Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Miriam Leitão Tempo de pensar

O GLOBO

Antes das sete e meia da manhã, milhões de lares brasileiros já tinham visto a cena em que o presidente Lula era aclamado pelos petistas: “Um, dois, três; Lula outra vez.” O coro era repetido nas reportagens da TV. Lula e o PT estavam fazendo propaganda eleitoral, mas os órgãos de imprensa davam, como é natural, cobertura aos atos em que o presidente vai. É assim em qualquer lugar do mundo.

A campanha oficialmente começa daqui a 140 dias, mas o presidente, concorrendo à reeleição no cargo, pode fazer campanha a qualquer hora. É o pior defeito da reeleição. A imprensa dá a cobertura natural de atos de governo ou das aparições públicas do presidente, mas o chefe de governo pode usar o espaço para seus propósitos. Outros possíveis candidatos têm visibilidade apenas regional.

Lula tem sabido usar todos os defeitos do sistema eleitoral a seu favor. Um governo que foi notoriamente incapaz do ponto de vista administrativo tem estado hiperativo nos últimos meses. Qualquer inauguração, promulgação, ato de gabinete são abertos para cobertura de imprensa e viram palco para campanha. O governo aproveita tudo: pacotes, como o habitacional; uso de cadeia nacional para comunicar o pagamento ao FMI; decisões rotineiras, como a do salário mínimo. Nas solenidades, o presidente Lula repete que ainda não é candidato e, em seguida, comporta-se como tal.

O presidente usa a imprensa. Durante três anos, não deu uma entrevista; quando entrou em campanha, passou a falar. É uma atitude autoritária, mas tem dado certo para o que quer. Lula não quis falar quando era para prestar contas dos seus atos como governante, mas quer agora que está em campanha.

A força da Presidência para quem se dispõe a usá-la é poderosa. O presidente está em campanha praticamente sozinho há meses e ficará nos próximos. Quando a campanha começar, será alvo de todos os outros candidatos no horário eleitoral. A imprensa terá de dividir o espaço e os minutos do noticiário.

Durante a festa dos 26 anos do PT, o partido demonstrou acreditar que todo o efeito do pior escândalo político do país já passou. Não fosse pelo fato de que, numa mesa, estavam marginalizados os ex-emergentes João Paulo Cunha, Professor Luizinho, José Mentor e Paulo Rocha, ninguém se lembraria do mensalão. O próprio Lula mostrou acreditar que o terrível passado foi esquecido: “errar é humano”, desculpou-se.

Mas, na campanha, os outros candidatos tentarão usar a lembrança dos escândalos; o que parece soterrado vai aflorar. O PT não teve uma atitude que se esperava de quem sempre usou a bandeira da ética. Comportou-se como quem acredita que o partido fez “o que é feito sistematicamente no país”, nas palavras de Lula. O eleitor que durante anos votou no partido fica desconcertado, mas pode não ter alternativa. Mas quem não é eleitor tradicional do PT?

O presidente teve uma melhora recente em três pesquisas feitas quase simultaneamente. Há diferenças, mas a fotografia é de melhora. A comparação com o mesmo mês do ano passado informa que 65% aprovavam o desempenho de Lula e agora são 53%; a desaprovação cresceu de 24% para 38%. Hoje 37,5% têm uma avaliação positiva do governo e, há um ano, eram 40%. A negativa subiu de 15% para 21%.

Mesmo sendo este um momento em que o presidente ocupa o palco praticamente sozinho, em que desfruta da melhor sazonalidade, como explicou o cientista político Alexandre Marinis, ele ainda está abaixo do que estava há um ano. Marinis diz que a verdadeira capacidade de recuperação do presidente Lula só será conhecida no segundo trimestre, no qual, em dez anos dos últimos onze, o presidente da República perdeu popularidade.

Há fatos que o governo vai explorar nesta virada para o segundo trimestre. Um deles é a auto-suficiência de petróleo. A Petrobras vai gastar R$ 37 milhões em campanhas do mesmo Duda Mendonça que têm o propósito deliberado e assumido de misturar uma lenta construção nacional de 52 anos com a imagem de um governo de três anos.

A Petrobras tem, por enquanto, em seu site, a informação lacônica de que, em 2005, gastou R$ 60 milhões em patrocínio. Na verdade, liberou, só em dezembro, R$ 85 milhões e, no ano inteiro, R$ 235 milhões. A informação nos foi confirmada pela Petrobras após alguns dias de insistência. Agora que os dados foram consolidados, serão publicados no site. A empresa está tendo um grande lucro e é natural que cresçam os patrocínios. Apenas dois problemas: falta de transparência de ter um valor de patrocínio quase quatro vezes maior que o anunciado e o risco de usar esse dinheiro com critérios eleitorais.

É muito cedo para se afirmar que a eleição já tem um favorito. Há uma faixa de 20% de indecisos nas últimas pesquisas; os outros partidos não escolheram candidatos. A economia pode ajudar o governo se mantiver a inflação estabilizada e os juros em queda. Mas é um equilíbrio delicado. No segundo semestre, os analistas acham que os juros vão parar de cair.

Há vários fatores de risco para o governo. Achar que um trauma político como o da descoberta do mensalão não terá efeito na decisão do eleitor é um equívoco. Os que votaram em Lula em 2002, mas que não são os eleitores tradicionais do PT, é que lhe deram o primeiro lugar. Os eleitores tradicionais são mais fiéis, mas sempre foram insuficientes. Foram os recém-chegados que lhe deram a faixa presidencial. Que decisão tomará o eleitor que votou em Lula apenas aquela vez? Ele não tem pressa, tem tempo para pensar.

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