O GLOBO
Não poderia haver confissão de culpa mais vigorosa do que a dada pelo ex-ministro José Dirceu na reunião do diretório nacional do PT neste fim de semana. Desprestigiado politicamente pela sociedade civil, que identifica nele o cabeça desse imenso esquema de corrupção que está sendo desvendado pelas investigações; à beira do cadafalso para ser cassado por seus pares no Congresso, que também reconhecem nele o mentor de Delúbio Soares, Dirceu ainda tem forças dentro do PT para desautorizar decisões do novo presidente, Tarso Genro, e proteger seu apaniguado, impedindo que seja expulso sumariamente.
E, de quebra, consegue reverter uma decisão que tinha o aplauso da sociedade, a de o partido não dar legenda para parlamentares que renunciem aos mandatos para fugir da cassação. Talvez preparando a própria cama. Mente-se tanto nesse processo que não seria surpreendente que Dirceu apresentasse sua renúncia mesmo depois de anunciar que não o faria, alegando uma perseguição política qualquer. O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, ainda não deu andamento ao processo de perda de mandato contra Dirceu, deixando-lhe espaço para agir.
Está mais que demonstrado, portanto, que o Dirceu que nada sabia, que nada viu, que se afastou do PT quando foi para o governo, nunca existiu. Sempre existiu, sim, o Dirceu que controla há anos com mão-de-ferro o Campo Majoritário, e opera politicamente em nome do grupo que sempre teve como seu líder principal o hoje presidente Lula.
Por outro lado, a pizza que o PT está colocando no forno tem um recheio surpreendente, que agrada a todos os paladares, seja o do PSDB, seja até mesmo o do deputado Roberto Jefferson, o grande algoz do governo: se existem tipos diferentes de crimes sendo investigados, e o caixa dois é o mais brando deles e por isso merece punição menos drástica, então a dinheirama que circulou pelas mãos do lobista Marcos Valério não era apenas para pagar dívidas de campanha, como sustentavam até agora o ex-tesoureiro Delúbio Soares e até mesmo o presidente Lula.
Com que cara ficarão deputados petistas que tão pateticamente gastaram maus argumentos, ironias grosseiras e ataques para tentar desqualificar testemunhas e espalhar a sujeira para ressaltar, em qualquer circunstância, que o PSDB mineiro fez o mesmo esquema de empréstimo com Marcos Valério, foi na verdade a matriz desse esquema, como se, provando que o pecado do caixa dois é generalizado, ficaria o PT "inocêncio".
Agora vem a nova direção do PT e propõe punições diferentes para crimes diferentes, o que aparentemente tem lógica. Mas de que crimes diferentes estamos mesmo falando? E por que punir Delúbio Soares, se a única coisa que ele confessou foi o financiamento de dívidas eleitorais de petistas e aliados com caixa dois, que é um crime menor na nova concepção de ética petista?
Ou a direção do PT sabe de mais coisas sobre Delúbio que não revela ao grande público? Ou, curvando-se às evidências, o novo secretário-geral petista, Ricardo Berzoini, já está admitindo que o dinheiro do valerioduto serviu para diversas coisas, como pagar para deputados mudarem de partido ou votarem a favor do governo, e não apenas para pagar dívidas de campanha?
Como disse o presidente Lula, o problema de uma mentira é que você acaba tendo que mentir novamente para sustentar a primeira mentira, e a trapalhada não tem fim. É tão variada a miríade de interesses abarcados pelo dinheiro que jorrou dos cofres valerianos, que até mesmo uma cafetina brasiliense saiu das sombras na CPI dos Correios. É didático fazer comparações entre o esquema montado para pagar as "dívidas de campanha" do governo atual, e o montado por PC Farias no governo Collor com as "sobras de campanha".
No fundo, no fundo, o que está em jogo é o dinheiro público, o meu, o seu, o nosso dinheiro. E o que detona as crises são desavenças em torno do vil metal — no caso de Collor, o irmão Pedro insatisfeito com a partilha e a gula de PC Farias. No caso do PT, a chantagem de Roberto Jefferson em busca de mais dinheiro, como revela Valério. E o deslumbramento com o poder de um grupo de políticos provincianos, vindo do interior paulista ou do interior nordestino, tanto faz, denuncia os sinais exteriores de riqueza.
Naquela época como agora, ficaram famosos os charutos, sejam Cohiba ou Hoyo de Monterrey; os ternos bem cortados, Armani ou Ricardo Silveira; as orgias com prostitutas de luxo; a farra com os jatinhos particulares (lembram-se do Morcego Negro?); os cartões de crédito ("Madame está gastando muito", alertava PC Farias). Há 15 anos eram figuras como Cleto Falcão ou o piloto Jorge Bandeira se empanturrando com colheradas de caviar à beira do Lago Paranoá; hoje são figuras como João Paulo Cunha e Professor Luizinho tomando porre de licor no Antiquarius no Rio.
Tudo igualzinho, e já não é nem mais possível fazer a distinção entre o financiamento "da causa" e o enriquecimento pessoal puro e simples, pois tudo se mistura. O elo entre os dois governos, como a lembrar a máxima de Marx de que a História só se repete como farsa, é o farsante Roberto Jefferson, que acabou caindo de sua própria vaidade depois da enésima performance diante das câmeras de televisão.
Pela versão oficial do PT, no entanto, Jefferson estaria a salvo de punição rigorosa pelo único crime que confessou: o de ter levado R$ 4 milhões do PT para a campanha municipal de 2004, "dinheiro não contabilizado" no jargão petista.
Como se vê, a versão que estava sendo montada de que o PT seria "refundado" pela nova direção é tão verdadeira quanto a auto-proclamada decisão do presidente Lula de investigar tudo, não deixando pedra sobre pedra.
Entrevista:O Estado inteligente
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