Entrevista:O Estado inteligente

sábado, fevereiro 11, 2006

CELSO MING Recordes, apesar de tudo

ESTADÃO

A safra deste ano, que começou a ser colhida, será recorde e, pela primeira vez na história, as exportações brasileiras de soja ultrapassarão as dos Estados Unidos.

O resultado é o dinheiro novo que vai ser injetado na economia a partir do interior do País. A indústria terá motivos para comemorar. Mas nada é perfeito, já suspirava a raposa do Pequeno Príncipe. As notícias seriam melhores se a esticada nos preços internacionais não fosse engolida, como está sendo, pela queda do dólar no câmbio interno.

Apesar da estiagem que em dezembro se concentrou no Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul, as últimas previsões da Conab apontam um crescimento de 9,3% na produção de grãos sobre a de 2005, para um total de 124,4 milhões de toneladas. O IBGE, outro órgão que faz esses levantamentos, é mais otimista. Projeta uma safra de 126,1 milhões de toneladas, 12,1% maior do que a anterior.

Mas não dá para ignorar os estragos. O milho foi a cultura mais castigada porque a seca aconteceu em plena florescência. A soja também não escapou, mas, como ainda estava em fase de maturação, sofreu menos. Até o momento, os cálculos já apontam quebra de cerca de 1,2 milhão de toneladas de milho e de 350 mil toneladas de soja paranaense, de acordo com os dados ainda preliminares de Daniel Dias, da FNP Consultoria.

Mauro Osaki, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP, adverte que, em algumas regiões, como no oeste do Estado de São Paulo, os produtores estão sendo obrigados a gastar mais do que o habitual com aplicações de defensivos contra ferrugem da soja, o que está elevando os custos.

Outras culturas que desembocam na safra de verão sofreram menos. Como explica o gerente da área de avaliação de safras da Conab, Eledon Oliveira, elas não foram pegas pela estiagem: o feijão já foi quase todo colhido, o algodão geralmente é plantado mais tarde e as plantações de arroz usam a irrigação.

Apesar da redução da área plantada (de 4,3% em relação à de 2005, segundo a Conab), se as atuais previsões meteorológicas se confirmarem e nenhum outro castigo sobrevier, esta safra deve garantir mais produção por hectare cultivado. As quebras na Região Sul não devem afetar tão fortemente o resultado final, como ocorreu em 2005.

A melhora dos preços internacionais é uma boa notícia. Nos últimos 12 meses, a cotação da soja aumentou 7,9%; a do algodão, 7,0%; e a do açúcar, 96%. Mas a do milho recuou 4,3%.

A recuperação dos preços está sintetizada na curva ao lado (dados da Economist Intelligence Unit), que aponta avanço de 3,1% nos preços em dólares das commodities alimentícias nos últimos quatro trimestres.

O diabo surge quando o dólar faturado com as exportações é trocado por reais no câmbio interno. Em 12 meses, caiu nada menos que 17,2%, estrago irrecuperável na renda do plantador.

Ainda assim, espera-se melhora nas finanças do agricultor. "Os investimentos vão recomeçar neste ano e os resultados aparecerão no longo prazo", observa Lygia César, consultora da Rosenberg & Associados.

Tanto em conseqüência da melhor organização dos serviços portuários, como porque não haverá antecipação das exportações, as filas quilométricas de caminhões cheios de soja à espera de descarregamento diante do Porto de Paranaguá não deverão se repetir neste ano.

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