| Exame num. 0861 |
| 15/2/2006 |
Peter Drucker Qual a sua avaliação do atual papel dos Estados Unidos no mundo? Não me refiro à minha geração. Tenho 95 anos. Refiro-me à geração do meu neto. Nessa sociedade do conhecimento, a concorrência não se baseia no dinheiro que se tem, e sim na capacidade de tornar o conhecimento produtivo. Nós, americanos, por enquanto, estamos na dianteira desse processo. Mas não por muito tempo. Uma das principais tarefas da administração consiste em equilibrar os resultados de curto prazo com os de longo prazo, em saber lidar com o mercado atual e com as inovações que vão surgindo. A administração tem como missão estabelecer o equilíbrio entre as diferentes expectativas das partes envolvidas. A primeira parte não é o acionista. É o consumidor. Se você não satisfizer o consumidor, nada mais resta a fazer. O capitalismo corre sempre o risco de pender para o lado do acionista. O trabalho da liderança consiste em res taurar o equilíbrio sempre que necessário, porque ele oscila. É tudo quanto sabemos. O mundo não será dominado por nenhuma outra grande potência. Muitos de nós ainda vivemos um mundo -- o de 1960 -- em que os Estados Unidos eram a única grande potência e a única economia que funcionava. Hoje a União Européia é maior. A China está tentando criar uma zona de livre comércio que será maior do que os Estados Unidos, tanto em termos de produção quanto de consumo. Teremos de aprender a conviver num mundo diferente e de valores diferentes. Nesse mundo, a informação -- e não o poder -- manterá o Ocidente coeso. Por mais de 50 anos, Peter Drucker destilou, com estilo cristalino e fluente, a teoria da administração para gerações de homens de negócios nos 40 livros que escreveu. Chama a atenção, portanto, que seu derradeiro legado seja uma obra de cunho prático. Acaba de ser lançado nos Estados Unidos The Effective Executive in Action ("O executivo eficaz em ação", ainda sem tradução em português), que escreveu no ano passado com Joseph Maciariello, seu colega na Universidade de Claremont. "A idéia foi converter uma obra escrita por Drucker há 40 anos em um livro de exercícios", disse Maciariello a EXAME. No livro, os executivos são desafiados a refletir sobre questões com que se confrontam no dia-a-dia. Uma delas diz respeito à costumeira confusão que se faz entre eficiência e eficácia. Segundo os autores, um profissional pode ser um azougue de eficiência sem que a empresa se beneficie. Eficaz é aquele que contribui para o bom desempenho dos negócios. O exercício consiste em identificar as tarefas cotidianas dispensáveis. Outro exemplo refere-se à capacidade dos que detêm o conhecimento em transmiti-lo aos colegas. Não se deve supor que as equipes é que devam se esforçar para compreender o sábio. Um dos personagens mais exóticos que Drucker conheceu, o holandês William Paarboom, era cliente de um banco inglês onde ele trabalhava antes de emigrar para os Estados Unidos, no final dos anos 30. Sempre vestido de preto, Paarboom comprou em Londres uma mansão vitoriana para acomodar suas quatro mulheres acompanhadas dos filhos. "Não acho saudável que uma mulher tenha mais de três filhos", explicou a um Drucker surpreso com sua condição poligâmica. Sempre que sua mulher dava à luz o terceiro filho, ele se separava e casava com outra, mas sem abandonar as demais. Paarboom entrou para a história dos negócios por ter convencido a família Van Den Bergh, dona de uma fábrica holandesa de margarina e sabão, a associar-se a outra empresa da Inglaterra, na década de 20. Surgiu daí a Unilever. Também foi ele quem convenceu a GM a comprar a alemã Opel e os irmãos Opel a vendê-la à companhia americana. Os caminhos de Drucker cruzaram-se com o de Alfred Sloan Jr., acionista que se tornou um lendário presidente da GM em 1942, ao obter sua permissão para conduzir um estudo sobre a companhia, transformado no livro Conceito da Empresa Industrial. Drucker relata em sua autobiografia o lado humano de um mito de sua época: "Ele usava um aparelho de surdez com uma bateria pendurada no peito e uma enorme corneta em seus ouvidos". Sloan preferia o consenso entre os executivos e produzia extensos memorandos após as reuniões. Drucker certa vez indagou se isso não consumia tempo demais. "Ninguém é capaz de tomar muitas decisões e acertar", respondeu Sloan. Avesso a pompas, ele preferia dormir num cubículo no prédio da GM quando se deslocava da sede em Nova York para Detroit, em vez de usar um hotel. Concluiu seu best-seller Meus Anos na GM em 1952, mas só o publicou em 1964, aos 91 anos. Motivo do adiamento: esperou que morressem os executivos citados negativamente na obra antes de publicá-la. |
Entrevista:O Estado inteligente
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quarta-feira, fevereiro 15, 2006
Drucker: “A crença no progresso não mais existe”
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