Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, maio 05, 2006

Eliane Cantanhede - Foto rasgada




Folha de S. Paulo
5/5/2006

Olhando daqui dos EUA, a foto de Lula, Chávez, Kirchner e, agora, Evo Morales é ainda mais interessante, ou impressionante. Só falta Ollanta Humala, o candidato favorito à Presidência do Peru, para um retrato pronto e acabado do que ocorre na América do Sul.
A mesma foto foi feita na semana passada, mas sem Evo Morales. Foi quando Brasil, Venezuela e Argentina discutiram o supergasoduto de US$ 23 bilhões, apelidado de "transpinel" por setores da Petrobras e chamado de "maluquice" por Morales.
Depois disso, o novo presidente boliviano abriu caminho a cotoveladas e conseguiu espaço na foto dos "companheiros". Ele é o pivô da crise, mas está só equilibrando, ou desequilibrando, a disputa entre os dois gigantes da região, Lula e Chávez.
Evo Morales enxota a brasileira EBX, que já investiu US$ 50 milhões de um total de US$ 330 milhões lá. E, cem dias depois de assumir a Presidência do país, jogou o Exército nas refinarias da Petrobras e ameaça expropriar os ativos da empresa, que tem US$ 1,5 bilhão na Bolívia.
Lula ficou encurralado: não pode cortar os 25 milhões de metros cúbicos de gás boliviano consumidos por dia no Brasil nem romper com o país mais pobre da região, o que seria incoerente com sua política externa. Mas não tem como não reagir.
Do outro lado, o Brasil contribui com algo em torno de 15% do PIB da Bolívia, importa 80% de toda a sua produção de gás, e os bolivianos não têm tecnologia, nem mão-de-obra, nem dinheiro para explorar o próprio gás e cobrir uma eventual falta da Petrobras. É aí, neste ponto crucial, que entra Chávez, dando um trunfo e uma saída estratégica para Morales: se a Petrobras sai, a venezuelana PDVSA pode entrar.
A disputa é entre Lula e Morales, mas quem brilha é Chávez, com seu perfil guerreiro, seu petróleo, sua liderança e um novo dado: sua dubiedade em relação a Lula e ao Brasil.
Eles todos acabam negociando, mas a foto já está rasgada.

 

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