Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Celso Ming - Primeira remada




O Estado de S. Paulo
16/2/2006

O recado que o novo presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, passou ontem no seu primeiro pronunciamento oficial, na Comissão de Finanças da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, foi mais o do xerife durão do que o de compreensivo delegado interiorano.

Logo depois de indicado para o cargo de guardião da moeda de reserva mais importante do mundo, havia ficado a dúvida: esse homem vai soltar ou vai apertar a política dos juros?

Uma resposta confiável para essa pergunta é importante não apenas para o mercado financeiro dos Estados Unidos, onde o preço do crédito tem um peso enorme. É importante para o mundo inteiro e mais especialmente para economias emergentes, como o Brasil, que estão tirando enorme proveito da atual abundância de capitais que zanzam pelo mundo.

O Fed já vinha passando alguns sinais que o mercado logo tratou de interpretar como perspectiva de "fim da política monetária acomodatícia" levada adiante em 2005. Além disso, Bernanke ficou conhecido pela moderação de suas posições em política monetária.

Mas ontem Bernanke mostrou mais vontade de combater a inflação do que de continuar o patrocínio da frouxidão. Ele disse que a alta do petróleo e os custos crescentes da energia tendem a produzir mais inflação e que é preciso algum aperto nos torniquetes. Conclui-se que os juros básicos, hoje nos 4,5% ao ano, continuarão sua trajetória de alta nas reuniões de março e maio, provavelmente para o nível dos 5%.

Não dá para concluir, apenas com base nesse pronunciamento, que Bernanke acena com arrocho. Há apenas duas semanas tomou posse na presidência do Fed, onde vai substituindo o lendário Alan Greenspan e se tornou, na expressão do The Times, de Londres, o "homem mais poderoso do mundo", pela sua grande influência sobre a economia global.

Ao longo de sua carreira acadêmica, Bernanke construiu grande reputação. Também mostrou competência entre 2002 e 2005, quando ocupou uma das cadeiras de governador do Fed. Mas ainda precisa conquistar a confiança que Greenspan esbanjava. É natural que se apresente agora como zeloso e intransigente defensor do dólar. Outra história consiste em saber se ele irá ou não fundo nesse discurso e, mais do que isso, até onde colocará em prática uma política de aperto.

Essa aparente dureza veio com um contraponto. Bernanke desarmou os espíritos aterrorizados com as ameaças de um iminente estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos: "Um nivelamento ou um modesto abrandamento da atividade imobiliária parece mais provável do que uma brusca contração."

Ninguém pense que Bernanke pretende manter a técnica de comunicação enigmática e algo ambígua de Greenspan. Ao contrário, no discurso de ontem, abriu para o resto do mundo as projeções econômicas do Fed até agora guardadas a sete chaves. Ele disse que o PIB americano deve crescer cerca de 3,5% ao ano e que o desemprego ficará entre 4,8% e 5,0%, tanto em 2006 como em 2007. Disse mais: que o núcleo da inflação, entendido como avanço do índice de preços ao consumidor expurgado das oscilações nos preços dos alimentos e da energia, ficará em torno dos 2%.

Isso mostra que a disposição para a transparência é para valer desde o início do seu mandato. Em entrevistas anteriores, Bernanke defendeu o modelo do barco a remo: se os remadores sabem para onde ir e que ritmo dar a suas remadas, o barco não se movimentará a esmo e chegará mais facilmente à meta combinada.

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