Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, maio 05, 2006

Irreparável



EDITORIAL
O Globo
5/5/2006

Não adianta tentar aplicar panos quentes sobre o ocorrido: a Bolívia, ou melhor, o governo do presidente Evo Morales, não quer mais empresas estrangeiras produzindo petróleo e gás em seu território. A Petrobras entendeu rapidamente a mensagem e, sem qualquer subterfúgio, "congelou" o volume de gás que será importado da Bolívia ao atual limite da capacidade de transporte do gasoduto que liga os dois países. Todos os planos para aumento de produção, que viabilizaria um maior volume de importação, foram suspensos.

Quando o Brasil construiu o gasoduto, nem sequer havia na Bolívia reservas de gás suficientes para utilizá-lo integralmente. A Petrobras é que descobriu os campos supridores, no sul da Bolívia, e ainda investiu na recuperação das refinarias para processar os líquidos associados à extração do gás.

Com a elevação dos impostos para 82% sobre a produção de gás, novos investimentos ficaram inviáveis e, assim, nem a Petrobras e nem qualquer outra empresa estrangeira estarão dispostas a explorar novos campos. Com o mercado brasileiro limitado à capacidade atual do gasoduto, a Bolívia, além de ter de investir por conta própria na busca de novas reservas de hidrocarbonetos, precisará investir também na construção de gasodutos. E, a partir da decisão de Evo Morales, é pouco provável que a Argentina, por exemplo, aventure-se a fazer uma parceria com a Bolívia, em vez de investir na exploração em seu próprio território.

A Bolívia, graças à insensata política de seu presidente, está perdendo um grande parceiro, e dificilmente encontrará no continente outro país que faça tantas concessões como as que obteve do Brasil. Ilude-se Evo Morales se espera ajuda de Fidel Castro ou de Hugo Chávez. Cuba, que o presidente boliviano cita como modelo de desenvolvimento econômico, vive à mingua e sem perspectivas. E seu colega venezuelano está mais para o discurso populista do que para ações práticas — não é por acaso que a infra-estrutura na Venezuela está cada vez mais deixando a desejar.

Evo Morales optou por distanciar a Bolívia do Brasil. O mal que está fazendo a seu próprio país talvez seja irreparável.

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