Entrevista:O Estado inteligente

domingo, fevereiro 12, 2006

Editorial da Folha de S Paulo

MARÉ A FAVOR
Sob o impacto do anúncio do Tesouro de que o governo brasileiro pretende recomprar grande volume de sua dívida externa, o risco-país, calculado pelo banco JP Morgan, caiu de súbito para um nível ineditamente baixo, em torno de 230 pontos.
A iniciativa é uma forma de tirar proveito da grande entrada de dólares no país para melhorar o perfil do endividamento público. As reservas internacionais aumentaram de US$ 20,5 bilhões em dezembro de 2003 para US$ 57,1 bilhões em fevereiro de 2006. Procura-se aprofundar a estratégia de redução do estoque de dívida externa do setor público, como a antecipação do pagamento ao FMI (US$ 15,6 bilhões) e ao Clube de Paris (US$ 2,5 bilhões), bem como ampliação de seu prazo médio de vencimento.
Em janeiro de 2006, o estoque de dívida do setor público havia baixado para US$ 83 bilhões depois de ter alcançado US$ 120 bilhões em dezembro de 2003. O aprofundamento dessa perspectiva se traduziu, de imediato, num aumento da confiança do mercado financeiro internacional na capacidade de pagamento do país.
Ao lado desse aspecto positivo, a decisão do Tesouro parece contribuir, devido às circunstâncias particulares em que ela foi anunciada, para o agravamento de um aspecto preocupante: o aumento das pressões pela apreciação do real.
Dado o nível bastante elevado em que se encontra a taxa de juros básica -num contexto de grande otimismo nos mercados financeiros globais, que se traduz numa baixa e cadente aversão ao risco-, as medidas voltadas a melhorar o perfil do endividamento público tenderiam a reforçar a valorização do real. E de fato nesta sexta-feira a cotação do dólar no Brasil caiu novamente, chegando ao nível mais baixo desde abril de 2001.
Fica cada vez mais evidenciado o esgotamento do fôlego das medidas do Banco Central -centradas na compra de divisas no mercado à vista e em operações nos mercados de derivativos- voltadas a interromper a apreciação do real.
É certo que a autoridade monetária não chegou a explicitar ser esse o intento dessas medidas, mas sem dúvida é esse o seu sentido. Sua adoção, ademais, revela que o Banco Central não ignora de todo a ameaça à competitividade das exportações e a seu dinamismo, no médio e longo prazo, suscitada por um processo intenso e prolongado de apreciação da moeda nacional.
A nova queda do dólar e o forte recuo do risco-país são evidências adicionais, e eloqüentes, de que se abre uma rara oportunidade para reduzir significativamente a taxa de juros básica da economia brasileira. Cabe agarrar essa ocasião.

Arquivo do blog