Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, maio 09, 2006

UN GOBIERNO DE MIERDA

UN GOBIERNO DE MIERDA

por Adriana Vandoni, economista

As recentes atitudes do presidente boliviano deixaram atônitos os que ainda teimam em manter um discurso esquerdista no nosso país. Para essas pessoas deve ter sido duro imaginar a empresa de "o petróleo é nosso" como uma empresa imperialista, que "nuestro país" é dono de uma multinacional "imperialista". Como eles poderiam agora, sonegar aos bolivianos o direito ao mesmo slogan difundido há décadas por aqui e ainda defendido pelos nossos dinossauros ideológicos?

Foi surreal vê-los concordando com a atitude de Evo Molares. A quem deveriam defender? À "nossa" empresa ou à ideologia socialista de Hugo Chaves e Fidel? A Petrobras foi construída e enriquecida a partir dos lucros oriundos do trabalho dos brasileiros, e se tornou uma das maiores empresas mundiais devido ao monopólio e preços "exorbitantes" dos combustíveis cobrados aqui. Vemos agora Hugo Chaves, o amigo de Lula tramando com Evo Morales para expropriar os bens da Petrobras ao mesmo tempo em que o boliviano assina um contrato entre a PDVSA (estatal venezuelana de petróleo) para a construção de uma fábrica de separação de gás na região de Rio Grande, sendo que nossa empresa já tem fábricas desse tipo na região.

Será que a ideologia dos auxiliares do nosso governante apedeuta supera todos os esforços que nossa população passou e ainda passa para mantê-la uma empresa rentável? Será que há desculpa para que o patrimônio dela, obtido de nós, de nosso povo, seja investido em outro país e este simplesmente expropria quando bem entende? Sim, porque na verdade não houve uma nacionalização, mas uma expropriação. É bom deixar isso bem claro. Na Bolívia, como no Brasil, no Chile e na maioria dos países, os recursos naturais já são Bens Nacionais, de acordo com as respectivas Constituições. Na Constituição Boliviana é no Capitulo II que trata dos Bienes Nacionales. Só podem ser explorados por concessão do Estado. E foi através de contrato de concessão que a Petrobras e mais outras 20 empresas estrangeiras, puderam se instalar lá.

Se contratos e acordos feitos pelos governos passados não têm valor, quem nos garante que um outro louco não venha no futuro considerar como ilegítimo o acordo feito pelo Barão de Rio Branco, que permitiu-nos comprar as terras onde hoje se localiza o estado do Acre? Que levem os Viannas e a Marina Silva, mas as terras são do nosso país! Aliás, para quem não sabe, dias atrás Morales foi a Santiago discutir o reatamento das relações diplomáticas com o Chile, suspensas há muitos anos, e negociar a recuperação de um acesso ao Pacífico para a Bolívia, entre o norte do Chile e o sul do Peru. Na sua volta à Bolívia, 10 mil bolivianos reunidos no Estádio Nacional, o aplaudiram com a saudação: "Mar para a Bolívia".

A diplomacia de uma nação serve para delimitar e desencorajar ações como essas, e sempre fomos respeitados por seguir a linha de um dos nossos verdadeiros heróis, o Barão de Rio Branco, que resolveu todas as nossas pendências com os países fronteiriços, mas este nosso governo de amadores sujeita a nação aos riscos da ideologia do partido. É um governo de "mierda", diga-se, pois aceitar passivamente a expropriação dos bens da Petrobras e ainda afirmar em nota o direito "à soberania" do país vizinho, deixa subentendido que a Petrobras estava violando ou pilhando e não investindo para gerar riquezas na Bolívia. Se o índio tem suas razões para fazer isso, não nos interessa. Pode até ter, mas nas bandas dele, aqui o que nos interessa é a nossa soberania e o respeito ao nosso capital usado para produzir riqueza lá. A Petrobras investiu e transformou o gás de lá em uma fonte de renda para o país que não tinha como fazer isso. Agora, se os dividendos gerados não foram geridos para o bem do povo boliviano, não nos interessa. É um problema administrativo deles.

E à diplomacia brasileira deveria interessar, sobretudo, preservar o cumprimento do contrato e o patrimônio da empresa brasileira, lá investido. Mas o corpo diplomático montado por este governo de "mierda", se ateve mais em exaltar as belezas dos Lagos Andinos e o curioso hábito de mascar folhas de coca, do contrário saberia que no dia 22 de abril Morales anunciou que "nos próximos dias" entraria em vigor o Plano Nacional de Desenvolvimento e o Programa de Nacionalização (sic) do Petróleo e do Gás.

E a reação do Brasil de Lula? Reunir-se com Evo Morales, Nestor Kirchner e o "mui amigo" Hugo Chávez. Pra quê? Engana-se quem pensa em uma negociação sobre expropriação ou a determinação de que o valor da produção será distribuído 82% para o governo boliviano e 18% para as companhias. Que nada! A reunião é para discutirem a integração energética entre os países sul-americanos.

Anos atrás um trabalhador chileno dizia em uma faixa em defesa do então presidente Allende, durante um dos seus últimos comícios: "és un gobierno de mierda, pero és mi gobierno". Pois é, toda a campanha de Evo Morales foi feita baseada no compromisso de que romperia os contratos de concessão com empresas internacionais que lá exploram o gás e o petróleo. Foi essa bandeira que fez Morales vencer as eleições, e com o apoio do nosso "gnomo de botequim". Pena mesmo Lula não ter aprendido o Latim (como lamentou ele em uma de suas célebres frases: "Eu gostaria de ter estudado latim, assim eu poderia me comunicar melhor com o povo da América Latina"), se tivesse, provavelmente entenderia hoje que "nuestro gobierno és una mierda, com una diplomacia tambiem de mierda, mas pone mierda en eso"!


Adriana Vandoni é economista, especialista em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas/RJ. E-mail: avandoni@uol.com.br


Publicado em 07/05/2006 BLOG CASAGRANDE

Arquivo do blog