O GLOBO
A esquerda do PT pediu punição exemplar e mudança na política econômica. A maioria da executiva, que ainda atende a José Dirceu, serviu pizza com crítica à política econômica. Enquanto isso, a política econômica se prepara para colher hoje mais um louro: nova queda na inflação dos últimos 12 meses. A crise política está fazendo o Brasil perder chance. A bolsa brasileira teve um desempenho muito pior que a de outros países emergentes; também o risco cai menos que o de outros países.
A reunião da executiva do Partido dos Trabalhadores não deixou dúvida sobre a forte influência do ex-chefe da Casa Civil, que levou o novo presidente do partido, Tarso Genro, a uma clara derrota na reunião. O que espanta é a leveza com que estão sendo tratados os que arruinaram o PT. Delúbio saiu de licença porque quis e após ser convencido a isso. Os que usaram o dinheiro ilegal de Delúbio não serão sequer investigados.
A economia tem agüentado relativamente bem os trancos da crise política mas, em termos de chance perdida, dá para ver os efeitos. Uma análise da bolsa brasileira em relação a de outros países emergentes mostra que a brasileira não aproveitou, como a de outros emergentes, o bom momento nestes últimos meses: enquanto no Brasil cresceu 8,5% de maio para cá, cresceu 23% na Turquia, 22% na África do Sul, 20% na Polônia e 16% no México. Só não foi pior porque os estrangeiros continuaram apostando no país, ao contrário do investidor local. O fluxo para o Brasil poderia, segundo acredita Alexandre Maia, da Gap, ter sido bem maior nestes últimos tempos, como foi o caso, por exemplo, de África do Sul e Turquia. Outra chance perdida é a de elevação na classificação de risco-país, que era esperada para breve e dificilmente ocorrerá. O mundo continua crescendo e produzindo ventos favoráveis para a economia, mas um sinal continua cada vez pior: ontem o barril do petróleo chegou a US$ 64. A principal razão da alta é que a demanda chinesa continua crescendo cerca de 15% ao ano e, como eles não aumentam os preços internamente, a demanda continuará forte. No Brasil, a Petrobras admitiu que, se continuar neste nível, terá, sim, que elevar o preço da gasolina. Ou seja, não há garantia de que o cenário externo continue tão bem quanto tem estado nos últimos 31 meses.
O documento do PT registrou que "é hora de transitarmos para um modelo de desenvolvimento com estabilidade e altas taxas de crescimento, distribuição de renda e aceleração na criação de empregos, com fortes investimentos públicos para dar suporte a um processo de inclusão e recoesão social do país". Ninguém em sã consciência pode ficar contra essa maravilha de cenário. Exceto pelo fato de que não se sabe como fazer o forte investimento público sem novos aumentos de impostos. Qualquer pessoa, se pudesse escolher ter tudo isto ao mesmo tempo — crescimento, emprego, distribuição de renda, estabilidade, inclusão — não abriria mão de nada.
Mas o que está aí embutido é uma crítica à política econômica, como se dissessem:
"Companheiro Palocci, agora chega, é preciso mudar essa política." Na frase final do texto publicado pelo PT, eles são mais claros quando falam em se livrar da ortodoxia imposta aos países endividados.
Imposta por quem? O Brasil não tem mais acordo com o FMI, pré-pagou o que devia ao Fundo, as empresas reduziram em US$ 50 bilhões a dívida externa e a dívida pública externa está estabilizada. A dívida que o Brasil tem realmente importante é a interna, cujo pagamento não pode ser suspenso por motivos óbvios. Se a executiva do PT quiser saber por quê, basta ter uma conversinha com os fundos de pensão das estatais, que são grandes carregadores de títulos da dívida interna. Ou seja, falta, como sempre, dizer como mudar.
A política econômica, que tem sido a âncora neste momento de crise, entra no documento do PT por faltar sinceridade na proposta de punir os responsáveis pela pior crise da história do partido.
A repórter Soraya Aggege informou na edição de domingo deste jornal que até agora a nova direção não tem as informações mais elementares sobre as transações ilegais: os mais de R$ 50 milhões recebidos pelo antigo tesoureiro e repassados aos políticos do partido. O atual secretário-geral, Ricardo Berzoini, disse que a nova direção vai ignorar o caixa dois. Ou seja, vai fingir que não vê o sofá na sala. Mesmo ignorando o caixa dois, há coisas a investigar que os novos dirigentes não querem ver, como os gastos extravagantes com jatinhos, por exemplo, que fizeram do PT uma empresa falida, apesar das sempre generosas contribuições dos militantes.
A nova direção não quer saber como Delúbio conseguiu montar o caixa dois, quem mais sabia, a quem foram distribuídos os recursos. Decidiu que investigar o que se passou dentro de sua própria casa não lhe compete.
Se Delúbio Soares, contrariando toda a história e as práticas partidárias, tomou todas as decisões sozinho, por que não puni-lo ou, ao menos, investigar o que ele fez em nome do partido? Em vez disso, o que se viu no fim de semana foi a movimentação dos pizzaiolos acendendo o forno. Como antepasto, os dirigentes estão servindo aos comensais as costumeiras críticas à política econômica.
Entrevista:O Estado inteligente
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