Entrevista:O Estado inteligente

sábado, maio 06, 2006

André Petry Do mensalão à censura

VEJA

"Está óbvio que o Banco do Brasil
aceitou decretar a censura sobre
um trabalho artístico movido por
pressões
de religiosos obscurantistas"

A cúpula do Banco do Brasil foi investigada na CPI sob a acusação de aliar-se aos corruptos do mensalão. Não é surpresa que tenha agora se aliado aos católicos medievais para censurar obras de arte. É o que acaba de acontecer. A direção do Banco do Brasil cancelou uma exposição de arte que seria aberta em Brasília no dia 15 de maio, sob o patrocínio do centro cultural do BB. A mostra, chamada Erotica – Os Sentidos na Arte, trazia uma obra da artista plástica Marcia X, falecida no ano passado, na qual se entrecruzam dois pênis desenhados com as contas de um rosário. O trabalho é singelo, não tem nada de obsceno ou pornográfico. Mas um grupo de católicos, um tal de Opus Christi, ficou indignado com o desenho e exigiu que fosse excluído do elenco de obras quando a exposição estava em cartaz no Rio de Janeiro. Os adeptos do Opus Christi, diz a direção do Banco do Brasil, mandaram 800 e-mails à instituição financeira protestando contra o trabalho de Marcia X e ameaçando organizar um boicote ao banco, fechando contas-correntes.

A direção do BB cedeu às pressões. Retirou a obra de Marcia X da exposição no Rio e cancelou sua passagem por Brasília. Na nota em que explica sua decisão, a cúpula do BB faz questão de ratificar seu "sólido apoio à difusão da arte e da cultura, sempre com respeito à pluralidade e à diversidade". Como assim? Está óbvio que o Banco do Brasil aceitou decretar a censura a um trabalho artístico movido por pressões de religiosos obscurantistas. Erotica – Os Sentidos na Arte passou por São Paulo (56.000 visitantes) e pelo Rio (90.000) e só deixou de fazer escala em Brasília por pressão do Opus Christi. É isso que o Banco do Brasil chama de "respeito à pluralidade e à diversidade"? Isso se chama censura, e ponto. E a censura costuma se assentar justamente em critérios políticos ou morais. Querendo livrar-se da pecha de censores, os dirigentes do banco deram a entender que a decisão não foi nem política nem moral, mas comercial. Ficaram com receio dos efeitos comerciais do boicote dos católicos. Como assim? Agora 800 carolas botam medo num banco que tem 22 milhões de contas-correntes?

Os católicos do Opus Christi são livres para se sentir insultados pelo uso de um elemento religioso para desenhar o perfil da genitália masculina – tanto quanto muçulmanos podem não gostar de charges dinamarquesas. O inadmissível é que a direção do Banco do Brasil faça uma escandalosa genuflexão diante de uma pressão sob todos os aspectos ilegítima e inconstitucional. É óbvio que os católicos que se sentiram incomodados com a obra de Marcia X poderiam tomar uma providência simples: não comparecer à exposição. Poderiam até mandar e-mails para a direção do Banco do Brasil. Poderiam até fazer um boicote, convocando os fiéis a fechar suas contas-correntes. A direção do BB é que não tem o direito – nem mesmo legal – de ceder a esse tipo de medievalismo e censurar uma obra de arte. Levantar a voz contra essa arbitrariedade é imperioso. Mas, para quem acha que desviar dinheiro público para fazer o mensalão pode ser um projeto de poder, vendar os olhos de uma sociedade não deve ser problema algum.

Arquivo do blog