O GLOBO
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A ameaça da crise de energia foi antecipada nos cenários feitos nas empresas. Antes, a falta de energia era temida para 2009; agora a restrição já começa a produzir efeitos econômicos. Não que vá faltar energia amanhã, mas, no planejamento das empresas, é preciso trabalhar com prazos mais longos e o horizonte encurtou por causa da crise da Bolívia.
Em 2007 e 2008, não haverá hidrelétrica nova entrando em operação. Por isso, uma parte considerável do aumento da demanda de energia seria suprida pelas termelétricas e pelo gás natural.
O gás não sumiu, o suprimento vai continuar, mas não há garantia de oferta crescente. A entrada em operação do gás de Mexilhão, na Bacia de Santos, alivia o problema, mas não é suficiente. O efeito imediato da crise da Bolívia foi o de trazer a valor presente temores e presságios que estavam agendados para daqui a três ou quatro anos.
— Se não chover durante dois verões, teremos que terceirizar para São Pedro a administração energética brasileira — diz o empresário Lucien Belmonte, produtor de vidros.
Nos últimos três verões, choveu muito e os reservatórios das hidrelétricas brasileiras estão vertendo água. As turbinas podem trabalhar a plena capacidade. Por isso, as termelétricas estão ociosas. Em energia, no entanto, não se deve acreditar na calmaria do tempo presente. É preciso pesquisar o tempo futuro.
— Está tudo bem agora, mas a médio prazo, complica. Em junho, haverá um leilão de energia nova para 2009; certamente o investidor vai parar e olhar duas vezes antes de fazer um investimento com este risco do gás. Qual vai ser o preço que ele vai poder cobrar com o risco? — avalia Fernando Maia, diretor de regulação da Associação das Distribuidoras de Energia.
Na preparação do leilão, as empresas já estavam calculando um aumento do preço. Mas agora há um fator imponderável: qual o custo do gás? Quanto custará a energia das termelétricas?
As empresas que usam o gás diretamente nas fábricas estão também atingidas pela incerteza. A conversão para gás natural custou caro; reconverter para óleo combustível teria custo financeiro e ambiental.
O que ficou claro esta semana é que é preciso investir mais em alternativas. Na coletiva dada pela Petrobras na quarta-feira, José Sérgio Gabrielli falou em acelerar Santos e investir em unidades de regaseificação. Desta forma, haveria um número muito maior de fornecedores. O Gás Natural Liquefeito é vendido por vários países e está se tornando cada vez mais competitivo, sustentam três professores da Coppe que estudam o produto: Alexandre Szklo, Giovani Machado e Roberto Schaeffer. A opção GNL está numa fase de queda de custos e aumento de comércio. Na cadeia produtiva, já caiu 40% nos últimos dez anos, sustentam. Neste caso, o gás é transformado em líquido, transportado e, no país consumidor, é transformado em gás novamente. Esta regaseificação em si já produz energia. O gás natural como compramos da Bolívia tem a desvantagem de aprisionar o consumidor a um só fornecedor. O GNL tem a vantagem de contratos mais flexíveis e fontes mais diversificadas. Não pode ser descartado como alternativa, essa é a lição que a crise da Bolívia nos ensina.
Hoje, do total de importação de gás, 96% vêm da Bolívia, diz o consultor Adriano Pires:
— A crise lá incentiva investimentos no Brasil; sobretudo se houver uma regulação mais amarrada.
No calor da crise, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou a Lei do Gás de autoria do senador Rodolpho Tourinho. Ela cria regras claras para o transporte do gás, que representa 30% do preço do produto.
Para Eduardo Carlos Spalding, vice-presidente da associação que reúne os grandes consumidores de energia, é urgente encontrar alternativas.
— Temos soluções brasileiras como, por exemplo, Mexilhão mas, se a Bolívia cancelasse totalmente o fornecimento, o que acho improvável, seria um desastre. Temos que reduzir a dependência em relação a eles; o GNL é uma opção, afinal este foi o terceiro susto com a Bolívia.
Cláudio Sales, da Câmara dos Investidores em Energia Elétrica, lembra que, desde 2002, não se começa nenhum projeto hidrelétrico. Existem 23 parados; nove deles já têm licença ambiental, mas não andam por problemas regulatórios.
— A partir de 2007, será preciso começar a usar com mais força as termelétricas e seu suprimento está sob risco.
O gás é usado para produzir energia elétrica nas termelétricas, como geração de calor no processo de produção das fábricas, como matéria-prima da indústria de fertilizantes e como combustível de carro.
O empresário Lucien Belmonte lembra que, por razão eleitoral, o governo está dizendo que não subirá o preço do gás veicular:
— Somos auto-suficientes num produto que custa mais caro do que outro no qual somos dependentes. O subsídio ao GNV neste caso é puro populismo.
A demagogia tem perna curta. O governo apresentou a auto-suficiência como se fosse o fim de todos os problemas e quis tirar casquinha eleitoral de uma vitória do país inteiro. Dias depois e o risco é de outra crise. Energia é assunto a ser tratado com seriedade.
Entrevista:O Estado inteligente
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