| O Estado de S. Paulo |
| 8/11/2006 |
Ao chamar a si a missão de comandar pessoalmente a organização da base de apoio do governo no Congresso, o presidente Luiz Inácio da Silva assume sem anteparos uma tarefa em todos os aspectos espinhosa, para dizer o mínimo. Negociador competente nas lides sindicais, até o momento o presidente não exibiu os mesmos dotes na área parlamentar. Pode ser que o faça agora, quando não conta mais formalmente com auxiliares de peso para chefiar a engenharia da 'governabilidade', vale dizer, da acomodação das variadas forças nos diversos cargos. Nessa empreitada não terá blindagem e, por isso, todo cuidado será pouco no tocante à escolha dos métodos, meios e modos para a negociação e a garantia de adesão. Promessas de apoio todos os partidos anteriormente comprometidos com Lula e mais a ala antes oposicionista do PMDB farão. À exceção do PP, cujo líder promete 'gritar' pelos cargos que julga de seu partido por direito, os outros ainda procuram manter uma certa compostura. Artificial, mas conveniente ao momento. O PTB e o PMDB declararam oficialmente que não pleiteiam nada. Só querem colaborar, ajudar o País, firmar acordos programáticos, estabelecer acertos doutrinários e, irmanados num só coração, marchar rumo ao crescimento. Nenhum deles têm razão para se juntar agora à oposição e isso é um ponto a favor de Lula nas tratativas. Ele entra forte na negociação, dono do poder. Mas suas excelências são donas da 'expertise' da cobrança, da chantagem e do jogo de pressões, que se avizinha bem pesado. O PP, avisa, 'gritará' por nada menos que três ministérios, o PMDB por seis e mais um posto no Palácio do Planalto além das presidências da Câmara e do Senado, o PTB, como sempre, olha de soslaio, mas espera calado e afinando as unhas a recompensa, e os partidos menores vão a reboque, mantendo as mãos estendidas no aguardo das migalhas restantes. O PT se movimenta, reivindica tratamento especial de partido presidencial, invoca a boa votação obtida e, com o 'know-how' adquirido nos últimos quatro anos nas artimanhas da máquina, arma-se para defender seus espaços. O presidente Lula acha que pode com essa turma. Num primeiro momento é capaz de poder mesmo. Mas só enquanto a ela interessar simular submissão à popularidade do vencedor. Quando seus interesses forem contrariados, cobrarão essa conta, não direta, mas sorrateira e ladinamente do presidente, pois foi ele em pessoa quem partiu e repartiu o latifúndio da administração pública. Lula terá de desalojar petistas, acomodar pemedebistas e abrigar os demais em espaço finito, insuficiente para apetites infinitos. Nisso criará arestas, produzirá mágoas e, portanto, seria de todo conveniente que o presidente não nutrisse a ilusão de que pode caminhar sozinho e de peito aberto pelas perigosas veredas da organização e manutenção da base parlamentar. Sem um articulador competente e respeitado, tornar-se-á ele mesmo alvo dos descontentamentos e não terá ninguém a quem atribuir responsabilidade se porventura forem perpetrados atos 'não contabilizados' nas relações entre Executivo e Legislativo. Os primeiros atritos, aliás, já estão contratados e não se restringem à óbvia guerra por espaço entre PT e PMDB. Os contratempos mais sérios à vista guardam relação com a eleição das presidências da Câmara e do Senado. Natural que o governo ainda não tenha aberto o jogo a ser jogado só em janeiro. Mas talvez fosse útil trabalhar com jeito no desmonte de algumas ambições, pois em cada uma das Casas há dois ou três candidatos a presidente achando que contam com o apoio do governo para se eleger. Alimentadas por muito tempo, essas ilusões, quando frustradas, se transformam em ressentimentos e demandas por compensações. Se não arrumar rápido alguém para levar a fama, Lula corre o risco de não fazer outra coisa nos próximos quatro anos a não ser administrar o choro e a sanha da fisiologia no Congresso. Mistificações O leitor José Meirelles, eleitor de Geraldo Alckmin, comenta a nota sobre a exaltação dos méritos publicitários em detrimento dos fatos nas campanhas eleitorais, feita pelo marqueteiro de Lula, João Santana, em entrevista à Folha de S. Paulo, e lembra um dado pertinente. A cena de Alckmin vestindo jaqueta e boné com logotipos de estatais para denotar apoio às empresas, no lugar de defender com argumentos consistentes as privatizações, é uma mistificação tão desprovida de convicções quanto o uso da emoção 'cívico-épico-estatizante' - como admitiu Santana - para mostrar Lula na condição de herói nacionalista. Falso brilhante Se os tucanos já vão mal das pernas na administração de um partido com 18 anos de vida, totalmente estruturado, e 8 anos de poder presidencial nas costas, dificilmente dariam conta de criar uma nova legenda para abrigar a candidatura de José Serra em 2010, como se andou falando. |
Entrevista:O Estado inteligente
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