AS DECLARAÇÕES DE SÍLVIO PEREIRA
Faturar - "Marcos Valério é um homem muito, muito inteligente. Ele atuou na campanha do Lula na normalidade. Depois foi crescendo. Ele tinha quatro pontos de interesse com o governo. Não se esqueça que ele vem do Banco Central, foi funcionário de lá. Por que você acha que acharam ele 17 vezes acionando o BC? Não tem essa história de propaganda, isso é bobagem. O plano era faturar R$ 1 bilhão. Eles iam ganhar R$ 1 bilhão."
Origens do dinheiro - "Eram quatro áreas: Banco Econômico, Banco Mercantil de Pernambuco e Opportunity. Tinha ações dele lá que renderiam dinheiro. Mas nenhum dos quatro esquemas rolava. Valério trabalhou com o (Daniel) Dantas, mas o governo era dividido com essa história. O quarto ponto eu não sei bem, mas eram uns passivos na área de agropecuária."
PT refém - "O PT virou refém do Marcos Valério, não tinha mais jeito. O Marcos Valério estabeleceu canais próprios com petistas e com não-petistas. Tem muita gente, muitos partidos. Só que tudo caiu na nossa conta. (...) Quando estourou, nos encontramos com ele. Marcos Valério disse três coisas: Olha, tenho três opções: entregar todo mundo e derrubar a República, ficar quieto e acabar como o PC Farias, ou o meio termo. Foi isso."
Fontes do dinheiro - "Empresas. Muitas. Não vou falar nomes. As empresas entre si fraudam as coisas. Às vezes o governo não persegue, e é só isso. Elas se associam em consórcios, combinam como vencer (licitações). O Delúbio começou a usar o Marcos Valério para pagar as contas. Agora, da lista do Banco Rural, o Delúbio não sabia, não. O que aconteceu é que o Delúbio perdeu o controle."
Esquema continua - "A verdade do PT não tem como ser digerida pela mídia. Como o Delúbio consegue, com uma assinatura dele mesmo, R$ 50 milhões? Olha, eu acho que o Delúbio não parou e olhou a coisa como um todo. Ele não é corrupto. Não é. Quem decidia tudo isso? Não havia uma decisão, não é como vocês pensam. Atrás do Marcos Valério deve haver cem Marcos Valérios. É um mecanismo, e que agora continua no país."
Malas de dinheiro - "É mentira. Não houve nenhuma mala de dinheiro. O dinheiro não passava pelo PT. Era um esquema cômodo. Nem traficante usa mais mala de dinheiro. Isso é Al Capone. Agora, o PT deu muito dinheiro ao PTB (de Roberto Jefferson, que denunciou a entrega de malas de dinheiro para aliados)."
Berzoini - "Se a direção do PT me chamar para ser ouvido, eu vou. Por que não me chamam? Eu liguei para o Berzoini e disse a ele que gostaria muito de ser ouvido para que minhas informações ajudassem nas investigações internas. (...) Sabe qual é o problema? Nunca fui ouvido pelo PT. Nunca quiseram saber. Mas deveriam."
Quem manda - "Sempre fui da organização partidária. Quem mandava? Eram Lula, Genoino, Mercadante e Zé Dirceu. Eu não estava à altura desse time."
Partilha de cargos - "Para cargos foi criada uma comissão: Genoino, Delúbio e eu. Só não mexi com os fundos de pensão. Os fundos ficaram por conta do (ex-assessor da Casa Civil Marcelo) Sereno e do Delúbio. Os maiores ficaram com o Gushiken. Mas não houve nada de errado com fundos."
Land Rover - "Eu não consegui dizer não para o César (Roberto Santos Oliveira, vice-presidente do Conselho de Administração da GDK). Eu errei, não podia ter aceitado aquilo (jipe). Tentei pagar, mas ele não aceitava. Errei e assumo. Por isso me desfiliei do PT. Como vou convencer alguém da verdade, que aceitei o carro para não contrariar o César?"
'Quem é Silvio Pereira?'
LEONENCIO NOSSA
Hospedado num sítio no distrito de Santo Antônio do Leite, a 25 quilômetros de Ouro Preto (MG), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não se pronunciou ontem em público sobre a entrevista do ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira. O ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, proprietário do sítio e anfitrião do presidente, disse que Lula nem comentou o assunto durante o dia. "Não, não tem nada disso", afirmou Mares Guia. O ministro, a princípio, chegou a demonstrar que tinha esquecido o nome do ex-secretário do PT. "Quem é Silvio Pereira?", questionou. Depois, Mares Guia ressaltou que não presenciou Lula conversando ao telefone sobre a entrevista. O presidente deve retornar às 17 horas deste domingo a Brasília.Para governo, está provado que não houve nada
Assessor de Lula diz que declarações de Pereira provam que ações suspeitas foram abortadas
João Domingos
BRASÍLIA
Depois de um dia inteiro de sobressaltos com as notícias de que o ex-secretário do PT Silvio Pereira havia concedido uma entrevista bombástica, o governo respirou aliviado ao tomar conhecimento das declarações do ex-petista. Coube ao chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, relatar detalhes ao superior - que passa o fim de semana em Ouro Preto. Carvalho fez questão de ressaltar que Silvinho livrara Lula e Dirceu de qualquer responsabilidade no escândalo do mensalão.
Antes que todos tomassem conhecimento da entrevista, era tamanha a tensão que Carvalho passou o dia no Palácio do Planalto. De lá, fez contatos com diversos ministros. No início da noite, teve uma conversa com Tarso Genro, das Relações Institucionais, e Dilma Rousseff, da Casa Civil.
"Vi com muita surpresa a parte da entrevista em que o Silvinho fala que o Marcos Valério pretendia arrecadar R$ 1 bilhão com as pendências em três bancos (Econômico, Mercantil de Pernambuco e Opportunity, além de questões na área rural). Nunca tinha ouvido falar disso", afirmou Carvalho. "Ao mesmo tempo, Silvinho mostrou que o Marcos Valério não conseguiu levar para frente seu plano, se é que tinha um plano, e que o governo jamais concordou que ele fizesse qualquer coisa nesse sentido."
Para o auxiliar de Lula, a entrevista deixa claro que o governo e o PT são honestos e, se alguém quis fazer algo irregular, "o governo abortou". Ele frisou que Silvio Pereira "teve dificuldades para fazer as costuras políticas, já que muitos ministros do PT recusavam-se a nomear para seus ministérios pessoas de outros partidos".
Ao tomar conhecimento de que Silvinho tivera uma espécie de surto na quinta-feira, depois de saber que O Globo publicaria sua entrevista na íntegra, e teria dado início a um quebra-quebra no seu apartamento, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, Carvalho chegou a duvidar da sanidade mental do ex-petista. "Não quero fazer juízo de valor nem mostrar nenhum tipo de preconceito. Mas estou muito preocupado com a saúde do Silvinho. Acho que ele não está bem. Todos nós, seus companheiros, estamos preocupados com ele."