Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, fevereiro 14, 2006

A pior caricatura JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI

FOLHA

Mais do que todos os outros, temo os fundamentalistas ocidentais -principalmente aqueles que, empregando o discurso iluminista, se aproveitam dos tumultos provocados pelas caricaturas de Maomé para propor medidas que restrinjam nossas liberdades de expressão.
Lamento profundamente as mortes que têm ocorrido durante os protestos contra a publicação das charges dinamarquesas. Entretanto basta examinar o mapa dos lugares mais revoltados para que se perceba que eles já tinham sido esquentados pela intervenção cada vez mais dura das potências ocidentais. Não creio que um Afeganistão pacificado reagisse com tal violência a uma provocação. Por todos os lados, as charges estão servindo para incitar as massas com fins políticos.


Se o perigo é o fanatismo daqui e dali, não queiram me convencer de que se trata de um confronto entre Ocidente e Oriente


O que mais preocupa é a propaganda pela autocensura da imprensa, os sermões sobre os limites da liberdade -enfim, toda essa ladainha em torno da responsabilidade da imprensa livre, que não deve cair na tentação de extravasar limites ofendendo sentimentos religiosos, símbolos coletivos e a honra pessoal.
No final das contas, quem estabelece quais são tais limites? Em um Estado de Direito, é a própria legislação que deve estar aparelhada para separar a injúria da crítica sarcástica ou brincalhona. Desse modo, já que em Roma se faz como os romanos, cabe às organizações muçulmanas reconhecer outros direitos e devidamente processar os desenhistas e a revista.
Porém, não só não o fazem mas, exibindo os pobres diabos que foram levados ao Holocausto, se aliam às correntes ocidentais que, por todos os meios, tentam garrotear a imprensa e controlar o ensino para que não veiculem teses esdrúxulas como aquela pregada pela teoria da evolução das espécies.
A propaganda que está sendo feita para que a imprensa e os escritores se censurem eles próprios quebra uma das colunas do espaço público do Ocidente.
Entre nós, o artista ou o escritor se exprime até onde achar conveniente, e aqueles que se sentirem insultados que recorram aos tribunais competentes. E se a maioria é contra uma lei relaxada, que trate de mudá-la.
Entristece-me a morte de tantos muçulmanos que, em praça pública, manifestam sua ira, mas também nós tivemos nossas perdas na batalha pela liberdade de expressão: Sócrates foi morto porque pretendia ensinar os jovens atenienses à sua maneira; cristãos foram massacrados porque se recusaram a honrar os deuses de Roma, embora esse ritual fosse apenas cívico, nada importando a crença de cada um; desde 1.199 d.C., a Inquisição reprimiu, prendeu e queimou hereges; e assim por diante.
Foi, portanto, à custa de muito sofrimento, de muito sangue que se conseguiu aquela liberdade de opinião cujos limites somente podem ser regulados pelo próprio debate no contexto de ordenamentos jurídicos particulares.
Que cada religião, que cada Estado nacional tenha o seu, sem querer impô-lo aos outros. A partir da luta e da tolerância alcançada é que se pode assistir em São Paulo ou em Meca a um filme de Buñuel no qual se vê Cristo sair de um bordel santificado por uma grande farra. Até mesmo no provinciano Brasil não foi possível uma campanha pelo Estado leigo que, para desmoralizar a Igreja Católica, lançou mão das caricaturas mais cruéis?
Se o perigo é o fanatismo daqui e dali, não queiram me convencer de que se trata de um confronto entre o Ocidente e o Oriente, que precisaria ser prevenido por uma política prudente. A questão, a disputa é moral, e, nesse plano, só se pode conviver com ela se houver tolerância de ambas as partes.

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