Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, agosto 12, 2005

Luiz Garcia A fala da esfinge

O GLOBO


Consideramos esfingéticos os homens que falam pouco ou nada que se entenda. O presidente Lula parece que deseja ser um político esfingético especial: embora fale o tempo todo, é quase mudo sobre o que realmente importa; no caso, a crise nacional.


Num animal político, equivale a tímido silêncio usar momentos como o atual para lembrar a infância sofrida, declarar amor a seus irmãos deserdados, ameaçar inimigos não identificados etc. Vá lá que não se discuta a sinceridade — mas é duvidoso que a tática seja eficaz.

No começo da semana, Lula anunciou que continuará a viajar intensamente pelo país, inaugurando o que topar pela frente. Tem o direito de sair de Brasília e a prerrogativa de inaugurar (de preferência aquilo que estiver realmente pronto: sabidamente, há políticos que inauguram até placa anunciando projeto de construção).

Mas, se o presidente pode viajar à vontade e falar do que quiser é estranho — ou, quem sabe, revelador — que se torne esfinge (emudecendo ou se escondendo atrás de um muro de generalidades) sem relação com a crise política que abala o Congresso, o sistema eleitoral, a estrutura partidária e o seu próprio partido. Ouçam e leiam Lula: ele parece ver a crise como episódio desagradável mas quase corriqueiro de corrupção política, centrado no Legislativo; por azar, desta vez respingando no PT, exclusivamente porque a oposição faz força nessa direção.

É simplismo demais. Alguém, algum amigo de verdade, já deveria ter feito a caridade de lhe informar que a crise, mesmo com as demissões recentes, mantém raízes fundas no próprio Palácio do Planalto. E ramificações nos esforços petistas de estabelecer maioria no Congresso. E não é situação em que um "juro que a gente não faz mais" resolve. Como também ajuda pouco mostrar que há pecadores em outras legendas.

Cabe ao maior nome do PT ser o general de suas tropas numa guerra em diferentes frentes — começando a trabalhar imediatamente, para obter frutos depois de passar o furacão no Congresso. Primeiro, a limpeza do sistema (isso exige tocar a reforma política: ninguém derrame lágrimas de desânimo antecipado, por favor); depois, a sanitização do seu próprio partido; finalmente, a montagem de uma política de alianças no Legislativo que funcione a favor da governabilidade, e cujo preço não seja vender a alma.

Com ou sem a Planaltour funcionando a todo o vapor, as CPIs continuarão seu curso e o presidente não se livrará dos respingos só por estar inaugurando tapumes em Tocantins ou cumeeiras no Piauí.

Insistindo: o pé na estrada não conduz à salvação. Desta vez, o vento ruge em Brasília — e balança o Palácio do Planalto. Talvez não pelo que lá aconteça nestes dias mas por tudo que ocorreu em passado recente, segundo provas exuberantes.

Enfim, a missão crucial do momento para o presidente é trabalho doméstico mesmo. Não parando de falar — mas falando do que for pertinente, necessário, e ao seu alcance. E com as pessoas certas. No rol das ações urgentes, nem viaduto nem hidrelétrica, muito menos volta comovida aos cenários da infância: a ponte que precisa ser reconstruída é aquela que aproxima o povo da classe política, e a energia necessária é a honesta costura de um relacionamento entre os poderes, em torno de prioridades realmente vitais.

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