Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Luiz Garcia Por que Copacabana?

O GLOBO

Sinto que o pé se aproxima da jaca quando me atrevo a falar do espetáculo dos Rolling Stones amanhã na Praia da Copacabana. Sou musicalmente surdo. Posso apreciar a qualidade de uma canção pelas virtudes de sua letra — mas a música, para perda minha, entra pelos tímpanos como barulho melhorado.

Por tudo isso, dou como verdade absoluta que o som produzido por Mick Jagger e os outros velhinhos (simpatizo mais com o que não pinta o cabelo) é algo encantado. E privilegiada a cidade que lhes serve de palco.

Mas, por que Copacabana?

Para aumentar a fama da mais famosa praia do continente (quem sabe, do mundo) certamente não é. Não precisa.

Por condições ideais de acústica, nunca se alegou. Por ser um palco ao ar livre, jamais: por que correr o risco da chuva? Muita gente não está achando graça em se impor um dia de imensos inconvenientes no trânsito a um bairro que é de ligação entre outros. E cuja população, em boa maioria, não é jovem, nem dada a grandes agitos. Se alguém ainda não percebeu, a Copacabana de hoje tem o perfil da classe média-média, gente da paz e do sossego. Está certo que o réveillon é festa tradicional, mas — podemos garantir com absoluta segurança — só acontece uma vez por ano. E tradições não existem para dar filhotes.

Fora o fato de que é chover ( vade retro) no molhado promover Copacabana fazendo sua praia sede de espetáculos de repercussão mundial. A princesinha já tem nome na praça. Não seria mais esperto abrir novas frentes, fazer os Stones rolarem — sem criar limo, como diz o provérbio do qual tiraram o nome — para algum ponto da Barra ou arredores? Não seria mais simples a logística? É até provável que houvesse mais conforto para a platéia e mais sossego para quem não quer ter nada com isso.

E estaria sendo vendida ao mundo a idéia de que o Rio tem mais a oferecer do que aquilo já conhecido e badalado há décadas.

Se não falha a memória, o Rock in Rio sempre foi sucesso absoluto — e não incomodava quem só queria ir para casa na hora que achasse melhor.

Em Copacabana, técnicos afirmam que o público estimado em 1,5 milhão de pessoas poderá, um tanto espremido, ouvir o espetáculo. Terá o conforto do passageiro de um ônibus superlotado. Ou seja, dançar, vibrar com algum entusiasmo, nem pensar. No Rock in Rio, era possível. Quando Sinatra cantou no Maracanã, idem.

Enfim, quem tem apartamento na Avenida Atlântica (no trecho certo) está feliz, assim como seus amigos. O Copacabana Palace está rindo à toa. Ao povo na praia, sinceros votos de boa diversão.

E, a quem promove ou autoriza esses megaeventos, votos de sucesso — acompanhados pela esperança que botem a imaginação para trabalhar, daqui para a frente.

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