Entrevista:O Estado inteligente

domingo, maio 07, 2006

DANIEL PIZA O ler e o tempo

OESP
O ler e o tempo

A queixa da falta de tempo para ler me parece embutir a noção de que livros são sempre tarefas longas e lentas, que exigem silêncio, paciência e, melhor ainda, férias, para que sejam consumidas de ponta a ponta. Que bobagem. É claro que há muitos grandes livros que são livros grandes, como Dom Quixote ou Guerra e Paz ou Grande Sertão: Veredas, mas há número maior de livros menores, com menos de, digamos, 300 páginas – como, para ficar nos mesmos autores, Novelas Exemplares ou A Morte de Ivan Ilitch ou Sagarana, que sempre é bom ler antes daquelas aventuras radicais.

Se associamos a literatura moderna a catataus de James Joyce, Marcel Proust ou Thomas Mann, podemos também citar obras-primas enxutas como A Metamorfose, de Kafka, e O Coração das Trevas, de Conrad, que têm tudo que é preciso para compreender a modernidade. Além disso, livros extensos vêm sempre divididos em capítulos, justamente para que você leia um ou dois por vez. Mas o que eu queria dizer é que há formas curtas - poemas, contos, ensaios, aforismos, notas, peças, etc. - que podem levá-lo ao enlevo em minutos ou em alguns dias. Hamlet, quase uma colagem de poemas, seja meu fiador.

Estive pensando nisso enquanto rearrumava os livros nas últimas semanas, feita a reforma no apartamento. Quantos textos curtos reli ao sabor do acaso, à medida que esvaziava as caixas! Coletâneas de aforismos de Oscar Wilde, Bernard Shaw, Nelson Rodrigues. Viagens curtas e intensas com Adorno, Wittgenstein, Barthes. Crônicas de Rubem Braga e E.B White. Poemas de Baudelaire a Ted Hughes. Resenhas de Robert Hughes, cartas de Voltaire, contos de J.D. Salinger. E as miniresenhas de Pauline Kael na New Yorker, que dizem muito mais que textos muito maiores? Nietzsche, aliás, que era um mestre dos gêneros breves (aforismos, odes, fragmentos), afirmava querer dizer em dez linhas o que outros pensadores diziam em dez tomos. Montaigne, pai do ensaísmo moderno, sabia que ser profundo não era ser solene e redundante.

Você não precisa reservar - como para ver um filme ou jogo - duas ou três horas seguidas da sua vida para ter o prazer de uma leitura inesquecível, embora a voz de um mergulho autônomo na Busca do Tempo Perdido se aloje em sua memória de uma forma única para sempre. (Dizem que Rosa, quando embaixador na Colômbia, sumiu certa vez por três dias, em meio a grave crise política; quando voltou, explicou que estava fechado no hotel lendo todos os volumes de Proust.) E não tem de ser livro: pode ser um bom jornal ou revista, que, ao contrário do que se diz, ajudam a formar, não apenas informar.

Só conheço, enfim, outra coisa que dá muito prazer em uma dúzia de minutos... Chega desse discurso de que ler é algo im-por-tan-te, obrigatório, em vez de um entretenimento que não se esgota ao fim do ingresso. Leia o tempo todo, no metrô, na sala de espera do dentista, no banheiro - último castelo do homem, segundo Millôr Fernandes - ou antes de dormir, depois que as crianças se aquietaram. Meia hora aqui, meia hora ali, e numa semana você pode ter visitado séculos, países e pensamentos diversos.

Sempre me perguntam se li todos os livros que tenho em casa. Eu respondo: felizmente não! Há um punhado de livros que, por sinal, faço questão de não terminar, especialmente as memórias, cartas e diários - Casanova, Leonard Woolf, Pepys, Evelyn Waugh. De tempos em tempos leio mais um pouco, saboreando como se um sorvete que nunca vai derreter. Outro prazer é reler trechos preferidos de um livro que você já leu; eu diria até que esse é o maior dos prazeres de um leitor. Passagens. Suspensões da monotonia. Não se faça de rogado e marque - dobre a orelha, risque a lápis, cole papel amarelo - marque como for essas páginas que o cativaram.

As memórias de Pedro Nava, por exemplo, estão nos dois casos: já li três volumes, faltam outros três. Chão de Ferro, o terceiro, caiu na minha mão quando punha a coleção em ordem na prateleira. Fala-se muito dos dois iniciais, mas Chão de Ferro tem menos enumerações genealógicas e alguns trechos em que a prosa corre exuberante, um banquete de adjetivos digno de Eça: "Eu quis gritar Esmeralda! Esmeralda! mas a voz embargou e eu parei, coração aos coices, num pasmo, num terror (...); olhos, nada mais que olhos, para dois olhos imensos e azuis, dois pés vermelhos de terra, um enxame de sardas, uma cabeleira desamarrada - veneziana, compacta, chamejante - que se estirava, sacudia, a um tempo no ar a um tempo chicoteando as costas, açoitando os ombros, bridando a boca."

Tampouco é preciso ficar sem dormir para sobrar tempo para ler. Ao contrário: durma bem, durma sete, oito horas, para que sua cabeça esteja concentrada e aguda como café - esse aditivo da inteligência - na hora da leitura; quanto mais se lê, mais rápido se lê, e sem afobação. E se divirta, jogue fora o peso do compromisso com ajuda de vinhos, canções e paixões, para que no dia seguinte sua memória possa filtrar o que realmente vale a pena. Não procure tempo para ler, amigo; leia para que o tempo o encontre.


DE LA MUSIQUE

O CD My Flame Burns Blue traz o show que eu gostaria que Elvis Costello tivesse dado no Brasil no ano passado, se aqui as estrelas da música não viessem quase sempre com a idéia de que se espera uma versão mastigada, "digest", do que fazem. É uma apresentação que fez em 2004 no festival de jazz North Sea (hoje rebatizado de Capetown, na cidade sul-africana) com a Metropole Orkest, formação que mescla jazz e clássico, regida por Vince Mendoza. Traz canções de discos de todas as suas fases, inclusive meus dois preferidos, Painted from Memory (God Give me Strength) e North (Can You Be True?), e mais preciosidades como Favorite Hour ("Paralise as mãos, prenda o tempo/ Até que eu seja capturado por seu toque") e Almost Blue, composta para Chet Baker. Quantos letristas existem como Costello hoje em dia? Stephen Sondheim, Tom Waits, Thom Yorke - poucos mais.


CADERNOS DO CINEMA (1)

Música boa é também o principal sustentáculo de Vinicius, documentário de Miguel Faria que fez sucesso e agora chega ao DVD. Interpretações de suas músicas, especialmente as de Mônica Salmaso, se unem a histórias muito engraçadas, contadas por Chico, Toquinho e outros, criando um clima de nostalgia urbana por um tempo em que pessoas de talento se juntavam e se somavam - muito diferente de hoje, quando todo mundo parece viver em bunkers. A certa altura, tenta-se defender Vinicius como poeta, já que sofreu preconceito por ter ido para a MPB e, como disse João Cabral, lhe faltar disciplina. O próprio filme, porém, é sintoma do que critica: ouvimos pouco de e sobre sua poesia, a não ser em declamações de gosto duvidoso, e felizmente Antonio Candido aparece para mencionar a prodigiosa Balada do Mangue. Bem, até antologias recentes têm sido injustas com o grande poeta que Vinicius foi, sim, antes de passar para a canção; são capazes, por exemplo, de deixar de fora um poema como Allegro ("Sente como vibra/ doidamente em nós/ O vento feroz/ Estorcendo a fibra", etc.). Drummond e Cabral foram maiores, mas Vinicius está longe de ter sido pequeno.


CADERNOS DO CINEMA (2)

Ainda em DVD, vi finalmente Noiva Cadáver, de Tim Burton, que é divertido e bem-feito, com boas músicas de Danny Elfman, mas tem um argumento banal que destoa da criatividade de todo o visual gótico. E Flores Partidas, de Jim Jarmusch, tem só a história batida do solteirão (Bill Murray, cada vez mais especializado em filmes que parecem dizer muito mais do que dizem) que descobre ter um filho e vai atrás das ex-namoradas de juventude.


LÁGRIMAS

John Kenneth Galbraith, cujo A Sociedade dos Afluentes está entre os 50 melhores livros de não-ficção de língua inglesa do século 20, era essa raridade, um economista que escreve bem e é original. Sua crítica ao monetarismo dos anos Thatcher tinha pontos precisos, embora ele não tenha entendido a necessidade contemporânea de reduzir o peso do Estado do Bem-estar. Jean François Revel, grande jornalista francês, que entendia bastante de muitas coisas - seu livro sobre gastronomia, Um Banquete de Palavras, é excelente - e era um dos últimos representantes da tradição iluminista em seu país, exagerava para o lado oposto. Sua crítica acertada ao antiamericanismo implicava uma crença no equilíbrio de mercado que não confere com os fatos. Mas os dois distribuíram inteligência mundo afora.

POR QUE NÃO ME UFANO

Vejo foto de Morales, Chavez, Kirchner e Lula - Zacarias, Mussum, Dedé e Didi - e sinto tristeza pela insistência populista da América Latina. Não está claro o preço da nacionalização do gás pela Bolívia, mas o fracasso da diplomacia lulista "para os pobres" não poderia ser mais óbvio.

Enquanto isso, Anthony Garotinho, flagrado numa série de falcatruas com ONGs, diz fazer greve de fome. O que dá é embrulho no estômago.

INTÉ

Saio em férias hoje; esta coluna volta em 4 de junho.E-mail: dpiza@estado.com.br Site: www.danielpiza.com.br

Aforismos sem juízo - Colocaram a vida e suas circunstâncias entre parênteses e fizeram de poucos instantes um fraseado pleno de metáforas memoráveis.


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