Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, maio 04, 2006

Evo Morales é a Capitu de Lula Por Reinaldo Azevedo

primeira leitura

Evo Morales não chega a ter olhos de ressaca como Capitu, mas quis o destino que se juntasse a Hugo Chávez, o melhor amigo de Lula, para trair o presidente brasileiro. O Apedeuta, nessa história, é o último a saber. Eu ignorava até agora um caso explícito de corno político. Aconteceu. Evo, com todo o veneno, o charme e os ardis da milenar cultura inca, mais seu amigo bolivariano do norte, botaram uma bela peruca de touro – quer dizer, de boi – em Luiz Inácio Lula da Silva.

Este, traído, mas convicto, ainda indagou se era o caso de acusar a existência de armas de destruição em massa no país vizinho e invadir a Bolívia. Vale dizer: mostra bem a natureza de que é feito. Pegou seus amiguinhos corneando-o, mas acha que a culpa é da vizinha que relata o acontecido. E ainda aproveita para fazer antiamericanismo barato. Lula não tem cura.

Imaginem vocês, a Petrobras boliviana é o Palácio de Inverno da canalha esquerdo-populista. Lula está como aquela personagem de O Vira, dos Mamonas Assassinas. Entrou na festa, mas não papou ninguém. E ainda foi logrado. Não fosse toda a coleção de vexames de Celso Amorim e caterva no Itamaraty, isso bastaria como emblema da política externa brasileira.

As coisas vão mal no continente. Volta e meia faço um elogio a FHC, entre outros tantos que lhe são devidos: com ele no poder, a democracia sempre avançou, contrariando a tendência dos vizinhos. Avançou tanto que até Lula teve de se domesticar se quisesse governar. É óbvio que, hoje, falta um líder com aquele perfil. A piada de mau gosto é que o petista seria o grande líder do continente. Conversa mole. Estamos lascados, perdidos entre malucos, autoritários e corruptos. Evo é um pouco cria de Apedeuta, do espírito que ele ajudou a estimular na região. E com uma diferença: o falso indígena se leva mais a sério do que o falso operário – a seriedade possível quando se é Evo na vida.

E a oposição, hein?
Gosto muito daquela imagem do futebol: recebe a bola quem se desloca. As oposições ficaram mudas, perplexas mesmo, sem ter o que dizer diante da agressão de que o país foi vítima. É claro que a gente não precisa invadir a Bolívia – eu até aceito devolver o Acre... Mas a reação do governo foi coisa típica de covardes, e os que se opõem a Lula se esqueceram de lembrar que Evo chegou ao poder como um aliado seu. Mais do que isso: agiu sob a inspiração de Hugo Chávez, que Lula já disse praticar democracia até demais. Assim não vai dar. Não estou sugerindo que se fizesse exploração eleitoreira do episódio, mas que se percebesse que a tungada na Petrobras entra no passivo de Lula. Eu acho que a população teria, digamos, mais sensores para perceber isso do que uma conversa sobre reforma tributária ou independência do Banco Central.

Bem, é preciso que o candidato a presidente Geraldo Alckmin, antes de tudo, diga por que, com ele, seria diferente. Evo tomar ou não a Petrobras, obviamente, é decisão unilateral. É preciso saber se o faria fosse quem fosse o presidente. De algum modo, ele achou que Lula agasalharia o petardo. Afinal, fez o que Lula prometia fazer no Brasil ao longo de duas décadas. Como nunca houve um FHC na Bolívia...

Lula está acabado na América Latina. Não serve mais nem como garoto de recado de Chávez, que escolheu Evo para o papel.

[ reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 4 de maio de 2006.

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