FOLHA
No artigo "A doença holandesa e os males do Brasil", publicado na edição de domingo da Folha, o respeitado professor José Alexandre Scheinkman incorre na "doença dos grandes agregados" -que costuma vitimar grandes e pequenos economistas.
Sua tese é a de que a "doença holandesa" não vitimou a Holanda. Diz ele que a doença, quando ocorreu em países produtores de energia, prejudicou os setores manufatureiros, mas as perdas foram mais que compensadas pelos ganhos no setor de energia.
Diz ele que a desindustrialização no Brasil, se ocorrer, vai ser seqüela não da "doença holandesa", mas de males nacionais, como a ausência de uma política de ciência e tecnologia adequada, de investimento em infra-estrutura etc.
Essa mesma argumentação surgiu pós-1994 para justificar a apreciação do câmbio e faz parte do famoso "suponhamos que...", o termo preferido por dez entre dez macroeconomistas brasileiros.
O câmbio deveria refletir a produtividade interna do país. À medida que a indústria vai ganhando competitividade, que a inovação começa a dar resultados, aumenta o valor agregado dos produtos, da exportação, do saldo comercial e ocorre uma apreciação da moeda, ajudando a repor o equilíbrio comercial.
Essa é a lógica. Mas no Brasil há um vício extremado de substituir os efeitos pelas causas. Se a competitividade não permite a apreciação do real, vamos proceder à apreciação do real e o país que se adapte ao câmbio. E, se não se adaptar, problema do país.
Tem política industrial adequada? Ainda não. Têm produtos exportáveis de conteúdo tecnológico em proporção satisfatória? Ainda não. Então como é que se aceita um câmbio que não reflete o estágio de competitividade do país? É o câmbio (um ativo volátil) que deve se adaptar às condições de competitividade do país, ou as condições de competitividade (que são processos de maturação longa) que devem se adaptar ao câmbio, seja qual for o seu nível?
Quando Japão e Coréia eram fabricantes de bugigangas, compensava-se no preço, isto é, no câmbio. Se não tem qualidade, tem de ter preço. A questão é que os ganhos de produtividade se conquistam pelo trabalho sistemático por anos seguidos -depois que o país pega o rumo, o que ainda não aconteceu.
A história de que a desindustrialização nos manufaturados foi mais que compensada pelos ganhos em energia exige um pouco mais de contextualização por parte do professor. Desde o século 19, a Inglaterra já ensinava que o desenvolvimento de um país dependia de sua capacidade de importar matérias-primas e exportar produtos manufaturados, produtos com valor agregado. Dependia, também, da capacidade do país de desenvolver -paralelamente a uma estratégia exportadora- um mercado interno forte, condição essencial para que suas empresas, depois de conquistada a maioridade, não se mudassem para ambientes mais propícios. E não se vai desenvolver um mercado interno e uma economia competitiva com um dólar que só viabiliza a exportação de produtos primários ou dependentes de recursos naturais.
Entrevista:O Estado inteligente
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