EDITORIAL DE O GLOBO
Herança perdida
OBrasil já teve respeitável tradição diplomática. Depois dos sucessos de Rio Branco, no século XIX, que construiu as nossas fronteiras sem disparar um tiro, essa tradição refletia-se na vida e na formação dos diplomatas brasileiros. Era, antes de mais nada, uma formação de bom nível. De algum modo, traduzia um estilo brasileiro de fazer as coisas — infenso à retórica, tendendo à conciliação. Entre esse estilo e o que o presidente Lula acaba de aplicar ao caso boliviano, há uma diferença que chega a ser difícil de medir.
O Brasil sabia marcar presença no continente — o que não era difícil, porque partia-se de uma realidade imponente. Não é só que fôssemos fisicamente maiores: também tínhamos uma vida política mais estruturada — e isso desde os tempos da formação como país independente. O Império brasileiro, com a sua majestosa estabilidade, fez contraste com o desfile de tiranos e tiranetes que perturbaram a vida da América espanhola.
Por conta disso, e também por causa da língua, criou-se uma certa distância entre o Brasil e nossos vizinhos de continente. Distância que começou a ser superada através de trabalhos competentes como o da instauração do Mercosul.
Mas há diferenças que subsistem — como gostos diferentes por estilos de retórica. A tradição brasileira sempre foi mais discreta; sempre fugiu de uma discurseira oca que tem amplo curso na América espanhola. De repente, da maneira mais estranha, é a diplomacia brasileira que se torna tributária da outra — ou das outras.
A América espanhola tem queixas imemoriais contra a sua própria história; ressentimentos, ali, estão à flor da pele. Há também a realidade de países que não conseguem engrenar uma vida política normal. Pelos mais variados motivos, sofrem com isso a Colômbia, o Peru, a Bolívia, o Equador, a Venezuela — e a própria Argentina tem problemas enormes.
Esse fato, aliado ao sangue castelhano, produziu sempre retóricas estridentes, de que o Brasil sabiamente manteve-se à margem. Mas agora, é a "outra" diplomacia que dá as cartas — a diplomacia do berro, das propostas megalômanas envolvidas em legendas "bolivarianas" — e, já agora, da truculência pura e simples. Não por acaso, figuras como o presidente Morales gravitam para a órbita do coronel Chávez, e não para a linha brasileira. Essas diferenças tendem a durar muito, por mais que se possa fazer um esforço para desbastá-las.
O estranho, no caso, é que o país com o maior peso político e econômico da região entre na órbita dos outros; passe a falar uma espécie de "língua comum" que vem dos Andes, e não das nossas tradições políticas e diplomáticas.
O sonho da unidade continental não precisa ser pura quimera. Pode-se trabalhar neste sentido. Mas manda a boa diplomacia que se ponha sempre a realidade na frente dos sonhos, ou dos discursos — e que se cuide da honra e dos interesses nacionais.
O Brasil não fez isso agora, por razões já bastante lembradas. Em conseqüência disso, assume posição subalterna nos foros regionais. A título de entender os problemas de um país mais pobre, deixa-se desfeitar em público; deixa que se fale mal de uma empresa que sempre representou bem o nosso país, e que não tem exatamente uma história de pirataria na sua relação com outros países.
É compreensão demais das aspirações dos outros; e de menos da nossa própria História.
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