Entrevista:O Estado inteligente

domingo, fevereiro 12, 2006

De tucanos e asnos



Reinaldo Azevedo, Primeira Leitura (12/02/06)

À diferença de Drummond, sou, sim, um pouco “o poeta de um mundo caduco”. Gasto boa parte do meu tempo escrevendo sobre política. Ele, no poema Mãos Dadas, anuncia o seu apego à realidade e ao tempo presente e renuncia, de forma consciente, aos apelos pessoais, subjetivos: “Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,/ não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista [da janela,/ não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,/ não fugirei para as ilhas nem serei raptado por/ [serafins.” Pois eu confesso que tenho, às vezes, vontade de fazer justamente o contrário. Como diria o ministro-que-canta Gilberto Gil, sou tentado a convidar: “Vamos fugir/pra outro lugar/ Baby/ Vãos fugiiiiiiiir”. Antes Gil fugisse. Mas ele fica.

Drummond via seus parceiros de jornada e constatava: “Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças”. Vá lá, também tenho as minhas, mas estou de saco um pouco cheio, confesso. Eu não sei se é justo com o país que as oposições cometam tantos erros. Eu tenho dúvidas sinceras se boa parte de suas lideranças entende o que está em curso. Acho que não. Creio que muitos continuam a subestimar o PT. Os cretinos e os invejosos atacam, freqüentemente, a suposta arrogância intelectual de FHC. Pois está entre os poucos que mostraram não ter salto alto. Chamou o PT pelo nome. Pôs a bola no chão e a batalha na rua. E percebeu a natureza do problema.

Lula está, é fato, em recuperação. Creio mesmo que, ainda que o candidato tucano venha a ser José Serra, que está muito à frente de Geraldo Alckmin nas pesquisas, a probabilidade maior é Lula chegar a março ou abril na dianteira. Fatores conjunturais já aqui tratados à larga explicam os bons números do Apedeuta. Há muito tempo até outubro. A questão fundamental é que Lula está em campanha e fala sozinho. Assim, não estou entre aqueles que vêem um Lula de novo imbatível. Muito menos faço a segunda voz de alguns tucanos de bico bem esquisito que já acham preferível “perder com Alckmin a perder com Serra”. Perder? Que gente é esta? Precisamos de Churchill e quem se apresenta são estes Chamberlain e Daladier de província??? Oh! Quão nobre e pusilânime é o espírito de quem acha a guerra um horror, não é mesmo? Entregam-se e entregam-nos a algozes, mas se orgulham de não derramar uma gota de sangue.

Neste texto, prometo não lembrar o erro grave cometido por tucanos e pefelistas quando deixaram passar a oportunidade de acionar Lula por crime de responsabilidade. Retiro a afirmação se Márcio Thomaz Bastos me provar que a confissão de Duda Mendonça de que recebeu dinheiro ilegal, e em moeda estrangeira, para fazer a campanha daquele que se tornou presidente não compromete o eleito. Pois bem: esse trem já passou. Mas por que se continua ainda a errar tanto e tão profundamente? Tanto e com tamanho afinco? Tanto e com tamanha determinação? Isso eu realmente não entendo. Em certos setores, parece haver a firme determinação de reeleger Lula. Chamberlain! Daladier! E pensam que são Maquiavel...

Casos

Mas por que afirmo isso tudo, mal disfarçando certa irritação? Primeira Leitura, embora submetido à patrulha de sempre, disse desde o começo que os casos do deputado pefelista Roberto Brant (MG) e do senador tucano Eduardo Azeredo (MG) tinham natureza distinta do modelo clepto-stalinista criado pelo PT para gerir o Estado brasileiro. Se o caixa dois na campanha é ilegal — e é —, a gravidade de tal crime não se iguala ao que estava (estava?) em curso no país, com uma Central Única de desvio do dinheiro público montada para assaltar o Estado.

Quando um dos melhores criminalistas do país, apropriadamente no cargo de ministro da Justiça, endossou a tese de que tudo não passava de “caixa dois” de campanha, estava preparando uma armadilha. Levava o PT, o governo e o próprio presidente da República a confessar um crime menor para esconder um maior. Mas esse truque é meio besta, simplório até. A intenção, bem-sucedida, era expor “os pecados de todos nós”.

Bastos agiu como aquele que, para defender um assassino confesso num tribunal, pergunta aos jurados: “Quem aqui já não ficou com tanta raiva que temeu poder matar alguém?”. O causídico faz cada jurado se sentir um assassino, expiar as próprias culpas, duvidar da própria moral, de sorte que a diferença entre matar e roubar um pedaço de pão vira mera questão de grau, de intensidade. Em seguida, cumpre pedir a absolvição do culpado ou a redução drástica de sua pena. A falsa questão, então, se instala como norte ético: “Ele matou. Mas quem não mataria se estivesse no lugar dele?” É a ética da barbárie.

Tucanos e pefelistas caíram como patos no truque. Cada um saiu em defesa do seu “pecador menor” sem perceber que, ao fazê-lo, conspurcavam-se e se ofereciam como companheiros de trajetória dos petistas. Não! Boa parte do eleitorado não distingue a enormidade do clepto-stalinismo da quase banalidade do caixa dois. Tudo se torna a mesma coisa. Brant, bem como o pepista Pedro Henry, poderiam ser salvos pelo plenário da Câmara. Mas as oposições preferiram deixar as suas digitais no Conselho de Ética, oferecendo-se, vítimas voluntárias, para dividir o pântano com o petismo. Tudo de uma honestidade e de uma transparência comoventes... Que patético momento aquele em que Carlos Sampaio (PSDB-SP) fez coro com Ângela Guadagnin (PT-SP) para rejeitar o relatório que pedia a cassação de Henry. Com a diferença de que será ele, agora, a emprestar voz ao pedido de absolvição. Ângela e suas malas-artes se esgueiram nas sombras. Sampaio e seu realismo vão para a ribalta. Ao vencedor, as batatas!

Ora, ora, ora, não me tomem por um defensor cego de princípios, como se política fosse a arte de radicalizar e cortar cabeças. Meu negócio não é esse jacobinismo rasteiro, não. Os oposicionistas é que precisam tomar algumas lições de “dissimulação honesta”, para lembrar um texto de Torquato Aceto citado pelo filósofo Roberto Romano na entrevista que concedeu à revista Primeira Leitura, nesta edição de fevereiro. Nesse quesito, o PT ainda dá lições e ganha de 10 a zero do PSDB. Tanto é assim que protagoniza o maior escândalo da história do país e está aí, em pé e competitivo. Tudo porque é bom??? Não! Tudo porque não é bobo. Embora clepto-stalinista.

Cochilo

Mas não é só, não. As oposições permitiram, por desarticulação e falta de eixo, que uma lista picareta, divulgada por picaretas, como esta de Furnas, ocupasse o noticiário quando, com efeito, o escândalo da semana foi o testemunho da secretária Soraya Garcia, ex-assessora do comitê de finanças do PT de Londrina (PR). Ela depôs na CPI dos Bingos na quarta e foi ao ponto: operou caixa dois, e os responsáveis, diz, são o ex-ministro José Dirceu e o atual ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. Afirmou ainda que Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula, acompanhava tudo e que a Coteminas, do vice José Alencar, doou 20 mil camisetas sem nota fiscal ao partido. “Eu mesma sou fruto do caixa dois; eu era paga pelo caixa dois”, desassombrou. A reação da oposição e da mídia foi quase burocrática. Estavam todos atrás da tal lista de Furnas, cujas evidências de fraude transbordam — ainda que possa trazer nomes também verdadeiros. Não se chega longe assim, não.

É possível bater Lula nas urnas? Ah, claro que é. O homem ainda tem uma brutal rejeição e perdeu o apoio da classe média. Cresceu entre os pobres, mas é grande também a penetração de Serra nessa fatia do eleitorado. As condições existem. E uma campanha fatalmente refrescará a memória do eleitor. Não sei por quê, no entanto, tucanos e pefelistas insistem tanto em dar motivos verossímeis, embora não necessariamente verdadeiros, para que o PT diga a sua frase predileta nestes dias: “Somos todos iguais”.

Mais estultices

É possível bater Lula nas urnas? Reitero que sim. Mas é preciso parar de falar e de fazer besteira. E, convenha-se, está sobrando no PSDB. Li no Blog do Alon uma nota sobre uma entrevista que um certo Pedro Tobias, deputado estadual tucano (SP), concedeu ao Jornal da Cidade, de Bauru. Fui atrás da íntegra. Não é que o homem, mesmo tendo um pré-candidato do seu partido, Serra, oito pontos à frente de Lula (último Datafolha), flerta abertamente com a derrota e faz futurologia com ela, como se fosse algo muito corriqueiro?

Pergunta-lhe o jornal: “Para você, vai pesar muito a avaliação do risco da derrota para o partido escolher o nome a presidente?” E ele não hesita: “Os tucanos já estão avaliando que, se perder a eleição, o que é risco do jogo, da disputa, será muito pior com o Serra candidato. Escolher Serra significa correr o risco de perder o comando da Prefeitura de São Paulo por três anos. Com o Alckmin não, ele já está no final de um mandato de seis anos e ainda vai batalhar para fazer o sucessor no Estado (...)”.

Nunca nem ouvi falar desse tal Tobias. Os tucanos federais que conheço parecem-me menos conformados do que ele com uma eventual derrotada. É claro que ele fala o que lhe dá na telha — noto, inclusive, a forma como se refere a “os tucanos”: parece falar de terceiros, de uma gente estranha e alheia, diferente dele próprio. Ainda que responda por si, não duvido que esteja reproduzindo coisas que tem ouvido por aí. Existiriam áreas do tucanato que, mesmo tendo a liderança nas pesquisas (um empate que fosse...), entregariam 2006 de mão beijada, fazendo agora a pré-campanha de 2010??? Tobias me faz supor que sim.

Se for assim...

Todos sabem o que penso e já declarei que considero Serra a melhor saída para o país. Nutro grandes esperanças, mas estou taciturno. Se for esta a decisão do PSDB, onde estará Tobias? Fazendo campanha? Na hipótese de Serra disparar e se mostrar imbatível, não tenho dúvida. Mas estaria ele entre aqueles que topam o desafio de encarar dificuldade para construir uma vitória? Sinceramente, não é essa a impressão que ele passa. Guardadas as devidas proporções, é claro, Tobias me parece mais para Chamberlain e Daladier do que para Churchill, entendem? Ele certamente se acha um fino calculista. Mas é só alguém que entrega a rapadura diante da primeira dificuldade porque acredita que será melhor depois.

Ora, dirão: “Pare, Reinaldo, de dar importância a quem não tem”. Ocorre que tem, sim. Tobias não vocaliza só um momento de criatividade da análise política. Ele acena com o fantasma do cálculo de jerico. Prefere uma revoada de pássaros a alguns na mão.

Site de Serra

Para encerrar. Um grupo de apoiadores de José Serra criou um site chamado “Movimento Serra Presidente” (www.serrapresidente.com.br). Ali aparece, dentre outras coisas, um manifesto de intelectuais em favor da candidatura do prefeito à Presidência. Os defensores de Alckmin também têm o seu, chamado “Nova Política” (www.novapolitica.org.br). No item Manifesto, está lá, com todas as letras, que o site foi criado “com o objetivo de apoiar a candidatura de GERALDO ALCKMIN, atual Governador do Estado de São Paulo, à Presidência da República.”.

Pois bem. Cheio de espanto, li na Folha deste sábado que alguns tucanos estão querendo recorrer ao TRE para tirar do ar o site pró-Serra. A informação foi atribuída à assessoria do partido. Sobre o outro, nem uma miserável palavra. Meu espanto é duplo. Em primeiro lugar, interessa-me saber por que a seletividade — um pode, o outro não pode. Em segundo, espanta-me que haja no PSDB quem flerte abertamente com a censura sob o pretexto de obedecer à Lei Eleitoral.

Ora, entendo que ambos têm de continuar no ar. O pró-Alckmin se diz ligado a “diversas organizações da sociedade civil organizada”. O único pecado que vejo na expressão é certa tautologia. Fora isso, tudo me parece muito normal. O pró-Serra está registrado em nome de um grupo de amigos. Nem um nem outro são entes públicos, partidários, sujeitos ao alcance das restrições impostas à campanha eleitoral. Quer dizer que não posso fazer um blog lançando o meu porteiro para dirigir a República? Por que não? Não posso criar um outro me candidatando a papa? E se eu quiser estimular, numa página eletrônica, o consumo de bacon? Alguma associação médica de combate ao colesterol tem o direito de me calar?

Escrevi, não faz tempo, que o PSDB só perderia a eleição presidencial de 2006 se perdesse para si mesmo. Se isso acontecer, sugiro que seus partidários renunciem ao bichinho que os caracteriza. Sai o tucano, entra o asno. Não aquele simpático do Partido Democrata americano, mas um bem manquitola. Por que não o Asno de Buridan? Morreu de fome entre a água e a alfafa porque não conseguiu fazer uma escolha.

Publicado originalmente em 12 de fevereiro de 2006.

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