sábado, dezembro 21, 2002

Diogo Mainardi Lula chora, mas quem sofre sou eu

"Gilberto Gil pretende continuar a dar
espetáculos no exercício do cargo de
ministro. É injusto. A única vantagem
de ter Gilberto Gil como ministro da
Cultura seria passar quatro anos sem
ouvi-lo cantar"

Em dezembro de 1989, o ditador panamenho Manuel Noriega se refugiou na embaixada do Vaticano. Para tirá-lo de lá, os soldados do Psyop, especialistas em guerra psicológica do Exército dos Estados Unidos, bombardearam-no dia e noite com rock, amplificado por caixas acústicas de 10.000 watts. Em poucos dias, Noriega se rendeu, com os nervos em frangalhos.

Um saxofonista do Rio de Janeiro chamado Sangar Vidal usa a mesma tática do Psyop. No último domingo, estacionou seu Monza branco na orla de Ipanema, direcionou potentes caixas acústicas para as janelas do apartamento em que estou hospedado e bombardeou-me com seu CD new age Quando as Folhas Caem.

Depois de oito horas de música ininterrupta, entrei num estado de absoluto descontrole emocional, exatamente como Noriega. Quem também tem estado com os nervos meio abalados é Lula. Ele chora demais. Chora quando vê novela, chora quando visita a cidade natal, chora quando recebe o diploma de presidente. O resto do PT é igual. Sempre tem alguém chorando. Uma hora é José Genoíno, outra hora é Heloísa Helena. Nada exclui que o Psyop possa estar por trás disso. O companheiro Bush gosta de desestabilizar governos alheios. Pior ainda no caso de governos suspeitos, como o do PT. Se Lula chora convulsivamente ao receber o diploma de presidente, o que fará quando o dólar romper a barreira dos 5 reais, ou quando a taxa inflacionária superar os 65%, ou quando o crédito internacional escassear e formos obrigados a decretar moratória? O primeiro escalão do PSDB governou por oito anos e fracassou clamorosamente.

Diante desse fato, Lula decidiu formar seu ministério com o segundo escalão do PSDB. Por acaso esse surto de irracionalidade tem algo a ver com o Psyop? Eu, no lugar de Heloísa Helena, instauraria uma CPI para investigar o caso. Outra atitude que denota certo desorientamento por parte de Lula é a escolha de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura. Frei Betto, conselheiro do presidente eleito, desaprovou. Eu também. Para arredondar o orçamento doméstico, Gil pretende continuar a dar espetáculos durante o exercício do cargo. É injusto. A única vantagem de ter Gil como ministro da Cultura seria passar quatro anos sem ouvi-lo cantar. Comprei seu último disco, dedicado a Bob Marley. É um exemplo de métrica tropicalista. Coisas como: "Você que eleve-se alto ao céu" ou "Ob-observando hipócritas". Proponho aumentar seu salário e poupá-lo de cantar. Para o Ministério da Cultura, Frei Betto teria preferido Antonio Candido. Cogitaram-se também os nomes de Nélida Piñon, Marilena Chaui e Antonio Grassi. Eu teria apoiado com entusiasmo qualquer um deles, contanto que, ao contrário de Gil, prometessem abandonar suas atividades intelectuais e artísticas por quatro anos.

Ano-Novo é tempo de otimismo. As pessoas tendem a acreditar que o futuro sempre será melhor que o passado. No caso, eu aposto o contrário. Aposto que 2003 será muito pior que 2002. O ideal para mim seria pular direto para 2004. Um ano a menos de desastres. Boas festas.

sábado, novembro 16, 2002

Diogo Mainardi Para cá de Bagdá

"Alguns países resistem a bloqueios
econômicos por anos e anos. Outros
capitulam rapidamente. O Brasil
pertence à segunda categoria. Os
brasileiros nunca foram um exemplo
de coragem e ousadia"

Florença viveu seus dias de Porto Alegre. O Palácio da Signoria assumiu o aspecto do Palácio Farroupilha. O Davi, de Michelangelo, atingiu a magnitude do Monumento Júlio de Castilhos. O Domo rivalizou com a Catedral Metropolitana. Foi o resultado do Fórum Social Europeu, que reuniu, em Florença, o mesmo pessoal que, durante o reinado petista, costumava se reunir em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial. Em apenas cinco dias, beneméritos representantes de milhares de ONGs solucionaram, entre outras coisas, a fome no mundo, a epidemia de Aids, o trabalho escravo e o contrabando de mogno. Donos de todas as virtudes, eles terminaram o evento com uma marcha pela paz, em que 500.000 manifestantes se opuseram à guerra contra o Iraque.

Estou indeciso sobre essa guerra. Quando ouço Bush ou Blair, viro pacifista. Quando ouço os pacifistas, fico com vontade de bombardear pessoalmente Bagdá. Os pacifistas dizem que os americanos só querem petróleo mais barato. Duvido que uma guerra contra o Iraque possa surtir esse efeito, mas seria muito vantajoso para o Brasil. Imagino que Lula, secretamente, esteja torcendo para que isso aconteça. Quem perderia alguns trocados seriam os tiranos árabes que se apropriam de boa parte da renda petrolífera de seus países. Um dia depois da marcha pela paz em Florença, o filho do presidente líbio Muamar Kadafi apareceu num estádio de futebol italiano. Ele é o segundo maior acionista particular do time do Juventus. Agora está pensando em comprar o time do Lazio. Diminuir o preço do petróleo significaria apenas diminuir a fortuna desviada por essa gente.

E o que dizer das vítimas inocentes? Elas servem de justificativa tanto para um lado quanto para o outro. Os belicistas recordam as centenas de milhares de vítimas inocentes que Saddam Hussein torturou, decapitou, exterminou com armas químicas e mandou para o massacre em guerras insensatas. Os pacifistas respondem apontando as vítimas inocentes que os bombardeios americanos certamente provocariam. Além de se oporem à guerra, os pacifistas também querem suspender o bloqueio econômico contra o Iraque. Eles afirmam que essa medida só afeta as pobres criancinhas iraquianas, que morrem por falta de comida e remédios, como repetem sem parar as agências de notícias de Saddam Hussein. O argumento dos pacifistas é exatamente o mesmo que Margaret Thatcher usava para defender a África do Sul durante o regime de apartheid. Ela dizia que os maiores prejudicados por um eventual bloqueio econômico britânico seriam os próprios negros miseráveis.

Alguns países resistem a bloqueios econômicos por anos e anos. Outros capitulam rapidamente. O Brasil pertence à segunda categoria. Os Estados Unidos já retaliaram o Brasil em três diferentes oportunidades. A primeira, em 1962, contra a Lei de Remessa de Lucros de Jango. Dois anos mais tarde, ele foi deposto. Em 1977, os americanos mudaram de idéia e passaram a pressionar os militares brasileiros para restaurar a democracia. Foi o que aconteceu. Em 1978, os Estados Unidos desconfiaram de nosso programa nuclear. Prontamente, nós lhes fornecemos todas as garantias exigidas. Os brasileiros nunca foram um exemplo de coragem e ousadia. De fato, acho que vou desistir de bombardear Bagdá.

segunda-feira, novembro 04, 2002

Diogo Mainardi O Brasil do Zé Carioca





"O programa cultural do novo governo
exalta os mestiços alegres, cheios de
ginga.
E calcula que eles podem render
um bom dinheirinho. Com Lula,
voltaremos
a ser o Brasil brejeiro dos tempos da
Aliança para o Progresso"

"Somos mestiços." É a primeira frase do programa cultural do governo Lula. De uma classe dirigente que pretende representar o novo, seria de esperar uma idéia um pouco menos caduca. Um pouco menos de preguiça intelectual. O elogio da mestiçagem podia fazer sentido nos anos 20 ou 30. Contrapunha-se a um determinismo racista que via o mestiço como um ser inferior, como um degenerado. Hoje, na melhor das hipóteses, lembra o "pé-na-cozinha" que Fernando Henrique Cardoso atribuiu a si mesmo. Populismo rasteiro. E um tanto ofensivo. Nossa mestiçagem é resultado de uma limpeza étnica, de um estupro coletivo praticado por senhores de engenho brancos contra escravas negras. Nada do que se orgulhar, portanto. Até porque o elogio da mestiçagem acaba embutindo um furto cultural. Como reagiria um negro americano se lhe dissessem que o jazz é fruto da mistura abastardada entre brancos e negros? Mas o problema é ainda mais grave. O programa do novo governo exalta, paternalisticamente, os mestiços alegres, musicais, cheios de ginga, antropofágicos, festeiros. E calcula que eles podem render um bom dinheirinho para o país. Basta aproveitá-los direito. Basta fazê-los dançar frevo ou maracatu e exibi-los no mundo inteiro. Com Lula no poder, voltaremos a ser o Brasil folclórico e brejeiro da Aliança para o Progresso. O Brasil do Zé Carioca.

Uma das principais propostas do novo governo é "democratizar o acesso à cultura". Na prática, isso significa levar a Orquestra Sinfônica para tocar no Piscinão de Ramos. Foi o que fez Antonio Grassi, secretário da Cultura do Rio de Janeiro e um dos signatários do programa de governo. Outro signatário, Beto Almeida, sugeriu suspender o pagamento da dívida externa para poder distribuir jornais e revistas grátis entre os pobres. O projeto de "TV regionalizada" é de Hamilton Pereira. O modelo ideal desse tipo de televisão, segundo ele, é uma reportagem da TV Cultura sobre a Semana do Tropeiro de Sorocaba, seu curral eleitoral. Já a prefeitura petista de Porto Alegre contribuiu com as "oficinas de descentralização". Nelas, "deixa-se aflorar o sensível e o imaginário, ao aportar o benefício da dúvida, o prazer e a emoção na descoberta de relações invisíveis ao primeiro olhar". Entendeu? Na era Lula, "oficinas de descentralização" irão difundir-se por todo o país.

O PT é o partido do funcionalismo público. Por esse motivo, é natural que a estratégia do novo governo seja burocratizar ao máximo. Na área de cultura, promete-se criar uma infinidade de novos órgãos, dotados de siglas sugestivas como SNPC, ou PNIC, ou PNC, ou INRC. Os signatários do programa lulista se queixam de que FHC destinou poucos recursos à cultura. É curioso notar, porém, que quase todos eles sobreviveram nos últimos anos graças à benevolência do Estado, recebendo salários do Estado, ensinando em universidades do Estado, produzindo obras subsidiadas pelo Estado. O igualitarismo do novo governo embaralha alta cultura e baixa cultura. E difunde a idéia demagógica de que todos os brasileiros possuem talento artístico, embora muitos se encontrem escondidos por causa do nosso "apartheid cultural". Não sei se o Brasil realmente tem tantos artistas escondidos. Sei que tem muitos que poderiam se esconder.

domingo, novembro 03, 2002

Miriam Leitão Dúvidas futuras



Nenhuma área passou por mudanças tão radicais e profundas, no segundo governo Fernando Henrique, como o setor de telecomunicações. Os empresários do setor se reuniram esta semana em Florianópolis, num megaevento, e admitem não saber o que vai acontecer no futuro. A proposta do PT não é clara e as empresas enfrentam um momento de retração do mercado após o boom.

Tudo o que se sabe das propostas do partido é o que foi divulgado no programa de campanha. Diz que tudo o que está acontecendo no setor de telefonia “prova que o modelo adotado pelo governo FH é equivocado e são necessárias mudanças”.

E o que aconteceu foi a mais extraordinária expansão do serviço no Brasil.

O próprio texto do partido dá o número de 142% de aumento da rede fixa, em três anos, e 421%, em celular.

Em 97, apenas 6% da classe D tinham telefone fixo na região da Telemar. Agora, este número foi para 61%. Da classe C, o número foi de 34% para 82%.

Apesar disso, o programa do PT diz que o modelo é equivocado.

“A proposta do Partido dos Trabalhadores foi contrária ao fatiamento do grupo Telebrás. Deveríamos seguir estratégias semelhantes às adotadas por vários países como França, Alemanha, Espanha. O país deveria, portanto, reorganizar e reestruturar o grupo Telebrás, fundindo todas as teles e a Embratel numa única grande empresa nacional.”

Como é impossível voltar atrás, fica-se sem saber como eles pretendem mudar o modelo.

Houve sim alguns erros e este é um momento de mudanças: os empresários reunidos esta semana em Florianópolis estão prevendo que, assim que a lei permitir, haverá uma consolidação com empresas mais fortes comprando empresas em dificuldades. Mas tudo será evolução do atual modelo.

— Seria maluquice retroceder. Espero que ninguém pense nisto no próximo governo — disse-me um empresário.

Na Futurecom 2002, passaram 5.370 pessoas em painéis e seminários; ela teve, só de convidados internacionais, 200 painelistas e palestrantes nos quatro dias de evento. O organizador do encontro Laudálio Veiga Filho considera que, com todo o discurso de crise, este encontro foi tão concorrido quanto os outros.

Nada são flores no setor, mas não é o caso de rever o eixo central da política. Apenas aperfeiçoamentos.

O setor, no resto do mundo, sofre os efeitos da ressaca do excesso de expectativa sobre o crescimento da demanda.

No Brasil, a partir da privatização, os investimentos anuais cresceram fortemente. O Sistema Telebrás investia, por ano, cerca de R$ 5 bilhões. Em 99, o investimento foi de R$ 12 bilhões; em 2000, 14 bilhões; em 2001, R$ 23 bilhões; para este ano, a previsão é de R$ 9 bilhões.

— Nós estamos falando em crise porque o país voltou aos níveis de investimento mais normais — diz Valerijonas Seivalos, da Qualcomm.

O presidente da Siemens, Aluizio Birro, acha que é mais do que isso:

— Houve um superinvestimento no mundo, mas, no Brasil, isso foi induzido pela antecipação de metas exigida pela Anatel. As empresas encomendaram demais, a demanda não cresceu tanto, e hoje estão estocadas de equipamentos. Resultado: as fabricantes de equipamentos estão com capacidade ociosa.

O boom brasileiro foi tão forte que atraiu um número muito alto de produtores de equipamentos, e a competição, na opinião deles, ficou predatória.

Existem dez fabricantes de equipamentos no Brasil e a previsão que se faz é que alguns acabarão indo embora.

— Eu fui o primeiro a chegar, serei o último a sair, mas acho que nunca sairei — diz Birro. A Siemens instalou no Brasil uma linha de telégrafo entre Rio e Rio Grande do Sul para apoiar o Exército brasileiro em 1867 na guerra da Tríplice Aliança. Em 1905, instalou-se definitivamente no Brasil.

Os fabricantes dividem-se hoje entre pessimistas e otimistas, mas a Siemens não pode estar no primeiro grupo. Sua fábrica de Manaus está trabalhando em três turnos.

— Alguns produtos estão com grande demanda, outros não. A fábrica de Curitiba está com capacidade ociosa — conta Birro.

A indústria está procurando novos nichos e encontrando velhos problemas.

Um painel sobre o mercado de telecomunicações fez uma consulta interativa sobre como era possível aumentar a oferta de telefones se o país crescia pouco. Sessenta por cento disseram que a saída é oferecer telefone para as classes D e E. Fernando Terni, da Nokia, não acredita nisso:

— Eles não têm dinheiro. Este é um país com a renda mal distribuída.

Isso provocou polêmica na mesa. Sérgio Quiroga, da Ericsson, e o consultor José Luís de Souza sustentaram que há caminhos para vender para consumidor de baixa renda.

Luís Carlos Cornetta, da Motorola, diz que está otimista porque há vários nichos de mercado para serem explorados e, além disso, está exportando US$ 700 milhões de celulares.

No fim do debate, todos foram convidados a dar conselhos para o próximo ministro das Comunicações, caso ele estivesse no plenário lotado. Na mesa, estavam a Cisco System, a Embrael, a Qualcomm, a Ericsson, a Promon, a Motorola e a Nokia.

Aconselharam o próximo governo a não reinventar a roda, nem tentar ruptura com o atual modelo, porque o caminho é o do aperfeiçoamento de tudo o que foi feito nos últimos anos.

Um deles lembrou que Lula soube, duas horas depois da eleição, que era o presidente eleito graças ao avanço tecnológico que o Brasil conseguiu nos últimos quatro anos

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