![]() | Não adianta nada você fazer cara de homem de bem se o seu caráter anda de braguilha aberta |
Pré-conceitos
(conceitos antecipados)
Velhice
"O netinho jogou os óculos
Na latrina."
O.A.
Havia, haja tempo, vastamente usado no Carnaval, um lança-perfume – éter puro –, num tubo de metal prateado, chamado Rodo Metálico. Numa época em que se bajulavam santos para patrono dos descendentes, Óswald de Andrade, homem de muitos signos e calculada espontaneidade, batizou um filho com esse nome comercial – Rodo Metálico. Haja coragem.
Dou importância ao fato. Só no último minuto recuei de batizar uma filha como Negra, Negra Fernandes, temendo a reação dela nos primeiros anos de vida. Mas meu sentimento iconoclasta não era anti-racista, era apenas sonoro. Acho que a rebeldia de Óswald no caso citado era também, além da vontade de escandalizar, a atração pela bonita sonoridade.
Poeta ou teatrólogo, ou nem um nem outro, foi um dos que inspiraram a Semana de Arte Moderna, que eu nunca soube bem o que é que foi. Embora autor de um verso célebre, "Tupi or not Tupi" (o estou diminuindo), e de uma curiosa peça, O Rei da Vela, marco no teatro brasileiro (o estou exaltando), Óswald era uma personalidade fora de contexto; não cabia em nenhum lugar. Ao mesmo tempo realista e revisionista, e onírico, ola-lá, detestava a sociedade conformista e hedonista que, é claro, freqüentava e explorava com verdadeiro gozo. Foi dentro dela que descobriu a miséria e o socialismo. E foi em Paris que descobriu, absolutamente maravilhado, que o Brasil existia. Hoje, passado tanto tempo, ponho isso em dúvida.
Feita a descoberta, tentou mudar tudo. Torna-se ao mesmo tempo autofágico e construtivista, na devoração e vômito dos conceitos existentes e entranhados nele mesmo. E lança seu manifesto pretendidamente iconoclasta, determinadamente safado, o "Pau Brasil", ridicularizando... tudo.
"Contra o gabinetismo, o bacharel, a leitura de Virgílio para os Tupiniquins, os cipós das metrificações, uma sociedade de náufragos eruditos, as meninas prendadas."
Em síntese: "O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino".
Mas, pergunto, pode-se confiar num homem que batiza o filho de Rodo Metálico? Claro que não.
Mas Deus viu que isso era bom.
E no fim, como Lula, me pergunto intrigado: "Por que essa mania reacionária de confiar nas pessoas?"
Lula é que nos aponta o caminho:
"Nosso trabalhador é o mais bem tratado do mundo".
"Nosso atendimento de saúde é perfeito".
"O país é auto-suficiente em petróleo".
"Eu sou em tudo".