Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Editorial de O Estado de S Paulo

Demagogia racial

N os países democráticos com altos índices de pobreza e desigualdade, como o Brasil, é absolutamente normal que os candidatos ao governo recorram à cartada social. Basta lembrar as primeiras palavras do programa de Fernando Henrique, em 1994: "O Brasil não é um país subdesenvolvido. É um país injusto." Mas nunca antes neste país, para usar o bordão reeleitoral do presidente Lula, um candidato se empenhou tanto para obter os votos de uma parcela em especial da população pobre - os brasileiros chamados afro-brasileiros, conforme o léxico pedante do politicamente correto.

É verdade que eles são muitos (48% do eleitorado) e tendem a ser os mais pobres entre os pobres. Mas, por palavras e ações, Lula parece não acreditar que eficientes projetos de combate à pobreza, mediante a democratização das oportunidades de acesso a serviços públicos de boa qualidade, a começar da educação, têm impacto positivo na condição de vida da população negra à medida que melhoram a dos pobres em geral. A rigor, a questão talvez não seja o que Lula acredita ou não - e, sim, o fato de o governo haver transformado o assistencialismo em sinônimo de política social. Aliás, 2 em cada 3 beneficiados pelo Bolsa Família são negros.

Reportagem de Paulo Moreira Leite publicada domingo neste jornal buscou estabelecer os nexos entre a ambição de Lula por mais quatro anos no Planalto e uma série de polêmicas medidas federais dirigidas aos negros. Diga-se desde logo que não há nada de errado, em princípio, na adoção de políticas voltadas para grupos determinados da sociedade. O erro está em encobrir operações eleitoreiras com o manto diáfano de programas alegadamente concebidos para acertar alvos legítimos, atacando circunstâncias agravantes de marginalização social. O primeiro caso de demagogia racial a chamar a atenção no atual governo foi o programa de combate a moléstias mais freqüentes entre os negros.

Já o projeto, manifestamente anticonstitucional, que institui cotas para ingresso em universidades federais representa o ponto extremo dessa estratégia de discriminação às avessas, a pretexto da reparação das seqüelas históricas da escravatura. Aprovado há pouco na Comissão de Constituição e Justiça na Câmara, o projeto iria direto ao Senado se não tivesse desencadeado na Câmara um movimento pela sua discussão e votação em plenário. Segundo uma pesquisa, 61% dos brasileiros se opõem ao pretendido favorecimento a vestibulandos e universitários que se declararem negros ou pardos, ou egressos de escolas públicas.

Ao mesmo tempo, é notório o esforço de Lula para se mostrar o mais filoafricano dos presidentes brasileiros. Ontem, ele concluiu a sua quinta viagem à África, onde teve a ocasião de participar, no Benin, de um ritual vodu para se livrar da "urucubaca" - a sua versão para as denúncias da corrupção promovida pelo seu partido, das quais nunca teria sabido. Em Botsuana, ele disse que a miscigenação deu ao Brasil "uma parcela dos seres humanos mais alegres e mais bonitos do planeta". Presumivelmente, a apologia da negritude lhe daria em outubro o "voto negro", uma expressão norte-americana que, se depender do presidente, entrará para o vocabulário eleitoral brasileiro deste ano.

Este seu giro africano também serviu para manter em cartaz a farsa do presidente operoso, que tenta impedir que a eleição se intrometa na sua faina de administrador. "Só queria pedir para as pessoas deixarem a gente governar o Brasil", disse na sexta-feira a pessoa que vive em tempo integral para se reeleger - a ponto de se conceder o monopólio dos entendimentos para formar a coligação partidária de apoio ao seu nome. A sucessão, na realidade, apenas exacerbou o jeito lulista de governar. Há muito tempo que ele tem o tempo todo tomado pela reeleição. Dos ministros conversa regularmente só com Palocci e Dilma, a quem delega as decisões que detesta tomar: as do dia-a-dia de quem realmente governa. As que não admite que ninguém tome por ele são as que se referem à reeleição. Esse traço, além da vaidade, os dirigentes petistas conhecem bem. Tanto que, passados 26 anos de sua fundação, o PT "não tem alternativa eleitoral a Lula", admite candidamente Palocci. Resta saber se o Brasil terá.

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