria de supor que a responsabilidade de seu ministério fosse, justamente, dar combate à fome e à miséria. Eu não gostaria de estar na pele dos refugiados iraquianos que vierem para cá. E muito menos na dos miseráveis brasileiros.

A principal medida do governo Lula depois da deflagração da guerra no Iraque foi conceder-se um vital setor de comunicação internacional. O chefe do novo setor é o companheiro de Marta Suplicy, Luis Favre. Em fevereiro, li com apreensão que a prefeita de São Paulo andava "sumida e sorumbática", porque nenhuma posição no governo federal havia sido oferecida a Favre. Agora, ela pode ficar mais tranqüila. O mundo pode ficar mais tranqüilo. Estamos todos em boas mãos, brasileiros, iraquianos, ingleses, americanos.

domingo, março 09, 2003

Diogo Mainardi No país do Carnaval

"Por trás da fachada irreverente do Carnaval, só há um desavergonhado
e rastejante
beija-mão"

O camarote de Gilberto Gil, em Salvador, consagrou a ascensão do novo poder político brasileiro. O ministro Antônio Palocci, acompanhado pela mulher, Margareth, apareceu com uma camisinha pendurada no pescoço. Onde Palocci estava no Carnaval de 2002? No desfile de escolas de samba de Ribeirão Preto? Ou vistoriando os estragos causados pelas enchentes em sua cidade? E o ministro Jaques Wagner? No ano passado, ele proferiu um discurso contundente sobre a farra de recursos públicos no Carnaval baiano, acusando a prefeitura de Salvador de "engordar os bolsos de fabricantes de bebidas e trios elétricos". Neste ano, ao lado do prefeito Imbassahy, Wagner rendeu-se à atmosfera festiva do camarote de Gil. Com muito uísque e cerveja grátis, assistiu à passagem dos trios elétricos abraçado à mulher, Fátima, que vestia um "top" da estilista Vera Arruda, segundo as colunas sociais. No discurso do ano passado, Wagner também denunciou o ex-governador Antonio Carlos Magalhães de se valer da construtora de seu ex-genro para desviar as verbas do orçamento da Bahia e depositá-las em contas particulares no Econobank, das Ilhas Cayman. Excepcionalmente, Antonio Carlos Magalhães não compareceu ao camarote de Gil neste Carnaval. Mas compareceu em 2002. E em 2001. E em 2000. Em 2002, ao vê-lo no camarote de Gil, o trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar prestou-lhe uma comovida homenagem. Em 2001, a banda Chiclete com Banana proclamou que "A Bahia não vai deixar ACM só". Em 2000, o bloco Filhos de Gandhi definiu-o como "o presidente da moralidade do Brasil". Carnaval é assim mesmo. Por trás da fachada irreverente, só há um desavergonhado e rastejante beija-mão. Basta ver a Beija-Flor, que ganhou o concurso das escolas de samba do Rio de Janeiro com seu enredo chapa-branca, de propaganda oficial, abençoado por aquele assustador fantoche de Lula.

A filha do ministro José Dirceu foi fotografada no camarote de Gil. No ano passado, quem passou por lá foi um dos filhos do ex-presidente Fernando Collor de Mello, Arnon. Outro filho ilustre, José Sarney Filho, mereceu elogios de Gil por sua atuação como ministro do Meio Ambiente do governo Fernando Henrique Cardoso. Gil votou em Fernando Henrique em 1994, contra Lula. Em 1998, um primo de Collor, Euclides Mello, então candidato ao governo de Alagoas, declarou contar com o apoio de Gil. Onde Euclides Mello se encontrava no Carnaval de 2003?

Se o camarote de Gil pode ser usado para traçar o mapa do poder político no Brasil, outra notícia do período de Carnaval, dada sem o menor destaque nas páginas locais de O Globo, ajuda a delinear o perfil moral do brasileiro: "Walter Barbosa Júnior furtou a carteira do turista chileno Ricardo Ramos. Após uma perseguição, um grupo de trinta banhistas espancou o ladrão, levando-o para o mar, na tentativa de afogá-lo, o que só não aconteceu pela ação de seis guardas". Naquela segunda-feira, o jornal estava cheio de referências aos dois malfeitores do momento, Fernandinho Beira-Mar e Silveirinha. Os trinta linchadores de Copacabana foram perdoados. O Brasil não tem espaço para tantos vilões ao mesmo tempo.

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