Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, maio 09, 2006

Arnaldo Jabor - O Brasil virou uma ‘Missão: Impossível’





O Globo
9/5/2006

Não agüento mais o filme de horror da política brasileira. Quando vi o Chávez comandando o Lula, com vergonha de ser presidente de um país democrático, quando vi o Garotinho fazendo greve de fome para fugir dos 300 milhões dados a ONGs, quando vi a quadrilha dos sanguessugas com os 40 deputados implicados, o Sílvio Pereira chorando e quebrando tudo, abandonado pelos stalinistas, quando li que o Marco Aurélio Garcia ( do Comintern do PT) disse que "O Brasil já ganhou muito dinheiro com a Bolívia..." e o Lula feito um João Bobo no meio dos populistas sacanas, rindo da cara dele, pirei e fugi para o cinema. Queria um filme bem louco, que me fizesse esquecer essa "bosta mental sul-americana" como escreveu Oswald.

Fui ver "Missão Impossível III", para ser atordoado pelas aventurastecnoviolentas do maluco do Tom Cruise.

Entrei na montanha-russa de emoções e, quando o filme acabou, saí com uma sensação estranha: adorei ver o filme como uma droga pesada, apesar de achá-lo um absurdo.

Saí do cinema e me bateu um grande vazio — como fica rala a vida, depois daquele show de efeitos especiais. A realidade ficou rala, o que, aliás, era o que eu queria. A cidade estava irreal, vazia.

Que dizer desse filme? Ninguém faz filme assim, ninguém é assim. Só os americanos. Por quê? Por que esse trampolim do diabo, esta maratona de morte? É tão estranho, mas ninguém acha. Trata-se de uma doença da civilização ocidental, mas ninguém liga. O que querem provar esses americanos?

Bem, de cara, eles querem ganhar dinheiro, claro, e contam com o sadismo e a fome de alucinação dos espectadores, desesperados como eu. Além disso, eles querem provar que são "perfeitos", que realizam proezas impossíveis. Nos filmes de hoje, a produção é a mensagem.

Mais que o enredo, mais que os atores, mais que tudo, só interessa a Produção. Ali está o recado: "Nós somos a América, nós temos a cultura da certeza! Aqui tudo tem princípio, meio e fim. Aqui, tudo está sob controle e termina como nós queremos. Aqui, a dúvida é banida para córner. Há miséria no mundo? Tudo bem. Aqui há a perfeição!"

Eles continuam com esses slogans secretos e invisíveis, mesmo agora, depois que as torres caíram, agora que o Bush baba, que o Cheney mata, que o Iraque é um pântano imundo, que tudo deu errado, eles continuam cultivando a "cultura da certeza".

É um bom nome: a "cultura da certeza", o mais forte "drive" do USA. Eles não querem errar nada, nunca, mesmo contra todas as evidências de que nunca erraram tanto. Vão reconstruir as torres no mesmo lugar... A persistência dofalus americano, o pênis castrado tem de ressuscitar. Nunca perdoarão o Osama pela sua assustadora eficiência.

Claro que não se trata de arte. Arte fala da fragilidade humana. Esses filmes falam da fortaleza das "coisas", como se fossem vivas. Nos filmes comerciais americanos mais antigos, ainda havia vestígios desta pretensão de "arte". Agora, já é outra proposta, algo perto do eletrochoque, da droga pesada, de uma disneylândia de violência. A personagem principal deste filme não é o Tom Cruise — é a ilusão da supereficiência americana. Nestes filmes, o mundo dos objetos é muito mais importante que o mundo humano. As coisas fabricadas pela indústria os aviões invisíveis, os carros, os trens, as bombas, computadores, tudo é uma maravilhosa feira industrial de propaganda, tudo é mais importante que os humanos. Num filme psicológico, o desejo gera uma ação; nestes, a ação gera o desejo.

A propaganda do progresso americano é total, mais que num filme soviético dos anos 30. Mas, há, neste orgulho produtivo, uma ambigüidade. Vemos em filmes-catástrofes, por exemplo, um desejo oculto de autodestruição. Explodem trens, aviões, arranha-céus. A América é retorcida, liquidificada, espatifada com amor e ódio. Há um desejo misturado de vitrine com ruína, de desastre com elogio de qualidade.

E os homens são heróis da competência mecânica. Todos dirigem avião, entendem de bombas, de computação. O conflito básico não é apenas entre bons e maus, o conflito é entre quem é mais eficiente: bandidos ou mocinhos? Os heróis não são apenas corajosos, são superamericanos, heróis do "do-it-yourself", cuja Bíblia seria uma transcendental "Popular mechanics".

Neste paraíso de engenheiros, só os psicopatas podem ameaçar a ordem estabelecida. Morreram os comunas, morreram os beats, hippie hoje é mendigo, já que não há mais empregos. Só restam os terroristas delirantes que detonam trade centers e Boeings, e que podem ameaçar o bom funcionamento do capitalismo liberal do Fukuyama. Só os malucos atrapalham o "fim da história".

Não é à toa que o Dennis Hopper faz papel de louco em "Speed", como fez o maluco de "Blue Velvet" ou o alcoólatra de "Rumble fish". Dennis foi o herói marginal dos anos 60 em "Easy rider". A vingança dos caretas é transformar os ex-heróis desbundados em criminosos. A direita americana conseguiu transformar toda idéia de transgressão numa forma de distúrbio mental, como fizeram sutilmente com "Forrest Gump", o pré-Bush, o herói débil mental.

Mesmo a idéia de happy end teve mudanças. Antigamente, sofríamos durante o decorrer do filme, esperando que tudo acabasse bem. Hoje, sabemos que tudo vai acabar bem (pois produtor não brinca em serviço) mas o que interessa é o inferno que corre pelo meio. A tragédia preserva os principais, em geral um casal de estrelas, mas arrebenta com dezenas de figurantes, para matar nossa fome de sangue. A catarse final vai chegar, mas, antes, bazucas vão estourar peitos, corpos serão mutilados de mil maneiras. Parece a anunciação de novas tragédias históricas do futuro.

Eu pensava essas coisas graves sobre um abacaxi eletrizante, já andando pelas ruas de meu pobre país tão atrasado, tão ineficiente. Nas bancas de jornais, nossa paralisia absurda, a burrice do Governo, a cara do Chávez preparando novas armadilhas para o Lula.

Aí, como dizia o Nelson Rodrigues, tive vontade de sentar no meio-fio da Avenida Paulista e chorar lágrimas de esguicho.

 
 

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