Retomando hoje os róis que tenho feito nesta página, de vez em quando, nos últimos 26 anos:
1) Implico bastante com as "interpretações" sociológicas, politológicas, antropológicas e até filosóficas que os donos ou diretores de institutos de pesquisas de opinião têm dado sobre as pesquisas que realizam, tendo por objeto o grau de aceitação ou rejeição das candidaturas pelo eleitorado. Certamente a culpa é da própria imprensa, que lhes confere uma certa "autoridade" científica de avaliação, algo que nem de longe possuem. Eles podem dizer determinadas sandices, do tipo "o povo deixou de se assustar com o roubo", e ninguém contesta. É como se a propriedade ou a direção de um instituto de pesquisa de opinião conferisse a qualquer ilustre desconhecido uma notória e incontestável sabedoria, capaz de desvendar, em minúcias, a própria alma popular.
2) Estou implicando com a argumentação dos "alckmistas" (palavra, aliás, tão implicante quanto "serristas") segundo a qual o PSDB deveria escolher para candidato a presidente da República o governador Geraldo Alckmin, e não o prefeito José Serra, porque, com a recuperação do presidente Lula nas pesquisas e o aumento de suas chances de reeleição, os tucanos "não teriam nada a perder" com a candidatura Alckmin - já que o governador está em fim de mandato -, enquanto com Serra perderiam a Prefeitura de São Paulo, a cidade mais importante do País.
O mínimo que esse argumento faz é desvalorizar o competente governador, considerando que sua maior qualidade como candidato é a descartabilidade, como se se tratasse de um quadro que, perdido ou não, pouca diferença fizesse. O governador paulista não merece tal desconsideração. Além do mais, em se tratando de riscos, não se pode ignorar o "pormenor" essencial: e o Brasil?
3) A maior ilustração da implicância que desperta o complacente ditado "errar é humano" (que virou o leitmotiv dos emocionados improvisos presidenciais) vi há anos escrita atrás de um carro em Maceió, quando Collor, depois do impeachment, tentou ser de novo governador. A frase era: "Errar é humano, repetir é alagoano."
4) A Rede Globo adotou um costume em seus telejornais com o qual implico muito. Antigamente as matérias eram enviadas pelos correspondentes dos locais onde ocorriam os fatos. Hoje são enviadas das grandes cidades - especialmente Nova York, Londres e Paris -, independentemente de onde ocorra ou tenha ocorrido aquilo de que se está tratando. Por exemplo, o repórter mostra o que está acontecendo no Iraque falando de Nova York (tendo ao fundo algo que "prove" que está lá, seja a Park Avenue, a Estátua da Liberdade ou o Central Park). Para falar sobre incidentes no Paquistão, fala de Londres (ao fundo, o Big Ben); na Somália, fala de Paris (Torre Eiffel), e assim por diante. Por que não da Avenida Paulista ou do Corcovado, se as informações online não chegam mais depressa ao Hemisfério Norte do que aqui? Será que é o cenário de cidades do Primeiro Mundo que dá credibilidade a notícias do Terceiro, por distantes que sejam um do outro?
5) Implico com as invasões da privacidade doméstica praticadas pelas firmas de telemarketing, especialmente a serviço de bancos, empresas de cartões de crédito e companhias de telefonia, que, sem nenhuma autorização de assinantes ou titulares de cartões para o aproveitamento de seus cadastros confidenciais - numa flagrante violação de sigilos -, fazem acintosas tentativas de roubo de nosso precioso tempo. Os operadores e operadoras desses sistemas, para que suas "vítimas" os atendam, dão seus nomes (e, às vezes, até sobrenomes), mas não deixam telefones para checagem, impedindo, assim, que se comprove o que dizem ser. Quer dizer, essas empresas invadem a privacidade dos outros, mas impedem que estes invadam a sua.
6) Nas lanchonetes do tipo Mc Donald's, os próprios fregueses levam seus restos para os locais de lixo indicados pela palavra "obrigado". Implico um pouco com esse sistema, que significa economia de pessoal à custa do "serviço" gratuito prestado pelo próprio consumidor. Quantos empregos a mais gerariam as lanchonetes Mc Donald's se seus fregueses deixassem as bandejas servidas sobre as mesas, quem sabe com um cartãozinho escrito "obrigado, eu"?
7) Apesar de ser um grande admirador do craque Raí, assim como do belo trabalho que ele faz com crianças, que ele me perdoe, mas implico um pouco quando o ouço dizer no rádio: "Aqui é o Raí, tetracampeão do mundo." Ele o seria se houvesse ganhado quatro Copas do Mundo.
8) Continuo implicando com a gerundização avassaladora que está assolando a linguagem do País, não deixando escapar da contaminação ninguém que esteja trabalhando em lojas, prestando serviços, atendendo consumidores nas empresas ou que, de alguma forma, vá estar comunicando alguma coisa a alguém, que por acaso vá estar precisando de alguma informação.
9) Implico um tanto com a aeróbica baiana, também chamada de "axé music", que atinge níveis de frenesi audiocoreográfico esteticamente insuportáveis, a ponto de boas cantoras, como Ivete Sangalo, terem substituído totalmente seu canto por grunhidos entrecortados por baques de seus pinotes, assim como por seus comandos de movimentação, em ordem unida, das galeras assistentes, robotizando a carnavalização sociorrítmica e parabólico-cultural (para usar a linguagem do ministro da Cultura, Gilberto Gil).
10) A voz do presidente.