| O Estado de S. Paulo |
| 5/5/2006 |
No começo dos anos 1960, Paulo Martins, um sociólogo nacionalista, publicou um libelo que foi um grande sucesso à época. Chamava-se Um Dia na Vida de Brasilino. Brasilino, um genuíno brasileiro, era um cidadão que acordava pela manhã ao som de um despertador suíço, escovava os dentes com uma pasta Colgate, tomava café com cereais da Kellogg"s, ligava seu automóvel Ford e partia rumo ao seu emprego na Phillips. No caminho cruzava com inúmeros outdoors anunciando produtos de consumo os mais diversos, todos também produzidos por marcas de nome estrangeiro. Assim se passava o dia de Brasilino. "O Brasil está tomado pelas multinacionais!", concluía Martins, tomado de ira cívica. O livrinho causou um grande furor. "Lancemos os ianques ao mar!", era essa a grita geral. Tive a oportunidade de lê-lo quase três décadas depois. E o efeito, em mim, foi o contrário do pretendido pelo autor. Fiquei imaginando com seria o dia do tal Brasilino se nós fôssemos uma Nação absolutamente isenta de produtos e investimentos estrangeiros. Brasilino acordaria ao canto do galo. Ao observar o sol, ele concluiria serem umas 6 horas da manhã. Tentaria acender o abajur, mas não conseguiria. Afinal, ninguém teria permitido que a Light se instalasse por aqui. Acenderia uma vela e caminharia até o banheiro, onde lavaria a boca com sabão de banha e se barbearia com um legítimo facão brasileiro. Café da manhã não haveria, porque o Brasil ainda não fabricaria garrafas térmicas. Paciência. Brasilino, então, se dirigiria à garagem, ou melhor, ao estábulo, onde uma charrete e dois jegues, brasileiros natos, o esperaria. Após preparar os arreios, já pronto para sair, Brasilino refletiria: "Pressa para quê, se eu não tenho emprego?" Voltaria para a cama, recitaria o Hino Nacional e dormiria o sono dos livres. Nada como viver num país absolutamente soberano e independente! Tantos e tantos anos se passaram e eis que o tal do livrinho, se relançado na América do Sul, haveria de fazer sucesso outra vez. Ao menos na Venezuela, na Bolívia e, quem sabe, no Peru. A latinidad está na moda. Hugo Chávez e Evo Morales que o digam. Dos dois, o primeiro, sem dúvida, é o mais esperto. Ao tempo em que lança vitupérios contra os gringos, cuida escrupulosamente de vender todo o seu petróleo para eles. Com isso levanta dólares suficientes para sustentar o país e ainda sobra o bastante para exportar a sua revolução bolivariana. Já o segundo é como o palhaço que, no picadeiro, sucede ao trapezista. Ele tenta imitar o acrobata, mas o resultado nunca é o mesmo... Evo Morales acaba de nacionalizar toda a produção e o refino de hidrocarbonetos na Bolívia. Expropriar seria o termo mais correto. Segundo ele, isso é apenas o começo. Ele pretende nacionalizar tudo o mais que encontrar. Só não lançará todos os ianques ao mar porque seu país não tem mar. Mas já advertiu: as empresas estrangeiras que não se adequarem às novas regras, ultranacionalistas, terão, forçosamente, de deixar seu país. A população boliviana, em grande parte analfabeta, vibra. Mal sabe ela as graves conseqüências que advirão da patriotada irresponsável de seu presidente. A Bolívia conquistou o título de país mais pobre da América do Sul, e o fez, em grande parte, por seus próprios méritos. A instabilidade política é uma constante na história nacional. Raros são os presidentes que logram encerrar o mandato. O que se assistiu, de dois séculos para cá, foi a uma sucessão de caudilhos, ditadores militares, ditadores civis e líderes populistas, que chegaram ao poder pelas armas ou pela corrupção eleitoral. Emblemática é uma anedota que corria alguns anos atrás. Três prisioneiros políticos bolivianos, na mesma cela, conversavam sobre as razões de sua prisão. "Estoy acá porque hace cuatro años que hablé bien de Banzer." "Yo estoy acá porque hace dos años que hablé mal de Banzer. Y usted?" "Yo soy Banzer..." Tem sido assim através dos séculos. Lembro-me bem da acirrada polêmica que, por mais de 20 anos, cercou a construção do gasoduto Brasil-Bolívia. Não eram poucos os políticos e diplomatas que alertavam ser uma temeridade depender do gás proveniente de um país tão imprevisível. A obra acabou sendo feita e, agora, estamos vendo os resultados. O US$ 1,5 bilhão investido pela Petrobrás na Bolívia simplesmente virou pó. A situação só não é catastrófica porque os bolivianos, não tendo para quem vender o seu gás, continuarão exportando-o para o Brasil. A que preço, só Deus sabe... Mas deixemos de lado os bolivianos e seus problemas. Digna de registro, aqui, neste Espaço Aberto, é a reação para lá de esquizofrênica do PT e de seus líderes. O nacionalismo arrebatado, a satanização das empresas multinacionais e o combate acirrado ao imperialismo norte-americano, durante mais de duas décadas, foram o leitmotiv e a pedra fundamental da ideologia petista. Quando Evo Morales se lançou em campanha empunhando bandeiras semelhantes às suas, a intelectualidade petista mais do que vibrou. O presidente Lula, muito impropriamente, chegou a apoiar publicamente a eleição do companheiro. Qual não terá sido o seu espanto, agora, ao perceber que a multinacional que Morales combatia era a Petrobrás e que, para os bolivianos, os imperialistas não são os americanos, mas, sim, os brasileiros...
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Entrevista:O Estado inteligente
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