Entrevista:O Estado inteligente

sábado, agosto 13, 2005

Editorial de O Globo Compromissos




Embora tenha demorado a vir a público e enfrentar como deveria a crise política que ameaça o seu mandato, Luiz Inácio Lula da Silva, com o pronunciamento de ontem, atendeu ao mínimo do que se esperava dele nas atuais circunstâncias. Não acaba com a crise, mas ganha alguma margem para fazer o que precisa: governar.

Até ontem pela manhã, Lula perigosamente se entrincheirava numa defesa insustentável. A saída de José Dirceu do Palácio do Planalto e a queda da cúpula do PT em nenhum momento puderam servir de anteparo às suspeições em torno do papel efetivo do presidente no escândalo do mensalão e do caixa dois do partido. E assim, o que antes sequer era tratado a sério em conversas reservadas da oposição — a possibilidade de um pedido de impeachment de Lula — passou a ser mencionado abertamente no Congresso.

O cerco a um presidente que se recusava a admitir o avanço da crise em direção ao seu gabinete fechou-se definitivamente com o depoimento espontâneo prestado pelo publicitário Duda Mendonça à CPI dos Correios. Ali estava o principal responsável pelo marketing não apenas da campanha eleitoral do presidente, mas de várias outras estrelas petistas a governos estaduais e a assentos no Congresso.

Com essa autoridade, Duda, num depoimento que entrou para a história das CPIs, confirmou a existência do propinoduto montado por Marcos Valério e gerenciado por Delúbio Soares e Sílvio Pereira, e tornou a crise mais grave por desvendar a conexão externa do esquema.

Junto com a sócia Zilmar Fernandes, o publicitário provou com documentos que recebera dinheiro numa conta no paraíso fiscal das Bahamas, segundo ele aberta por sugestão do publicitário, lobista e financista do PT Marcos Valério. Que nega a assessoria, mas não a remessa do dinheiro.

A maldição que persegue o PT — a de que denúncias de Roberto Jefferson mais cedo ou mais tarde são confirmadas — abateu-se mais uma vez sobre o partido. Com o aparecimento desse braço, também clandestino, do esquema, ganhou algum teor de veracidade um diálogo relatado por Jefferson, mantido entre ele e José Dirceu, sobre atrasos em pagamentos prometidos ao PTB do deputado. Segundo Jefferson, Dirceu justificou o problema mencionando a prisão de doleiros feita pela Polícia Federal — "que é meio tucana".

As cenas de choro, no plenário da Câmara, de deputados petistas dariam um tom de dramaticidade ao cenário de agravamento definitivo da crise, já sob os pés do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Duda Mendonça ainda tentou proteger Lula, mas ficou inevitável admitir-se que pelo menos parte dos gastos da campanha de Lula pode ter sido bancada por dinheiro proveniente de remessas com escala em paraísos fiscais, recurso utilizado por muitas empresas e pessoas físicas de forma legal e legítima, mas também por lavanderias de quadrilhas financeiras.

Luiz Inácio Lula da Silva tinha mesmo de pedir desculpas ao povo brasileiro — agora falta o PT fazer o mesmo, como ele aconselhou. O presidente se declarou "indignado" e "traído". E sem nominar quem o traiu — embora possa deduzir-se estarem José Dirceu, Delúbio Soares e Sílvio Pereira em lugar de destaque entre os traidores — referiu-se às "práticas inaceitáveis" das quais, garantiu, nunca teve conhecimento. O pronunciamento do presidente foi adiado algumas horas para que ele e assessores lessem a entrevista do ex-presidente do PL Valdemar Costa Neto, concedida à revista "Época". Nela, Costa Neto, que acaba de renunciar para escapar da cassação, relata a barganha financeira com José Dirceu e Delúbio Soares para o PL aderir a Lula e indicar para vice José Alencar. Este, com o próprio Lula, segundo Valdemar, esperava o desfecho do leilão numa sala ao lado. As explicações de Lula, portanto, também respondem ao relato de Valdemar.

Luiz Inácio Lula da Silva precisa agora mudar de postura. Por coerência, não pode mais subir em palanque com discurso eleitoral de cunho demagógico e populista, para denunciar uma fantasiosa conspiração das elites. Pois ontem, ao reconhecer os graves erros cometidos pelo PT na campanha, e por gente de sua confiança já no período de governo, Luiz Inácio Lula da Silva implicitamente engavetou a tese absurda da conspiração.

Além de governar, protegendo a economia de qualquer risco, o presidente precisa também apressar as investigações por parte dos órgãos de governo e prestar todos os esclarecimentos necessários para elucidar a sua participação efetiva no escândalo. O discurso de ontem não concede outras alternativas ao presidente da República.

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