O GLOBO
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Sim, a política externa brasileira sempre foi pacífica, a favor da solução negociada e, por isso, há cem anos o Brasil não tem uma guerra com qualquer dos dez países com os quais compartilha 16.886km de fronteira. Não, isso não significa abrir mão da firmeza, da defesa dos interesses nacionais, do tom mais duro quando necessário. O governo Lula, com sua diplomacia bicéfala, não entende a diferença do sim e do não.
Sim, a Bolívia é um país pobre, foi espoliada no passado, tem uma maioria indígena que precisa de mais poder e mais riqueza em suas mãos. Não, isso não significa que possa tomar qualquer atitude confiando que sua pobreza e seu sofrimento passado a abonam previamente por qualquer erro que cometa.
Sim, a Bolívia tem direito a toda a sua riqueza e seu patrimônio; seu solo e subsolo são sua soberania. Ela pode — qualquer país pode — mudar suas leis e rever contratos. Não, essas mudanças não podem ser feitas pela força, com o uso de tropas, com ações unilaterais para revogar tudo o que foi livremente negociado. Por isso existe o direito internacional. A civilização construiu, para a convivência entre os países, para arbitrar os interesses divergentes, as leis internacionais que limitam os estados nacionais.
Sim, a Bolívia pode querer alterar o preço do gás que vende ao Brasil ou a qualquer país. Se ela se sente lesada comercialmente, pode e deve propor uma negociação para rever isso. Não, nem de longe a maneira como a Bolívia fez é a forma correta de propor uma revisão de preços; não se agride um parceiro com o qual se quer chegar a uma solução negociada; não há espaço para uma negociação quando a opção é aceitar os termos ou abandonar o país.
Sim, seria absurdo o Brasil mandar tropas para a fronteira, ameaçar guerra como sempre fazem os Estados Unidos quando são contrariados. Não, os críticos não propuseram vociferar beligerâncias. Entre tropas na fronteira e aceitação do desaforo, há um enorme gradiente de tons para a reação diplomática. A diplomacia é exatamente isto: a arte de usar sinais e palavras para manifestar agrados e desagrados, defender interesses e estabelecer limites, construir respeito recíproco e negociar parcerias. Não, a opção não é a frouxidão ou a guerra. O que o Brasil deveria ter feito era dizer que não gostou do que houve, diplomática e civilizadamente. Em nenhum momento fez isso; nem na nota de terça-feira, nem na nota conjunta, nem na entrevista do presidente Lula em Puerto Iguazú. Os assessores do presidente dizem que ele teria dito na reunião isso ou aquilo. Mas há uma mensagem de respeito ao Brasil que deveria ter sido passada por gestos e palavras públicas. Na diplomacia, existe o momento de calar e o de falar. Nesta semana, era a hora de falar publicamente sobre o sentimento brasileiro. Não apenas por orgulho nacional. Também por cálculo. As empresas brasileiras têm negócios e investimentos em vários países da região e o precedente criado é perigoso. Estão todos os países informados que o Brasil aceita qualquer desaforo e que, além de não responder, promete ajuda ao país que o ofende.
Sim, quando há divergências, os países que mantêm boas relações devem se encontrar para negociar; se o diálogo está difícil, podem chamar quem facilite o encontro de uma solução comum. O Brasil foi o pivô de várias soluções negociadas para perigosas divergências entre os países da região. Não, a reunião de Puerto Iguazú não deveria ter sido feita assim. Da parte do Brasil, a disposição para o diálogo continuava, não eram necessários terceiros presentes na conversa. Se fosse preciso, não poderia ser Hugo Chávez por um motivo simples: ele tem um lado, já o escolheu e o explicitou. O negociador só pode ser neutro. Chávez é mais do que apoiador de Evo Morales. Ele o inspira.
Sim, o Brasil tem um sonho de construir uma unidade entre os países da América do Sul, vários governos trabalharam nessa direção, cada acordo hoje em vigor não é mérito — nem culpa — de um governo só. É o Brasil que tem persistido em iniciativas para aumentar o comércio e a cooperação com os países vizinhos, encurtando a distância que nasceu do fato de termos histórias e línguas diferentes. Não, isso não pode ser feito renunciando ao respeito, calando diante de uma humilhação pública, aceitando interesses feridos. A confiança foi abalada e não por nós. Para reconstruí-la, será preciso que a Bolívia faça um gesto de amizade, e houve o oposto: ela foi fortalecida pela tibieza brasileira e pelo oportunismo venezuelano.
Sim, a América do Sul é auto-suficiente em energia e esta é a melhor chance da região de construir parcerias boas para países fornecedores e consumidores. Não, o Brasil não pode aumentar as compras e investimentos se não for restabelecida a confiança em que o que for negociado será respeitado nas relações regionais.
Sim, a política externa deve ser conduzida por quem foi eleito para governar o país, exercendo o poder que lhe foi delegado. Não, a política externa não pode se guiar por convicções e preferências partidárias. Os partidos são passageiros, o poder é efêmero, a ideologia muda. Permanente é o país e suas escolhas. Um bom estadista constrói a política da sua gestão, mas ouve as lições da história do país e entende as escolhas permanentes da nação.
Entrevista:O Estado inteligente
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