FSP
Uma pesquisadora do Piauí me fez algumas perguntas sobre identidade nacional. Era uma tese. Temi decepcioná-la ao dizer que "identidade nacional" tinha uma carga de ficção, daí o papel dos romancistas nos países que emergiram do colonialismo. E mais ainda: fui logo dizendo que identidade individual também tem uma carga de ficção, que muitos duvidam de nossa capacidade de colocar muitas determinações e afirmar: isto sou eu.
O tema voltou à minha cabeça com as denúncias de corrupção no Rio e a surpreendente resposta de Garotinho, proclamando sua greve de fome. Percebi em todo o processo um pouco da esquizofrenia da minha vida cotidiana na cidade. Estou lendo "Origem", de Thomas Bernhard, em que ele desanca Salzburgo como a gênese de seus males.
Não posso dizer o mesmo da cidade que escolhi para viver. Gosto de chegar de avião e vê-la lá embaixo, gosto de sentar na Pedra do Arpoador depois de uma longa viagem, andar de sandálias Havaianas e bermudas.
Jamais ignorei que ali existem cemitérios clandestinos, fornos nas pedras onde se assam as pessoas vivas, ônibus incendiados, as labaredas devorando carne inocente. Os únicos representantes do Estado com que falei, polícia e sistema penitenciário, ao longo desse tempo mostram que pelo menos isso não ignorei em nosso convívio social -a violência nas ruas e nas prisões.
Mas esse casal que governa o Rio, Garotinho e Rosinha, me desconcerta. Produz uma espécie de branco. Jamais os critiquei, exceto de passagem; jamais fiz sugestões, enfim, jamais me animei a algum tipo de contato. Eles lá, eu aqui; era como se eu vivesse num outro país, desses em que não importa tanto saber quem governa.
O casal estimula -com sua fórmula cinismo-cheque-cidadão, com sua religiosidade um pouco ingênua- tanto a ironia quanto a estranheza de ter mergulhado nessa depressão histórica, viver num lugar onde se evita a todo custo saber o que fazem os governantes.
No final, eles acabam invadindo sua fortaleza. Vendo o filme "Crash - No Limite", encontrei um diálogo que me impressionou. Dois assaltantes levaram um carro roubado para vender numa oficina. O dono constatou que havia manchas de sangue no carro e fez uma rápida observação, ao recusar o negócio. Naqueles programas policiais do Discovery eles descobrem um crime através de sangue na roupa, até num copo de plástico do Kinsburg. E sempre aparecem aqueles capiaus algemados, perplexos por terem sido capturados pela polícia. "Vocês querem que eu seja um daqueles capiaus algemados?"
Garotinho e Rosinha emergiram não com enfoque policial. Na imaginação, não eram prisioneiros algemados por algum tipo de investigação. Apareciam não como os pouco informados sobre o avanço técnico da polícia, mas sobre a complexidade da história. Por mais que sejam simples as idéias de quem governa, ele é necessariamente jogado numa roda-viva, num processo tão intrincado que se arrisca a terminar olhando para as câmeras com um ar atarantado dos prisioneiros no programa do Discovery.
Lendo Alasdair Macintyre, percebi como ironizava o cospomopolitismo do "New York Times" diante do discurso político dos pastores evangélicos. Talvez tenha errado por esse caminho, por desdenhar o conteúdo religioso no governo Rosinha, deixar passar em branco leis que obrigam o ensino da religião, que recuperam o criacionismo.
Muitos ficaram perplexos com a decisão de Garotinho entrar em greve de fome -um prato suculento para os humoristas. Os políticos, então, não conseguem entender como alguém, pensando com suas categorias, pode se meter num beco sem saída.
Agora devo ampliar minha visão. Acompanhá-los como uma saga religiosa na vida pública. Se as denúncias de desvio de dinheiro se confirmarem -as ONGs espalhadas num extenso "laranjal" são um forte indício dessa confirmação-, estamos diante de algo parecido com o que aconteceu no país.
De novo voltaremos à frase que o século 21 deveria ter superado: os fins justificam os meios. Religiões seculares, como marxismo, espirituais, como a de Garotinho, sentem-se detentoras da felicidade comum e, em nome dela, saem plantando "laranjas" e CPIs.
Essa dimensão salvacionista é um dado real no Brasil. Só que os salvadores têm dado grandes prejuízos aos cofres públicos. Uma possível trajetória de Garotinho é transitar da esfera da política para a religiosa e ancorar-se nela: sair, por exemplo, subindo em fios e fazendo milagres, como aquele personagem de Pasolini.
O mundo religioso sempre colocará a salvação como uma categoria essencial. Na esfera pública, estamos no limiar de uma época em que se dispensarão os salvadores. Garotinho vai emergir desse processo um pouco perplexo diante do mecanismo que pôs em marcha. Ele pode até ir para o Céu, mas o julgamento da história brasileira pode ser implacável como os investigadores do Discovery.
De qualquer forma, já não é mais possível andar pelas ruas do Rio ignorando o casal que nos governa, sobretudo agora que está em transe religioso, ameaçando com o peso da mão de Deus, realizando, ainda que na imaginação, um encontro entre igreja e Estado.
Andar de Havaianas e bermudas num mundo surreal, em que Darwin é um jogador reserva, a governadora reza diante do marido em greve de fome, o pau comendo entre os seguranças, os tiroteios noturnos, a dengue e alguém do Piauí a perguntar pela identidade. Só fazendo um samba.
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