FOLHA
Ainda que o Brasil pudesse ter outras condutas mais bem resultantes, toda observação desinteressada e lúcida está compelida a reconhecer que o governo, no caso Bolívia x Petrobras, tem agido com maturidade, sem perder a noção das proporções reais do assunto e sem ceder à utilização eleitoreira. Nem a interesses financeiros de pessoas e grupos.
O histerismo que o caso provoca em certas setores, sobretudo no que seria o setor jornalístico, chega ao cômico. Em apoio a essa linha, o ex-embaixador Rubens Ricupero produziu uma contribuição muito ilustrativa. Na crítica exaltada ao que considera "falta de firmeza do Itamaraty" ante o governo boliviano, Ricupero sentencia historicamente: "(...) Nunca pautamos a política externa por razões ideológicas".
Já ouvimos, em transmissão-contrabando da TV, a doutrina de que "o bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde". Mas não é preciso chegar ao ponto de esconder meio século de história, os anos todos da Guerra Fria em que a política externa do Brasil foi pautada pela exacerbação ideológica originária dos Estados Unidos. Desse domínio, o Brasil tentou escapar em três breves períodos -com a Operação Pan-Americana de Juscelino, a "política externa independente" de Jânio e sua continuidade sob Jango-, sempre com o conhecido resultado.
Repetidas críticas cobram do Itamaraty que se mostre "duro e firme" com a Bolívia, ou seja, cobram da diplomacia que não faça diplomacia, faça conflito. Mas a cobrança é coerente com a convicção, manifestada pela Míriam Leitão da entrevista com Ricupero, de que "a Bolívia (...) quer impor belicamente as condições da negociação" com o Brasil. Vê-se que é uma informação séria para o leitor que, desavisado, jamais imaginaria a pobre, pequena e militarmente raquítica Bolívia pretendendo um confronto bélico com o Brasil. Ou, como já bradara outra comentarista sobre a nacionalização do petróleo boliviano, "É guerra!".
O acordo do gás com a Bolívia foi feito em condições de preço bem desvantajosas para os bolivianos. Barbara Gancia, como se quisesse salvar a face do gênero, fez anteontem esse apelo de honestidade: "Cá entre nós, meu caro leitor, peço que você abra o seu coração e responda: você não dá risada quando recebe a conta do gás? Pois é, eu também. Até pipoca é mais cara que minha conta de gás". É o gás boliviano em São Paulo, comprado na Bolívia por preço duas a três vezes inferior aos preços internacionais mais citados (para o gás não há cotações generalizadas como as do petróleo).
A Petrobras investiu alto no gasoduto Bolívia-Brasil, o que justificaria preço favorecido. Mas a quantas estão as contas de amortização do investimento, os lucros acumulados e a parte da Bolívia?
A exposição dessas contas é uma contribuição que a Petrobras pode dar à formação mais consciente da opinião pública. Enquanto Lula e o Itamaraty não decidirem agir de modo "duro e firme". Ou enquanto a Bolívia não "se impõe belicamente" e toma o Brasil.
Deplorável
Para dizer o mínimo, a atitude do senador Renan Calheiros foi de deselegância baixa e inapagável, ao impedir a ministra Ellen Gracie Northfleet de dar ao Brasil uma mulher na Presidência, mesmo que só por um dia incompleto. Não pelo simbolismo feminista, de significação mais do que duvidosa, mas pelo valor democrático de uma primeira Presidência feminina.
Convidado para acompanhar Lula na viagem a Puerto Iguazu, assim o presidente do Senado deixaria a Presidência da República com a ministra-presidente do Supremo Tribunal Federal. A mal arrumada explicação de Renan, para não viajar e instalar-se no Planalto, não se sobrepôs à pequenez da sua atitude.
Entrevista:O Estado inteligente
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