Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, maio 05, 2006

Míriam Leitão - Novo erro



Panorama Econômico
O Globo
5/5/2006

O presidente Lula tem sido inepto durante toda esta crise. Ontem passou dos limites. Aceitou que Hugo Chávez comandasse a cena, solidarizou-se publicamente com o governo da Bolívia e ofereceu ajuda a um governo que rasgou contratos, feriu interesses brasileiros e desrespeitou acordos assinados com o Brasil. Na prática, o Brasil vai pagar à Bolívia por nos causar prejuízo.

A Bolívia é dona do seu subsolo e ninguém quer tirar isso dela, muito menos um país que comemora os 50 anos de uma campanha que transformou o nosso subsolo em nossa propriedade e soberania. Mas não é isso que está em questão. O ponto é que a Bolívia, num ato hostil, ocupou com tropas as instalações de uma estatal brasileira, quer impor belicamente as condições da negociação e rompeu contratos. E recebe o aplauso, a solidariedade e a promessa de ajuda do governo brasileiro.

O que está em jogo é muito mais que os interesses da Petrobras; por ser uma empresa que foi para lá por força de acordos negociados entre os dois países, são mais que interesses empresariais atingidos. É como disse ontem aqui o embaixador Ricupero: um ataque ao Estado brasileiro. A reação de Lula ofende os interesses nacionais.

A viagem e a entrevista conjunta de ontem foram um desastre. É óbvio que não era hora de se solidarizar com Evo Morales, muito menos de discutir gasoduto de Chávez. O encontro é um despropósito, o momento era inadequado, as palavras ditas pelo presidente brasileiro foram ou vazias ou equivocadas. O presidente Chávez foi o que mais falou, teve a vantagem da palavra final e se alongou no proselitismo.

— É um imperativo do seu povo e da sua História o que ele fez — dizia, com os braços abertos para Morales. — Este homem que está aqui é um índio, é o regresso do seu povo ao poder. Graças à soberana ação do presidente Evo Morales estamos aqui. Ela teve já uma conseqüência positiva: estamos incorporando integralmente a Bolívia ao gasoduto do Sul, esta grande obra que, como disse o presidente Lula, é a maior em 500 anos.

Em seguida, entregou, em nome dos três, uma carta-convite para a participação da Bolívia no gasoduto. Morales apresentou-se como vítima de um evento natural.

— Para mim, é uma alegria estar aqui com as nações mais desenvolvidas da América do Sul e receber a solidariedade de Brasil, Argentina e Venezuela pelos problemas que atingem o meu país nas últimas horas.

Morales acusou a Petrobras de chantagear a Bolívia. O presidente da Argentina apenas leu a nota conjunta. O presidente Lula empilhou frases sem sentido algum e confundiu conceitos. A Bolívia é um país pobre, que merece dos brasileiros apoio e solidariedade. Mas o governo Morales não pode ter apoio e solidariedade ao ato de rasgar um contrato conosco. Um gesto unilateral só seria compreensível se a negociação estivesse bloqueada. Todos os canais do diálogo com o Brasil, com a Petrobras, sempre estiveram abertos. Não há um único motivo para que primeiro ameace, ataque e ofenda. Querer aumentar o preço do produto é natural, mas isso se faz negociando e não com atos de força.

Lula disse que quer passar confiança aos investidores mostrando unidade da América Latina. Investidores investem onde haja garantia de retorno dos investimentos e de respeito aos contratos, o que acabou de ser revogado na Bolívia. Disse que o Brasil não quer hegemonia. Essa é uma posição tradicional do país, mas não querer hegemonia é diferente de não reagir quando os interesses são atingidos. Querer uma solução pacífica é da tradição do Brasil; aceitar qualquer desaforo não é da nossa tradição. Diz que reconhece a situação econômica difícil da Bolívia desde o primeiro dia. Todos os brasileiros reconhecem e se alegrarão com os sucessos da Bolívia, mas um país pobre que espanta investidores não terá desenvolvimento, por mais solidários que todos sejam com suas dificuldades históricas.

Há várias conseqüências dos atos da Bolívia além de perda de ativos da Petrobras. Como a empresa é grande e lucrativa, absorverá o prejuízo. O acionista pagará o preço do descuido dos dirigentes de não terem sequer um seguro de risco político. Mas o efeito é maior e a área atingida, mais ampla: a decisão de Morales atinge diretamente a indústria paulista que, nos últimos anos, investiu para converter suas fábricas para o uso do gás natural: 95% da indústria de vidros são movidos a gás, a de fertilizantes usa o gás como matéria-prima, parte da metalurgia, da siderurgia, o setor têxtil. Enfim, os estragos estão espalhados. Mas o principal atingido é o crescimento futuro. O diretor de infra-estrutura da Fiesp, Saturnino Sérgio da Silva, disse que já estavam prontos projetos de investimentos para aumentar a compra do gás da Bolívia em 17 milhões de metros cúbicos nos próximos dois anos. Empresas brasileiras estão neste momento arquivando planos de investimento que seriam feitos com o aumento do suprimento de gás. Para haver este aumento, era preciso confiança — que acabou de ser quebrada — no fornecedor e aumento do investimento da Petrobras. A empresa tem capital aberto, ações em bolsas aqui e no mundo. Estará incorrendo em gestão temerária se aumentar investimentos num país sem qualquer segurança jurídica e contratual.

Se Lula negociasse no ABC com a mesma falta de fibra com que defende os interesses do Brasil, ele teria sido a alegria da Fiesp nos anos 70.

 

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