Entrevista:O Estado inteligente
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domingo, maio 07, 2006
O petroduto Chávez Elio Gaspari
O petroduto Chávez
O presidente venezuelano Hugo Chávez tem distribuído mimos entre os brasileiros que defendem sua política. Até aí, nada demais, se os presentinhos forem declarados ao fisco.
Do contrário, o coronel Chávez corre um risco: Lula pode ser informado das ramificações de petroduto pelo governo americano, interessadíssimo em envenenar as relações dos compañeros.
Tribuna suíça
O Banco Credit Suisse convida alguns de seus clientes para uma "Conversa com José Dirceu", na terça-feira.
Depois da conversa será servido um coquetel.
Bolsa Povo
Lula acha que a elite são os outros e diz que o Brasil é um país de todos. Em 1980, Nosso Guia ficou preso 31 dias e perdeu a presidência do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo. Por conta disso recebe uma Bolsa Ditadura de R$ 4.294 mensais. (Provavelmente será aumentado a partir deste mês.)
Isso acontece no andar de cima. No de baixo o mecânico pernambucano Marcos Mariano da Silva passou dezenove dos seus 57 anos na cadeia por um homicídio que não cometeu. Uma bomba da PM cegou-o durante um motim. Abandonado pela família, não teve visitas.
Na semana passada o governador José Mendonça Filho concedeu-lhe uma pensão de R$ 1.200.
Se a pensão do brasileiro Mariano tivesse seguido os cálculos do Bolsa Ditadura de Nosso Guia (R$ 138 por dia de cana), sua pensão seria de R$ 960 mil mensais.
Bolsa Férias
Nos próximos quatro domingos o signatário receberá sua remuneração sem o desconforto de ter que trabalhar.
Bunker do Adolfo
O comando da campanha do PSDB à Presidência da República merece o apelido de "bunker do Adolfo". Em abril de 1945 brigava-se mais pelo poder na casamata de Hitler, debaixo da chancelaria do Reich, do que no Kremlin ou no QG dos Aliados, em Reims. Todos sabiam que os russos estavam a vinte quilômetros de distância, mas isso parecia não ter importância.
Cearenses brigam com paulistas, papeleiros com desenvolvimentistas e pesquisistas com marqueteiros. Todos fazem isso acreditando que os eleitores têm a obrigação de votar no doutor Geraldo Alckmin, porque reeleger Lula é coisa de pobre.
UniLula
Alguém deveria pedir ao Nosso Guia que se abstenha de comparar o processo de criação do Mercado Comum Europeu com o Mercosul. Na Europa gastaram-se 50 anos colocando tijolos na construção da casa. Só depois disso fez-se a cúpula. Nas palavras do historiador inglês Tony Judt, "a Comunidade Européia baseou-se na fraqueza, não na força." No Mercosul ocorreu o contrário. Deu no que deu.
Geisel avisava
De 1957, quando foi nomeado representante do Exército no Conselho Nacional do Petróleo, a 1979, quando deixou a Presidência da República, o general Ernesto Geisel batalhou contra a construção do gasoduto boliviano. Às vezes foi abertamente contra a idéia. Em alguns casos, cozinhou os grupos de interesse.
Seu argumento era o seguinte: "E quando aqueles bolivianos fecharem a válvula, o que é que eu faço? Mando o Exército lá abrir?"
A Petrobras brinca de rainha Victoria
Aidéia segundo a qual os bolivianos são bugres incapazes de entender a política de investimentos dos petroçábios, bem como a crença segundo a qual o compañero Evo Morales pode fazer o que quiser em nome dos direitos dos povos indígenas espoliados pelo colonialismo, são o melhor caminho para não se chegar a lugar algum.
A Petrobras pagará mais caro pelo gás boliviano e quem acredita no contrário corre o risco de fazer papel de bobo. Nos últimos dois anos, o barril de petróleo foi de US$ 40 para US$ 70 e esse choque forçou a renegociação de 99 em cada cem contratos de fornecimento de gás pelo mundo afora. Os petrodiplomatas desdenharam os pleitos dos bolivianos, as ponderações do Itamaraty e as preocupações do Planalto.
Depois de meio século de trabalho para se conseguir a auto-suficiência de petróleo, criaram a auto-dependência do gás que alimenta 75% da indústria paulista.
Por mais que se veja Evo Morales como um governante pitoresco ou que se atribuam superpoderes ao Brasil, vale lembrar uma crise ocorrida na segunda metade do século XIX, na qual fica difícil saber qual governante fez papel mais ridículo.
Entre 1864 e 1871 a Bolívia foi governada pelo general Mariano Melgarejo, uma espécie de sósia de Evo Morales, de cabeça para baixo.
O general era careca e tinha uma vasta barba. O embaixador inglês em La Paz desgostou o presidente. Pode ter sido porque se recusou a beijar o traseiro da amante do general, ou porque não quis apresentar credenciais a uma mula. Melgarejo mandou que tirassem a roupa do inglês e o colocassem na sela de um burrico, para divertimento dos bolivianos.
Esse é lado latino-americano da história. Agora, o europeu:
Quando a humilhação imposta ao diplomata chegou ao conhecimento da Rainha Victoria, ela determinou ao primeiro ministro Palmerston que bombardeasse La Paz. Veio a informação de que, encarapitada na cordilheira, a Bolívia estava fora do alcance das canhoneiras inglesas. Victoria pediu que trouxessem um mapa. Quando mostraram-lhe onde ficava o país, ela riscou o mapa com um golpe de pena e anunciou:
"A Bolívia não existe mais."
Toda bravata boliviana ecoa o general Melgarejo, mas as respostas arrogantes da Petrobras ecoam a pretensão da rainha Victoria.
Dona Rebeca do gasoduto cria gado
Recordar é viver. A percepção do tamanho do mico do gasoduto boliviano (US$ 8 bilhões, contratados durante o tucanato) trouxe de volta às lembranças dos negociadores brasileiros a esplêndida figura de Rebecca Mark, principal executiva da Enron International. Ela mal completara 40 anos quando entrou no circuito da privataria brasileira com um diploma de Harvard, saltos agulha e saias curtas.
Viajava no Citation da empresa, encantava burocratas e era acompanhada pela lenda segundo a qual sua bagagem incluía malas de dólares.
Telefonava de manhã e chegava para jantar à noite. Foi considerada uma das mulheres mais competentes e poderosas do mundo de negócios americano.
A Enron comprou reservas de gás na Bolívia e articulou-se para empurrar o gasoduto nas costas do Brasil. Uma de suas bases de persuasão funcionava em Londres.
Dona Rebecca sumiu do mapa em 2000, um ano antes da explosão da Enron. Fechou sua conta com os acionistas fraudados pela empresa, ao preço de um cheque pessoal de US$ 5,2 milhões. Hoje vive com o marido e os filhos num rancho no Novo México, onde cria gado de raça.
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