FSP
O 13º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores assinalou um momento revelador da história recente desse partido e de seu fundador, o atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva: o momento em que tanto um quanto outro tiveram que abrir o jogo.
Vamos trocar isso em miúdos. Quando, no ano passado, Roberto Jefferson pôs à mostra o valerioduto e o mensalão, envolvendo figuras emblemáticas do PT, a principal preocupação de Lula foi fazer crer que não sabia de coisa alguma, nada tinha a ver com aquelas falcatruas. Na verdade, a denúncia desabou como uma hecatombe sobre Lula e o PT, ameaçando soterrar um líder e um partido que haviam chegado ao poder para implantar a ética em todos os níveis do governo e mudar a sociedade brasileira. É óbvio que nem todo mundo acreditava nisso, mas, sem dúvida, os 53 milhões de eleitores que votaram em Lula jamais esperariam por um escândalo de tais proporções.
Por isso e por tudo o mais, Lula tinha que ser preservado, e essa foi a razão que levou os próprios responsáveis pelas falcatruas a afirmarem que o presidente não tinha nada a ver com elas. De fato, se ficasse demonstrado seu comprometimento, tanto ele quanto o partido estariam liquidados.
A preservação de Lula era, portanto, a bóia salva-vidas do PT. Por essa razão, nenhum dos denunciados, de José Dirceu a Delúbio, de Genoino a Sílvio Pereira, destituídos de seus cargos e posições, nenhum abriu a boca, nenhum se atreveu a atribuir qualquer responsabilidade a Lula. Por seu lado, se Lula os demitiu do governo ou os afastou da direção do partido, nunca os acusou explicitamente; tudo o que fez foi afirmar que havia sido traído, mas jamais disse por quem. Um tácito acordo de silêncio se fez para salvar o que fosse possível da imagem mistificada do PT e seu líder.
Mas a coisa não era tão simples assim, uma vez que as denúncias se baseavam em dados objetivos e fatos impossível de ignorar. Lula e o PT procuraram por todos os modos impedir que se instalasse uma comissão parlamentar de inquérito para apurar as irregularidades. Como a pressão da imprensa e da opinião pública impôs a criação da CPI, Lula, em face do fato consumado, tratou de ficar com a presidência e a relatoria da comissão, desrespeitando, desse modo, uma norma do Congresso.
Mesmo assim, os fatos foram apurados e, no dia da votação do relatório final, os petistas quase chegaram à agressão física para impedir que ele fosse aprovado. Finalmente, o golpe definitivo veio de onde o governo menos esperava: do procurador-geral da República, que encaminhou denúncia ao STF confirmando a existência do mensalão e da quadrilha que o concebera e o pusera em prática.
Cobrar coerência de Lula e do PT àquela altura seria querer muito. O que, de fato, importa assinalar é que, se a salvação de um dependia da salvação do outro, negar a realidade dos fatos punha-os em situação insustentável. Assim, se Lula tinha que aparentar que não soubera de nada e que fora traído, de outro lado não podia fazer coro com os que denunciavam seu partido e seus companheiros, mesmo porque comprometeria a sua futura reeleição. Por isso, ora afirmava que o PT tinha que se desculpar perante a sociedade, ora dizia que "errar é humano", ora se mostrava benevolente com os companheiros caídos em desgraça.
Já a situação do PT tampouco era fácil. Para salvá-lo, chegou-se a falar em refundação, mas isso seria admitir a veracidade das acusações e, como conseqüência, entregar o partido às facções de esquerda que se opõem à política econômica de Lula e à sua conversão ao populismo. Nada feito. O Campo Majoritário mudou de nome, mas continuou mandando e fazendo o jogo de Lula.
Enquanto isso, as eleições se aproximam e Lula necessita consolidar as alianças que lhe garantirão palanques nos Estados. Como a ele não interessa se declarar candidato agora, as articulações têm que ser feitas pelo PT que, dividido, relutava em se aliar aos partidos do mensalão. O 13º Encontro Nacional do PT foi convocado para resolver esse problema, cuja solução tornara-se urgente. E, para resolvê-lo, era necessário abrir o jogo, "escancarar", como se diz na gíria: Lula foi em pessoa à reunião e mostrou quem manda no PT; disse como o partido deveria agir e, com isto, fez aprovar uma ampla política de alianças que lhe permitirá aliar-se não apenas ao PSB e ao PC do B, mas também aos partidos do mensalão. E Berzoini, pau para toda a obra, logo o justificou: "Mensalão é ficção". Nem precisava dizer, já que o encontro decidiu que só em 2007 o PT irá apurar as falcatruas denunciadas em 2005. Até lá, tanta coisa já terá acontecido que ninguém pensará mais nisso.
Rasgou-se a fantasia toda, agora está tudo claro. Para os outrora defensores da ética na política, não houve crime, não houve corrupção, logo não haverá culpados nem punições. Só falta o Lula, agora, sorrir para as câmeras, fazendo com os dedos o "v" da vitória, ao estilo de Maluf.
Entrevista:O Estado inteligente
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