Entrevista:O Estado inteligente

domingo, fevereiro 12, 2006

DANIEL PIZA: A irresponsabilidade geral da nação

ESTADÃO


Não há por que se espantar com a recuperação de Lula nas pesquisas de opinião, segundo as quais ele voltou ao índice de aprovação que tinha antes da crise iniciada em meados do ano passado. Muitos atribuem o fato à expansão de programas como o Bolsa Família, que seria garantia de voto nas classes baixas das regiões mais atrasadas, e à divisão da oposição, isto é, do PSDB, que também tem razões estratégicas para não proclamar o candidato agora. Além disso, o presidente tem uma mídia “espontânea” para lá de generosa, o que assegura ampla divulgação de qualquer poste de luz que inaugure, coisa que ele tratou de fazer à exaustão neste início de ano. Mas o motivo maior é simples: é o refluxo da crise do mensalão – crise que a irresponsabilidade geral da nação transformou num episódio quase anedótico e encerrado.

Escrevi em setembro do ano passado: “Não pense que Lula, por se achar acima do bem e do mal, protegido no pedestal de mito, não saiba o que fez e, acima de tudo, não saiba o que quer. (...) Está de olho em 2006. Sua aprovação vem caindo rapidamente, mas ainda é alta: 50% acreditam nele, não o consideram nem corrupto nem incompetente. Os juros começaram a cair, o que pode ajudar o crescimento a ser mais razoável no ano que vem. E ele deve calcular que a crise, com seus muitos focos – a cassação de Jefferson, a propina de Severino, a prisão de Maluf –, tende a arrefecer até a virada de ano.” Com perdão pelo trocadilho, bingo: Lula conseguiu jogar a culpa para o PT, dissociando sua imagem do partido que fundou e comandou durante um quarto de século, e circunscrever o escândalo ao Congresso, que apenas cassou os protagonistas do episódio e mais um punhado de coadjuvantes.

Tudo ficou como se o PT tivesse sido apanhado com a mão na cumbuca do caixa 2, da qual saiu mordido, jamais morto. A modalidade de fascismo que batizei de “todomundofazismo” pergunta “E quem não rouba?” e dá de ombros. E é nesses ombros da eterna complacência brasileira que Lula está sendo conduzido para as próximas eleições com força considerável. O velho e esquecido inconsciente freudiano contribui um monte: como a grande maioria das pessoas fez, faz ou faria o que os petistas fizeram, concede-se um perdão tácito. Este não é o país onde a metade dos trabalhadores não tem registro, onde a pirataria campeia solta, onde se dá mais propina que nota fiscal, onde os intelectuais vêem virtudes na malandragem? Pois então: Lula, o coitadinho que veio “lá de baixo”, é representativo dessa sociedade. A “novilíngua” petista, o jargão burocrático que disfarça tudo, deu certo. (Vimos o idioma novamente em funcionamento nesta semana, quando o ministro Palocci, em quem o mercado e seus porta-vozes vêem credibilidade e austeridade, corrigiu seu depoimento sobre o uso irregular do avião de um empresário alegando “imprecisão terminológica”: ele teria sido “disponibilizado”, não alugado.) Graças à benevolência safada da suposta oposição, à ineficiência da imprensa e da Justiça e aos interesses financeiros em jogo, tudo foi apurado superficialmente e ninguém punido a sério. Nossos dois conhecidos personagens, o Meia-Boca e a Meia-Verdade, deram as cartas.

Pode verificar como poucas pessoas entenderam a essência do escândalo. A maioria não se deu conta de que o PT e seus aliados, sob comando da dupla Lula & Dirceu, fizeram uma armação ilimitada com o dinheiro público, aparelhando a máquina, trocando verbas e propinas por licitações das estatais, praticando a mais antiga usurpação latino-americana. Só que tudo isso está ficando na história como um pecadilho. Se a economia no dia-a-dia não está tão ruim – a inflação está baixa, o salário mínimo subiu, empregos formais estão surgindo – e o PSDB parece o velho e não o novo, por que se decidir agora sobre uma eleição que só ocorre daqui a oito meses? As campanhas, não os princípios, vão escrever o resultado dela. Mais uma vez.

CADERNOS DO CINEMA

É um bom filme Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney. David Strathairn, que encarna Ed Murrow, faz trabalho excelente, dosando a tensão e a ironia do jornalista que enfrentou a histeria macarthista. A história corre bem, pontuada por canções belamente interpretadas por Diane Reeves, e vemos como democracia e liberdade são valores que precisam sempre ser reafirmados, pois não são naturais para muita gente. Mas fiquei imaginando os diálogos que um Herman Mankiewicz escreveria para alguns temas que apenas são pincelados no filme: o debate sobre o que é editorialização (traduzido como “edição” nas legendas, assim como “suíte” virou “continuidade”), que não menciona as várias graduações entre a reportagem supostamente neutra e a panfletária; e as dúvidas que o protagonista tem e só aparecem na boca de outros (o colega que pergunta “E se estivermos errados?” e o presidente da CBS que levanta a questão fundamental de que Murrow só defende quem não é comunista). O melhor é a crítica ao politicamente correto. Murrow fuma o tempo todo em frente à câmera, dois funcionários da mesma empresa namoram, os jornalistas defendem a idéia – tão estranha no Brasil – de que é possível ter qualidade e independência e atrair público. Bons tempos.

LABIRINTOS DO ORGULHO

Vejo discussões sobre a cena de Munique em que o agente Avner faz sexo com a mulher enquanto é atormentado pelas imagens dos atletas israelenses sendo metralhados pelos terroristas. Bem, para alguém de sua profissão, que acaba de ver tudo que viu em sua “missão”, deve ser difícil tomar consciência da inutilidade da vingança e encontrar refúgio imediato na relação amorosa. Tampouco é verdade que as torres aparecem ao final como símbolo da necessidade de revidar ataques. É a mesma observação de que lar e pátria se conflitam. Outra discussão curiosa é sobre a cena de Free Zone em que Rebeca sai correndo enquanto a israelense e a palestina batem boca. Há quem tenha dito que ela foge com o dinheiro que é pivô daquela briga, o que seria uma alusão à interferência americana. Menos, menos: ela simplesmente desiste de entender.

Não há melhor sinal de toda essa dificuldade labiríntica do que o caso da charge de Maomé publicada por um jornal dinamarquês. Liberdade de expressão não serve para deixar impune quem ofende ou calunia os outros. Mas a reação à irresponsabilidade do jornal não é menos deplorável; para os islâmicos, não bastam desculpas e indenizações. Protestos politicamente insuflados causaram mortes e um enorme imbróglio diplomático – e mostraram como o fundamentalismo vê em qualquer coisa um pretexto para a guerra santa contra Israel, prontamente simbolizada em charges sobre Hitler e o holocausto. O muro mais difícil de derrubar é o interior. DE LA MUSIQUE

Para quem não agüenta mais ler que Mozart fez muita música “fácil”, é bom ler o crítico Andrew Clark: “Mozart trabalhou dentro das estritas formas musicais de seu tempo, mas transcendeu as limitações de seus contemporâneos. O que o capacitou para isso foi seu senso de invenção e improviso, tanto na harmonia como na melodia. Ninguém mais fez que escalas e simples passagens melódicas soassem tão interessantes. O material em si não é ‘difícil’, mas Mozart acrescenta ingredientes que evitam que soe rotineiro. Mesmo quando ele introduz dissonâncias, a música nunca é feia. Em seu estado mais elevado, é a expressão da máxima beleza. É isso que a faz imortal.”

E para quem não entende que gênios não são sobre-humanos: “Se Mozart tivesse vivido na Sibéria ou no Saara, não teria escrito música em tal proporção e profundidade como a Sinfonia Concertante para Violino e Viola. Se tivesse nascido hoje, tenho dúvida se sequer estaria escrevendo música. Mas a maravilha de Mozart é que nenhum ‘se’ é necessário. Ele é um caso raro de um homem, um tempo, um lugar, a fusão dos quais nos deu um legado musical que é celestial exatamente por sua humanidade.” O texto de Clark pode ser lido em www.financialexpress-bd.com.

POR QUE NÃO ME UFANO

Os defensores das cotas “raciais” deveriam se perguntar por que elas agradam tanto aos políticos de qualquer tendência, que logo tratam de aprová-las. Afinal, reservar 50% das vagas em faculdades para estudantes do ensino público, ou 5% das vagas de professores para negros e índios, é o tipo de medida que parece resolver um problema complexo com um simples decreto. Ao gosto da demagogia, a questão do mérito fica sempre em segundo plano. Todas as medidas sobre educação tomadas no Brasil se concentram na aparência, nunca no conteúdo, porque é disso exatamente que a política se alimenta.

E-mail: dpiza@estado.com.br Site: www.danielpiza.com.br

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