O GLOBO
O relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio, definiu a certa altura do depoimento do publicitário Duda Mendonça o núcleo do que está em jogo hoje no país: o fato de parte da campanha eleitoral de 2002 ter sido financiada por dinheiro ilegal coloca em xeque a legalidade de várias eleições, inclusive a do próprio presidente Lula e, mais que isso, a higidez de nosso sistema democrático.
O pagamento do equivalente a cerca de R$ 10 milhões no exterior para uma empresa de Duda Mendonça, com dinheiro saído de contas de vários bancos pelo mundo, e a suspeita de fraude nos dados enviados pelo Banco Rural começam a demonstrar que os tais empréstimos alegados pelo ex-tesoureiro Delúbio Soares como fonte para pagamentos, ou não existiram ou não explicam toda a dinheirama utilizada pelo esquema montado pelo PT, que tinha inclusive um caixa no exterior.
O que também confirma, mais uma vez, uma denúncia do deputado Roberto Jefferson, segundo quem certa vez o então ministro José Dirceu alegou não poder fazer-lhe um pagamento "porque a polícia é meio tucana e prendeu vários doleiros. O dinheiro não está podendo ser enviado do exterior".
Cada vez mais distanciado da gravidade da situação, e da enormidade do crime que foi cometido, o presidente Lula continua ativo em busca de apoios. A carta que o presidente Lula enviou à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) tinha o claro objetivo de conseguir o apoio político da Igreja Católica que já foi, em outros tempos, grande sustentáculo da luta pela democracia aliada ao PT.
Mas estes foram outros tempos, e Lula corre o risco quase certo de receber uma crítica pública dos bispos brasileiros, que parecem inclinados a atribuir-lhe a culpa por tudo o que está acontecendo nessa crise política. O raciocínio que predomina entre os bispos, e que deve aparecer no documento final da Conferência, é o de que quem delega poderes é responsável pelos atos de quem escolheu como seu delegado, não cabendo a desculpa de que não sabia.
E nem mesmo o sentimento de traição absolveria de culpa quem escolheu mal seu representante, ou não foi capaz de detectar a tempo as malfeitorias que estavam sendo praticadas em seu nome.
O presidente Lula faz claros movimentos em direção aos antigos aliados do PT nas lutas sociais, como sindicatos, líderes estudantis e a Igreja, mas nem a época é a mesma, nem os líderes sindicais e estudantis são os mesmos, e muito menos Lula é o operário intocado que a todos arrebatava com sua pureza de intenções.
Os líderes sindicais foram cooptados pelo governo, que lhes deu e a suas centrais, poderes inimagináveis de dinheiro e atuação política, transformando-os em pelegos burocratas altamente remunerados que tomaram conta da máquina estatal brasileiro.
A outrora gloriosa União Nacional dos Estudantes (UNE), hoje dominada pelo PCdoB, não passa de uma entidade chapa-branca, financiada por generosas verbas do governo federal, sem a mínima capacidade de atuação política independente.
Para culminar a série de indicações que Lula exibe como um aviso à oposição, de que não pretende se render sem lutar, chega ao país o líder da auto-proclamada revolução bolivariana, o presidente da Venezuela Hugo Chávez, professor de mobilização do lumpesinato através de programas sociais assistencialistas com o farto dinheiro do petróleo acima de US$ 60 o barril. Barril que na Venezuela se transforma em barril de pólvora na luta de classes que divide aquele país.
O presidente Lula, que namora o chavismo a cada crise política, tem apenas o carisma popular do líder venezuelano, ambos conseguem se conectar com o povo diretamente, sem a intermediação parlamentar, como se fossem um deles. O que torna essa relação politicamente proveitosa para eles e perigosa para a democracia, como se vê na Venezuela de hoje, onde o Congresso e o Judiciário são dominados pelos chavistas.
O aparelhamento do estado brasileiro pelos sindicatos e militantes petistas foi uma tentativa nessa direção, e o dinheiro fácil do petróleo foi substituído, na versão tupiniquim, pelo dinheiro fácil das estatais. Desmontado o esquema de corrupção que se espalhou pelo organismo estatal como uma infecção incontrolável, e não sendo o Brasil um país sem instituições sólidas que possa ser submetido à vontade de um líder, resta ao presidente Lula brandir sua indiscutível popularidade como arma contra os que considera "inimigos".
Enquanto isso, debate-se o presidente na dúvida cruel sobre se deve ou não ir à televisão pronunciar-se oficialmente sobre a crise que domina seu governo. Ele tem resistido às sugestões com um argumento irrefutável: ninguém sabe onde tudo isso vai acabar, e um pronunciamento pode ser desmentido pelos fatos logo em seguida, piorando sua situação política.
Essa dúvida é reveladora do temor que tem da amplitude que pode ter tomado a delegação de poderes que fez a José Dirceu, que chamou um dia de "o capitão do time", e que Roberto Jefferson hoje identifica como "o chefe da quadrilha". A discussão relevante já não é mais sobre se Lula sabia ou não sabia, ou até que ponto ele sabia das maquinações de seu braço direito.
Mesmo que não se chegue a nenhum Fiat Elba que o ligue pessoalmente ao valerioduto, já está claramente definida a incapacidade do presidente de se desvincular publicamente de seus parceiros de anos e anos. E o depoimento ontem de Duda Mendonça na CPI dos Correios mostra o porquê.
Entrevista:O Estado inteligente
- Índice atual:www.indicedeartigosetc.blogspot.com.br/
- INDICE ANTERIOR a Setembro 28, 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Arquivo do blog
-
▼
2005
(4606)
-
▼
agosto
(563)
- Gabeira crava um marco na crônica da crise
- Editorial de O Estado de S Paulo Pizza no PT
- BLOG 31 e 30 AGOSTO
- DORA KRAMER Inconveniência continuada
- Editorial de A Folha de S Paulo ESPETÁCULO DA PARA...
- CLÓVIS ROSSI Os crimes e os "severinos"
- FERNANDO RODRIGUES A ajuda de Severino
- Aviso de gringo PAULO RABELLO DE CASTRO
- LUÍS NASSIF Um banco latino-americano
- Zuenir Ventura Prevendo o passado
- Merval Pereira Tucanos se bicam
- Miriam Leitão :Aos mais céticos
- Lucia Hippolito :Encreca na Câmara
- Villas Boas:Fraco é o golpismo
- Os escravos morais estão inquietos Por Reinaldo Az...
- FRASE DO DIA BLOG NOBLAT
- Opinião BLOG Cesar Maia
- Afinal, o PT é bom ou não é bom para a democracia?...
- Lucia Hippolito :Enquanto isso no PT...
- O que resta a Lula Por Reinaldo Azevedo
- DORA KRAMER Um olhar estrangeiro
- CLÓVIS ROSSI Saiam já daí, indecorosos
- ELIANE CANTANHÊDE Sem escapatória
- LUÍS NASSIF Os sofismas do aumento do superávit
- Greenspan é responsável por bolha imobiliária PAUL...
- JANIO DE FREITAS Cabeças não respondem
- ESCÂNDALO DO "MENSALÃO"/ ACORDÃO OU CASTIGO?
- Miriam Leitão :Câmbio e clima
- Luiz Garcia ‘Le cafard du président’
- Arnaldo Jabor A verdade está nua berrando na rua
- Merval Pereira Corte eleitoral
- Entrevista: Marco Maciel à ZERO HORA
- Editorial de O Estado de S Paulo Para compreender ...
- VINICIUS TORRES FREIRE O fracasso dos intelectuais
- FERNANDO RODRIGUES A falsa reforma avança
- Por que não haverá crise econômica LUIZ CARLOS BRE...
- Farra de gratificações cria salários de até R$ 40 mil
- Planalto usa cargos em fundos e estatais para prem...
- Para presidente do Conselho de Ética, "tese do men...
- Lucia Hippolito :Sem desfecho à vista
- Mario Sergio Conti O indivíduo na história: José D...
- Entrevista: Rogério Buratti "Não sou o único culpado"
- Editorial de A Folha de S Paulo CORRUPÇÃO ENRAIZADA
- Editorial de A Folha de S Paulo DELAÇÃO PREMIADA
- CLÓVIS ROSSI Omissão também é crime
- ELIANECANTANHÊDE Neo-PT
- E agora? HELIO JAGUARIBE
- Recompor os sonhos CRISTOVAM BUARQUE
- FERREIRA GULLAR Ailusão do poder
- LUÍS NASSIF Uma nova realidade nascendo
- JANIO DE FREITAS A guerra dos guarda-costas
- JOSIAS DE SOUZA Super-Receitacomeça a exibir os s...
- Lula virou um "fantasma", diz Skidmore
- DORA KRAMER De vontades e possibilidades
- Editorial de O Estado de S Paulo Lavagem de dinheiro
- A telecracia brasileiraGaudêncio Torquato
- Para superar a crisepolítica Paulo Renato Souza
- Incentivo injustificado POR Mailson daNóbrega
- Lúcia Hippolito : O sagrado direito de mudar de idéia
- JOÃO UBALDO RIBEIRO : Impressões ingênuas
- ENTREVISTA - Fernando Henrique Cardoso, ex-preside...
- Mario Sergio Conti O fim furreca do PT e o fim da ...
- Entrevista: Olavo de Carvalho : ''Não há salvador ...
- Mãos Limpas também no Brasil
- Editorial do JB Trilhas incertas-fundos de pensão
- AUGUSTO NUNES :É assim o Brasil dos desvalidos
- Miriam Leitão :Subverdades
- Zuenir Ventura Assombrações de agosto
- Merval Pereira Operação abafa
- A competição das CPIs
- Editorial de O Estado de S Paulo Paciência, paciên...
- DORA KRAMER Panorama visto do palácio
- FERNANDO GABEIRA:Um elefante morto na sala
- You are no Jack Kennedy! GESNER OLIVEIRA
- FERNANDO RODRIGUES Roteiro do caos
- Editorial de A Folha de S Paulo PALOCCI E OS MERCADOS
- Diogo Mainardi O bom de blog
- Campanha eleitoral brasileira: um cancro político
- O Planalto só tem energia para cuidar do escândalo
- Buratti confirma propina na prefeitura de Palocci
- Entrevista: Peter Lindert
- Tales Alvarenga Velhinhas de Taubaté
- André Petry Nós, o vexame mundial
- Roberto Pompeu de Toledo Huummm... Uau! Chi... Eur...
- Lula e a “renúncia” de Jango Por Reinaldo Azevedo
- Sergio Bermudes O Rei fraco
- Villas-Bôas Corrêa O amargurado adeus à reeleição
- AUGUSTO NUNES : O Brasil quer ouvir a cafetina
- Zuenir Ventura
- Miriam Leitão :Tensão e melhora
- Merval Pereira Agonia pública
- DORA KRAMER Ombro a ombro
- SOCORRO, O PROFESSOR DULCI SUMIU!
- CLÓVIS ROSSI Dar posse a Lula
- ELIANE CANTANHÊDE :O passado e o futuro
- LUÍS NASSIF CPIs e quarteladas
- O sistema de metas de inflação LUIZ CARLOS MENDONÇ...
- Lucia Hippolito:Amor bandido
- A Velhinha de Taubaté é Chico Buarque Por Reinaldo...
- Política externa: megalomania e fracasso por Jeffe...
- Editorial de O Globo Vale a palavra
- Miriam Leitão :Fatos cruzados
- Luiz Garcia Delatado premiado?
- Merval Pereira Superando os mestres
- Villas-Bôas Corrêa Governo acordou com o incêndio ...
- Paul Krugman diz que "não faz sentido manter juros...
- Gaspari e o golpismo; Coelho e o mea-culpa Por Rei...
- Editorial de O Estado de S Paulo A diferença é a c...
- Botequins não são como o PT Roberto Macedo
- DORA KRAMER Ligando o nome à pessoa
- Lucia Hippolito :Lula continua no controle do PT
- Editorial de A Folha de S Paulo É PRECISO AVANÇAR
- Editorial de A Folha de S Paulo PT SEM RUMO
- ELIANE CANTANHÊDE Pró-Congresso
- CLÓVIS ROSSI Café-com-leite
- LUÍS NASSIF Democracia e eleições
- DEMÉTRIO MAGNOLI À sombra de Paul Broca
- Miriam Leitão :Leitura errada
- Merval Pereira Sinais de alerta
- Lula e Carter Ives Gandra Martins
- AUGUSTO NUNES O sereno dia-a-dia da turma de Dirceu
- FH: ‘Respeito Marilena como filósofa mas ela não e...
- Radicais inativos por Eduardo Graeff
- José Nêumanne Os abandonados contra os desavisados
- Editorial de O Estado de S Paulo Defesa delirante
- Editorial de O Estado de S Paulo Bolo solado em ve...
- Editorial de O Estado de S Paulo Os limites do MP
- Lucia Hippolito : Crônica do cinismo amigo
-
▼
agosto
(563)
- Blog do Lampreia
- Caio Blinder
- Adriano Pires
- Democracia Politica e novo reformismo
- Blog do VILLA
- Augusto Nunes
- Reinaldo Azevedo
- Conteudo Livre
- Indice anterior a 4 dezembro de 2005
- Google News
- INDICE ATUALIZADO
- INDICE ATE4 DEZEMBRO 2005
- Blog Noblat
- e-agora
- CLIPPING DE NOTICIAS
- truthout
- BLOG JOSIAS DE SOUZA
Nenhum comentário:
Postar um comentário