Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, maio 09, 2006

Luiz Garcia - Nada de novo




O Globo
9/5/2006

O papel do enganador — perdão, do articulista especializado em assuntos gerais — é descobrir, naquilo que você lê todo dia no jornal, motivações e referências que o ajudem a entender melhor o que acontece na vasta aldeia.

Era bem mais fácil antigamente, quando a obrigação da imprensa era simplesmente a de informar o que acontecia, e emitir solenes opiniões a respeito. Hoje, a quantidade de fatos novos é uma tsunami diária. Qualquer veículo de comunicação de massa que se preze e ambicione ser companheiro indispensável do cidadão não apenas conta o que aconteceu: tem de explicar o como, revelar o porquê e, principalmente, mostrar em que medida as novidades mexem com a vida do estimado público. Articulistas e cronistas têm o papel de ajudar nesse esforço, acrescentando o que ninguém lhes pediu: opiniões e veredictos a respeito.

Até aqui, zero novidade: apenas intróito de um apelo à solidariedade do respeitável leitor com o coitado do articulista que hoje não fará nada disso. Andou sumido, fora do ar, dando duro numa viagem de três semanas pela Itália. Vocês não merecem o tédio de um relato de pouco originais impressões do passeio. Seriam o de sempre: a certeza de que a vida é boa quando se janta vendo o Arno passar e se descobre que o martini do Harry's Bar de Florença continua tão bom quanto o de Veneza. Ou quando se chega ao último andar dos Uffizzi (tanto pelo banho de obras de arte como pela constatação de que a gente ainda consegue subir aquelas escadas todas, até o último andar). E depois a Sixtina, o Domo de Milão etc. Sem esquecer o desfastio quando decidimos não dar a menor atenção às últimas trapalhadas do Berlusconi (sem desfazer da satisfação de suspeitar que sejam mesmo às últimas). Enfim, foram 20 dias numa rotina de presidente da República: sem ler um jornal sequer e achando a vida boa.

Ao chegar, há a tranqüilizante descoberta de que em casa não há surpresas. Jejum do Garotinho? Desimportante, batido e até com um lado positivo: quanto menos Garotinho, ainda que seja só em circunferência, mal não será. Chávez convencer Lula de que a violência boliviana contra a Petrobras ajuda a integração político-econômica da América do Sul? Lamentável — mas, outra vez, nenhuma surpresa. Ficar a reboque do demagogo venezuelano é perfeitamente coerente com a visão monoglota e voluntarista do mundo que manda no Itamaraty desde o começo do governo Lula.

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