Lula e o barão de Munchausen
Marcelo de Paiva Abreu*
Clássicos infantis podem ser lidos com grande proveito por adultos. Nos tempos atuais, os que contêm lições mais pertinentes são os que tratam de distorções da realidade. Dois grandes clássicos vêm à mente. Pinocchio, de Carlo Collodi, cujas mentiras eram denunciadas pelo nariz que crescia; e As Loucas aventuras do Barão de Munchausen, de Rudolph Eric Raspe, que exagerava ao contar histórias militares e acabava cavalgando balas de canhão. Pinocchio mentia, Munchausen exagerava e acabava mentindo. O senador Aloizio Mercadante acaba de publicar um livro, Brasil: Primeiro tempo - Análise Comparativa do Governo Lula (Planeta, São Paulo, 2005), que pretende ser um balanço do governo Lula, em contraponto ao de seu predecessor. A obra é magnífico exemplo das distorções a que leva a aplicação inexorável do mote "o bom, eu fiz, o ruim, eu herdei". É o governo Lula relatado à moda do barão de Munchausen. Os problemas começam na introdução, quando o senador atribui à "sanha acusatória" e à "pauta monocórdica" da oposição o estiolamento do debate "elevado" quanto à confrontação dos dois modelos: o de "inspiração neoliberal", promovido pela aliança PSDB-PFL, e o "progressista", sustentado pelo PT e por seus aliados. Trata-se de tentativa canhestra de driblar a realidade. Beira o ridículo, em meio a tão cataclísmica queda de anjos, pretender debitar a falta de foco no debate sério de modelos alternativos à exploração política que a oposição faz da débâcle ética de amplos segmentos da coalizão petista. Registre-se, além disso, que, com base no triênio petista, é difícil separar o modelo "neoliberal" do "progressista", pois foram mantidas muitas das políticas rotuladas de neoliberais. Mantidas a despeito de críticas do senador, que preferia política monetária frouxa - maiores gastos e políticas mais ativas de fomento ao crescimento. De fato, o que se viu foi a vitória política dos Paloccis sobre os Mercadantes para que o PT adotasse políticas macroeconômicas responsáveis. O senador pode não ter saído diretamente chamuscado na crise ética do PT, mas saiu bem chamuscado no debate interno sobre a política econômica. Dado este retrospecto, é surpreendente sua desenvoltura na apresentação das conquistas econômicas do governo Lula. Boa parte delas com o Banco Central e o Ministério da Fazenda enfrentando fogo amigo, com o senador na artilharia que colimava a política macroeconômica. Quanto às demais realizações do governo Lula, o senador demonstra ter imaginação fértil quanto ao desempenho do governo e singular miopia quanto ao governo anterior. Avaliação menos parcial teria pouco a listar entre as realizações, com a possível exceção de alguns dos programas sociais de natureza distributiva. Mas é em relação à política externa "altiva" que o senador realmente se excede. Em contraste com a política externa de FHC, que teria sido "mediana", "ausente", "protelatória", no governo Lula tudo mudou. Houve "fortalecimento" e expansão do Mercosul com as assimetrias com a Argentina equacionadas. A posição quanto à Alca teria sido ofensiva, defendendo modelo alternativo ao dos EUA e preservando a capacidade de os Estados promoverem o desenvolvimento. Teria havido grande progresso na integração da América do Sul, com a criação da Comunidade Sul-Americana de Nações, e reaproximação com a África e o Oriente Médio. E também a criação e consolidação de parcerias estratégicas - China, Rússia, Índia, África do Sul, "etc." - , "com grande geração de espaços comerciais e geopolíticos". Sem falar na grande capacidade de articulação no G-20 rumo à "nova geografia comercial mais justa e menos concentrada". Em contraposição, no mundo real o que se vê? O Mercosul com o Uruguai, em meio à crise das papeleiras, em busca de acordo preferencial com os EUA e a Argentina em busca perene de salvaguardas. Com a Alca bloqueada pela intransigência ideológica brasileira e pela avareza dos EUA quanto a concessões relevantes, têm sido celebrados acordos preferenciais dos EUA com as economias latino-americanas, fora o Brasil, Cuba, a Venezuela e a Bolívia. Os embaraços com a Venezuela e a Bolívia sublinham as limitações da Casa. Lula perdeu para Chávez a disputa pelo protagonismo na América Latina e o Brasil está a reboque da Venezuela. Os acordos comerciais com a Índia e a África do Sul são irrelevantes. O encanto inicial com a China virou desgosto, quando se descobriu a ameaça das exportações chinesas e o entusiasmo nulo de Beijing com o projeto de reforma da ONU, que levaria o Brasil ao Conselho de Segurança. O G-20 é bom, mas a Rodada Doha está encalhada. Longe de ser "ator internacional de primeira linha", o Brasil tem política externa de gigante bobo. O livro sinaliza o futuro. O título sugere certeza de vitória na eleição de outubro, previsão ousada quando o livro foi escrito, mas hoje razoável. Sim, é provável que tenhamos um segundo tempo de Lula. O problema é: de que Lula? O do primeiro tempo? Dadas as pesquisas quanto às eleições para governador de São Paulo, o senador Mercadante, no segundo tempo, deve preferir a órbita federal, provavelmente no Ministério da Fazenda. Será que o senador vai continuar a política macroeconômica do primeiro tempo? Será que o presidente, apesar de convencido de que deve adotar política econômica prudente, se dispõe a continuar o experimento Mantega e ter um ministro da Fazenda, com peso político muito mais significativo, que vai tratar de implementar política macroeconômica em que não acredita, apesar do que escreveu?
*Marcelo de Paiva Abreu, doutor em Economia pela Universidade de Cambridge, é professor-titular do Departamento de Economia da PUC-Rio