Alheios ao grito entalado na garganta de milhões de brasileiros, governistas e oposicionistas se juntaram para impedir, ou pelo menos retardar, incursões por territórios historicamente minados. Um deles é que abriga os grandes fundos de pensão, alguns comprovadamente enredados em negócios envolvendo criaturas do lamaçal. Alguns componentes da CPI resolveram pedir a quebra do sigilo bancário dos fundos mais opulentos. Como felinos que pressentem o perigo iminente, a maioria das excelências reduziu a boa idéia a um pífio "pedido de esclarecimentos". Um conjunto de perguntas será encaminhado aos diretores das entidades. Eles responderão como quiserem. Com a mesma sinceridade exalada por José Dirceu no depoimento à Comissão de Ética da Câmara.
A coalizão dos pusilânimes reafirma que, se o Brasil honesto deixar de pressioná-la com o necessário vigor, a CPI recorrerá ao vasto repertório de truques para dispensar-se da missão principal: localizar a origem da inverossímil dinheirama movimentada por delúbios, valérios e silvinhos. Corrompidos e corruptores vão sendo desmascarados. Aos poucos, reconstitui-se a gênese e a progressiva montagem da quadrilha que queria assaltar o país. Roubou-se tanto que até cuecas viraram meios de transporte. Falta saber de onde veio o dinheiro.
Sabe-se muito pouco dos financiadores da Casa da Moeda 2 formalmente presidida por Marcos Valério. Não parece tão difícil, contudo, mapear as fontes de dinheiro sujo. Instituições como o Banco Rural, o Banco do Brasil e o BMG, já com as portas arrombadas, só esperam a chegada de detetives providos de coragem para cruzar a soleira. Mas é essencial localizar as muitas outras fontes ainda imersas no pântano.
Por que não rastrear o universo sempre misterioso dos fundos de pensão? As investigações devem começar pela Previ, o portentoso fundo de previdência dos funcionários do Banco do Brasil. Há anos na ponta do ranking nacional, já é o maior da América Latina: o patrimônio, calculado em R$ 38 bilhões, é investido em virtualmente todos os setores da economia. Nos últimos tempos, a Previ tem demonstrado especial interesse pelo atraente ramo da telefonia.
Tecnicamente, a entidade não tem vínculos com o governo. Na prática, ninguém chega à direção da Previ sem o apoio explícito do Palácio do Planalto. Os mandarins agem com razoável autonomia de vôo. Mas são estreitamente vigiados pelo Poder Executivo, sobretudo quando se metem em manobras sobremodo audaciosas.
A insaciável quadrilha valeriana tentou incursionar por todos os labirintos que levam a pilhas de cédulas. Pode-se presumir que, na mais branda das hipóteses, procuraram atrair medalhões da Previ. Por que não verificar se houve irregularidades na parceria entre o fundo de pensões e, digamos, a Telemar? Desde o governo Fernando Collor, a Previ freqüenta regularmente o noticiário político-policial. Por que dispensar tantas amabilidades a um canteiro de patifarias?
Por isso mesmo. Aos oposicionistas da CPI, não interessa revisitar o reino cujo trono já foi ocupado por Ricardo Sérgio Teixeira, arrecadador de dinheiro em campanhas eleitorais de José Serra e Fernando Henrique Cardoso e suspeito de negócios muito mais escuros. E os governistas seguem o manual de sobrevivência: com lama pelo pescoço, sabem que só imóveis escaparão do afogamento.
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