Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, agosto 09, 2005

AUGUSTO NUNES :Fundo demais para o mergulho da CPI

JB


A indignação nacional diante do pântano da corrupção, até recentemente confinada nos murmúrios dos bem informados, já se traduz na voz rouca das ruas. Logo virá o som da fúria, que ninguém conseguirá ignorar. Nem mesmo os integrantes da CPI dos Correios que, na semana passada, agiram como parlamentares infectados pela surdez conveniente.

Alheios ao grito entalado na garganta de milhões de brasileiros, governistas e oposicionistas se juntaram para impedir, ou pelo menos retardar, incursões por territórios historicamente minados. Um deles é que abriga os grandes fundos de pensão, alguns comprovadamente enredados em negócios envolvendo criaturas do lamaçal. Alguns componentes da CPI resolveram pedir a quebra do sigilo bancário dos fundos mais opulentos. Como felinos que pressentem o perigo iminente, a maioria das excelências reduziu a boa idéia a um pífio "pedido de esclarecimentos". Um conjunto de perguntas será encaminhado aos diretores das entidades. Eles responderão como quiserem. Com a mesma sinceridade exalada por José Dirceu no depoimento à Comissão de Ética da Câmara.

A coalizão dos pusilânimes reafirma que, se o Brasil honesto deixar de pressioná-la com o necessário vigor, a CPI recorrerá ao vasto repertório de truques para dispensar-se da missão principal: localizar a origem da inverossímil dinheirama movimentada por delúbios, valérios e silvinhos. Corrompidos e corruptores vão sendo desmascarados. Aos poucos, reconstitui-se a gênese e a progressiva montagem da quadrilha que queria assaltar o país. Roubou-se tanto que até cuecas viraram meios de transporte. Falta saber de onde veio o dinheiro.

Sabe-se muito pouco dos financiadores da Casa da Moeda 2 formalmente presidida por Marcos Valério. Não parece tão difícil, contudo, mapear as fontes de dinheiro sujo. Instituições como o Banco Rural, o Banco do Brasil e o BMG, já com as portas arrombadas, só esperam a chegada de detetives providos de coragem para cruzar a soleira. Mas é essencial localizar as muitas outras fontes ainda imersas no pântano.

Por que não rastrear o universo sempre misterioso dos fundos de pensão? As investigações devem começar pela Previ, o portentoso fundo de previdência dos funcionários do Banco do Brasil. Há anos na ponta do ranking nacional, já é o maior da América Latina: o patrimônio, calculado em R$ 38 bilhões, é investido em virtualmente todos os setores da economia. Nos últimos tempos, a Previ tem demonstrado especial interesse pelo atraente ramo da telefonia.

Tecnicamente, a entidade não tem vínculos com o governo. Na prática, ninguém chega à direção da Previ sem o apoio explícito do Palácio do Planalto. Os mandarins agem com razoável autonomia de vôo. Mas são estreitamente vigiados pelo Poder Executivo, sobretudo quando se metem em manobras sobremodo audaciosas.

A insaciável quadrilha valeriana tentou incursionar por todos os labirintos que levam a pilhas de cédulas. Pode-se presumir que, na mais branda das hipóteses, procuraram atrair medalhões da Previ. Por que não verificar se houve irregularidades na parceria entre o fundo de pensões e, digamos, a Telemar? Desde o governo Fernando Collor, a Previ freqüenta regularmente o noticiário político-policial. Por que dispensar tantas amabilidades a um canteiro de patifarias?

Por isso mesmo. Aos oposicionistas da CPI, não interessa revisitar o reino cujo trono já foi ocupado por Ricardo Sérgio Teixeira, arrecadador de dinheiro em campanhas eleitorais de José Serra e Fernando Henrique Cardoso e suspeito de negócios muito mais escuros. E os governistas seguem o manual de sobrevivência: com lama pelo pescoço, sabem que só imóveis escaparão do afogamento.

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