Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, maio 11, 2006

Globalização, a palavra que engana




artigo - Gilberto de Mello Kujawski
O Estado de S. Paulo
11/5/2006

"Globalização" é desses equívocos semânticos que estão custando caro a todos nós.
Num lance impensado de simplificação, entende-se por globalização a crença de que todos os países do mundo se nivelaram em seus usos, em seus padrões culturais, em suas técnicas, em seus projetos, constituindo, assim, "um mundo só", sem nenhuma distinção entre eles. O global absorveu o nacional e o regional, sem a mínima margem de manobra para preservar cada povo sua singularidade e sua personalidade próprias.
Martin Jacques, pesquisador, e colunista do jornal britânico The Guardian, em artigo publicado no Estado, Globalização agrava intolerância
(23/4), aborda com inteligência a questão. O jornalista acabara de ler o livro O Crisântemo e a Espada, de autoria da grande antropóloga norteamericana Ruth Benedict, sem dúvida, a chave mais eficaz até hoje confeccionada para abrir os olhos ocidentais para a reservada cultura nipônica. Ruth Benedict foi discípula de Franz Boas (mestre de Gilberto Freyre) e recebeu influxo do filósofo Frederico Nietzsche (o apolíneo e o dionisíaco).
A conclusão da autora é de que a cultura japonesa é um feixe de contradições, mas de contradições prodigiosamente integradas. A mão que cultiva o crisântemo empunha decididamente a espada, que já não é um instrumento de agressão, mas um símbolo de auto-superação. Ruth Benedict foi designada pelo escritório de guerra dos EUA para estudar e entender o Japão, no momento em que o governo americano se preparava para ocupar e administrar o país vencido. "Para a autora", explica Martin Jacques, "a cultura do Japão tem tanto mérito, virtude e lógica quanto a cultura americana. Em outras palavras, o tom e a abordagem são totalmente diferentes da atual atitude dos EUA em relação ao Iraque ou da maneira arrogante e superior com que o país trata o resto do mundo." Pelo que parece, desde que os EUA se erigiram em superpotência, perderam a acuidade mental para perceber as diferenças culturais e a disposição de respeitá-las, como tentaram fazer com o Japão. "O efeito da globalização foi promover uma atitude menos respeitosa e mais intolerante no Ocidente, certamente por parte dos EUA, em relação a outras culturas, religiões e sociedades?", é o que indaga o autor do artigo. E prossegue: "A idéia de que cada cultura tem sua sabedoria e suas características específicas, sua originalidade e sua singularidade, nascidas de sua luta individual, ao longo de milhares de anos, para enfrentar a natureza e a circunstância, foi sufocada pelo clamor de que o mundo agora é um só, de que o modelo ocidental - mercados neoliberais - é o padrão para todos." Aqui é que mora a falácia. Hoje todos os países do mundo se comunicam em tempo real, pelo mercado, pela televisão, pela internet. De onde se segue que o tempo e o espaço que separavam os países entre si se apagou num passe de mágica, as fronteiras desapareceram e o mundo se fez um só, uno e globalizado? Adeus à diferença, à distinta constituição e maneira de ser de cada continente, de cada povo ou grupo de povos. A isso é que se chama avançar um pouco demais, substituir a realidade pela magia fácil das palavras. O máximo que acontece é que todos os países estão hoje em presença
uns dos outros (na fórmula introduzida por Marías). Em presença e interagindo de leste a oeste e de norte a sul. Mas nem por isso a Europa e as Américas, o Islã, a África negra, a China, a Índia e o Japão se integram numa unidade homogênea, "global".
Ao contrário, permanecem diferentes e irredutíveis entre si, e alguns proclamam violentamente sua diferença (como o Islã). Afinal, o mercado não é o mundo, nem o mundo é o mercado.
Tentando reduzir o problema às suas verdadeiras dimensões, concluímos o seguinte: a chamada globalização afeta os países no plano da convivência, na medida em que coloca os países "em presença". Mas as crenças básicas que cimentam os alicerces de uma cultura continuam intactas. Por exemplo, o hindu moderno pode ser um ás em matemática e em física, mas no fundo de sua alma continua a crer na reencarnação com a mesma fé com que o ocidental crê na ciência. Das crenças sociais, dizia Ortega, não se tem "nem idéia".
O que há de verdade na chamada globalização são várias culturas em presença recíproca e interagindo entre si, principalmente no campo do mercado, mas conservando cada qual a sua diferença irredutível dentro de um mundo ainda heterogêneo e diversificado, que de modo algum pode ser visto como uno, idêntico ou "global", conceito que representa uma tremenda extrapolação e aberração geopolítica. A consciência dos limites da globalização impediria os EUA de reiterar o erro que o levou ao fracasso no Vietnã, no Iraque, e que ameaça repetir-se com o Irã, com conseqüências provavelmente catastróficas. 
 
 
As crenças básicas que alicerçam cada cultura continuam intactas 
 
 

Em tempo: A nota divulgada pelo Palácio do Planalto sobre a decisão boliviana relativa à nacionalização do gás e do petróleo pela Bolívia é texto inepto, irresponsável e covarde. A nota é juridicamente inepta ao reconhecer a atitude dos bolivianos como "inerente à sua soberania". Soberania é capacidade de decisão em última instância.
Mas o limite da soberania de um Estado é a soberania de outro Estado. A nacionalização perpetrada pelo governo Evo Morales como ato unilateral e arbitrário feriu em cheio o contrato da Petrobrás com aquele governo, avançando descaradamente sobre nossa soberania. Além disso, aquela nota é politicamente irresponsável ao fazer vista grossa à megalomania populista e nacionalista de Hugo Chávez, que é o fiador dos desmandos de Morales. E a nota é moralmente covarde porque retrata um Brasil encolhido ante o atrevimento do vizinho, longe da hombridade de uma resposta à altura, como fez, por exemplo, a Espanha do socialista Zapatero. Este protesto é dirigido muito especialmente ao secretário Samuel Pinheiro Guimarães, o Talleyrand provinciano do Itamaraty, e a Marco Aurélio Garcia, esse encabulado Maquiavel tupiniquim.?


 

 

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