| editorial |
| O Estado de S. Paulo |
| 5/5/2006 |
O antropólogo Claude Lévy-Strauss cunhou uma expressão que se tornaria clássica - a "obsolescência do inacabado". Ela serve como uma luva para resumir em poucas palavras a verdadeira natureza da crise regional posta em evidência pela decisão boliviana de nacionalizar a exploração de gás e petróleo. Ocupado com o transitório, em detrimento do essencial, o noticiário destes dias ressalta a incerteza que passou a pairar sobre o suprimento e o custo do insumo importado, com peso crescente na matriz energética brasileira. Não será justo, por isso, culpar o leitor desprevenido por acreditar na ingênua ficção de que os chefes de Estado da Argentina, Bolívia, Brasil e Venezuela iriam se reunir ontem em Puerto Iguazú para discutir preço de combustível. A crise escancarada pelo ato do presidente boliviano Evo Morales - que tinha o direito de fazer o que fez, mas não o teria feito, pelo menos da maneira desastrada como fez, sem o respaldo do coronel Hugo Chávez, a quem hipoteca a soberania que pretende estar resgatando da Petrobrás - é muito mais profunda e alarmante do que parece, por incidir na estrutura mesma das relações políticas entre os países sul-americanos, sob o populismo em ascensão no subcontinente, apontando para um retrocesso de proporções catastróficas. O de que se deveria estar tratando ontem, em Puerto Iguazú, é do desmanche prematuro dos inacabados projetos de integração regional. O arruinado edifício em construção desabou com estrépito sobre a atual política externa brasileira. Movido por vastas ambições de liderança pessoal, Lula arriscou o patrimônio político do País na aventura supremacista chamada Comunidade Sul-Americana de Nações, lançada em dezembro de 2004. Olimpicamente alheio aos interesses específicos dos povos vizinhos e ignorando as disparidades históricas e culturais, não raro pronunciadas, entre eles - para não falar do secular desconforto de todos ante o gigantismo e as singularidades brasileiras - já na sua primeira viagem ao exterior, em janeiro de 2003, o presidente invocou em Quito a "liderança natural" do País. Embalada pelo delírio seu de "desbravar a América do Sul", eufemismo para os seus sonhos hegemônicos, a diplomacia brasileira colecionou desde então derrotas sobre derrotas. A sua meta mais grandiosa - um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU - foi esnobada à luz do dia pela Argentina, com a anuência, menos ou mais silenciosa, dos vizinhos. Nesse meio tempo, como um bloco de gelo ao sol, o Mercosul começou a se derreter - o Uruguai está a um passo de se desligar do acordo. Vai pelo mesmo caminho a Comunidade Andina de Nações com a prevista saída da Venezuela, cuja agenda castro-chavista mira a criação da Alternativa Bolivariana para as Américas, sobre os destroços da Área de Livre Comércio das Américas, abortada pelo antiamericanismo do próprio Chávez e do argentino Néstor Kirchner. Foi uma vitória de Pirro. Como lembrou ontem no Estado o ex-embaixador Sergio Amaral, os EUA negociam ou já negociaram acordos comerciais com 29 países do Hemisfério, em condições melhores do que deram ao Mercosul. Agravando a acelerada tendência centrífuga que, acima de tudo, leva à anomia o relacionamento entre os países sul-americanos - com os interesses ou as idiossincrasias nacionais prevalecendo sobre os retóricos postulados supranacionais -, o chavismo acaba de semear um conflito com o Peru, somando-o ao que cultiva com a Colômbia. Não bastasse a sua contribuição para o desmoronamento das perspectivas integracionistas na região, e associado de muito perto a isso, o populismo em alta empurra vigorosamente a América do Sul para o último degrau do ranking global em termos de desenvolvimento econômico - em companhia da pobre África. Passado o abalo sísmico provocado pelo "decreto supremo" de Evo Morales, o governo brasileiro estará obrigado pela força dos fatos e das necessidades nacionais de progresso econômico e social a adotar uma nova - e agora lúcida - política externa, que livre o País dessa descida aos infernos. "O Brasil", disse a este jornal, numa entrevista publicada domingo, o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda, "é demasiado grande, demasiado sério, com demasiados interesses e demasiadas responsabilidades" para praticar uma diplomacia "bolivariana" como a que acaba de se esfarinhar, impondo a Lula, de quebra, uma inesquecível humilhação. |
Entrevista:O Estado inteligente
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sexta-feira, maio 05, 2006
Obsolescência do inacabado
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