Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Dora Kramer - O candidato e o presidente




O Estado de S. Paulo
15/2/2006

Petista acha que Lula subiu porque vestiu o figurino de chefe de governo O candidato e o presidente

Expoente da ala moderada e uma das cabeças mais desapaixonadas do PT, o prefeito de Aracaju, Marcelo Déda, recebeu o resultado da pesquisa CNT/Sensus com a cautela dos sensatos: "É bom, bom não, o resultado é ótimo, mas convém ir devagar com o andor porque o santo é de barro e a procissão ainda não terminou."

A procissão, óbvio, é a campanha; mas a identidade do santo fica à livre interpretação de cada um, inclusive porque o dito tanto serve ao governo quanto à oposição no tocante a precipitações.

Na parte que lhe compete como petista, Déda aconselharia o partido a administrar o entusiasmo e evitar, como ocorreu outras vezes, que fatos positivos sejam sucedidos por fases negativas: "É preciso caminhar sem abrir novas crises."

Ele não diz assim abertamente, mas deixa evidente sua discordâncias com a realização do encontro nacional do PT marcado para o fim de março e que algumas lideranças já tentam adiar para depois da eleição: "Quanto menos copos forem quebrados agora, melhor."

Por "copos" sob o risco do estilhaço, Déda entende as críticas à política econômica, a precipitação para discutir - e sobretudo vetar - alianças, a discussão sobre quem vai coordenar a campanha ("A eleição é para presidente, não para coordenador") e a pressão para o presidente Lula anunciar logo a candidatura.

Contrariando a análise geral, o prefeito de Aracaju não atribui a subida de Lula nas pesquisas a ações eleitorais nem ao início da campanha pela reeleição.

"O crescimento não aconteceu porque ele se jogou como candidato, mas porque se afirmou como presidente, encarnou o chefe de governo, deu prioridade a esse perfil, e a pesquisa mostrou que é isso que a sociedade espera dele."

Evitemos o constrangimento de confrontar um governista com o sentido desse raciocínio - o de que até então Lula não assumira a feição de presidente em sua inteireza -, porque isso está implícito. Sigamos com a análise de Marcelo Déda sobre os momentos futuros: "É claro que o fato de Lula encarnar o Poder Executivo pode servir de combustível à campanha eleitoral, a sociedade o percebe como candidato à reeleição."

Mas, na concepção dele, isso não bastará. Haverá dois fatores com os quais o governo precisará lidar com competência para ganhar: o embate com os adversários e a motivação ao voto propriamente dita. "Lula terá de transpor dois degraus: no primeiro estarão as realizações deste mandato e, no segundo, um projeto novo, atraente e conseqüente, para pedir mais quatro anos de Presidência."

Déda considera que a oposição contribui bem para a melhora na popularidade de Lula. "Julgou que ele estivesse morto eleitoralmente e foi se dedicar a outras afazeres como, por exemplo, as disputas internas para escolha de candidatos."

Na visão de Déda, houve também "abuso" no uso da crise política com muita antecedência e, finalmente, ele acha que a entrada de Fernando Henrique Cardoso em cena de forma barulhenta deu a Lula uma boa chance de estabelecer comparações num quesito - simpatia e identificação popular - no qual o ex-presidente seria sempre derrotado facilmente pelo sucessor.

"Deus foi bom com a gente também", acredita, tomando a precaução, porém, de reforçar o apelo à serenidade: "É melhor não se entusiasmar muito com a paisagem porque quanto mais alto, mais rarefeito é o ar." E sujeita os imprudentes a vertigens.

Poligamia

A briga de tucanos e petistas - de morte no plano nacional - não se reproduzirá em Sergipe. Candidato ao governo do Estado, Marcelo Déda admite "namoro aberto" e consentido com o PSDB local.

Lá, o inimigo comum é o PFL, principal aliado do tucanato para a Presidência e que herdará a Prefeitura ou o governo de São Paulo a partir de abril.

Com o fim da regra única para alianças, a verticalização, PT e PSDB poderão oficializar uma coligação já existente em dois municípios sergipanos onde os prefeitos petistas têm vices tucanos.

Aliança semelhante elegeu Jorge Viana governador do Acre.

Bicho papão

Partidários da candidatura José Serra acham que Geraldo Alckmin e Lula têm um objetivo comum: incutir no prefeito José Serra a incerteza sobre a chance de vitória ao ponto de fazê-lo desistir de se candidatar à Presidência.

Mas, no lugar de fazer medo e provocar recuos, o fortalecimento de Lula pode levar o PSDB a concluir que, contra um Lula competitivo, deve usar seu candidato mais forte. Como ocorreu na disputa contra Marta Suplicy.

Miragem

O Congresso votou uns projetos, umas medidas provisórias, algumas emendas constitucionais, gastou R$ 100 milhões, não votou o orçamento, atrasou os processos de cassações e quer convencer o País de que a convocação extraordinária foi um negócio da China.

Ao reduzir o recesso e pôr fim ao pagamento em dobro em caso de convocação, não fez mais que a obrigação e só cedeu depois de intensa pressão.

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