O depoimento do publicitário Duda Mendonça à CPI dos Correios já havia sido suficientemente explosivo, mas o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, jogou mais gasolina nas chamas sobre as quais arde o Planalto. Réu confesso no escândalo que convulsiona o país há mais de dois meses, o ex-deputado preferiu renunciar para não ser cassado. Vendo-se só no cadafalso, abriu o verbo e expôs as entranhas da máquina montada pelo PT para chegar ao poder. Escapou da punição, mas não da execração. Revelou o desvio de dinheiro para os partidos correndo por tentáculos, do alto à base da pirâmide política.
Essa fogueira ainda vai arder com a lista dos envolvidos tão longe de estar completa. Muito há o que apurar nas CPIs e na Comissão de Ética, pelo Ministério Público e pela Polícia Federal. Cabe à sociedade manter a vigilância sobre as investigações, porque da força dessas instituições emana a crença de que a liberdade não é um exercício de retórica, e o país se consolidou a ponto de superar mais esse trauma sem rupturas. O desencanto com um projeto político não pode contaminar a esperança que faz tantos brasileiros sonharem com um futuro melhor do que este presente.
Ainda assim, a visão do PT em meio à crise deixa um gosto amargo. Do modelo de renovação ética de 25 anos atrás, só restam cinzas. O partido transmutou-se na Medusa da ilegalidade, multiplicando braços envolvidos em atos ilícitos ao mesmo tempo em que hipnotizava quem poderia impedi-lo. Mas o efeito passou e, como o ser mitológico de inúmeras cabeças, também enfrenta a degola. Urge agora que a limpeza imediata e implacável leve a uma legenda redesenhada, mesmo a custo de algumas injustiças. O eleitor e a democracia brasileiros esperam e cobram isso.
Em seu tardio pronunciamento à nação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se declarou traído. Nisso está ao lado do povo. Não falou de ódio, não culpou as elites, mas justificou-se dizendo-se alheio às negociações que o levaram ao poder. Como se fosse possível acreditar que a experiência partidária não o tivesse credenciado a farejar no PL, no PP e no PTB, com raras e honrosas exceções, legendas de aluguel. Grupos que se abraçam ao poder sem compromisso outro que não o de atender a interesses pequenos ou a seus mandatários.
Como presidente, Lula frustrou quem desde o início vinha lhe dando o crédito que merecem os inocentes. Não nominou os traidores ou indicou os responsáveis, como se o reconhecimento pela omissão o isentasse da obrigação imposta pelo mandato e assumida sob juramento. Apostando na desinformação, entrou em um jogo perigoso. Repetindo-se, reforçou a possibilidade de serem ouvidos com mais atenção aqueles que começaram a falar ou a estudar a eventualidade de um processo de impeachment.
Ainda que tenha cedido à enorme pressão da sociedade por esclarecimentos, o governo vinha usando uma tática errada. O presidente está enganado se imagina que um discurso onde afaga a burguesia e se agarra às camadas mais pobres, sem revelar quem o enganou, fará com que se passe a crer como verdade num dia aquilo que os fatos desmentem na manhã seguinte. Desde o início da crise, esse tem sido o comportamento padrão. Lula apostou a credibilidade na própria trajetória. Desculpas não vão recuperar seu capital pessoal.
Sinais não faltam. A mais recente pesquisa de opinião, divulgada pelo Instituto Datafolha, mostra que o chão de Lula treme e o presidente não pode se iludir. Se a disputa pela reeleição fosse hoje, pela primeira vez não só perderia para José Serra (PSDB), como veria minguar o apoio entre os mais pobres e menos escolarizados. Justamente a base sobre a qual o PT e o próprio presidente fincaram a bandeira da estrela. O símbolo que coloriu as ruas de vermelho desapareceu dos carros, janelas, camisas e corações dos militantes.
O agravamento da crise política leva à possibilidade de a economia entrar em zona de risco, ainda que, segundo o mesmo Datafolha, 63% dos entrevistados ainda não endossam a abertura do processo de afastamento do presidente. Este é o recado mais eloqüente para a classe política: está na hora de mostrar maturidade. Suposições e indícios não são verdades.
O que se sabe até agora é grave o suficiente para deixar o país atento, sobressaltado, em vigília. Mas não acuado. É preciso que a sociedade saia do estado de perplexidade e participe diretamente na busca por saídas. Há espaço e maturidade para isso, mesmo sendo um caminho longo e difícil. Cobrar punições efetivas e mais ética no comportamento político é apenas o princípio.
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