Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, agosto 11, 2005

Lula e o impeachment Por Reinaldo Azevedo

PRIMEIRA LEITURA

Falta o quê? A confirmação do óbvio: Lula sempre soube de tudo. Viram só? Eu bem que avisei. Adverti o Lulão Confronto e Terror: "Cuidado com os idos de agosto". Mas não deram atenção ao perigo, não é? Como eu brinquei, não sou Calpúrnia, a mulher de César, nem tenho sonhos. Mas a política tem uma lógica. E era ela que me fazia antever Lula à beira do abismo. Duda Mendonça, entendo, foi para a CPI, num depoimento elogiadíssimo (elogios que considero descabidos e já direi por quê), e, quero crer, não tinha bem noção do que estava fazendo.

Se vocês olharem bem, Duda tentou confessar um crime fiscal e um crime de evasão de divisas, mas não teria como fazê-lo, e isto talvez lhe tenha escapado, sem comprometer a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva com estas mesmas faltas, além, obviamente, do caixa dois. Eu bem que tentei, na minha insignificância, salvar o mandato de Lula. Chamaram a minha tese de "golpe". Volto depois a ela. Vamos continuar com Duda.

A conclusão inescapável decorrente do depoimento de Duda é a seguinte: a lama cobriu o terno de Lula. Até agora, muitos tergiversaram, inclusive na oposição, mas chegou a hora de chamar as coisas pelo nome: existem, sim, motivos para abrir um processo de crime de responsabilidade contra o presidente. O impeachment deixou de ser uma hipótese remota. O impeachment passou a ser possível. Levados os fatos na letra da lei, o impeachment é, mais do que isso tudo, provável. Embora nem fosse desejável.

Entendo que Duda ainda está endossando uma farsa com uma história verossímil e com sua fala intimista e adocicada. A boa hipótese é que jamais tenha havido empréstimo coisa nenhuma. Os bancos teriam repassado dinheiro ao partido, recebendo em dólares lá fora, e a fonte pagadora, obviamente, era o propinoduto criado por esse grupo gigantesco que assaltou o Estado, as estatais, as autarquias e os fundos de pensão e que passou a usar o aparelho oficial para extorquir empresas privadas.

Na armação do dia, era para Duda confessar os seus crimes fiscais, pagando as respectivas multas, endossando os crimes eleitorais do PT, mas tentando preservar a campanha de Lula. E foi aí que escorregou. Ficou claro que, e ele o confessou, a campanha que conta mesmo é a do presidente. As demais a ela se agregam. Logo, ainda que Duda tenha tentado livrar a cara do presidente, comprometeu-o gravemente.

Momento delicado
Estamos vivendo um momento delicadíssimo. Se vocês me perguntarem o que seria de meu gosto pessoal, minha resposta é simples e já a dei aqui: que Lula bebesse o seu mandato até a última gota para que pudéssemos experimentar até o fim o ciclo petista, "dessublimando" essa fantasia. Mas também já escrevi, vocês se lembram, que acho difícil que isso venha a acontecer. Especialmente agora que Lula decidiu partir para a clivagem "povo" versus "elites", reunindo-se, ademais, extemporaneamente, com o "democrata" Hugo Chávez.

Entendam bem: não creio que uma eventual passagem de bastão para o vice, José Alencar, viesse a acarretar grandes problemas. Não acho, por exemplo, que ele botaria fogo na economia. O diabo, no entanto, é que a campanha de Lula e de Alencar era a mesma. Como ficamos? Formalmente, o que beneficiou um também beneficiou o outro, não é? Vamos entregar o país a Severino Cavalcanti (PP-PE), o terceiro na linha sucessória? Severino é do PP, um dos partidos que mais se beneficiaram do propinoduto. O quarto na linha de sucessão? É o presidente do Congresso e do senado, Renan Calheiros  (PMDB-AL), partido que não foi eleito para isso.

Um presidente, nestas circunstâncias, teria de contar, necessariamente, com o apoio de todos os partidos, adotando uma agenda mínima que evite que o país caminhe para o caos. Severino e Renan terão de entender. Ou terão de ser levados a entender: não dá para eles. Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal, quarto na linha sucessória, pode muito bem nos levar até 2006. Mas, para que Severino e Renan sejam convencidos a sair da fila, Jobim teria de assumir o compromisso de conduzir a nau sem intenções continuístas. E, portanto, diante da gravidade de sua responsabilidade, teria de pôr de lado ambições que me pareciam óbvias, no cenário anterior, de se candidatar à Presidência. Já escrevi sobre isso, sobre sua vocação para ser um Fortinbras. Fatias do PMDB apostavam nisso, a começar por sua seção paulista, liderada por Orestes Quércia.

  

Lula vai falar a nação nesta sexta. Vamos ver o que vai dizer. Quando falar, a nação já estará sabendo que sua campanha foi sustentada com caixa dois; quando falar, a revista Época já terá chegado às bancas com Valdemar Costa Neto dizendo que ele sabia do pagamento irregular a políticos; quando falar, já terá ficado claro que foi beneficiário, ao menos indireto, do maior esquema de corrupção jamais instalado no país.

Eu bem que tentei
Então, agora, volto ao caso da minha proposta. Eu bem que sugeri a Lula, faz dois meses, que viesse a público dizer que não era candidato à reeleição. Não que toda essa sujeira fosse ficar debaixo do tapete, mas certamente seria menor a crispação política e talvez até por generosidade se tentasse preservá-lo. Mas não. O PT optou por enlamear todo o sistema político, Lula caiu nos braços do povo, tentou chantagear a população com a sua popularidade, de que o jantar com Hugo Chávez é arremate.

Agora, e perdoem-me o clichê meio sujo, a vaca já foi para o brejo. O que a institucionalidade vai fazer? Tolerar um presidente que chegou ao poder sustentado em esbirros da mais escancarada ilegalidade? Agora, parece, caminhamos para uma reta bastante tumultuada. O presidente está desmoralizado, o vice corre o risco de ir junto, e os partidos da base de apoio já não conseguem nem mais defender o governo.

É um fim, sem dúvida, melancólico. Mas também à altura da mistificação criada pelo PT.

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