Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, agosto 12, 2005

Editorial de O Estado de S Paulo Despudor sem disfarce


Quaisquer que venham a ser os desdobramentos dos escândalos da corrupção, um fato não poderá deixar de ocorrer, sob pena de aviltamento da instituição do Congresso Nacional. É a cassação do mandato do deputado Paulo Pimenta, do PT gaúcho, vice-presidente da CPI do Mensalão (cargo ao qual renunciou ontem). Com uma desfaçatez que supera tudo o que o seu partido andou fazendo desde a eclosão da crise - e, segundo fontes do próprio PT, a mando do ainda homem forte da legenda, o ex-ministro José Dirceu -, Pimenta tentou juntar à papelada da CPI um documento forjado: uma lista com cerca de 90 nomes de políticos mineiros, do PSDB, PFL, PTB e outras agremiações, que teriam recebido dinheiro de Marcos Valério para o caixa 2 da campanha de 1998. Além de tentar impingir essa tosca fabricação, o petista mentiu infantilmente ao dizer que a relação - com o timbre do Supremo Tribunal Federal na capa - lhe havia sido repassada por um dos advogados de Valério. Só que Pimenta foi flagrado entrando no carro do empresário, com ele, na madrugada de quarta-feira, depois do seu depoimento à mesma CPI. A contrafação tem em comum com o infame "dossiê Cayman" contra o então presidente Fernando Henrique e os principais líderes tucanos o fato de ter sido oferecida a órgãos de imprensa; nenhum o aceitou. A baixeza da manobra diz tudo da tropa de choque desse partido a caminho não da refundação, como quer o seu presidente Tarso Genro, mas do total afundamento.

Talvez mais chocante que o ato delituoso de um membro da cúpula de um órgão colegiado do Congresso é a constatação, decorrente dele, mas não só, de que o PT perdeu de vez o que ainda pudesse conservar de pudor e respeito pela inteligência alheia: como que possuído por irremediável compulsão, mente, engana e acaba se enredando em contradições de um primarismo atroz. Veja-se o vaivém de alegações sobre a origem e a quitação de um débito de R$ 29.432,26, contraído em 2001 pelo presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, e alegadamente pago pelo presidente do Sebrae, o sindicalista Paulo Okamotto, mediante depósitos em dinheiro numa conta do partido. Espantosamente, ele diz não ter prova dos pagamentos.

Querem que se acredite que o partido lançou por engano como empréstimo gastos com viagens de Lula, naquele ano, que ele se recusou a pagar por achar que eram da alçada da agremiação. Somente três semanas depois de o caso vir a público e chamar a atenção da CPI dos Correios, e uma semana depois de acompanhar o presidente a Garanhuns, Okamotto emergiu como o pagador da dívida - embora também ele não reconheça que a dívida é de Lula. Suspeita-se, na ponta inicial, que a sigla fez uso indevido de recursos do Fundo Partidário, ou seja, de dinheiro público; na ponta final, que o dinheiro do reembolso veio de Marcos Valério. Perguntado sobre isso na CPI, o ex-tesoureiro Delúbio Soares não respondeu.

O mesmo Lula que fala pelos cotovelos, se recusa a dizer uma palavra a respeito e garante que prefere "perder voto a perder a vergonha", acaba de ignorar o decoro da função de chefe de governo. Na visita a Palmas, no Tocantins, anteontem, ele não apenas tornou a se comportar acintosamente como um candidato em campanha, mas foi a estrela de uma festa eleitoral, com todos os pertences tradicionais: camisetas com a inscrição "100% Lula" foram confeccionadas, faixas dependuradas, ponto facultativo decretado, ônibus mobilizados para trazer o povo dos bairros, lanches e refrigerantes distribuídos à farta. Esquecida a faixa presidencial, Lula foi ainda um palanqueiro à moda dos grotões.

Enquanto isso, sem comando, desnorteado e com a sua base parlamentar aos cacos, o governo não conseguiu impedir, na votação da MP do salário mínimo de R$ 300, que o Senado aprovasse uma emenda vingativa do ex-lulista Antonio Carlos Magalhães, elevando o piso para R$ 384,29. Votaram contra o Planalto dois senadores da base aliada, ambos do PSB, e cinco membros do tão cortejado PMDB. Dois petistas se abstiveram. Na prática, isso não deve dar em nada. Mesmo que a Câmara ratifique a decisão do Senado, é certo que Lula vetará o aumento que oneraria o Tesouro em R$ 12 bilhões ao ano, baixando em seguida nova MP sobre o assunto. Mas politicamente a derrota foi uma desmoralização adicional para um presidente que perdeu por completo, no mínimo, a noção de suas responsabilidades.


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